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30/09/2024

O que é esta segunda-feira?

O verbo eleito é podar.


Diz o dicionário tratar-se de cortar ou desbastar o inútil. Quem viveu no meio de árvores e vinhas ou quem por elas tem gosto facilmente compreende a dor associada ao método - mimetizado da Natureza - de favorecer o crescimento e fortalecimento das plantas.


Transmute-se a ideia para a educação do ser humano desde a infância. É custoso nos dias de hoje, em que vinga certa visão de liberdade desprovida da correlativa responsabilidade, compreender a ideia de sem sofrimento, sem escolhas e desbaste do inútil ser difícil educar um homem ou mulher completo. Consciente de si e do seu papel e real valor no mundo – nem mais nem menos do que é. Por exemplo, nem transbordando auto-estima e arrogância tão incentivadas pelas modas actuais, nem tolhido pelo dispensável sentimento de incapacidade de fazer valer a sua palavra e vontade.


Não reajo bem a quem despreza e ridiculariza os consensos ou encontros de visões díspares como se fossem prova de moleza de carácter. A virtude está amiúde no meio-termo. Nem aprecio quem fala e escreve em ponto final, cheio de si e das suas certezas. Desde o erudito a falar de cátedra ao simplório a tentar impôr o que ouviu dizer. Incomoda-me quem por incapacidade de chegar ao outro (não de forma leviana e artificial para inglês ver), por desconhecimento do mundo do outro, se refugia na soberba das verdadizitas blindadas expressas em palavras ou imagens manipuladas através das quais insulta ou despreza. O estímulo a ser afirmativo a toda a força, que vem estando na moda nas últimas décadas, repito, o estímulo a ser afirmativo custe o que custar, tendo-se democratizado, implica incapacidade de aprender e reconhecer sem razões oportunistas o valor alheio e contribui para um mundo de mera aparência de conhecimento. Como se o sarcasmo ou a presunção de cientificidade ou a convicção conferissem verdade às resolutas afirmações produzidas.  Estes são traços de vidas de moldura, boas apenas para fazer figura.


Se é pateta catalogar a timidez como defeito e explicá-la com lugares-comuns como a falta de amor  e compreensão – fruto destas psicologias lifestyle que governam a mentalidade dominante -, não é menos verdade que o incentivo à afirmação individual deve acontecer desde cedo. O que não invalida que se ponha travão ao desembestar de vontade inconsequente. Só assim um ser humano adulto compreenderá o que é o conflito de interesses e terá consciência do peso relativo dos interesses em jogo, próprios e alheios, em vez de produzir apreciações tontas e agir de modo desprezível e egoísta sem disso ter consciência. Não é de protótipos de palavreado inútil ou de "paradigmas" de felicidade nem de criar máquinas bem-sucedidas que falo, mas de ajudar a educar homens e mulheres dignos.


Para lá da sorte - de também ser fruto das circunstâncias e da arbitrariedade da Natureza - o carácter forma-se da poda feita na educação.


 


Adenda. Duas notas extras.



  • Este postal não trata de poda estética.

  • Um corte mal feito na poda pode implicar a morte da planta. 

Moralidades à quinta-feira

Começo por explicar que hoje é “redon” de moralismos - já não me chega assumir este pendor tão fora de moda nos círculos da intelligentsia. Qualquer defesa de correcção é apontada como puritanismo ou como inocência de tonta pouco preparada com a mania que é boazinha, isto é, estúpida. Assim é visto o mundo pelos iluminados da intelectualidade dominante. Há dias escrevi o que vem a seguir e julguei que soava a ressabiamento requentado, pelo que resolvi não publicar. Sucede que hoje a preguiça supera o critério do razoável e como não tenho vontade de trabalhar num post novo, vou aproveitar os restos e introduzir correcções que ficarão a olho nu, com a canalização à mostra.


Depois de redigido esse post acrescentei: ainda incipiente. Juntar à eterna questão da ausência de critério e mérito as causas concretas que valem a pena referir e não são ouvidas - falar da mudez da massa silenciada. E digo agora: ainda não é hoje que o faço (refaço, aliás), preciso desemperrar a mioleira. Noutro dia virá.


Então começava o tal textinho por isto: temendo estragar um pouco o que escrevi antes volto à carga com nuances. E faço a pergunta não ao vento que passa, mas ao bafio parado.


Quantas vezes esticaste as asas e cortaram-te as penas? Quantas vezes alongas as asas e arrancam-te as penas?


São dois vícios. O teu de acreditar num país onde não se despreze o verdadeiro esforço e valor – e não é do teu esforço e valor que estás a falar, neste momento recordas outras pessoas com quem te cruzaste ao longo da vida -, e o vício deles de desmerecer quem não pertence nem ambiciona aceder às elites fajutas e seus múltiplos espelhos disseminados pela sociedade. Seja esse desconsiderar bem-intencionado, por condescendência com a tua ingenuidade e por medo da tua queda no confronto com os podres instituídos. Seja presunção estúpida resultante de pura burrice. Aqui não há como fugir ao insulto: para lá da generalidade de gente que vai tratando da sua vida o melhor que sabe um pouco indiferente às teias de podridão que nos cercam, lidas com asnos que se julgam o supra-sumo da sapiência. Dos que sempre se dão a si próprios e aos que lhes dão a ganhar como exemplos de vida a seguir. Dos que aconselham a solução de construção civil ou a dica de investimento financeiro ou leitura quando é visível que não compreendem peva de materiais de construção ou de finanças ou do que lêem. Dos que hierarquizam o mundo pela novidade da fachada ou pela última vaga de sound bites da consultoria financeira ou pelas referências de matilha pseudo-intelectual por se imaginarem em cimeiros patamares de credibilidade, atingidos por mero efeito do uso de lugares-comuns trocados em meios profissionais e sociais viciados, nos quais se troca a mestria pelo compadrio. Escondidos atrás de ridículas tabuletas que anunciam de modo absurdo, tal é o empolamento, o trabalho árduo, rigor, competência e mérito. No caso desta gente floreados, meras palavras vazias de substância, que aprenderam a empregar para ludibriar incautos. “Fulaninho tal, o melhor lá do sítio” – ainda que uma perfeita nulidade, aprendeste logo na adolescência. O que interessava era (e é) a forma como era (e é) vendido pela tribo e a força e influência (ou ascendente) da tribo na sociedade, sem qualquer critério de real mérito. Exímios em produzir ridículos textinhos laudatórios a simular biografias realistas. Exímios em produzir textinhos de crítica inconsequente à incompetência, à falta de rasgo, à ignorância dos portugueses (ou quaisquer outras pechas que se lembrem, as quais se esquecem invariavelmente de reconhecer em si próprios ou nos amigos que interessa cultivar). O que conta é repetir à exaustão que fulaninho tal é muito bom senão o melhor, se o elogio convier por contribuir para o aumento da audiência do bajulador e sobretudo se puder beneficiar dos favores do enaltecido ou dos privilégios do seu clã. O que conta é também desprezar tudo quanto de evidente valor exista se puser em causa os alicerces das tais hierarquias de podridão criadas no seio do oportunismo. E insistir sempre neste registo até convencer – o que é muito fácil neste país, aliás, como noutros, basta criar intriga que gere audiência, pagar ou conceder vantagens – os detentores dos megafones dos meios de divulgação a promover os eleitos por esta elite fajuta de protagonistas e aspirantes a cargos relevantes na sociedade e no Estado. Realidade replicada nos múltiplos pequenos espelhos por toda comunidade física e virtual.


Não ignoro que todos temos um preço e que todos, em maior ou menor escala, agimos de modo oportunista. Mas convenhamos que há escalas e que havendo presunção e desonestidade há quem viva de aparências e por isso mesmo não mereça crédito nem respeito, se bem que seja quem mais os costume reivindicar para si e para a sua tribo.


E bem podem guardar a condescendência e as injurias disfarçadas em inocentes conselhos. E bem podem guardar as ensaboadelas aos atrevidos, a essa gente de topete que ousa ver a realidade tal qual ela se apresenta. Gente digna diz o que tem a dizer de forma clara e à luz do dia, é agradecida e justa.


Admito que estou farta de escrever este tipo de críticas. Sinto-me chata e desacompanhada, mas insisto por a isso ser impelida pela realidade. Não é agradável ficar com o odioso, porém alguém tem de o assumir. É possível que um dia desista e faça de conta que não veja, como dizem ser mais sensato.

Curiosidades

É difícil encontrar no arquivo dos jornais, redes sociais e blogues as referências à inveja dos portugueses a propósito de António Mexia, ex-ceo da EDP, essa vítima da mesquinharia dos compatriotas.


É possível encontrar críticas ao gestor, mas bajulações não. Desapareceram no éter.


