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31/07/2022

Draw With Me


Ao longo da semana li e ouvi duas referências à falta de maturidade de certos jovens. Em ambas as ocasiões pude constatar o absurdo de rotular de infantis comportamentos só por não se enquadrarem na linguagem correctinha da psicologia barata, cheia de lugares-comuns e ideias preconcebidas do que deve ser o mundo adulto. Confundem maturidade com adesão a quadro mental e linguagem palerma de tão aparente sinal de emancipação, independência e perfeição nas relações humanas.


Dramático é verificar que quem tem idade para educar, deseduca. Triste é não dar espaço ao crescimento livre. Assustador é temer a ingenuidade e confundir maturidade com pura adesão à sofisticada palermice dominante, à fantasia do mundo plástico na moda, que alguns tomam por virtuoso, querendo impingi-lo à força às gerações mais novas.

Diário

Dois dias diferentes, dois dias iguais.


Ontem, tarde e noite em reunião familiar com espaço, água para nadar, conversa plena de cumplicidade e picardia. Mãe, irmãos, cunhada, primo, sobrinhos, Nuno e eu (e cão). Alegria, riso. E, no momento em que duas borboletas nos sobrevoaram, vejo um dos meus irmãos abrir os braços, como quem abre as asas. Imóvel, como em criança fazíamos para que as borboletas pousassem nas pontas dos nossos dedos. O certo é que elas pousavam. Fim de noite de troca de mensagens com velhos amigos, depois da qual adormeci no sofá, onde acordei hoje perto das dez horas.


Amanheci com mais mensagens bem dispostas de amigos cheios de grandes ideias para jantares e viagens. E de troca de informação útil. À tarde a má notícia. Partimos para Braga para a despedida da tia N., que deu exemplo de vida ao encarar os seus últimos e difíceis anos com coragem, sempre afirmando: "amanhã é outro dia". Em momento algum se deixou perder para a autocomiseração, que destestava. Para ela já não será, mas para o meu tio e primos amanhã será outro dia duro, triste, difícil. Espero que a força do elo, a ideia de que somos uma rede sólida que está cá para as alegrias e para as tristezas atenue um pouco a dor. De uma coisa podem estar certos: a tia N. era adorada pela família. Vai-nos fazer muita falta, ainda que saibamos que vai para junto de pai e mãe.


A presença de espírito da tia N. era notável. Em criança num dia mau a minha mãe, terminada uma discussão, disse-me que tínhamos fazer as malas. Ora, bem mandada e um bocadinho calhau, fui para o quarto arrumar as minhas trouxas em sacos, já que íamos deixar Valinhas. Não fosse a chegada da tia e o seu pragmatismo a sossegar-me com toda a calma do mundo que não íamos a lado nenhum e aquilo era só uma má disposição passageira, esse dia teria sido bem mais difícil. Amanhã é outro dia, e foram muitos outros dias em Valinhas e Lagos com a exuberância, genica, criatividade e boa disposição da tia N., que me incutiu o gosto pelas mudanças de casa e jogo de cartas, nos quais não tolerava batota. Honestidade total à mesa de jogo como na vida.

30/07/2022

Sábado

IMG_20220730_195751.jpg O meu sobrinho Tim. Um dia esplêndido. 

Recapitulando




Socorro, o mundo é gigante


por Isabel Paulos, em 16.07.21


 


Se há o hábito de pensar na vida, fatalmente se chega à conclusão que o mundo e o conhecimento sempre estarão além. Com maior ou menor felicidade todos os dias se argumenta, todos os dias alguém se debruça sobre fracção ínfima do Universo e tira conclusões. Ainda que tenha o cuidado e a seriedade de questionar o que é preconcebido no raciocínio e aquilo que passa ou não o teste de validação de veracidade, esta será sempre parcial. No dia seguinte, talvez no próprio dia, quando não no exacto momento em que se acaba de proferir a afirmação original, se a postura for honesta, outros raciocínios irão contradizer o pensamento inicial. A procura da verdade é um processo difícil e doloroso, em que a todo o momento se é confrontado com as próprias contradições.


E se há mais de dois milénios no Ocidente – no momento em que surgem os primeiros questionamentos e arranjos filosóficos - parecia possível chegar-se a uma concepção do mundo satisfatória, hoje a tarefa é monumental. Não só o conhecimento do mundo físico aumentou exponencialmente, como os processos de intelectualização do pensamento se foram complexificando de modo absurdo.


E nem é preciso recuar tanto. Se retrocedermos aos séculos imediatamente anteriores - ao tempo das enciclopédias -, percebemos como havia genuína intenção de conseguir reunir em obras mais ou menos extensas todo o saber do Universo.


Onde parará este optimismo e ingenuidade quando comparados com a estupefacção face ao fluxo massivo de dados, informação, conhecimento e sabedoria actualmente à disposição da população mundial? Será que a maioria apenas conseguirá ter a percepção dos dados e da informação – forçando muito a barra, como diriam os brasileiros: o seu julgamento viverá nas sombras da caverna de Platão – e só uma minoria alcançará o conhecimento e sabedoria – ousando mais uma vez: acederá à realidade fundamental das formas ou ideias.


Porém, a questão é: face ao gigantismo da realidade a conhecer, será possível chegar à Verdade, dada a dificuldade de obter uma concepção que explique de forma satisfatória o Universo, o seu funcionamento e o sem-número de ideias que sobre ele versam?


A atitude de alguns é a de se alçar ao patamar do conhecimento e da sabedoria, pisando os que pressupõem a eles não conseguirem aceder, não tomando consciência da fragilidade do próprio conhecimento. Raramente vejo os bem-pensantes admitir erros e contradições. Salvo em falso discurso para dar o ar de tolerância – quando não de condescendência sobre os pobres néscios. Raramente confessam as suas fragilidades e não parecem perceber que sem o fazer não têm ossatura nem o direito de apontar erros a terceiros. Ora, a prosápia é a forma mais infame de desconhecimento – os que têm a possibilidade de aceder ao conhecimento, têm obrigação de perceber os mecanismos de construção do pensamento; têm maior responsabilidade. Sucede que não raro, ao menos em Portugal que é a realidade que conheço, foge-lhes o pezito para a pura maledicência e presunção sem fundamento – se é que alguma vez a presunção pode ter razões de base atendíveis. Perdem-se em injúrias contra a ignorância atrevida, a ignorância voluntária; em suma, contra a estupidez. Odeiam o mundo da discussão das massas, ficam de pêlo eriçado quando observam uma mulher ou um homem fora do mundo académico, fora do gueto de amigos intelectuais, fora da tribo daqueles que preconcebem como pessoas que se podem ouvir ou ler. Nuns casos, a arrogância é de tal modo doentia que são incapazes de escutar ou decifrar o que dizem os anónimos por falta de pedigree (e por contraposição aos peões dos palcos formais e institucionais do conhecimento), noutros a falta de seriedade é de tal ordem que ouvem e lêem estes homens e mulheres desconhecidos e aproveitam abusivamente os seus contributos, sem jamais os considerarem como iguais ou reconhecerem a validade do seu pensamento.


