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17/09/2024

Uma manhã grande

Comecei a manhã com a minha mãe indo buscar uma simples cadeira de televisão de palhinha, daquelas baixas de braços confortáveis, a casa do marceneiro. Estava bonita, com a palhinha mais escurecida e a estrutura sólida e bem tratada. Ao observar o artesão, com aquele ar e tom de conversa pausado de quem não deixa escapar pormenores e tem uma vida inteira para cada peça, por pouco valor que a dita possua, lembrei-me da graça com que a minha avó apelidava o Sr. Bernardino, marceneiro que tratava as muitas cadeiras e móveis velhos e escaqueirados de Valinhas: o meu herdeiro. Lembro-me de o ver trabalhar, da tábua e da plaina, do serrim, das lixas, das colas e sobretudo da delicadeza e paciência infinda com que lidava a arte. É outro mundo. Ao entrar no carro comentei apenas que não deve ser fácil a convivência diária com pessoas com estas características, por mais as admire. Mas agora caí em mim e lembrei-me que o Nuno em adolescente no Brasil esteve um ano numa marcenaria a aprender a arte, tal como tirou um curso de electrónica por correspondência e se dedicava ao aeromodelismo. Enfim, um coca-bichinhos. Amancebei com um coca-bichinhos e nem é tão difícil a convivência com um homem minucioso.


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Seguimos para o GaiaShopping no intuito de comprar um vestido. Entrada directa na Natura, et voilà: não um, mas três de uma assentada. E tal e coisa aproveitar a promoção (sei, engodo) do Dia de Mãe: compre dois, leve o terceiro de graça. O espantoso é que há décadas uso quase em permanência calças, sendo raro vestir saias e vestidos. Marcas de uma meninice com fases de vários complexos. Nada de surpreendente num tempo e mundo onde se valoriza excessivamente a imagem, a magreza, os estereótipos e o diabo a quatro. Mas não há como a vida para nos dar um banho de realismo: ter engordado muito, chegando a pesar durante quatro anos mais de cem quilos, deu-me uma perspectiva diferente e ensinou-me a valorizar depois de perdidos quarenta quilos a felicidade de estar bem comigo mesma, ainda que com um peso que arruinaria a minha auto-estima há trinta anos, como a da maioria das mulheres. A idade talvez ajude, se bem que haja quem aos setenta anos continue com as fixações na magreza de meninas de vinte. Quão longe me sinto dessas manias hoje. Tenho outras: fiquei a pensar que durante esta Primavera-Verão vou usar collants já que não tenho vinte anos e vestidos sem meias me ficariam francamente mal. Não sei se é moda ou não (até sei, mas adiante), mas assim farei, tal como vesti de modo descontraído anos a fio em espaços onde quase todos primavam por envergar trajes mais formais. Não faço questão no desalinho, é-me natural. O que me custa é ir contra aquilo que me parece bem, ainda que pareça mal à maioria.


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Ontem fizemos bolo de mármore. Digo no plural porque o Nuno ficou com a parte mais chata e trabalhosa, que é lavar as tralhas e segurar na batedeira tempos infindos - a falta de paciência que possuo para esse tipo de tarefas é a prova provada de um dos meus múltiplos defeitos. Por mim atirava tudo para dentro da taça, soprava e o bolo aparecia feito e bem feito. Tal como a vida: soprava e seria talentosa e feliz. É uma valente seca não ser assim. Mania de contrariarem a menina mimada. Resultado: fiz o bolo a olhómetro e, naturalmente, abateu e o chocolate foi para o fundo (claro que não há fotografias a provar o fiasco). Mas estava bom. Valha-nos isso. Tal como a vida, até nem está má. E é assim esta vida de batoteira.


Que de mais premente ainda tenho para contar? Decidi por uns tempos (espero não desdecidir) não iniciar mais nada: não há mais croquis de futuras narrativas, nem mudanças de hábitos, nem mais estratégias da treta, até pôr em prática e concluir importantes planos que havia determinado antes e vão sendo sempre procrastinados (ui, usei esta palavra; e mais adiante vou falar em criatividade; o mundo deve estar a ruir).