Às tantas não houve declarações de apoio nos jornais, redes sociais e blogues a essa grande figura de alta gestão tão premiada pelo excelente desempenho nas suas funções. A memória está sempre a atraiçoar-me, caramba. Tenho de começar a tomar o memofante selectivo dos maçons, opus dei e outras seitas que tais, caso contrário não me safo nesta selva.


Não, o compadrio, a troca de favores e a bajulação de trafulhas no espaço público nacional é puro delírio da memória de gente estranha e com mau-feitio. Gente maluca, pois claro.

Uma noite esplêndida

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Eis que regresso a casa. Estive no HotFive Jazz&Blues Club três horas e meia. Das quais duas e meia, com pequeno intervalo, a deliciar-me com música ao vivo. O concerto de Pedro Neves ao piano, João P. Rosado no contrabaixo e Miguel Sampaio na bateria. Seguido de Jam Session.


 


 


Não vou nem sei falar da mestria dos músicos em causa. Apenas digo que foi com enorme gozo que senti a entrega, cumplicidade e alegria entre os três músicos. Maravilha de ritmos e harmonias que ora se encontram ora se desencontram numa dança que nos acerta não só o cérebro como corpo, como só no jazz sabe fazer. No palco estavam a tirar enorme partido da execução divertindo-se na descontracção natural que é tão comum nos clubes de jazz. Foi um regresso a estes ambientes e não poderia ter sido mais feliz. O músico na sala que integrou a Jam Session era um rapazinho novo, acompanhado pelos pais que só os pode ter orgulhado, já que entrosou ao melhor nível.


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Não sei nada de música, mas sou a tal que continua a vibrar como uma criança ao olhar pela janela do avião ao ver a asa a cortar as nuvens, a chorar quando fico frente a frente com algumas telas de Van Gogh e a quem basta uma noite destas para estar no céu. Foi muito bom.


Por fim e não querendo estragar as palavras com nota negativa, não posso deixar de ficar com pena que num tempo em que se vendem com tanto sucesso miadelas e caixas de som automático a fazer as vezes de música, não posso deixar de ficar com pena, repito, que músicos desta qualidade tenham apenas cinco mesas de assistência – ao que parece Domingo é o dia mais parado, mas ainda assim é triste. Claro que falo também contra mim já que há dois anos dizia lá querer ir e só agora me resolvi. Éramos a única mesa de portugueses na sala.


Aconselho vivamente um programa de jazz no Porto. No HotFive ou noutro clube da cidade.


 


Boa noite. Boa semana.


(é possível que não haja O que é esta segunda-feira?, acho que estou perdoada.)

Intimidades

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Depois da viagem a tarefa desta tarde: arrumação do guarda-fatos. Quatro gavetas arrumadas. Libertados três sacos de roupa. Dois para o lixo, um para dar. O resto do guarda-fatos fica para a semana já que fiquei exausta. Dormi uma hora. Jantei e deixei excepcionalmente a televisão ligada numa pimpineira. No + 1 de costas para a sala e a televisão escrevo este post, um dos últimos registos de trivialidades narcisas das Comezinhas que tanto aborrecem os cheios de substância e sabedoria. Apreciadores da discrição, fingem eles, pejados de exibicionismo encapotado. Como se não fizessem pouco mais do que chamar a atenção para o umbigo inchado por portas travessas e tratar da sua vida videirinha.


Antes conversa de mulher-a-dias, antes a vaidade simples nas gavetas arrumadas - há bastante mais filosofia nestas miudezas do que resmas de maledicência e intriga política para promoção disfarçada das figuras que nos desgovernarão e das que terão acesso aos megafones do negócio da opinião e entretenimento para ensaboar a cabeça das massas e dos muitos ansiosos(as) por figurar e convergir por osmose no friso fulgurante da actualidade política e cultural - basta esticar os pezitos e umas referências elogiosas aos nomes que interessam (o abracadabra) e logo se abrem as portas do éden ambicionado. Vivemos num país onde se premeia a bajulação em vez de a desprezar. Arrumações de gavetas têm também bastante mais filosofia do que o negócio das tretas intelectalóides a soar a panelinha e crítica de sociedade da revista Caras. Apesar de considerações como esta originarem o escárnio e riso alarve de javardos armados em gente civilizada. Verniz de fraca qualidade, o da nossa elite fajuta que continuará a reinar impante.


Agora, depois de ter sido desagradável quanto baste para dar razão aos que cobiçam e não assumindo desdenham, vou escolher os postais a recapitular nos próximos dois dias. Não falta muito para terminar os dois meses e picos de reposição de alguns textos dos anos anteriores. Depois reinará a paz (podre) para descanso e alegria de muitos.


Em seguida descansarei já que amanhã é dia de trabalho. Boa noite.

29/09/2024

Balanço do dia

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Sei, sempre as mesmas teclas. Sempre as mesmas palavras e paisagens. Sei, não há especiais novidades nem frenesins. Parece monótono. Parece. Esteve um dia fabuloso de praia. Nem quente, nem frio. Ameno, suave. Uma brisa que parecia calibrada a pedido. Claro, sendo cá no Norte, e atenta a temperatura da água e as correntes, entrar no mar para nadar é para esquecer. Mas ainda deu para extenuar com demoradas braçadas ao fim do dia na piscina.


 


 


Não é difícil estar bem. Se as férias se resumissem a este dia, já teriam valido a pena.


Sei, dá ideia de excesso de optimismo, parece facilidade e leveza a mais. Não tenho o que lhe fazer. Não tenciono agradar a quem só vê o lado estragado da vida nem a quem não gosta do contentamento alheio - já para não falar do desamor à afirmação e ao vigor se forem femininos e não estiverem enquadrados nos lugares-comuns da auto-estima e do "empoderamento" ou, claro, das capelinhas.


Como sempre friso: carpir mágoas e exibir grandes talentos e esforços para ultrapassar montanhas e desertos de dificuldades e invocar grandes méritos são luxos de gente privilegiada.


Um dia como este sobrepõe-se às tristezas e ao mau-feitio. Nestes dias gosto de lembrar num ápice os piores momentos da vida, mas sem me deixar chafurdar neles, só para ter oportunidade de dizer: cá estou, vinguei galgando sortes e azares; e estas são minhas glórias: as brisas amenas e a alegria de as sentir. Não quero exibir grandes predicados, coragem e esforço. Afinal as brisas sopram da Natureza.


Amanhã talvez volte o mau-feitio, mas este dia ninguém mo tira. E agora vou reler um romance chato mas pequenino para não cansar a mioleira. Qual? É o que menos interessa. Talvez adormeça a meio. Cansada de um dia bom.

O que é esta segunda-feira?

Dei por mim a perguntar o que é a perspicácia. E congeminei duas ou três ideias – como é costume já esqueci, mas lembrarei umas linhas mais adiante. Antes vou abrir o dicionário para ler a definição. Volto já. [Poucos minutos depois] Já fui e corrijo a frase anterior: antes vou abrir o dicionário e o Google para procurar sinónimos, definição e significado. Já li. Só este pequeno exercício de uma vida, antigamente em dicionários físicos e enciclopédias, agora nas páginas da Internet, dá azo a um mundo de extrapolações – e esta última palavra é pelo seu significado a palavra exacta que pretendo usar.


Mas vou ignorar o que li agora – é-me suficiente falar do exercício simples e lúdico que me acompanha desde as madrugadas da meninice. Passo ao que me trouxe inicialmente a este texto. Comentei hoje muito mais cedo que não era perspicaz. É uma afirmação como outra qualquer. Logo de seguida comecei a correr mentalmente conhecidos e desconhecidos com quem me cruzo ou cruzei para começar por considerar que a perspicácia é uma qualidade rara – tive dificuldade em reconhecê-la numa pessoa que fosse. O passo seguinte foi colocar a hipótese de estar a ser demasiado exigente. E logo depois usei o método comparativo. Aí sim comecei a descobrir gente perspicaz. Ou seja, só quando comparo, compreendo a diferença e com ela a qualidade. Logo daqui se percebe quão balelas podem ser aquelas tretas de não devermos comparar. Como? Se tudo no mundo é medida? Como? Se toda a matéria do Universo resulta da diferença de medida?


Recordei três pessoas que ouvi muitas vezes. Duas são menos perspicazes, uma é mais perspicaz. Tentei compreender a razão do meu juízo e cheguei à tecla de sempre.


A primeira não é perspicaz por apesar de instruída e culta substituir a elasticidade e abertura mental por aquilo que já aqui muitas vezes chamei: gavetas cerebrais arrumadinhas. Pessoas assim definem na sua mioleira categorias e etiquetas para tudo e assim que consomem ou assimilam qualquer item novo - pessoa, objecto, facto ou ideia – arrumam na gaveta pré-definida sem questionamento (só gatilhos). Muitos conservadores, nem todos, comportam-se desta forma. O maior defeito aqui está na desconsideração pelo sentido ou justiça dos julgamentos quando se opina ou decide. Apesar de parecer resolver problemas com maior facilidade, está apenas a catalogá-los e não a compreendê-los, não a ser perspicaz, mas ainda que a qualidade do seu conhecimento e arte seja duvidosa a imagem que passa é a de pessoa confiável e, por isso, respeitável aos olhos de quem tem poder.