A título de exemplo, esta arrogância face ao presente texto ditaria qualquer coisa do género: olha, uma atrevida ignorante a tentar numa passagem dar o ar de inteligente, com paralelo infundado e desajustado a Platão sem perceber nem aprofundar, por ignorância voluntária, o estudo da obra. A presunção exigiria três citações, quatro referências bibliográficas e uma menção a amigo interessado rotulado de eminente pensador, para que o texto pudesse ter validade. Quando a simples abertura de espírito e humildade ditaria que antes de etiquetar o presente texto como lixo, se pudesse talvez vislumbrar numa simples linha ou par de palavras, um pequeno e modesto rastilho para pensar.


Mas não, o julgamento será: é muito atrevimento, muita ignorância, muita estupidez.


O mesmo acontece aos incalculáveis milhões de observações de desconhecidos encontradas no espaço online. A mais pungente manifestação da Democracia – as redes sociais -, não é necessariamente um esgoto a céu aberto como tantos querem fazer crer. As redes sociais têm muitas fragilidades, mas estão expostas e as suas falhas são na maioria das vezes assumidas pelo pensamento dominante. Ao contrário das debilidades de quem só conhece livre pensamento (esclarecido) nos canais recomendados, tantas vezes por critérios pouco claros e pouco honestos. Na melhor das hipóteses, por medo de ser engolido por essa onda gigante de opinião.



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29/07/2022

Mario Vargas Llosa

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[...]


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Yonder Mountain String Band


Mais uma semana. Mais um mês (útil). Ufa.


Os próximos dois dias adivinham-se bem-dispostos.


Bom fim-de-semana. Divirtam-se.

Estabilidade

Conheço várias pessoas, sobretudo mulheres, para quem a entrada dos 30 foi uma marca muito positiva. Por razões de realização profissional ou pessoal. A conquista de estabilidade no campo da formação ou laboral e de constância na relação afectiva, máxime a vinda de filho ou filhos, fez desse período uma marca memorável. É certo que nos dias presentes esses objectivos de vida são cada vez mais postergados.


Como já por aqui aflorei casar e ter filhos, um desígnio apesar de tudo ainda muito comum na minha geração, não era um sonho meu de adolescência. Para mal dos meus pecados, Deus fez o favor de me dar na casa dos 20 e início dos 30 a vida que idealizei em miúda em traços muito mal amanhados - é o que dá não definir bem o que se quer, Deus apanha o esboço e despacha o pedido sem grande cuidado, à trouxe-mouxe. A bem da verdade admito que na próxima encarnação vou escolher ser mais "normalzinha". É que parecendo que não o mundo está montado para pessoas standard, não se compadecendo de esquisitices. Além de mais é muito confortável aparecer nas reuniões familiares e de amigos devidamente acompanhada, e de preferência com a mesma pessoa durante longos períodos. Dão-nos muito mais crédito. É tudo muito mais tranquilo e sereno. Muito conveniente. Quando nos apresentamos sós, teremos sempre alguma pecha, especialmente se formos mulheres: encalhadas, vadias ou fufas. Vá estes são os três rótulos mais comuns. Aos catalogadores não passa pela cabeça consultar a astrologia, senão logo dariam conta que há gente com tendência para o celibato ou para amancebar tarde. Gente manienta cujos astros se alinharam de modo a levarem a liberdade muito ao pé da letra, fazendo finca-pé em não abrir mão da sua quota de independência. Ou então e quanto mais não seja por puro mau-feitio. Má-língua por má-língua podiam usar as bruxarias em vez dos anátemas herdeiros da claustrofobia imposta por interpretações estreitas da tradição religiosa. Não andam tão longe assim e os astros apesar de tudo parecem ter mais abertura de espírito.


A chegada aos 30 pedida por muito conturbada não foi particularmente feliz. Até lá nem estabilidade profissional nem emocional. O meu primeiro contrato sem termo foi aos 33 anos e só juntei trapinhos aos 41, depois de quatro anos de namoro com o Nuno em segundo round, já que nos havíamos conhecido e namorado quando tinha 26/27 anos. Até então tudo o resto foi desarrumação de vida e navegação à vista.


Só depois dos 35 serenei e pela primeira vez na vida me senti compreendida e capaz de me dedicar por inteiro a outra pessoa, fazendo-a centro da atenção, preocupação e amor. A entrada nos 40 foi bela e feliz por essa razão. Vivida intensamente, sem a desordem da entrada nos 30, sem a inconsequência dos 20.


A aproximar-me dos 50 (falta menos de ano e meio) volto a focar-me mais em mim e na preparação da maturidade - esta só de gozo, dita por uma criançola. Introduzi uma série de pequenas alterações na vida para me sentir melhor. Com esperança, mas nunca a certeza, de seguir pelo caminho certo. Ainda há mais mudanças no encalço, como tanto gosto.


Depois de acabar de escrever este texto voltei à sensação de estar a descrever a vida de muitos, aliás, de muitas outras mulheres. Às tantas é só necessidade de me sentir acompanhada.

28/07/2022

Cigarros

As imagens das marcas de cigarro que fumei.


Comecei a fumar cedo. Demasiado cedo. Depois de umas passas aqui outras acolá, comprei o primeiro maço no dia que fiz 14 anos – um SG Ultra Lights. Dia de uma decisão difícil. Esse pacote ao menos durou quase um ano. Mas aos 15 já fumava um maço por dia e assim me mantive até aos 40,  quando dei por mim a dar cabo de cerca de 30 cigarros por dia. No liceu, entre o 10º e o 12º ano fumei SG Filtro e Gigante. Coisas levezinhas, como se vê. Uma estupidez. Ainda por cima filha de pais que davam o bom exemplo, não fumando senão muito raramente (e sem travar, coisa que nunca percebi como se consegue fazer). O certo é que três dos quatro filhos não seguiram o bom exemplo, preferindo aderir a hábitos perpectuados pela família alargada e amigos. Dizem que em criança pequena andava atrás das tias fumadoras, de lápis de cor e afia nos dedos, a fazer as vezes de cigarro e isqueiro tratando-as por tu. O máximo, devia achar na qualidade de macaca de imitação.


Nunca gostei de Marlboro apesar de ter fumado algumas vezes, quando fora do país. A primeira em 1990 no sul de Inglaterra, quando lá estive umas semanas sozinha num curso de Verão (um dos melhores presentes que recebi na vida). Nessa altura também fumei John Player Special, a marca mais barata do mercado – foi com esta referência que lá no aeroporto me entrevistaram num inquérito sobre hábitos tabágicos. A última vez em Luanda em 2005.


Na faculdade passei ao L&M e não sei se o Português Suave é desse tempo ou posterior – tenho falhas de memória. Salvo épocas de exames e orais, continuei na média de um maço por dia, muito expandida nessas alturas. Depois aderi ao Chesterfield Lights, que me acompanhou vários e os mais difíceis anos. Fiz três tentativas de deixar já a trabalhar. Uma em 1998 numa viagem aos Estados Unidos, conseguindo estar três semanas de abstinência, até acabar por comprar maldito Marlboro. E duas mais tarde, de cerca de 10 meses cada, uma delas também por imposição de estar fora do país (não os 10 meses), desta vez na Austrália. Ainda sou do tempo que se fumava nos locais de trabalho – lembro que já procurava as varandas e corredores, mas o facto é que os ambientes (e a roupa) tresandavam a tabaco.


