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04/09/2024

Três filmes

Já aqui comentei: não sou muito de catálogos, ou pelo menos não tenho consciência de ser, nem estruturei as minhas leituras e gosto pelo cinema e música. No que concerne à sétima arte a minha ignorância é enorme como, aliás, em quase todas as matérias. Há anos adio o retomar do hábito de ver filmes e, sobretudo, a intenção de vistoriar os clássicos. Os meus filmes, ou filmes da minha vida, como é uso dizer, não o são por serem grandes obras de arte, mas por de uma forma ou outra me tocarem. Se tivesse de escolher um filme pelo primeiro critério talvez fosse o Asas do Desejo, de Peter Handke e Wim Wenders, de 1987, primeiro grande filme que vi e me impressionou, aos 15 anos. Porém, o facto é que me deixaram mais marcas os mui fora de moda e politicamente incorrectos western spaghetti do Trinitá, o cowboy insolente, que vi em criança. Ainda hoje tenho na mioleira o divertido assobio mesclado no bater no chão da frigideira. Além de tudo, há sempre aquela margem de dúvida: será que os filmes que mencionar neste texto serão mesmo os da minha vida, ou haverá outros que, neste momento, me escapam. A Vida é Bela, de Roberto Benigni, será um deles. Para quem diz não ser muito fã de italianos este começo de post vai um tanto contraditório. Claro que faria muito melhor figura se nomeasse obras de Luchino Visconti Federico Fellini, mas além de mentir, estaria a pôr-me em bicos de pés. O que seria, pura e simplesmente, uma estupidez.


O segundo critério. O sentimento. Entre as três películas eleitas, uma foi premiada com vários óscares, sendo filme do ano, outra obteve o prémio de melhor actor, a última apenas a indicação para melhor actriz. Um terno de histórias de amor, cada uma comovente à sua muito distinta forma. Dizem que as mulheres só gostam de romances. Não tenho qualquer problema em admiti-lo. Há dias alguém comentava comigo que fora estupidinha na meninice por só gostar de ler romancezitos e sei que considera que eu nessa idade era muito mais sofisticada ou rija, digamos assim, engrenando em terrenos mais áridos. Devo confessar a essa pessoa, muito longe de estupidinha, que raro foi o livro, filme ou música que me passou pelos sentidos no qual não procurei encontrar uma história de amor. Sou mulher. E nunca fugi disso, apesar da aparência por fases de desligada e resoluta, nunca me desliguei do que é mais importante e sempre sofri. Na viragem do século alguém me ofereceu o romance Corpos e Almas, de Van der Meersch. O ofertante já morreu e ainda não li o livro, mas lembro-me do momento em que me passando o romance para as mãos, aconselhou que me dedicasse aos ensaios. Disto falarei noutro post que venha a dedicar aos livros.


Um último preâmbulo. Não sei passar pelos livros, filmes e músicas sem me imiscuir neles. Entram-me na vida e nas entranhas. Será narcisismo, mas é assim. Será infantil e tolice, mas não finjo. Não sei fazer de conta que sei fazer avaliações objectivas sobre obras de arte como se cada uma não espelhasse parte de mim. Como todos, estou em toda a parte, só não faço de conta que não, como poucos.


Os filmes. África Minha, de Sydney Pollac, de 1985, é o primeiro dos meus eleitos e é uma espécie de herança. Herança de África, herança materna, herança de amor livre. Explicando sumariamente estas ideias. Nasci em Angola, porque os meus pais lá viveram 10 anos, e apesar da realidade do início do século XX no Quénia nada ter a ver com a de Angola no último terço do mesmo século, há uma forte afinidade de se agarra à pele de quem nasceu ou passou por África. A minha mãe adorava o filme, pelo que o vimos várias vezes em casa. É sublime a beleza da história de amor entre Karen Blixen e Denys Finch Hatton. 


Ter saído de África ainda bebé, sendo filha de pais e tendo irmãos com memórias ricas de lá, fez-me criar um mundo de imaginação sobre Angola e as suas gentes. Um universo de desejo de beleza. O África Minha veio apaziguar da forma mais bela essa saudade irracional, que pela lógica da falta de memória própria não poderia existir. Com as paisagens desafogadas de cortar a respiração - o vôo a dois no pequeno avião é do outro mundo -, a magnífica fotografia de ricos pormenores, como as do interior da casa ou da varanda de Karen Blixen ou da chuva torrencial, do acampamento na savana, os leões no final, a banda sonora magistral de John Barry que continua a fazer-me chorar, os diálogos inteligentes, elegantes e de francos subentendidos, a sublime história de amor livre, a afirmação de uma mulher pelo carácter num ambiente e época hostis, fazem deste um extraordinário filme. Regressei a Angola aos 31 anos e por lá estive menos de um mês. Claro que o mundo da fantasia se desfez. Confrontada com a realidade, estranhei. Mas manteve-se imaculado, aliás aumentado depois de ter regressado, o amor por Angola e os angolanos, cuja beleza, altivez e coração sempre me comoverá. Parece patetice generalizar atributos de um povo, gabando-o. Talvez sugira que pretendo apelar ao sentimento ou ser demagoga, mas é tão só a verdade. Se for alvo de desdém tanto melhor para os iluminados muito informados e realistas. Tenho a  sorte de quase todas as semanas poder conversar e ouvir angolanos ao telefone e como é bom escutar aquele cantado - faz-me matar a saudade esburacada mas eterna da terra onde nasci e mal conheci, à qual não posso chamar minha.