A segunda não tendo o background da primeira por uma questão de educação é ainda assim instruída em vias de se transformar numa pessoa culta. E tem a vantagem sobre a primeira de ser muito mais rápida de raciocínio – o que daria a ideia inicial de perspicácia. Sucede que é muito permeável às marés do tempo cavalgando as suas ondas com sucesso. Caracteriza-a a vontade de agradar à maioria e o êxito nessa empreitada, ainda que a custo de ódios residuais. Apesar da aparência aqui nem se coloca a questão do sentido ou justiça por essas preocupações estarem arredadas do espírito do sujeito. Neste caso o poder respeita-a por temor. A esperteza e capacidade de influência e não a perspicácia impõem respeito.


A terceira pessoa será a que, apesar de instruída, menos aparenta ser culta. A que comete erros que os conservadores e os espertos, em regra, não cometem. Apesar disso é a mais preparada por ter o espírito mais aberto e capacidades lógicas e analíticas que nenhuma das anteriores revela, por ter avidez de conhecimento e por se questionar a cada momento. Está em processo evolutivo. Nem sempre é justa nas avaliações, porém estas  quase sempre têm um sentido que a primeira e segunda não encontram nem entendem quando explicado: uma porque cristalizou no tempo e nas certezas dos catálogos, outra por não ver correspondência com o mais atraente ou fácil.


Bem sei que os dicionários fazem corresponder esperteza e perspicácia como sinónimos. A mim aparecem-me em planos distintos, valorizando mais a segunda.


Por falar em sinónimos e em dicionários, há umas semanas ando para fazer uma referência aos dicionários online. Não tenho paciência para pedantismos nem sequer sou muito criteriosa nesta matéria. Uso por sistema a Infopédia e não uso o Priberam, apesar de há anos tropeçar constantemente nele. Até me custa compreender que o país de origem seja Portugal. Hoje fui consultar a Wikipédia e vi que o Priberam tem dois tipos de consulta: português europeu e português do Brasil. Talvez explique o meu susto. É aterrador ver o sentido que se dá a alguns vocábulos. Não se admirem da confusão reinante online no mundo da escrita em português. É bem possível que aqui esteja uma das causas para cada vez mais me deparar com “conteúdos” lifestyle e postais em blogues nos quais se usa palavras absurdas no contexto: de sentido e significado completamente desfasado da intenção do autor. Bem sei que é realidade antiga no mundo físico com raiz no desconhecimento do sentido das palavras e  vontade de dar ar evoluído, simplesmente, migrou para o mundo digital.


Lembro-me de há dez anos (mais coisa menos coisa) alguém me ter dito que usava o Priberam. Fiquei preocupada tanto mais que a pessoa em causa era professora, explicadora e fez anos a fio trabalhos de tradução. Posso imaginar que esteja muito longe de ser caso único.

A iniciativa

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Ainda em Lisboa a regressar ao Porto, chegámos a Santa Apolónia e uma chusma de gente em trânsito na plataforma à espera do comboio que está parado a aguardar que chegue alguém a tomar a iniciativa de rodar o manipulo de uma das portas e entrar. Rodei, empurrei a porta, entrámos e atrás de nós os que aguardavam com as suas malas, quase todos estrangeiros.


Posso levar muito na tromba da vida. Posso ser querida e estimada por muito poucos, desdenhada por muitos e ferida por alguns, mas hoje não estou em maré de falsas modéstias: abrir portas, romper, tomar a iniciativa nunca rendeu especiais simpatias.


Está um dia lindo e cada vez me aproximo mais de uma vida semi-nova. Há dias em que dói, porém o que  mais conta são os dias bons. E estão a aproximar-se. O que é nocivo ficará para trás.


O que tenciono fazer quando chegar a casa? Arrumar gavetas.


Bom dia. Bom Domingo.

Bom Domingo

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*


O mais importante: a tulipa de vidro trazida da Marinha Grande. Bem portuguesa. Aí está o coração. Lá dentro uma vela que nunca acendo. Tenho grandes receios do fogo dentro de casa. Procuro não acender velas e fico contente com a ideia de nem sequer ter fogão ou esquentador a gás. 


O Buda, que mais parece uma Buda novinha, está na posição que mais gosto. Não aprecio a maior parte das imagens de Buda e sei bem que nas últimas décadas serviram de "decoração" a muitas casas portuguesas modestas. Também se democratizaram. Se nos anos 60 e 70 eram uma espécie de culto de um nicho de artistas e viajantes - fruto do turismo da busca pela verdade filosófica -, passaram nas últimas décadas a estar acessíveis nas lojas de qualquer bairro, sugeridas como elemento natural de "decoração" da casa portuguesa. Aderi, talvez pela mesma razão que os demais, talvez pela mesma razão por que me fascinei por Van Gogh aos 14 anos e li desenfreadamente Fernando Pessoa na mesma idade. A massificação da arte e do espírito. 


A queda por Buda não nasceu do estudo do budismo - parco, muito parco - ou da adesão aos seus ensinamentos. É bem mais simples. Um pouco depois da viragem do século estive na Austrália dois meses em casa de um familiar - com quem sempre tive grande afinidade e para lá foi viver quando eu tinha nove anos -, que simpatizava (é bem mais simples assim) com a figura. Também ajudou nessa altura ter feito algumas leituras sobre religiões, mas isso interessa sempre menos do que os laços.


A figura de barro traz-me paz discreta. E concilio-a bem com a Sagrada Família. Cá em casa vivem em perfeita harmonia. É o encontro ecuménico que imagino comum a muitas casas portuguesas actuais.


E vem tudo isto apenas a propósito de ter dado com os raios de sol a baterem no Buda e na tulipa e sentir aconchego. Só por isso resolvi fotografar, mas como sou uma língua de pescada, vim para aqui dar as habituais explicações. Mas porquê?, senhores, porquê?


Acrescento que junto está uma pulseira só porque sim. Acho-a bonita apesar de só a ter usado uma ou duas vezes depois de comprada em adolescente numa feira de rua de Lagos - aqui também está o coração; devo ser como as minhocas com vários corações. Não gosto de me ver com pulseiras, muito menos assim grandes. Mas acho-a bonita pousada e quieta. Diz muito melhor com Buda de barro e a tulipa de vidro do que comigo.


Bom Domingo.

O pretexto

Hoje como multa do divertimento de ontem o dia amanheceu com irritantes e pequenas contrariedades que se prolongarão pela tarde. Nem vou perder tempo a descrevê-las. Logo se dissiparão. Vou antes contar que este início de madrugada cheguei a casa com tupperwares com sushi que dariam para uma família numerosa. Assim é o C. com os amigos: o exagero feito gente. Neste caso exagero de generosidade.


Foi uma bela e animadíssima noite de discussão acesa de pontos de vista tão diferentes que pareceriam inconciliáveis, afinados por sushi, uns extras bem mediterrânicos e deliciosa sobremesa preparada com carinho pelo R, tudo muito saudavelmente regado. As opiniões pareceriam inconciliáveis, não fosse a amizade e a alegria prevalecerem sempre. Ditadora refreada confessa, tenho imenso orgulho nos amigos e no Nuno, essa é que é essa. De cada vez uma aprendizagem. De cada vez mais cimento cola no que mais importa: os laços.


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Publico as fotografias do pretexto – a comidinha, que mais seria? - com autorização do dono da casa, que sendo exuberante e vaidoso gosta pouco de exibicionismos na Internet. Tal como é pouco dado a sushi, mas resolveu presentear as amigas com aquilo que sabe que elas gostam para lá da questão de ter sido ou deixado de ser moda há 15 ou 20 anos. Resumindo: uma mesa portuguesa. O pretexto.

Diário

E se experimentasse um diário concentrado? Duas sonecas após jantar seguidas de madrugadas em claro. Devo andar a testar a sorte, convencida de ter 20 anos. Daí precisar de repôr os sonos nos devidos horários. Ontem de manhã continuaram as burocracias que não vou esmiuçar, afinal tal afoiteza causa muita confusão. É estranho escrever acerca de aspectos práticos da vida numa linguagem pouco habitual e não enquadrável nos catálogos da praxe.