Assim continuei até ao dia seguinte ao aniversário dos 42, quando fui operada para extrair a tiróide. Fumei o último cigarro a acompanhar o café que rematou o almoço e à noite fiz a cirurgia. Não tive qualquer dificuldade em não voltar a fumar. Não fiz esforço de espécie alguma, o que atribuo ao facto de estar apinhada de medicação. Foi o largar de vício mais fácil que se possa imaginar. Como nem tudo são flores engordei mais de 20 quilos, o que para quem já tinha ganhado outros tantos uns anos antes não convinha muito. Mas não há saúde sem senão. O certo é que volvidos sete anos lá consegui arranjar maneira – outra cirurgia – de perder parte substancial do peso ganho (ainda em processo de diminuição). A parte gratificante é ouvir a minha enteada dizer que já não chio a respirar. Para quem como eu viveu em criança os últimos anos do avô com problemas respiratórios graves e tem duas tias com maleitas semelhantes, conseguir fugir da sina é uma meta.


Quando parei de fumar disse comigo própria, como já aqui contei várias vezes, não estar a deixar mas a interromper o vício por 40 anos, para ter possibilidade de lá chegar. A meta são os 82. Pode parecer leviano, mas é uma forma naïf de incentivo para encarar a falta deste gosto. Quanto mais não seja porque tinha mesmo imenso prazer no tabaco. Há cigarros que sabem pela vida (o problema é que por vezes custam a própria vida). Haverá coisa melhor do que partilhar um cigarro?

Começar mal o dia

Comecei a manhã a assistir ao atordoamento de uma pomba cinza que voou contra um vidro a dois metros de mim, indo cambaleante esconder-se no bueiro da rua mais perto. Três metros adiante uma outra já morta no asfalto.

27/07/2022

Yanni

Agenda

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O tempo não tem sido muito, mas há vários apontamentos na cabeça para explanar na melhor oportunidade. Como não anoto em caderninho nem sequer em blocos de notas digitais, senão aqui mesmo em público no blogue, alguns acabam por ser perder. Não deve ser grave. 


Em Outubro do ano passado aqui dei nota dos meus périplos virtuais de comboio. Além de outros destinos andei vários dias perdida nos Andes à conta de um sonho de miúda. Em Dezembro a SIC começou a apresentar no final do Jornal da Noite a óptima série Comboios do Mundo, que logo elogiei. Apesar do interesse não tenho seguido todas as viagens apresentadas na SIC. Mas hoje entrei a bordo do El Chepe, entre as cidades de Chihuahua e Los Mochis, no México. Mais uma vez, vale a pena.


De resto, há ideias soltas no ar, que gostava muito de me lembrar. Contudo chego ao cúmulo de não ter tempo para as apontar, quanto mais de desenvolver. Vão e vêm do pensamento. Quem me dera que o pin voltasse, mas nem por isso.


(10 minutos depois e de uma conversa para activar a memória.)


Quatro temas. Primeiro. A impressão de inconsistência nas grandes afirmações de conquista. Isto é, sempre que se descreve o sucesso como fruto do esforço e grande acerto nas decisões e caminhos tomados há uma margem de legítima desconfiança. A felicidade costuma resultar mais de descobertas do que conquistas e vitórias. Segundo. Recordar a passagem das décadas e a forma como foram sentidas. Um pouco contra-corrente do que vou ouvindo a outros. Os desastrosos 30. A alegre aproximação aos 40. Terceiro. A nova liderança do PSD. Posso estar enganada mas parece ter caído no goto dos fazedores de opinião - o que corresponde ao expectável. Luís Montenegro, a quem achava alguma graça como líder parlamentar, tem aquele condão bem do agrado dos jornalistas e comentadores de nunca espelhar a realidade tal qual é, mas cumprir a check list de lugares-comuns do quadro mental manipulado aceite pelos jornais. Sabe tornear a realidade para satisfazer os media. Isso infelizmente e para mal do país é o que é tido por facto e o que vende. A ver vamos se continua a receber as palmadinhas nas costas da comunicação social. Quarto. Face a mais uma bolada extra paga hoje para as obras do prédio, a realizar (espero) em Setembro próximo, é possível que a ideia de voltar (ao fim de alguns anos) a arejar fora de Portugal fique novamente adiada. Em rigor também não me apetece muito passear por aeroportos congestionados e aguentar vôos atrasados, adiados ou o diabo a quatro. Já agora, quinto. Viagens. Escrever sobre as viagens feitas? Talvez não, cada vez mais me apetece deixar isso para quando tiver 82 anos e puder acender um cigarrinho. Mas pode ser que um dia destes (daqui a meses, anos ou uma década) escreva a propósito, mais sobre sensações do que descrições. Qualquer coisa ligeira e sem pretensões. Afinal, sexto. Hei-de fazer nova entrada sobre cigarros. Esta sim, já havia pensado.

Ilusão do conhecimento

Há dias, depois de ter dado um bitaite rápido sobre o aumento das temperaturas na Terra, resolvi ouvir por aí, na comunicação social, um reputado cientista português sobre o assunto. Dei por mim desiludida. E coloco-me  a questão da razão para esta sensação de frustração. Sendo uma matéria em que sei pouco ou nada, estou habituada a ficar entusiasmada sempre que oiço cientistas ou gente com interesse e conhecimento na ciência. Sei que isto acontece por me alimentarem daquilo que desconheço. Por aprender. Nada mais sensaborão do que viver a ouvir e ler mais do mesmo. Sucede que senti isso mesmo ao ouvir o cientista. Em 10 minutos talvez nem tanto, limitou-se a atirar quatro ou cinco estatísticas a fazer lembrar os rankings do futebol e a repetir aquilo que oiço há anos os jornalistas afirmarem sobre o efeito estufa induzido pelos altos níveis de dióxido de carbono (até eu papagueio isto sem ter muita noção do que estou a dizer) e a necessidade de utilização de fontes de energia alternativa. Aliás, usou o mesmo tipo de linguagem dos jornais e redes sociais.


Continuo ao pensar que o excesso de informação e o constante papaguear de dados está a afastar-nos do essencial. Da explicação da causa das coisas. Algo está errado quando já não se distingue a locução de um cientista da do cidadão comum não particularmente ilustrado. Não podemos estar todos convencidos que sabemos muito ou tudo quanto é preciso saber. Nem convictos que todos podemos ensinar. Vivemos na ilusão do conhecimento.

Detalhes

Chego ao escritório e dou com os aviões a voar em sentido contrário. Costumam cruzar o meu olhar da esquerda para a direita antes de aterrar no aeroporto. Hoje vêm despedir-se à saída, da direita para a esquerda. É como se andassem em contra-mão. Assim é mais divertido, ainda vão a içar. Pena ser míope e não conseguir tomar conta da posição do trem de aterragem nem das companhias.


(não há o que lhe fazer, em criança levavam-me ao aeroporto para ver levantar e aterrar os aviões; estas coisas ficam.)