Morrer em Las Vegas, de Mike Figgis, de 1995 é o segundo filme da minha vida. Não é uma película prestigiada. Não é uma obra de arte a que se devote tempo e atenção. Tem como protagonista o eterno faz tudo sempre desconsiderado como grande actor norte-americano, Nicolas Cage. É um filme que toca as margens. O limite da degradação e o submundo. Fala-nos de suicídio de modo pouco convencional. Quando vi o filme tinha 22 anos e fiquei extraordinariamente tocada por ele, não tendo à época razão aparente para tal. Vi-o há muitos anos e tudo quanto diga de seguida tem mais a ver com devaneios meus do que com o filme em si, cuja memória é vaga. Mas não haja dúvida que são peças como estas, nas margens, que nos despertam para o que sempre há tendência de fugir. Comoveu-me de forma significativa o amor da prostituta Sera, interpretada por Elisabeth Shue. Há muito considero que todas as mulheres transportam em si uma puta e quanto mais a escondem menos mulheres são - menos ser humano completo. É fácil dizer que todas as mulheres trazem consigo o apelo da maternidade, é belo. E convencional. Nada faz mais sentido. Escrevi aliás na entrada para as Tílias, Filha e Maternidade, que por mais que nos queiram dizer que não se pode escolher entre o mal e o bem, por mais que digam que não existe essa fronteira, ela existe e está na maternidade, na vida. Se quiseres, na continuidade da maternidade. [...] é uma pequena centelha que nos dá sentido. E se não a experimentarmos de modo natural, ao menos tenhamos a sensatez de respeitar a beleza integral. Acrescentei: ao criar-te, minha filha, tenho a preocupação de não te despegar da humanidade, não só por convicção de que é o bem, como por amor à arte (peço desculpa por me citar, parece o cúmulo do narcisismo além de ser de muito mau gosto, mas é tão só por ser prático). Nada disto obsta a que a mulher reprima a sua dádiva - é sublime o dom de se entregar. O vil metal só entra na história do mundo para corromper a beleza do amor e marcar a prostituta como proscrita. É um modo torpe para inculcar culpa na consciência das mulheres. Toda a violência sexual do filme é grotesca, repele, como a violência da vida que a tantos atrai ou é indiferente.


O filme é sobre degradação. Nunca fui próxima de bêbados ou drogados - bom, talvez no liceu tenha conhecido alguns drogados em estádio muito avançado, mas apesar da amizade mantinha uma distância cautelar. A degradação física ou mental atira-nos para as margens da sociedade. E há muitas formas. Na casa dos 20 deparei-me com a minha fragilidade emocional e, mais tarde, o Universo encarregou-se de tirar a visão ao homem mais importante da minha vida, quando estávamos afastados. Porquê fazer a associação? Pela simples razão de na qualidade de cego e de pessoa emocionalmente frágil, o Nuno e eu conhecermos bem os preconceitos sobre margens. Somos imperfeitos e isso repele. Temos essa consciência e por mais normal seja a nossa vida e mais bem cercados estejamos de boas pessoas, a marca está lá. Quando assim é, entende-se melhor o preconceito sobre todos os marginais e até a incompreensão cristã, que é pouco cristã, sobre a imperfeição, seja de que natureza for. Além de outra ligação forte ao filme, que acaba por ser também o retrato do suicídio - tema a que tenho um enormíssimo respeito e é também por respeito a mim própria que não exibo. Digo apenas, como sempre, que é preciso acreditar na dádiva e na cura - na ressurreição.


As Pontes de Madison County, de Clint Eastwood, também de 1995, é o meu terceiro filme. Uma bonita história de amor maduro e de separação. Amor tão lento em pouco tempo. Feito para durar. Uma belíssima fotografia e a causa da primeira discussão que tive com o Nuno. Ao falarmos do filme disse-lhe que Clint Eastwood se deveria ter limitado a realizar, dando o papel de actor a outro. Respondeu-me que eu não percebia nada de cinema. Agora olho para as fotografias do filme -, vejo a imagem de Clint Eastwood - e percebo o quão novinha era quer à época em que vi do filme, quer mais tarde aquando da pequeníssima discussão - marcante por ser a primeira. O que explica tudo. Não vou falar muito do filme, não tem muito que se diga. É uma questão de se ver. Mas não posso deixar passar a nota sobre a extraordinária actriz que é Meryl Streep e de continuar a estranhar a forma como alguns, especialmente homens, cilindrados com a mestria que a actriz tem vindo a revelar ao longo da carreira são incapazes de se renderem. Acusem-me de feminismo galopante, mas nunca me resignarei ao facto de alguns homens não reconhecerem não só talento como magia numa mulher ímpar, quando facilmente enaltecem figuras masculinas - e também femininas - de muito menor dimensão. É uma menoridade de alguns homens - e estranhamente de algumas pessoas do sexo feminino -, e táctica para manter as mulheres num patamar de inferioridade. Uma mulher com talento mediano nunca competirá com figuras masculinas de maior dimensão, por isso é merecedora de elogio, já uma mulher ímpar é capaz de rivalizar. Daí causar tanta hesitação ou mesmo repulsa e medo.