De tarde mudou o registo para a descontracção. Conforme combinado fui ter com a T. ao Jardim do Morro, lá estivemos na conversa sentadas nos muretes de pedra que delimitam os patamares de relva em forma de anfiteatro virados para o Douro. Aquele jardim é-me conhecido de muitos anos e como muitos na zona do Grande Porto ganhou vida nos últimos tempos. Os jardins públicos voltaram a estar na moda e isso é bom. Pena os rádios além da animação musical oficial. Sempre a atropelar a palavra de uma e outra, ambas com ânimo para dizer de sua livre vontade o que vai na telha e alma, depois de uma horita sentadas a Noroeste, palmilhamos mais uma vez o tabuleiro de cima da ponte D. Luís e seguimos em direcção ao Passeio das Virtudes, invertendo assim a vista para o Douro a Sudoeste. Se no Morro há turistas e parelhas e grupos mais convencionais, nas Virtudes – das quais há algumas alusões e imagens aqui nas Comezinhas - o ambiente é… como direi?, talvez artístico-alternativo. Álcool, grafitis e talvez uns charritos e quejantes – a verdade é que nunca inspecciono essas coisas, mas olhando a marabunta de gente nova que pulula o relvado e os muretes, é bem provável. A funcionar a todo o gás uma mercearia onde fomos buscar as bebidas para continuar a tagarelice. Afinal duas mulheres a falar e banalidades, mas também sensações, convicções, pequenas graças e dores recentes ou antigas traz secura à garganta. Ia com ideia de um inocente refrigerante, mas segundos depois de entrar na mercearia e ter-me afastado já ouvia a T., sempre muito comunicativa e social, entabulando conversa com outros clientes: ouvi uma referência à vodka-limão. Ora, sou sensível e saudosa dessa beberagem pelo que logo me aproximei para amadrinhar a escolha. Apenas uma garrafinha para cada uma que somos meninas atinadas e um saquito de tiras de milho para forrar barrigas com alguma larica. As cápsulas das garrafas são sacadas à saída com o abre-cápsulas pendurado na porta da loja, antes de nos instalarmos junto da gente nova usufruidora nos últimos anos do recanto que há muitos sinto como um hino à cidade. Coisas de quem por lá passou muitas vezes desde sempre e na meninice leu e ouviu referências românticas ao lugar. Seria muito mais profícuo contar os pormenores mais suculentos do teor das prosas, mas a arte da amizade está nisso mesmo: enquadrar os cenários e guardar o essencial em conversas que atravessam décadas, não as expondo. Nisso se distinguem as verdadeiras amizades dos simulacros. E nada disto obsta a que se faça uma ou outra alusão às cumplicidades entre amigos; tudo vai do bom gosto. Já passava das oito da noite quando cada uma se dirigiu à sua paragem de autocarro para regressar a casa.


Nada complicado, tudo ó simples. Por falar nisso, no post de ontem usei a palavra complexificar quando deveria ter utilizado só complicar. Mas lanço mão (esta também deve estar proibida) da retórica para justificar e fazer a minha defesa: o profuso entrelaçar de procedimentos nas funções laborais de instituições e empresas e em toda a relação do cidadão com as ditas é mais do que complicar, é mesmo complexificar. Um dia hei-de voltar ao tema - já aqui abordado nos anos anteriores - da irracionalidade da hiper-regulamentação e hiper-legislação resultante de desfasamento entre a velocidade de progresso tecnológico e a natureza humana – sempre imprevisível e errática.


Mas voltando aos vocábulos e expressões, tema recorrente: cada um de nós é uma ilha em matéria de sensibilidade às palavras. Há ilhas integradas em arquipélagos e ilhas mais isoladas e distantes. Há-as separadas por poucos metros transpostos a nado com meia-dúzia de braçadas e outras que implicam travessias mais custosas e demoradas. E muito para lá do certo e do errado, para lá do bom ou mau português. Em novita tive um namorado que me corrigia quando eu dizia pôr, sugerindo que dissesse colocar. À época considerava tal palavra, como tantas outras, simplesmente pires, mas como ele era bonito estava perdoado. Na altura não me passou pela cabeça explicar-lhe que era mais educado dizer pôr apesar de me tentar inculcar algumas etiquetas pirosas. E hoje em dia uso os dois verbos de modo indiferente sem pôr ou colocar a questão de qual está correcto. Talvez pela mesma razão tenha há um ano ou dois uma pequena colcha cor-de-rosa atravessada nos pés da cama do segundo quarto. De franco mau gosto. Mas foi a dona L. que, descobrindo essa colcha oferta antiga da La Redoute a uso como cobertor em tempo mais fresco, resolveu agradar-me dando um jeitinho pessoal ao quarto. Compreendi que sentia satisfação em embelezar a cama. Deixei ficar as primeiras semanas por consideração e assim acabou por permanecer em definitivo. Hoje o que achava uma fealdade já nem me desgosta, até alegra. E estes são só dois exemplos de como a vida nos leva a mudar, evoluir, amadurecer - apesar de haver quem considere isto regredir -, aproximando o nosso umbigo de mundos que contém matéria de gosto, opinião e natureza muito longe da nossa base de educação.


Afinal não foi assim tão concentrado, o diário. E para quem ia escrever pouco, lá me estendi. É o que dá não ter tento nos dedos.

28/09/2024

Mexerufada

Dei por mim a pensar na crueza. Mais nova ao ouvir comentários pragmáticos sobre um qualquer autor ou livro, considerava-os rasteiros. Uma espécie de ofensa à sensibilidade. Radicava esses comentários na falta dela e no carácter básico da inteligência de quem os pronunciava. Até a (hesitei em escrever maturidade, parece-me topete) idade me deixar adivinhar na intenção de quem escreve propósitos que vão muito para além da entrega à arte. Hoje compreendo melhor quem desconfia dos epítetos de “grande obra, “obra maior”, "um dos grandes autores” e desconstrói o que lê reduzindo-o ao trivial.


De que estou a falar? Por hipótese da referência deslocada a meio de um romance a uma cidade europeia conhecida pela sua histórica ligação à arte – porque razão não nomeio a cidade se a conheço?, para manter este post no essencial, não o desviando para a afectação por menoridade, por vaidade. De sempre muito da escrita faz-se com recurso a este expediente. E agora penso se haverá corrente capaz de desfazer este apelo inelutável à mostra de erudição para engrandecer um post ou um romance. Depurar a escrita dela parecerá sempre aos distraídos empobrecer a prosa e a literatura, ou melhor, nem reconhecer à primeira a qualidade da segunda. Quem diz referência a uma cidade, diz referência a um poeta romântico, realista ou simbolista, a uma corrente literária ou arquitectónica, uma tira de BD fora dos modelos convencionais, diz a alusão a uma batalha do século XX ou à mitologia grega. Até que ponto a mostra de erudição é profícua? Não será antes uma montra de vaidade fácil, cada dia mais fácil. Ao contrário do que afirma a elite cultural que se tem afirmado pela sua pequenez e oportunismo, é cada vez mais cómodo e simplista criar um boneco, uma personagem, um pseudónimo ou mesmo uma identidade assumida de sábio ou iluminado e constuir uma carreira de sucesso no meio intelectual ou cultural. Os recursos e o acesso massificado ao mundo da sabedoria herdada assim o determinam.


E não vou alongar mais para não maçar. Acrescento apenas que como é habitual não cumpri o plano de leituras para férias. Ponho sempre a fasquia demasiado alta, ao contrário da técnica muito disseminada nas últimas décadas de tomar os objectivos mínimos por máximos e ficar quase sempre contente com o resultado floreado, exultando de orgulho pelas conquistas assim obtidas ou então forjar trabalho intenso ou estudo sofisticado nunca feito com seriedade – não é uma alusão a leituras de outros mas ao sistema de ensino português. Dos quatro livros destinados para estas duas semanas, dois foram sendo lidos e serão continuados e duas novelas foram começadas e concluídas. Com a particularidade que acontece nos últimos doze anos: a de ler alguns dos livros que me passam pelas mãos em voz alta ao Nuno. A dois é uma leitura diferente: perde-se em privacidade individual, ganha-se em intimidade a dois. O que vemos nunca é exactamente o que vê o outro, é como ler o livro duas vezes de uma vez só.  


No último ano do liceu, nas minhas eternas boas intenções não concretizadas, tive a ideia de ir para a Biblioteca Municipal do Porto ler para cegos. Como quase sempre acontecia não concretizei a intenção à época e como quase sempre mais tarde a vida mostrou-se patente por portas travessas num fio condutor que não sei onde e quando começa nem acaba mas dá sentido ao caminho. Imagine-se eu a ler para gravar naquela idade (mais tarde fi-lo muitas vezes com apontamentos da faculdade que cheguei a emprestar) lendo tão mal e sendo tão inexpressiva. Seria um descalabro. Hoje apesar da inexpressividade continuar – nunca seria capaz de ser actriz – já vou lendo melhorzinho. Lá para os oitenta devo estar no ponto.


 


Adenda. Reparei na profusão de artigos indefinidos neste postal. Devia, mas desta vez não vou corrigir.