Afinal isto é como as plantas, também tem novidades. É por estas e outras que tenho dúvida de querer ficar em definitivo em teletrabalho.


Não há como estar atenta aos pormenores da jornada. Bom dia.


 


Adenda. Logo a seguir voltaram à direcção normal e reparo: se prestar mais atenção, vejo o trem de aterragem. As lâminas do estore cortam um pouco a visão, mas vejo.

26/07/2022

Hackers

Que bom. Acabo de ser informada que uma empresa de recursos humanos, à qual há anos forneci dados, sofreu ataque informático, tendo os ditos ficado expostos. Este está a ser um ano brilhante, não haja dúvida.

"A palavra menos obscena nesta música é foder"


Não raro Pedro Abrunhosa encanita-me com as suas opiniões. Não gosto de aproveitamentos para promoção própria.


Mas gosto muito menos de gente sonsa que se mostra sensível a vocabulário obsceno quando absolutamente justificado. Hipócritas, só não são sensíveis às aberrações, à violência, à tragédia, à injustiça.


Inteiramente do lado de Pedro Abrunhosa.


Acrescento: sempre que vejo alguém criticar o Abrunhosa pela falta de voz reparo que não tem a mais pequena noção do que é (boa) música. Gente presa a preconceitos, presumida e obtusa. Aliás, hoje vai a direito, exactamente o que me vai na alma: gente estúpida com a puta da mania.

25/07/2022

Mau feitio

Bem sei que sou do contra, mas a propósito da reportagem da SIC sobre o Comboio Histórico do Vouga tudo quanto me apetece dizer é que a monomania das recriações históricas tem o efeito inverso em mim. Até teria curiosidade em fazer o curto percurso de comboio, mas a ideia de levar com teatrinhos e representações para turista ver afugenta-me de tais ambientes.


Em 2016 fiz alguns passeios em Portugal a lugares a perder de conta as vezes que visitei desde criança. Cada um tem os seus pontos fixos de périplos nacionais. Óbidos, Nazaré, Figueira da Foz, Aveiro, Viana do Castelo e Caminha fazem parte dos meus. E corri essas capelinhas no Verão de 2016. A algumas já regressei. O certo é que me lembro de então ter sido brindada com as tais pantominices em Óbidos, cujo único efeito prático é tornar desagradável um passeio que teria tudo para ser bonito e proveitoso.


Já sei, é mau feitio. Mas é como é.

Vhils

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The Mills, Hong Kong - November 24, 2015.


*


Imagem retirada da página oficial de Alexandre Farto, Vhils.


Se tiverem curiosidade, visitem a página. Não darão por tempo perdido.

24/07/2022

Don McLean


*


Starry, starry night
Paint your palette blue and gray
Look out on a summer's day
With eyes that know the darkness in my soul

Shadows on the hills
Sketch the trees and the daffodils
Catch the breeze and the winter chills
In colors on the snowy, linen land

Now, I understand what you tried to say to me
And how you suffered for your sanity
And how you tried to set them free
They would not listen, they did not know how
Perhaps they'll listen now

Starry, starry night
Flaming flowers that brightly blaze
Swirling clouds in violet haze
Reflect in Vincent's eyes of china blue

Colors changing hue
Morning fields of amber grain
Weathered faces lined in pain
Are soothed beneath the artist's loving hand

Now, I understand, what you tried to say to me
How you suffered for your sanity
How you tried to set them free
They would not listen, they did not know how
Perhaps they'll listen now

For they could not love you
But still your love was true
And when no hope was left inside
On that starry, starry night

You took your life as lovers often do
But I could have told you, Vincent
This world was never meant for one
As beautiful as you

Starry, starry night
Portraits hung in empty halls
Frameless heads on nameless walls
With eyes that watch the world and can't forget

Like the strangers that you've met
The ragged men in ragged clothes
The silver thorn of bloody rose
Lie crushed and broken on the virgin snow

Now, I think I know what you tried to say to me
How you suffered for your sanity
How you tried to set them free
They would not listen, they're not listening still
Perhaps they never will

 

A ler

Manuel Cargaleiro: "Trabalhei tanto… Deve haver poucos pintores que tenham trabalhado tanto. Há um, o Picasso", no Observador.


 



Sou muito otimista e acredito na boa-vontade dos outros.


[...]


Sempre fui muito tímido, mas não tenho vergonha.


[...]


Nesse caso: qual é a sua mensagem?
É difícil dizer. A minha mensagem talvez seja orientar as pessoas para viverem junto à natureza e serem simples. O simples não significa que não conheçam os poetas. Ainda há poucos dias me lembrei do Agostinho da Silva, o filósofo. Passei um tempo em Brasília e ele estava lá, de maneira que à noite passeávamos e falávamos sobre estes temas.


[...[


Que relação tem com a religião ou com a espiritualidade?
Sou católico. Jesus Cristo foi enviado por uma força a que, para facilitar a vida, chamamos Deus. Tive uma relação muito forte com a Vieira da Silva. Na vida, na arte, na conversa. Conhecemo-nos em Paris. Um dia pediu-me para ir almoçar lá a casa, depois fechou-se comigo no atelier. Estava numa crise de confiança. Eu disse: “O Arpad é um grande pintor, muito bom do ponto de vista técnico, e a Maria Helena é uma bruxa genial.”


Que quis dizer com isso?
Que ela era o que era malgré ela. Não foi ela que quis ser artista, aconteceu ser assim. Ela foi intermediária, fez o sacrifício revoltado e sofrido de fazer as obras que fez. Sou exatamente o contrário. Aquela admiração que ela tinha por mim, vinha daí, ela via o contrário na minha obra. Ela sofria. Digo isto porque me falou na religião. Quando se assinalaram 10 anos da morte dela, a embaixada em Paris organizou uma cerimónia, onde até esteve a Maria Barroso. O jovem padre fez um discurso a dizer que a Vieira da Silva não era católica. Fiquei pior que estragado e disse ao padre que durante seis meses tinha ido muitas vezes a casa da Vieira da Silva para lhe ler excertos dos Evangelhos. Ela queria encontrar frases para gravar na pedra do túmulo. Como é que não era católica? Daí aquelas perspetivas que nunca mais acabam. Eu ponho flores, ponho alegria, ela não. Ela procurava o depois, o que há depois. Eu dizia-lhe: “Maria Helena, depois, depois… Depois há Deus.” É aquela força que não somos capazes de explicar por mais voltas que demos.


[...]


É verdade que nos primeiros anos em Paris conheceu Picasso e Max Ernst?
Conheci toda a gente daquele tempo. Com o Max Ernst havia uma amizade, ele era um velhote, eu era um jovem. Ele queria que eu fosse com ele ver exposições, para não estar sozinho. Com o Picasso, foi diferente, nunca falei com ele. Vi-o várias vezes, estive ao lado dele no Café de Flore. Por decisão, nunca me aproximei. Um dia, o Armando Martins Janeira, embaixador de Portugal em Tóquio, chega a minha casa e pede-me para ir comprar três bifes para o jantar, a mulher dele também ia aparecer. Eu morava no número 19, o Picasso no número 7 da Rue des Grands Augustins. Um dia cheguei ao talho e encontrei o Picasso. “Estou diante de um génio.” Não tinha nada para lhe dizer. Diria o quê? Que gostava muito da pintura dele, que ele era um génio? Tudo seria pouco. Senti-me tão pequeno ao pé daquele monstro que nem quis dizer-lhe nada.