Os últimos dois anos foram desafiantes e de mudança. Os gastos muito acima do que me habituei na década que os precedeu. Vivi muito frugalmente durante bons anos e um pequeno desafogo financeiro, além da vontade de melhor qualidade de vida independente do aspecto económico, fez com que introduzisse várias alterações no meu quotidiano (além das surpresas que se impuserem sem contributo da minha vontade). Viver num país onde os salários de muitos são miseráveis faz-nos valorizar qualquer pequeníssimo incremento. Há pouco menos de dois anos comecei a trabalhar para duas empresas em simultâneo, senti-me francamente bem, ao fim de tantos anos a fazer o mesmo, com a introdução de novas tarefas (não lhes chamo competências, nem uso o jargão da moda, por não ter paciência para eles). Já criei rotinas novamente e, neste momento, tudo corre sereno. A ver vamos por quanto tempo, já que nada é seguro: no Outono passado houve a possibilidade ficar no desemprego. Há ano e meio comecei um tratamento com alinhadores invisíveis dos dentes já que nos últimos anos a minha boca tinha decidido desalinhar dramaticamente, ao ponto de me envergonhar. Há ano e meio tenho consultas mensais na bem-disposta dentista que me acompanha. Há quase dois anos comecei a fazer sessões de depilação a laser, parando o último ano. Neste momento, ando nos retoques. Há menos de ano e meio fiz a cirurgia para colocar o bypass gástrico, com perda de quarenta quilos. Há um ano a empresa para a qual trabalho sofreu ataque informático daquela sinistra máfia de hackers russos que atacou tantas entidades pelo mundo fora, estando semanas (meses) a trabalhar em condições difíceis e sujeita a um stress medonho. Nessa altura estive internada no hospital novamente para tratamento da infecção da vesícula e sua extracção. Danada por não poder continuar a ajudar a tirar-nos do sufoco. Nos últimos três anos pagamos uma batelada de dinheiro para as obras exteriores do prédio onde vivo e o raio das obras nunca mais começam (ah e tal, as empresas de construção não têm mãos a medir com tanto trabalho). Do lado das alegrias, voltei a fazer uns dias de praia no Algarve, que era um desejo nos últimos anos, sempre adiado não só pela questão financeira, mas também pela logística (o facto de não conduzir e o Nuno ter deixado de o poder fazer complica a vida; sim, sei, devia ter tirado a carta). No início do Outono passado fui a Amesterdão, como me apetecia há muito. E esta manhã fui à agência de viagens na intenção de comprar bilhetes para a Turquia. Só é que (como dizia um professor alemão), só é que fiquei de pensar mais um bocadinho por causa dos cifrões. É possível que acabe a decidir não ir, pondo um ponto final na vaga extraordinária de gastos com esta viagem, que num país de cidadãos com rendimentos normais não seria excessiva mas vida vulgar. Todavia a mim, portuguesa remediada que procura não recorrer ao crédito, soa a luxo. Digo remediada, consciente que é tudo uma questão de perspectiva: muitos compatriotas nas mesmíssimas condições, isto é, com vencimento abaixo do salário médio português, dir-se-iam pobres – táctica muito usada por gente videirinha, fazer-se de pobrezinha – e outros dariam a imagem de gente abonada, engrenando em difíceis vidas de aparência.


Mais testemunho é difícil. À mercê de julgamento…


Já que o post está comprido, estendo um pouco mais só para acrescentar que o telemóvel anda a dizer que sou uma rapariga criativa e fora da caixa. O que me havia de faltar ao chegar aos cinquenta: descobrir nos testes de personalidade online que sou sensível e criativa. Podiam ter avisado antes, não? Agora já não sei se vou a tempo de criar obra. Sorrindo. 


Adenda. Voltei à Natura para trocar dois vestidos tamanho L por M.