As rotinas do trânsito

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Em trânsito

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Recapitulando

Dos equívocos e das más intenções. Leio por aí que as pessoas começaram a odiar os factos. Erro. As pessoas começaram a odiar a permanente manipulação dos factos. Circunstância bastante diferente. Mais: cansaram-se de décadas de manipulação dos factos feita com a prepotência e aparência de conhecimento e erudição na comunicação social e espaço público e da arrogância balofa que daí decorre sempre muito bem sucedida em nichos de mercado viciados. Mais: compreenderam que quem tem intenção de valorizar o conhecimento e a qualidade não ignora nem despreza nem insulta a inteligência alheia, não trata os seus semelhantes como ignorantes, antes incentiva os seus talentos jamais usando atitudes de sobranceria ou paternalismo, colocando-se em degraus que nunca lhes pertenceram por mérito.


Umas compreenderam isto, deixaram de comer e calar e anseiam por uma realidade mais decente para o todo, outras entenderam como se joga o jogo sujo do poder e imitam-no, isto é, desbaratam opinião a torto e a direito como se fossem os mais sábios oráculos, tal como aprenderam com os intelectuais da treta.


Para os leitores habituais das Comezinhas refiro apenas que recapitulo um capítulo da Ana Paula que aqui publiquei em 2019 só por me recordar esta passagem: «Nos últimos dez ou vinte anos, ao entrar na onda de ditames contra a realidade, e do novo e empolgante conceito de história e factualidade errada, fora perdendo o controlo sobre opiniões ou princípios defendidos, e traída pelo próprio azedume e ressentimento fora engolida pelos slogans apregoados. Como previsível o mundo do moderninho consumira-se a si mesmo. Por falta adesão aos factos, o politicamente correcto entrara em autocombustão» (assim poupo-vos o trabalho de lerem o capítulo todo). É neste estágio de discussão que ainda estamos. Aguardo a passagem ao seguinte. À admissão de responsabilidades no estado caótico em que nos encontramos por parte dos mui sábios e intelectuais das certezas floreadas e manipuladas que a ela conduziram nas últimas décadas e que continuam impantes a cavalgar a onda dos interesses e da opinião sem nunca admitirem erros. Será que posso esperar sentada?


A última Mexerufada também dá uns lamirés sobre o assunto. E, claro, convém Relativizar o que os sábios dizem.


Boa semana.


*



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        Dois anos após as almoçaradas do Outono de 2014, os habituais convivas juntaram-se na Casa Agrícola, junto ao Mercado do Bom Sucesso, para festejarem a chegada ao governo da protagonista. Tal como previsto nas estrelas, a Ana Paula fora convidada a integrar o governo como secretária de estado da administração pública. Fez o infalível trabalho de casa. Um ano após a participação na Entrevista da TVI, no final do ano de 2015, mudou-se para Lisboa. Em rigor, e como vaticinara o Luís, fixou-se no Estoril. A mudança fez-se a pretexto do convite para integrar o grupo de reflexão sobre a modernização administrativa e a reforma do estado, para o qual foram canalizados fundos suficientes a gerar sete novos postos de trabalho no ministério das finanças e da administração pública. Sete novos postos de trabalho, bem remunerados, para se reflectir a futura reforma do Estado que, eventualmente, passaria pela sua redução. Comissão da qual, no final e como seria expectável, saiu apenas um sound bite, baseado em estudo na União Europeia, o qual atesta haver menos funcionários públicos em Portugal do que a média europeia. Razão dos dois pareceres emitidos. O primeiro no sentido de reforço de pessoal em áreas específicas dos serviços do Estado, com sinais de ruptura. E o segundo a calendarizar as medidas concretas de admissão de novos funcionários para daí a quatro anos. Sobrepunha-se o mais conhecido imperativo orçamental de todos os tempos: o almanaque eleitoral. E a pretexto de tão aturadas ponderações e conclusões, a Ana Paula viu resolvida a sua particular situação material, e encetou o trilho partidário a nível nacional. Fora presença notada no congresso da Feira Internacional de Lisboa, em Novembro de 2014. Fizera parte das listas da comissão nacional, garantindo a eleição, no ano seguinte, para a Assembleia da República, como cabeça de lista pelo círculo de Aveiro. Em tempo recorde, porque já não estamos no século XX, quando tais percursos demoravam dez ou vinte anos a ser feitos, em tempo recorde, escrevia a Margarida, a protagonista palmilhou o trilho do poder, transformando-se numa figura de relevo nacional. Chegara ao poder central, de onde tudo passa a paisagem a modelar ao gosto dos caprichos de provincianos deslumbrados. Cumpria-se a história do país dos últimos séculos.


        Na capital, rapidamente se adaptou à teia de relações que interessam a quem tem pretensões de poder. Tornou-se amiga chegada e pretensa discípula de figura maior do partido, uma mulher inteligente, arrivista e azeda, com preparação académica e percurso de vida que faria adivinhar melhor futuro. Nos últimos dez ou vinte anos, ao entrar na onda de ditames contra a realidade, e do novo e empolgante conceito de história e factualidade errada, fora perdendo o controlo sobre opiniões ou princípios defendidos, e traída pelo próprio azedume e ressentimento fora engolida pelos slogans apregoados. Como previsível o mundo do moderninho consumira-se a si mesmo. Por falta adesão aos factos, o politicamente correcto entrara em autocombustão.


        Em pouco tempo, a Ana Paula aproximou-se, percebeu as fraquezas e, estrategicamente, deixou-se ficar como figura de segunda linha, até ter a certeza de ter aprendido a arte de fazer política. Teve de estabelecer as relações necessárias, estreitar os ódios convenientes e aprimorar o discurso de demagoga. Teve de polir todas as arestas de mulher de paixões e opiniões. Aprender a defender as que rendem likes no Facebook e seguidores no Twitter. A moderninha daria lugar à ditadorazita de Espinho. Afinal, a protagonista era uma mulher do seu tempo e tarde ou cedo mostraria ao país a razão de déspota se escrever no feminino.


        A Margarida reflectiu sobre a última frase escrita e sentiu aproximar-se o final do livro. Folheou-o. Queria tranquilizar-se. Estar certa do problema não estar na ascensão ao poder por gente vinda da província, mas sim a ascensão ao poder de quem traduz cosmopolitismo pela ideia superioridade da cidade, enquanto núcleo do poder e das relações que interessam. Por espíritos provincianos, oriundos da mais recôndita aldeia do país ou de qualquer avenida lisboeta. Já nos chegava a visão estreita e pacóvia das elites das gerações anteriores, que não diferenciavam ser cosmopolita do bajular de correntes de pensamento estrangeiras e, por isso mesmo, se sentiam envergonhadas do país onde nasceram, como temos as novas gerações de deslumbrados e deseducados, a afiançarem a ideia de que ser cosmopolita, é ser moderno, urbano, abusar das novas tecnologias e defender de forma militante o apagão da história; a tal que explica o nosso estágio de civilização.


       Eterna ingénua, ansiava por velhos e novos ascendidos à nata do país cientes de não haver cosmopolismo sem o respeito por quem habita o universo, venha de onde vier. Sabedores do princípio íntimo do começo do universo. Vincava a ideia da necessidade de se ter mundo. Fazer parte do universo e respeitar-se a si e ao outro é mais difícil do que parece, dispensa a sobranceria pacóvia dos velhos privilegiados e impõe o conhecimento e compreensão dos factos da história desprezado pelas novas elites. E feita esta consideração, não sem antes rir da conclusão tirada, como qualquer outra resposta descabida na literatura, foi à pasta dos meus documentos procurar o primeiro início do livro que pretendia escrever, mas ao qual não dera continuidade, por se ter perdido a contar a vida da protagonista e outras personagens. Ainda assim decidiu, tal como tinha anunciado ao Vicente, valer-se do esboço inicial e passá-lo para o epílogo. Copiou e colou o texto. Trocou o título, apagando Ana Paula e escrevendo O Livro dos três Princípios. Simplificou, limpando as considerações inúteis sobre a evolução política dos últimos cinquenta anos, e sorriu ao ver novamente da cena triunfal da Ana Paula, a atravessar o jardim, calçada de revolução. Aí estava o terceiro princípio do livro.

Moralidades à quinta-feira

Durante o dia ocupado não arranjei motivo nenhum para pregar. O que me veio à cabeça agora? Uma nota que há uns meses tive intenção de aqui deixar e protelei. Mas, e agora? Como convertê-la em moralismo ou moralidade se já nem bem me lembro dela. Passa pela palavra sofisticação e quem lê as Comezinhas já deve estar farto do termo e do azedume com que a trato. Deveria perder um pouco de tempo a tentar explicar o que me causa repulsa na sofisticação – ou naquilo que entendo por, já que as palavras são caprichosas e cada um sente-as como sente. Imagino-a (à sofisticação) numa espécie de peanha de supérfluo e falsidade. Se tivesse cores andaria na conjugação de dourados e pretos, se tivesse textura e temperatura seria uma gélida mármore. Enfim, seria a triste lápide de quem já se passou para o lado de lá; de quem já não vive, mas faz de conta. Mesmo nos túmulos prefiro a rugosidade do granito - creio até que nestas ainda se respira.