Imagine que as pessoas faziam o mesmo consigo: que nem lhe falavam por o admirarem tanto.
Sou a pessoa mais acessível.


[...]


Para terminar: pode dizer-nos qual é o problema da arte portuguesa?
Não quero dizer mal de ninguém, a arte portuguesa tem grandes artistas. Sabe, todos os países do mundo querem ter um ou dois pintores em Paris, todos. Os portugueses que foram para lá nos anos 20 vieram-se todos embora. Malgovernados, com falta de espírito de sacrifício… Os pintores portugueses são fabulosos do ponto de vista técnico, a formação é ótima, têm todas as qualidades para triunfarem em qualquer lado. Mas, quando decidem sair de cá, olham para o que se faz nos outros países e pensam fazer o que veem fazer. Fazem o que os outros já fazem. Sabe qual é o resultado? Passam a ser artistas de segunda, não levam uma coisa nova. Olhe, há um miúdo fabuloso que gosta de mim, até vamos agora fazer uma coisa juntos. É o Vhils. Aquela ideia de picar a parede é admirável, ele tem uma visão de longe fantástica. Há uma profundidade na obra dele que admiro imenso. Ele está a fazer o que ninguém faz.


Já têm estado juntos?
Algumas vezes. Ele é do Seixal, onde há uma escola com o meu nome, e quando era miúdo via os meus trabalhos, porque eu organizava exposições e dava muitas coisas lá para as escolas. À volta da cabeça dele andam imagens das minhas cerâmicas. Fico todo contente, o miúdo tem 35 ou 36 anos. Há uns dias fui ao atelier dele no Barreiro, um pavilhão fabuloso, enorme. Vi lá um painel em madeira, todo pintado de uma cor. Digo-lhe assim: “Isto não está muito bem”. E o Vhils: “Quer pintá-lo? Eu dou-lho.” Portanto, já tenho uma ideia do que fazer, vou acrescentar, e espero trazer o painel aqui para o museu. Ele quer que assinemos os dois. Parece-me bem.


 


Divagações sobre sonho e morte

Em regra os teus sonhos são pacíficos. Com frequência muito povoados de conhecidos e desconhecidos, como já aqui contaste. Alguns divertem-te pelo no sense. Mas há momentos raros em que tens pesadelos. Cada vez menos. Em criança muito pequena arvoravas-te em defensora dos teus irmãos, que em sonhos julgavas mais novos, bebés ainda. A dormir fazias guarda aos manos com armas de meccano. Em novita tiveste de matar um desgraçado que te perseguia e queria fazer mal a um dos teus irmãos. Lembras-te do homem sentado numa esplanada e de disparares a arma em esforço vezes infindas até conseguires apagar aquele olhar persistente de desafio e ameaça. Mataste-o, era o que tinha de ser feito. Resolveste um problema. Fora estes pesadelos, ao longo da vida sonhaste com alguns assaltos às várias casas onde viveste e a coisa ficava sempre pelo suspense. Acordavas ainda no susto. Houve uma altura curta que ao adormecer vias imagens violentas. Questionaste uma médica sobre o assunto. Sossegou-te afirmando que a causa era fisiológica. A maior parte dos sonhos dos últimos tempos são benignos. Houve anos em que transferiste a pulsão protectora para o Nuno: acordavas sobressaltada noites seguidas amparando-o de queda iminente.


Na noite de Sexta para Sábado sonhaste com uma série de andaimes onde repousavam muitos corpos humanos mortos e feridos semi envoltos em cobertores de cor castanha. O que mais te impressionou é que a imagem não te comoveu. Longe do tempo em que eras mais nova e enfrentavas as aberrações estavas impávida a observar, com aquela protecção já tua conhecida de não veres o que dói. Acreditas que seja uma defesa de sensibilidade. Acontece-te na vida real por micro-segundos não assistir a tragédias. É certo que te defendes, olhas como se fosses uma lente que desfoca o corpo ferido ou morto, como tomasses consciência do ocorrido sem a violência do pormenor. Claro que foste ler as interpretações, difíceis de definir, apesar de saberes bem que são as imagens da Ucrânia a razão primeira.


Foges da violência, mas a morte não te assusta em particular. Assististe ao momento da morte da tua avó, de quem tanto gostas e admiras. Encaras a partida com naturalidade. Não é que a desejes, aliás gostarias de como ela chegar a velhinha, mas se viesse agora aceitá-la-ias. Tens sonhos para o futuro, mas não urgência de deixar pegada. Se acontecesse agora irias como se tivesses 10 ou 20 anos. Com devaneios vagos por cumprir. Nada de importante. Não foste aos 33 porque Deus te deu a mão e quis que ficasses. Tudo o que veio daí em diante foi bónus. E é assim que encaras a vida: um bónus.


É claro que te custa a ideia dos teus morrerem. É sobretudo mimo. A sensação de ficar atordoada sem o conforto dos mais queridos. E medo que sofram, claro. Aos quatro ou cinco anos, estando a tua mãe doente (nada de grave) entravas em parafuso. Pedias ao Universo que te levasse a ti primeiro por saber que não a aguentarias perder. Depois cresceste e começaste a aceitar as leis da Natureza.


 


Adenda.


Isto saiu uma mexerufada pouco conseguida. Ainda por cima neste texto deste por ti novamente a ter dúvidas na distinção entre forma pronominal dos verbos e o pretérito perfeito. Mais: ontem esqueceste-te do pin de um cartão e 24 horas depois ainda não conseguiste lembrar. Começa o recorrente cansaço do Verão.

Diário

Ontem foi Sábado. Começo de manhã de arrumação da casa seguida de breve ida ao supermercado. Almoço leve e natação logo a seguir. A melhor hora escolhida até agora. Pouca gente a nadar, sem aulas e chinfrim de música medonha a decorrer. A tarde passada em casa com a T., amiga há 35 anos. Conversa em dia, muitas notícias do remo, da vela. Muito trato do comezinho de parte a parte. De permeio o café do meu pai. Ao jantar veio também o P., pimpolho da T., que fui vendo crescer. Agora perto de fazer 18 anos. Sai à mãe na atenção a todas as minudências e na tranquilidade do trato mesclada com a exuberância visual: rastas, piercing argola no nariz e algumas unhas pintadas. Um doce de miúdo. O Ritz aproximou-se à primeira dos dois, coisa rara. Os gatos apreciam o tom de voz baixo e pouco estardalhaço. Ajuda também a smooth, que ligo sempre em suave volume quando recebemos alguém.


Ficou apalavrado jantar em casa da T. para final de Agosto dos quatro da vida airada. O C., o P., a T. e eu éramos um pequeno grupo de amigos da adolescência, bem esdrúxulo. Há anos não nos encontramos todos juntos. Os jantares acabam sempre a dois ou três, mais aderentes. A última a furar a reunião fui eu sem saber por ter saído em emergência para Almada - o C. ia fazer a surpresa de nos juntar aos quatro. 