É assim que passam por mim algumas leituras – as que tenho em mente no momento são femininas, mas calham bem nos dois géneros. Digo passam por mim, por ser isso mesmo. Nada de muito proveitoso fica, apesar de algumas serem escritas em português correcto – insípido nuns casos, com algum sal noutros, mas sempre usadas com a falta de jeito própria da leviandade seja ela mais ou menos instruída. O certo é que têm saída por vezes pelo picante da maledicência, outras por curiosidade pelo dito obscuro ou secreto, outras ainda por despertarem discussão acesa e lúdica. Atribui-se à conjugação destas características o epíteto de matérias interessantes (à moda brasileira). Têm pique. Lidar com pensamentos e sentimentos tidos por interditos - revelados no momento pelo autor(a) como se em êxtase de inteligência superior fosse explicar à turba de bárbaros o que é a civilização - é receita certa para vender e colher boa crítica. Em muitos casos estas abordagens são entendidas por manifestações de liberdade. 


Sucede que na maioria das ocasiões não há nem houve interdito algum, apenas formas de abordagem ao longo dos séculos mais ou menos escancaradas e o que vende é o espalhafato ou a crueza do estilo e não a liberdade propriamente dita.


Em contraposição carimba-se os que fogem da intriga, do obscuro e do conflito como moralistas ou puritanos, já em vias de ferrados como perigosos defensores das ditaduras, pois se atentam contra os mais nobres valores ao proporem mais reflexão, mais lucidez e, pasme-se, ao terem o topete de sugerir necessidade nalguns momentos de renúncia ao argumento em prol de consenso.


E pronto, as moralidades hoje são estas. Noutro dia mais adiante tentarei concretizar.


*


Posts anteriores desta série.


27/09/2024

French Roast

Diário

[Actualizado] Isto de entremear postais antigos com actuais fica um pouco confuso, mas como sempre vale o apelo à atenção.


Esta manhã tenho um tempo extra para me dedicar às notas no blogue por se haverem esquecido de me atribuir a tarefa que consumiria mais do que o dia inteiro de trabalho – virá na segunda-feira, fecho do mês, o  que me atolará de actividade.


Aproveito e registo a véspera da ida a Almada. Já comprei bilhetes de comboio com a antecedência habitual e lá se fará com vaivém de rotina que espero sem incidentes.


Ontem por ser dia de chuva e ter de fazer uma troca de presente de aniversário de peça de vestuário aproveitei e almocei aqui pela Boavista. Como é habitual fui à Bertrand, essa livraria de gente ignorante que não sabe escolher livreiros com pedigree para exibir sofisticação intelectual. Ia ao telefone a dizer à interlocutora que entraria na livraria, mas não faria compras. Promessas vãs. Entrei. Vi os escaparates e as habituais balelas badaladas entre os circuitos dos amigos com visibilidade no espaço público assente nas enjoativas trocas de favores e amizades interesseiras. Passei os olhos distraídos por várias mesas e fui dar como sempre à poesia. Ontem escolhi Paul Celan. Na caixa encontrei um dos meus “conhecidos” livreiros da casa e lá fomos de requitó para as mesas e estantes. Não sei sequer o nome do funcionário, mas conheço há anos o genuíno entusiasmo pela leitura a emprestar-lhe real brilho aos olhos e expressividade à voz quando fala do que gosta. Acerca de Paul Celan recordou um grupo antigo de amigos e a excitação quando começaram a lê-lo. Muito bonito, classificou com o olhar terno sobre a capa do livro que eu encontrara. Um pouco mais adiante na conversa falei da minha recente descoberta tardia de Gonçalo M. Tavares e da sua fabulosa ironia. Logo me levou à prateleira onde repousava a Uma Viagem à Índia. Já tinha passado os olhos pelo livro há um mês, mas contive-me. Assim fiquei com a apresentação viva deste livreiro dedicado e conversador entusiasta. Pois são Os Lusíadas actuais. Um homem contemporâneo resolve fazer a viagem à Índia, mas antes vai de avião a Londres e Paris. Hum, é verdade, e há ilha dos amores e tudo a fazer lembrar Kubrick. Tudo em prosa como se a forma fosse poesia. Claro que me convenceu, não a trazê-lo logo, porque nestas coisas das obras de arte convém namorá-las e não ensacá-las à primeira ou à segunda vez que se lança o olhar e folheia. Há que saber cortejar a literatura e a ironia. E como nasci com o rabo virado para a lua e comuniquei ao Nuno e à minha mãe que vou pôr o livro na lista para presentes de aniversário, já arranjei quem mo desse.


Mas ontem foi dia de Paul Celan, cujo A Morte É Uma Flor li logo ali sentada dum daqueles sofás do centro comercial. Ao meu lado enquanto lia os versos a companhia de um guarda-chuva preto de homem abandonado - sim, a discordância do sujeito é propositada. Esquecido por alguém que lá teria estado sentado antes e será distraído. Vale pelas multidões de amigos que trocam muita sabedoria e iluminação, de que prescindo em favor de poucas pessoas despretensiosas com alma e coração genuíno e próximo. Mais um judeu, no caso romeno filho de vítimas dos campos de concentração nazis, ele próprio também aprisionado até ser libertado pelos russos.


Todavia não gosto de biografias daquelas que falam muito em Paris e nas relações com outros autores do seu tempo. Soa tudo a falso quando rematado com o epíteto de portador de manias persecutórias internado em instituições psiquiátricas. Que dizem as relações do meio literário ou artístico da verdade? Quem estaria com ele no dia da partida anotado na agenda? Mais provável fosse um guarda-chuva abandonado pela morte anunciada do que um qualquer amigo de circunstância, daqueles muito barulhentos bem-sucedido que bate muito no peito a falar de amigos, amizade, coração e amores. Mais provável que tudo acabe em rótulo cego e na injustiça da Natureza. O que conta para a história dos eruditos da treta são as biografias fáceis e a exibição de certeza e sapiência vã. Ler o que escreve o autor é o que menos interessa aos iluminados citadores. Versos são carne para canhão - apenas mais um motivo inspiração para distorção e alarde protagonista.


Ah, é verdade. O livreiro também me aconselhou Sebastião da Gama. Há uma edição daquelas bonitas para oferta de Natal que começam sempre a surgir nesta altura do ano. Estou a ser injusta. Duplamente injusta. O funcionário não falou em ofertas de Natal nem neste tom sarcástico que pus agora. Como é evidente referiu o esquecimento a que foi votado e de que agora se tenta a remissão.

Domingo

Gostas das madrugadas e das manhãs.


Gostas da vida.


E de mesinhas de cabeceira.


Ah, pouca-vergonha. Ah, exibicionismo. Devias aprender a disfarçar a exibição dando o ar de tratar do mundo alheio, mesmo que na verdade nunca chegasses a sair de ti e do teu umbigo nem fizesses esforço para tal. Isso sim, seria digno de apreço. Isso sim, daria ideia de préstimo. Agora isto de estares do lado de fora sem que se compreenda ainda não convence, não cola nas certezas do tempo.


Mesinha.Cabeceira


Os livros? Salvo um, estão ali há meses, crês mesmo que alguns há mais de um ano. Todos por acabar. Os que são lidos à primeira, chegam e partem para o arquivo vivo. Os que ficam são os mais custosos. Mas lá acabam por ser digeridos.


Nos últimos meses há um que vai devagarinho à medida que outros são devorados rápido. Houve um interregno de quase dois meses em que praticamente não leste livros. Acontece-te muito. Uma releitura especial tem-te de novo confirmado quanto do que idealizas foi pensado e repisado por gente que mais não fez na vida senão reflectir. Perguntas-te onde foste buscar tais pensamentos. Ah, asneira outra vez: as descobertas naïf nunca se trazem à luz do dia, deverias dar o ar de nascida a perorar lição. Quando muito deverias transformar cada nova descoberta numa exposição de perplexidade bem simulada e bem estudada para aparentares astúcia e requinte. É assim que se finge, menina. É assim que se mente, menina. É assim que se aparenta conhecimento e talento inexistente. Ah, e não te devias esquecer das gracinhas mimetizadas em grupelho de desprezo pela simplicidade ou suposta ignorância alheia. Isso sim, seria digno de apreço. Agora valeres por ti própria e expores o que se passa na cabeça do comum mortal é coisa pouca para o mundo da ilusão de valor. Ralé da ralé. Nunca aprendes, menina. O mundo é dos espertos e dos fingidos.


O Presépio? Está ali há anos. Com algum exagero cerca de 2000, dizem as más-línguas. É só uma família, outro aspecto de somenos importância. Não liguem, pormenores insignificantes. No Natal passado deste um igual à tua enteada.


O aspegic? Engana estar ali, porque é raro teres dores de cabeça, mas ficou à vista. Calhou.