Posso ter momentos maus e críticos, mas há dias bons. Passados, presentes e futuros. Tão simples.

Ingenuidade

Seguir caminho insistindo em acreditar além da dúvida nas pessoas e no carácter sincero e benigno dos gestos e sentimentos. Pôr o pé em ramo verde uma e outra vez. Correr o risco de acreditar e sofrer a correspondente desilusão não parece forma inteligente de viver. Não engrossar a casca. Seguir de varapau e trouxa ao ombro. Sempre. Indo. Deixar a pele sensível ao vento, sol e chuva. Ao amor. À rejeição. Ao desprezo. À indiferença.


Aprender.


Não sofisticar a retórica nem o coração em fraseados cheios de substância estudada, fictícia. Não empedernir os sentimentos com a lábia. Não falar do amor de cor. Não debitar rimas ou aforismos de bem-querença tão óbvios e certos que fedem a falsidade. Não lançar mão da eloquência para exaltar paixões que ardem mortas à nascença de tão calculadas. Não impressionar quem passa com profundas metáforas e perícias românticas. Preferir amar e perder a dar lições de amor.


Aprender.


Não aprimorar o pensamento com os penduricalhos da aparente erudição. Não falsear o pensamento com excesso de argumento e vã sapiência. Não dar o ar de tratar por tu os mestres e as suas obras. Não aparentar possuir resposta pronta para cada data, cidade, nome, música, pintura e por aí fora. Não exibir descobertas recentes como as acompanhassem desde o parto. Não dar o ar de saber mais do que sabe. Não dar o ar de ser mais do que é. Não enxovalhar a falta de instrução alheia para enaltecimento próprio. Não decalcar rótulos e clonar senhas de irmandade interesseira. Preferir ficar aquém, cada vez que se vai mais além.


Aprender.


Fazer a vida de pequenos passos. Sempre aquém, indo além. Indo. De varapau e trouxa ao ombro. Não fugir da ingenuidade como se fosse condenação à condição perpéctua de incapacidade e fracasso. Aceitar a candura. Condescender com falhas próprias exibindo-as sem pudor para sobreviver à auto-exigência. Desde início aqui nas Comezinhas, como no Fora do Baralho. Aqui como acolá há 20, há 40 anos. Acreditando além da dúvida no carácter sincero e benigno dos gestos e sentimentos de quem passa. De desilusão em desilusão, mesclada de pequenos e raros tesouros que ficam para a vida.


Aprender.

23/07/2022

Recapitulando


LEONARD COHEN - GOING HOME


por Isabel Paulos, em 21.07.20


 



Só ao encontrarmo-nos do lado de fora nos vemos inteiros.


Boa noite.


De raspão

Começou cedo e promete ser um dia cheio. A ver vamos se terei tempo para o blogue a meio da tarde ou se só cá volto de madrugada. Cá cairei para, como qualquer fedúncia, desaprovar o que me irrita e contar a vidinha tintim por tintim. Tudo aquilo que toda a vida critiquei e sabe tão bem.


A ver se escrevo o que ficou suspenso sobre a militância na ingenuidade.

22/07/2022

Pormenores

Pequenas irritações. Não raro quando vou tomar café na empresa dou com a caixa das pastilhas vazia. Não me quero armar (xi, expressão vulgar) em perfeitinha, mas quando tomo a último café não me passa pela cabeça não deitar ao lixo a caixa que acabei de utilizar e abrir nova, deixando-a pronta a ser usada por quem vem a seguir. Considero o mínimo de boa educação. Entendo-me bem com todos os colegas e não faço a menor ideia quem são os egoístas de serviço, mas é o tipo de coisa que revela o carácter de cada um. Imagino sempre que são as mesmas pessoas que na condução não dão passagem ou fazem de conta que se enganam na faixa para conseguir passar à frente dos lorpas cumpridores ou estacionam em locais onde é proibido, como paragens de autocarro. Mas claro isto já é imaginação, pode ser que não. Pode ser que se limitem a esquecer dos outros quando tiram café.

20/07/2022

Recapitulando


Verdes - Frutos


por Isabel Paulos, em 11.08.20


 


O melhor é deixar as teses sobre cheios de si e ilustres novos senhores dos tempos modernos – os triunfantes caterpillars das certezas -, que hão-de passar pelo mundo a argumentar sem sentir a matéria, e voltar ao meu verde chão de Valinhas. Voltar à essência. Continuar a distrair-me com a pouco sofisticada banalidade de refazer o mundo como ele se me apresentou. Ter crescido cercada de terra e verde fez-me consciente de começar a vida em franca regalia.


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A convivência diária com os tempos, as tramas da terra e o restolho de galhos de árvores habitados por corujas a cantar o hino a cheiro da terra e erva molhada. A perfeita quietude ao assistir do nojento lamber da placenta nas paridelas das gatas, às travessuras ternas dos cachorros ou à briosa ronda de vigília dos cães de guarda. O chiar das grandes chaves dentadas em castelo a rodar o segredo nas fechaduras e do ranger de portas perras. O aberto cheiro intenso e fresco das maçãs nas prateleiras das arrecadações, das sopas das panelas tripé de ferro e os estalos das achas secas no fogão a lenha. O toque áspero do empoeirado sótão e dos forros, no qual jaziam restos de mobílias antigas que pareciam reconstituir o tempo até à fundação. Tudo isto e muito mais me encherá afortunada memória até ao último suspiro. Entre as maravilhas que experimentei, as árvores de fruto têm destaque especial. E não deixarei de pagar tributo tentando apelar à memória para restaurar a imagem das árvores de fruto da minha infância, e para isso roubarei três ou quatro imagens por essa internet fora. Crescer numa quinta fez-me habituar a comer fruta colhida directamente das árvores ou apanhada do chão. Para os maníacos dos novos tempos as linhas que se seguem são uma overdose de glicose.


Começo pela especialíssima lima. Aprendi a gostar de comer limas amarelas com a minha avó, depois de dominar a arte de retirar o bagaço - as membranas brancas ou transparentes que cobrem a polpa e estragam o refrescante, ácido e doce sabor deste fruto. Uma heresia para os tempos de hoje, em que se recomenda comer o bagaço e as cascas dos frutos para aproveitar todos os bons nutrientes que neles se concentram. Se na laranja e em miúda cortava com a faca o branco e comia-o à parte antes da polpa propriamente dita – contra as recomendações familiares -, na lima essa táctica não era de todo recomendada, sob pena de não se conseguir tragar um fruto que bem descascado é um mimo. Isto, claro, falando na variedade doce da lima.


lima-arvore.jpgLima amarela.


Talvez este hábito de infância explique um outro costume que tive durante muitos anos: o de no final de refeição que contivesse gorduras ir à cozinha, abrir um limão e espremer uma metade directamente para a boca. Pena que o tenha perdido. É sinal que o organismo se habituou às gorduras tal como, infelizmente, se habituou ao excesso de açúcares que em novita mal tolerava.