A água? Sempre esquecida por te levantares para ir beber. Porém, nos dias em que lês em voz alta a garrafita ao lado sempre ajuda para aclarar a voz.


O radio-despertador é uma reminiscência dos anos 80 (ou terá sido ainda na década de 70?, foi na passagem de década). Lembras-te de encomendares o primeiro à Eca quando tinhas sete anos. Pagaste-o com notas de escudo dos presentes de aniversário e Natal. Há muito tempo não consegues ouvir rádio neles, atento o mau som (para isso há outro), mas serve-te para ver as horas. Nos últimos anos já não ajuda como antigamente para ir vendo passar as horas (e como passavam umas atrás das outras) porque adormeces rápido, cansada. Não tens insónias há anos. É uma outra vida nascida há 16 anos. Mais dois e atinges a maioridade nesta segunda vida.


O coração vermelho? Oferta da tua mãe por saber que tu achavas piada à piroseira. Mais uma vez a cumplicidade no direito ao apontamento piroso.


A caixinha? Presente do Nuno onde guardas vários pares de brincos que quase nunca usas. Só em dias especiais.


*


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Adenda. Agora com luz natural. Preciosismos. Coisas de coca-bichinhos. Insignificâncias muito maçadoras que não têm o menor interesse. A ti interessam os reflexos da luz e as sombras dos objectos nas paredes (céus, como gostavas de saber pintar; escreve menina, escreve como se pintasses ao som de boa música). Quantas horas da noite e madrugada passaste a observá-los enquanto pensavas. Tudo muito aborrecido, tudo inspirador de muitos bocejos aos sábios. Um tédio para os iluminados. Às vezes, raras, a perspectiva desencadeia ódios. Ontem lembraste-te de alguns ódios que despertaste. É a vida. Não há como evitar. Os que comungam contigo da bendita dúvida e maldita indecisão passem à frente, não se cansem com estas inutilidades; isto só complica a vida. E vós, sábios, continuai a troco de audiência e protagonismo a dar lições forjadas que não interessam nem ao menino Jesus, mas fazem muita vista. Como bobos da corte ajudais a entreter, a passar o tempo. Cada macaco no seu galho.

Diário

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Foi um dia bom. Em casa. Acordaste antes das seis. Fizeste bastante cera no + 1. Leste pouquinho. Ligaste como usual o rádio na sala na smooth fm. Tomaste dois cafés de manhã. Tens de dosear esse apetite extra por café das últimas semanas. Escreveste um postal e ilustraste com fotografias da mesinha de cabeceira. Brincaste e tomaste conta do gato na varanda. Regaste as plantas fora de horas – já com calor; erro. Tiraste fotografias na varanda que não vais publicar porque o chão está com um ar sujo. Amanhã a dona L. vai deixá-lo bonito. Foste comprar quatro pães. Almoçaste e ficaste na treta. Falaste ao telefone. Leste ao Nuno os últimos posts e ouviste-o ao piano. Adormeceste no sofá quando estavas com ele a ouvir um vídeo do Youtube. Acordou-te hora e meia depois. Fizeste mais um cafezito e mais cera. Muita cera. Domingo é dia disso mesmo. Falaste ao telefone. Cedo reuniste os ingredientes para jantar com as galinhas. Escaldaste o polvo três vezes antes de o cozer. Ficou muito tenro na salada com molho de vinagrete. Tiraste mais fotografias para exibir no blogue. Antes de ir para a mesa puseste a cozer duas batatas para juntar ao resto da salada de polvo para o almoço de amanhã. Jantaste enquanto ouviste as notícias das eleições de Espanha. Ao café ouviste qualquer coisa sobre os incêndios da Grécia, o nosso Conselho de Estado e as greves durante a Jornada Mundial da Juventude. Assim driblaste a angústia de Domingo, véspera de dia de trabalho. Antes de fechar o estore do quarto tiraste uma fotografia à nespereira. Daqui a pouco vais ler mais um pouco e sabes que te vai dar o sono. Cedo haverá sorna boa.


A.Ingredientes 


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  c.MesaSala 


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26/09/2024

Paul Celan

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Castigo

Savonarola e não Savanarola. Savonarola cem vezes.


Gralha imperdoável há duas semanas.


Continua a jogar ao Burro em Pé, menina. Deixa o Bridge e a "erudiçãozita" para os iluminados bem-sucedidos.

O que esta segunda-feira?

Já sabem que este é um espaço um tanto fora do baralho e não disfarça esse deslize. Por isso, hoje, só baralhas, partes e dás algumas cartas, deixando o jogo aberto. Tanto mais que vislumbras mal as regras. Isto é, há dias em que julgas compreender o sistema político, o qual passaste a vida a observar, umas épocas com alguma atenção, outras com nenhuma, e há muitos anos estudaste nos livros e nos anfiteatros. Outros tempos. Noutros dias sentes-te perdida por compreender que pouco tem regra, salvo a das circunstâncias, por mais que os sábios de ocasião pareçam sempre arranjar lógica – a táctica para a infinita e aparente consistência é simples: deixar o tempo passar e fazer de conta que as contradições e enganos nas avaliações não aconteceram. Mas deixas os considerandos e passas às palavras que afinal hoje é segunda-feira.


O baralho de cartas de hoje contém as palavras “inveja”, “desdém”, “cobiça”, “crítica” e “justiça”. Cinco cartas, já dá para jogar ao Burro em Pé, que será a primeira partida de cartas aprendida em criança. Numa visão nada abonatória, mas é a que te apetece hoje espelhar: na mão do português está a vontade de ter as cartas do parceiro de mesa, o desprezo pelas suas qualidades e a ambição de ganhar o jogo. Acha que vai sair vitorioso por possuir o Às de Ouros - a “justiça”: sempre entendida por si, não como bem comum, mas como reconhecimento do valor e mérito próprios face aos demais. E embirra e sente-se injustiçado por ter na sua mão o terno de espadas a que dá tão pouco valor - a crítica -, que é o juízo moral ou intelectual sobre o comportamento do conjunto de jogadores na mesa, determinante no desenrolar da partida.


Como não estás a jogar fizeste uma pequena batota e espreitaste o monte. O último a ir ao monte teve azar, levou uma série grande de cartas e ficou uma data de anos burro por não haver paus. À bica está o duque de copas - a “democracia” -, para desgosto de uns e alegria de outros, que já se vêem a virar o jogo. Chama-se alternância, existirá sempre se o jogo apesar de viciado por batota ainda contiver os quatro naipes com 13 cartas cada e não for corrompida em definitivo por naipe único – o de copas, por exemplo, todo dado aos afectos e à abolição das desigualdades, com censura de ideias dissonantes.


Mas que interessam estas considerações todas se, em geral, os portugueses, por não gostarem de regras, nem repararam que não tem o menor interesse possuir um Às ou um Terno sendo o objectivo do jogo apenas assistir ao naipe da mesa e descartar o maior número de cartas mais rápido? Que interessa apelar ao bom senso se não é comum o português conceder no carácter fortuito e injusto da Natureza e predispor-se a agir em função das regras e do bem comum?


Não chegaste a ver as cartas dos outros, nem continuaste a coscuvilhar a sequência do monte para saber o futuro, por isso este postal acaba por aqui mesmo. Pedes desculpa por ter escolhido o Burro em Pé e não o Bridge, mas convinha para ser um postal em harmonia com os conhecimentos rasos das Comezinhas.

Moralidades à quinta-feira

Habituada há muitos anos a trabalhar por objectivos já viveste os dias obcecada pelos resultados. Animada por eles, já que no grosso dos anos passados os alcançaste com empenho total. Não ganhaste especialmente por isso. Talvez também por essa razão a idade e a constatação dos absurdos e injustiças da vida fizeram-te começar a moderar e a relaxar. Nada nem ninguém paga a saúde nem devolve a falta dela por excessos de empenho. Tal como nada paga a saúde e a falta dela na vida pessoal – já bem chegam os estragos que fizeste em ti mesma sem responsabilidade alheia, não precisas ser permeável aos danos tentados ou provocados por gente de má rês. Voltando ao profissional, balanças entre o gosto pelo brio e a sensatez do merecimento. Tens de colocar o lembrete permanente de não ir além do humanamente exigível, até porque já não tens vinte anos nem a burrice associada a essa idade.


Posto isto, há erros que são erros. E sendo honesta não há como fugir da admissão deles. Se criticas e pretendes continuar a criticar quem passa a vida a desprezar e tentar menorizar os outros nunca reconhecendo as próprias falhas, convém que faças diferente. Que faças o que não vês ser feito e consideras correcto, apesar de contrário à ladainha em voga do polimento oco da auto-estima e da bazófia reinante sobretudo no mundo online.