No meu catálogo de preferência vem, em seguida, a maçã bravo de Esmolfe. Não sendo especial fã de maçãs, em geral, a bravo tem um aroma apetecível e um sabor rico. Entre uma variedade de cinco ou seis maçãs, era sempre a eleita. Gostava de a saborear junto ao tanque. O melhor dos mundos, refrescar a maçã que normalmente estava sobre o quente - acontecia em regra nas tardes de fim de Setembro -, indo passá-la pela água fresca da mina que jorrava do tubo, para esbater as manchas acastanhadas de oxidação a cada dentada. O pomar possuía outras macieiras para diferentes paladares: pé-de-boi, reineta, golden e pipo de Basto.


No departamento das ameixas as eleitas eram as vermelhas de polpa amarela. Nascidas de árvores tristemente sem tratamento nem poda por não estarem como as outras no pomar, mas sim no terreiro entre as tílias. As ameixoeiras frutificavam também no Verão e a par das maçãs eram o mais abundante fruto da quinta, onde existia um punhado de árvores das vulgares amarelas e uma ameixoeira caranguejeira. A estas últimas já ouvi chamar rainha cláudia ou aparta caroço e outro nome a cuja grafia não consigo chegar, pelo que me abstenho de nomear.


No Outono as janelas e porta da sala de jantar eram brindadas com a vista para uma das árvores mais bonitas que tenho visto, quando carregada de fruto. O diospireiro coroa-de-rei. Frutificava quando a árvore estava despida de folha, e só de ramos cinza ao pôr-de-sol volvia-se em pernadas douradas, apinhadas de largos e gordos corações cor-de-laranja no cimo cravados e enfeitados com a coroa suspensa pelo pedúnculo. Fruto apreciado pelos afins, mas não pelos da casa, que só lhe reconhecem beleza. No pomar havia outro diospireiro, mas dos mais vulgares, que dizem os entendidos não têm qualquer graça de paladar. Creio que depois de farejar cuidadosamente os coroa-de-rei nunca tive coragem de os provar. Ver comer a polpa fibrosa à colherada não é um espectáculo apetecível.


b4--bg.jpgDióspiro.


Existia uma solitária figueira, não sei porque razão desterrada para a ponta do patamar baixo do pomar, já abeirada de uma das matas da casa. Não tenho ideia dos figos estarem suficientemente maduros para serem saborosos. Talvez estivesse sombreada demais, mas não deixava de ser uma bela árvore. Os meus companheiros da escola primária diziam que o leite do caule dos figos verdes curava os cravos. Assim tentei fazer desaparecer a meia-dúzia de cravos que em criança me surgiram nos dedos das mãos.


Ao lado da árvore da lima, no patamar de cima, fulgurava um limoeiro adulto sempre apinhado de limões. E uma jovem luzidia laranjeira, que cedo começou a dar fruto. De laranja doce, ao contrário da velha laranjeira junto à parede lateral da eira que, de nunca ter sido tratada, dava um fruto leve, seco e repleto de grossa membrana branca. A única utilidade conhecida dessas laranjas era a de nos ajudarem a afinar a pontaria das espingardas de pressão de ar. No mesmo patamar mas no lado oposto havia, junto a uma das casas de caseiros, uma tangerineira de pequeníssimas e magníficas tangerinas, bem azedas e aromáticas.  


Das uvas havia castas várias, sendo as favoritas as das ramadas: americanas a que também já vi chamar morangueiras, e umas de mesa rosadas e longas cujo nome não sei. Vivi anos de vindimas, observei o tanoeiro consertar pipas, vi a aflição de uma pipa suspensa no gancho virar fora do atrelado do tractor com destino à cooperativa, assisti ao pisar das uvas a ao fazer do vinho. E de tudo quanto se liga às videiras, o que mais me dá pique à memória é a cor das parras no início de Outubro no caminho de ida e volta para as primeiras aulas da escola primária, e as pausas perdida nas vinhas a depenicar os raros e esparsos bagos distraídos da vindima e já encarquilhados e bicados pelos pássaros.


As bordas dos campos, onde abeiravam as matas da casa, eram ricas em silvas e amoras. Muitas e empoeiradas, algumas com teias de aranha e outra bicharada. Era arrancá-las aos muitos espinhos que nos arranhavam as mãos e passá-las por água antes de saborear. Outras vezes, só soprar. Ou, então, colher um punhado delas para que a avó fizesse o sorvete de amora para a sobremesa do jantar. Julgo que os ingredientes da iguaria se resumiam às amoras e ao iogurte natural. Digo natural por não ter memória de haver sombra de açúcar no sorvete. Nos muros da rampa de acesso à casa, junto dos ramos das glicínias, moravam as framboesas, mas a essas limitava-me a apanhar e trazer para casa. Aproveitava e trazia também os ovos, já que estava nesse piso e junto ao galinheiro. Mas aquela leve penugem da framboesa nunca me passou pelo gargalo. Tem o mesmo efeito do pêssego, no qual não consigo tocar na pele, o que me faz pedir que o descasquem, ou acabar por preferir nectarinas.


IMG_3856.JPGAmoras.


Na ponta da rampa das traseiras, no início da mata, havia uma cerejeira perdida entre pinheiros, carvalhos, e eucaliptos. Não se percebe bem aquele epifenómeno e era difícil chegar ao pequeno fruto amarelo avermelhado. Agora dou por mim a pensar se era mesmo uma cerejeira, já que não me recordo de a ver florida. Terei sido traída pela memória? Mas o certo é que do que me lembro dessa árvore, distinta pelo tronco das que a rodeavam, era a se ser o marco da partida da alegre descida corrida pela mata fora, calcando em viva restolhada as folhas secas, com destino à escola, mas agora por caminho alternativo ao da frente. Essa mata tinha o condão de ter também castanheiros, e quem não abriu ouriços com as solas dos sapatos antes de picar os dedos das mãos para tirar umas belas castanhas?


Puxando pela cabeça para me lembrar de mais frutos da quinta, recordo que na berma do pomar havia uma nogueira de que só tenho memória muito pequena, pelo que deve ter tombado num dos vendavais ou sido cortada. De qualquer modo, resta a memória das unhas e mãos encardidas daquele negrume viscoso que cobre a casca das nozes. E lembro que no patamar dos citrinos existia uma pereira. Nunca vi as pêras no ponto: ou estavam rijas como pedras, ou já caiam de podre. Talvez o tempo delas fosse naquele entremeio em que partíamos para férias.


Céus. Como me pude esquecer da nespereira, que ficava entre as duas tílias da frente e lado a lado com as japoneiras e os rododendros? O espaço mais íntimo do terreiro e que tento reproduzir na minha varanda. Tento. A ver vamos se a pequenita japoneira sobrevive a este Verão, mas ao menos a nespereira - e é sobre árvores de fruto que trata este escrito – está para durar.


É possível que me tenha faltado algum fruto, mas hoje fico por aqui. O texto vai longo para um blog.


 


Adenda 1. Um telefonema para a minha mãe foi suficiente para confirmar que a memória não me atraiçoou: havia mesmo uma cerejeira no fundo da rampa traseira. Aliás, uma cerdeira, com lá se chamava. E, pelo visto, anos antes de eu nascer existiu uma outra cerejeira, na base da rampa da frente. Que nos tempos antigos do bisavô acabava numa espécie de ginja: o 'chicherichi', isto é, cereja em aguardente (mimo, que agora me lembro ainda chegou ao meu tempo através da avó: uma ginja guardada na despensa por cada neto, pescada com a mínima concha de haste alta). Mas não vale enumerar o antes e depois de lá viver, se não este post não tem fim. Nesse caso teria que falar na plantação de framboesas, antes de grande parte dos campos da quinta serem terraplanados para darem lugar a ampla vinha. 