Apesar de organizada em geral, há aspectos concretos e importantes de falta de arrumação e ordenação que te prejudicam. Se em casa a maioria das gavetas estão arrumadas, as da mesinha de cabeceira são mais depósitos caóticos de inutilidades raramente abertos do que gavetas. Se tens as gavetas dos armários, cómoda e aparadores arrumadas por que carga de água a porcaria das gavetas da mesinha de cabeceira são um caos? Faz algum sentido? Nenhum. Quanto tempo demorarias a resolver o assunto? Possivelmente nem uma hora a deitar fora o que é para deitar fora e a organizá-las. Depois seria apenas manter, tal como fazes nas outras. O mesmo se passa como os emails pessoais e profissionais e os documentos no computador pessoal. Por que razão não perdes meia hora semanal a organizar os documentos do teu computador particular, se são tão poucos? E como é possível trabalhar sem uma caixa de email organizada por pastas personalizadas? Já as catalogaste diversas vezes, mas por razões várias, que não interessa explicar, o caos regressa sempre. Isto é naturalmente prejudicial e implicaria apenas umas horas de ordenação e continuação metódica no uso diário. Aliás, é o cúmulo da estupidez, já que uma das tuas funções é assegurar o tratamento de uma caixa de email de um departamento inteiro e essa está organizada. Ou seja, cumpres por estar estabelecido, mas quando tem de partir de ti a estrutura, relaxas. Por toda a vida te organizares mentalmente assim, completamente fora do baralho. Em suma, ao menos a trabalhar tens de estabelecer regras para ti própria e não cumprir apenas o pré-determinado. Razão? Faz sentido e simplificaria a tua vida. Tão só.


Onde está a moralidade hoje? Para dentro: na admissão das falhas como alerta e incentivo a ti própria para mudar de atitude a arrumar o raio das gavetas da mesinha de cabeceira, os documentos do portátil pessoal e duas das três caixas de email profissionais. Para fora: no reparo de haver pouco quem admita erros e saberes que é essencial num tempo em que cada vez mais vinga a aparência e a bazófia de competência, substância e rigor, com críticas constantes e levianas apenas aos outros.


Porquê não largar as alfinetadas e elevares-te?, pensam. Não fazendo comparações, não julgando, preocupando-te só com a tua vida e não com a dos outros. Deixando de lado as insignificâncias narcisas e aproveitar o ires sabendo escrever para tratar assuntos relevantes. Serias tão mais aceite, tão mais amável. Era tão mais fácil dar o ar de sábia amável, tão mais fácil. Descomplicarias tanto a vida. Pena não seres essa pessoa perfeitinha que devias ser aos olhos de quem não paga os custos da perfeição, porém exige-a sempre – aos outros. Pena não teres a menor intenção de vires a ser coisa diferente do que és para agradar.


Insignificâncias, passem à frente, não percam tempo com narcisas fúteis. Leiam os inteligentes cheios de certezas acerca dos outros e plenos de substância.

O que é esta segunda-feira?

O verbo ostentar está hoje na berlinda e traz à mioleira a imagem de três mulheres cujas juventudes decorreram por volta dos anos 30 e 40, dos anos 60 e 70 e perto da viragem do milénio. Em comum o facto de estarem longe de serem burras e de terem escolhido para cara-metade homens que respeitavam e admiravam a sua inteligência. Os três comungavam de outra particularidade: nos primeiros anos de relação estranhavam a discrição das suas mulheres fora do círculo íntimo.


No primeiro caso o marido reclamava da ausência da habitual exuberância da mulher quando nas reuniões sociais via os (e as) demais convivas exibirem muito charme e sapiência. Desencantado já em casa dizia não entender: se sabia que a sua mulher era muito mais inteligente e culta do que o comum daqueles convivas, por que razão se inibiria? No segundo caso o marido irritava-se com o desleixo e preguiça de mui bem-sucedidos colegas de profissão da mulher, que sabia desempenhar o ofício com rigor, competência e talento raros sem especial reconhecimento. No terceiro o namorado confessava-se triste com o facto do brilho e desenvoltura que observava na namorada no dia-a-dia extinguir-se em reuniões de grupos alargados de conhecidos; também não gostava da forma como a desconsideravam nalgumas reuniões com próximos.


Este traço de personalidade apesar de não ser regra é comum a algumas mulheres portuguesas. E desenganem-se os apressadinhos e apressadinhas que aqui vêem um handicap ou falta de emancipação, logo um problema de anacronismo por resolver pelas ditas. Talvez seja melhor inverter a questão e ponderar se o erro, a grosseria, não está do lado de lá, na confusão entre ostentação e valor. Uma confusão muito comum quando não há verdadeira inteligência e educação.


Em qualquer um dos três casos, outras amizades e outros amores enriqueceram a vida destas mulheres, mas algumas ocasiões puderam mostrar a pequenez e futilidade que grassa no mundo muito bem vestido para suposto jantar elegante, muito bem calçado de eloquência vã, muito retocado de maquilhagem pirosa. Muita conversa e elogios interesseiros, muitas teias de relações oportunistas, muita bajulação das famílias antigas ou figuras ascendidas à corte e ao quarto poder por factores que raro se fundam no mérito, muito fogo-de-artifício, trabalho e floreados por encomenda como depósitos de sapiência aspergida por gente cheia de si com muita vontade e facilidade em exibir-se em público e sem a menor noção do ridículo da sua vacuidade.


A terceira mulher em particular pôde constatar como algum mundo masculino é feito de chichés e pouco sabedor do mundo feminino para lá do conhecimento parco e interpretação básica de algumas mulheres, do cinema e das leituras. O tempo é ocupado com prioridades como o futebol, a pseudo-cultura das boas relações e interesses e suas fofocas, os floretes argumentativos sobre a escaldante actualidade trocados na comunicação e redes sociais, rematadas com a cereja em cima do bolo - a "erudiçãozita" chamariz. Enfim, a futilidade do efémero e da aparência - sempre com muita audiência -, e não o essencial, tomam muito tempo e disponibilidade da massa cinzenta para que alguns homens (e mulheres) possam ir além dos preconceitos e lugares-comuns como o do encanto da fragilidade feminina, apesar de encherem a boca com alegado conhecimento, perorar e julgar as mulheres rotulando-as de estúpidas ou ignorantes, sobretudo, se não obedecerem ao figurino sofrível e sedutor das bem-sucedidas alinhadinhas com os estereótipos do tempo, os chavões de facção, as excitações dos temas do momento ou se não corresponderem ao protótipo arrebatador das bem-sucedidas que simulam irreverência e coragem – em suma, se não servirem para fazer claque. Um bocejo.


Se esta fosse uma crónica daquelas revistas femininas de meados do século passado, conteria um conselho a mulheres desavisadas: fujam de homens que não respeitam nem admiram a inteligência das suas mulheres. Dão péssimos maridos ou amantes e, em regra, são ainda mais burros do que aparentam, logo, não vos ajudarão a ser mais felizes.


(Continuas impossível de aturar. Uma maçada. Assim não arranjas amigos, nem boas relações nem casamento, menina :p)


Boa semana.

25/09/2024

Moralidades à quinta-feira

Ora, “vamo” lá despachar isto que é dia 1 e há muito que fazer. Só para dizer que hoje seria dia de Moralidades à quinta-feira, mas como sou uma bloguer de trazer por casa, não escrevi nada. Nem me vai sair nada de interesse de chofre. Deixo apenas a nota de que acordei muito mais inclinada para as imoralidades, por isso talvez não seja grande ideia fazer esfregas moralistas. A menos que variasse o título da rubrica semana sim, semana não: Moralidades à quinta-feira e Imoralidades à quinta-feira. Venderia mais nas semanas da apologia das devassidões. Afinal nada tem mais audiência do que a imoralidade – gosto particularmente dos invólucros justificativos e rendilhados retóricos que os intelectuais dão a essa necessidade tão humana de javardar.


Ontem depois de umas leituras distraídas por aí cheguei à conclusão que convém estar atenta por haver realidades que me passam completamente ao lado. Fiquei a saber que para encher espaços com muitos milhares de aficcionados ou se faz humorismo político ou se dão conselhos do género auto-ajuda lifesytle. O que revela o grau de carência de orientação da população. Existirão sempre pregadores convencidos(as) de serem portadores de mensagem evangelizadora. Pasmo com o grau de confiança na sua capacidade e habilidade de julgamento - como dizem as bruxas: o nosso lugar é aquele no qual nos colocamos.


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Pronto, e por agora é tudo. Daqui a mais uma ou duas horitas, depois de despachar tarefas inadiáveis, irei dar uma vista olhos por aí à volta. Antes disso e como não há dois momentos narcísicos sem três, conto apenas que conforme bom conselho que li ontem, mudei de passeio na caminhada habitual. Para a semana vou até mudar de rua. E os sapatos vão chegar a ter graxa, já que quem tem mãe tem tudo e a minha encontrou-me pomada para calçado azul. Prometo que não publicarei mais fotografias destas durante uns tempos.


Este post é uma batota. Não fui moralista o suficiente. Mas dar-lhe-ei o título da rubrica na mesma.