Adenda 2. Diz o meu pai que comia as cerejas da rampa e que me esqueci dos pessegueiros. Sei porquê. Como disse acima nunca consegui tocar em pêssegos (em rigor, consigo a muito custo). Eram árvores jovens e estavam junto da também novita laranjeira. Esta creio que foi mandada plantar pela minha avó já lá eu vivia, mas antes dos meus avós deixarem o Porto e passarem também a viver o ano todo em Valinhas. Acrescenta o meu pai que era o único cliente dos dióspiros coroa-de-rei e que os outros do pomar nem os pássaros queriam. O que confirma a regra: só os afins gostam. E lembra que as uvas cujo nome não me lembrava eram as moscatel.



 

Um dia como outro qualquer

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Depois do dia triste de ontem, arranca outro que desejo mais risonho.


Esta coisa da Terra fazer rotação sobre si própria e oferecer diferentes faces ao Sol a cada 24 horas, dando a volta ao dito a cada 365 dias, é muito bem pensada. A cada jornada dá-nos oportunidade de mudar para melhor ou pelo menos de perspectiva. Ao fim de cada ano estamos diferentes, mesmo parecendo nada mudar e cada hoje ser um dia como outro qualquer.


O Universo é uma engenhoca muito perfeitinha.


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(a propósito da visão, à chegada, do primeiro avião a dirigir-se ao aeroporto, em rota diferente do habitual; os seguintes já retomaram a direcção costumeira.)


Bom dia. 

19/07/2022

Eterna injustiça

Ao longo do dia tenho pensado na volatilidade da opinião e do gosto dominante. Tudo quanto é vendido como verdade ou produto de altíssima qualidade num momento poucos anos depois passa a causar tédio. O pior e o melhor caem no mesmo saco por razões que se prendem mais com excitações e querelas de facção ou corrente do que com um juízo cuidado e válido de mérito.


Todo o aviso sensato feito há 30, 20 ou 15 anos, ignorado ou mesmo espezinhado por quem debita vacuidades no espaço público, sempre cuidando de ser aceite pelos pares, é agora, que já vende e por isso rende muito sob ponto de vista pecuniário ou de notoriedade, apresentado como verdade irrefutável. Chegam tarde, como é costume. Estariam certos se volvêssemos duas décadas. Mas a descoberta da pólvora com décadas de atraso continua a ser o que vinga – não vale a pena resistir, quem o fizer estará sempre fora do tempo e sairá sempre derrotado pela opinião dominante, voto e realidade imposta pela moda.


Dei por mim a recordar frases redondas de adesão quase unânime, que vão sendo repetidas todos os dias na rádio, televisão, jornais, blogues e redes sociais. Sobretudo no domínio da actualidade, que é termo mais propício ao frenesim e julgamento fácil do que ao rigor. Palavras vazias de sentido decalcadas entre os clãs que vivem da propaganda vertida nos meios de comunicação social (e nos últimos anos nas redes sociais). Sob pretexto de informarem e ajudarem a educar a população vão a todas como cães de fila, sem tempo de digestão, para no fim se limitarem a regurgitar os habituais mantras de conversão das massas. Um sermão dominante acrítico, com pequenas nuances e retoques de modernização da linguagem, preso a insignificâncias, a inclinações pessoais de gosto, à frivolidade e ao gracejo fácil. Cego ao que é importante. Indiferente às verdadeiras desigualdades e injustiças. 


As modas passam e as injustiças no país vão-se perpectuando. Só sobra, sempre igual a si própria, a eterna vontade de partir.


De tudo isto me lembrei ao ouvir o 125 Azul dos Trovante, música que desde sempre gostei muito.

Trovante

A ouvir neste momento

Atrasos

Num mundo de tantos virtuosos(as) e sabios(as) capazes de tudo denunciar e ensinar continuas caminho a exibir as tuas pechas. Às vezes dará ideia estúpida que te orgulhas delas – não seria de todo descabido já que é forma de te reveres na humanidade -, mas não. De cada uma destas imperfeições resultaram atrasos e falhanços na vida, que preferias não ter sofrido.


Há quatro meses, quando afastada do trabalho cerca de 20 dias por doença, mudaram o horário na empresa das colegas que contigo dividem tarefas e sala (já passou o tempo de privilégio da pandemia em que tinhas um gabinete só para ti), passando a entrada para meia hora mais tarde. Ao regressar e tomar consciência disso, assumiste que aquele também era o teu horário, pelo que ao fim de tantos anos viste-te na circunstância nova de todos os dias chegares a horas ao local de trabalho (ou mesmo antes da hora). Se não foi premeditado, não poderia ser melhor pensado para obter o resultado certo.


Nos primeiros anos, nos muitos empregos que foste tendo, sempre chegaste atrasada entre 15 e 20 minutos (eras pontualíssima no atraso).  É certo que nunca tiveste horas para sair e nesse caso não se tratava de minutos, mas de várias horas extra não remuneradas. Ainda assim nada justifica o atraso, nada compensa a falha da manhã. Assim continuaste vida fora apesar da estabilidade profissional. Só agora mudaste.


Na casa dos 20 anos, num dos primeiros empregos, no contencioso de um banco, foste várias vezes ameaçada com despedimento pelo director quando entravas às 9h15 ou 9h20, para refrear a fúria dez minutos mais tarde face às resmas de papel que era preciso dar-te para tratar. A história acabou mal por razões diferentes.


Só assente na casa dos 30 perdeste o hábito de te deitares a altas horas da madrugada, começando a dormir regularmente a horas normais. Ainda assim, com este cuidado, foi preciso atingir os 40 para acordares antes do despertador. O organismo de cada um é mistério difícil de decifrar (permeável a múltiplos factores endógenos e exógenos), pouco compatível com as condenações sumárias de quem está convencido que tudo é dominável a qualquer momento pela vontade e disciplina, como se todos fossem máquinas gémeas infalíveis e talhadas pela mesma mão.

18/07/2022

Dois lados

Li há semanas um pequeno apontamento poético de imagem bem conseguida. Não conheço o autor/autora e para o caso é indiferente. Fiquei, como já anunciei, com vontade de me debruçar sobre essas palavras. Ou melhor, sobre o que me inspiraram, apesar de certa de estar longe da intenção de quem as escreveu. Faço um preâmbulo, antes mesmo de me atirar ao que quero dizer ainda por estruturar. Apesar de tentar seguir rumo próprio, afastando-me intencionalmente dos temas do momento e tópicos escaparate, por achar que esses são dos mais empobrecedores tiques impostos pela necessidade de aprovação e popularidade (também sofro desses defeitos, mas de forma diferente), é muito comum aqui nas Comezinhas escrever espicaçada por leituras pontuais sem as nomear. O que pode parecer cobardia e falta de objectividade (admito que possa enfermar desses defeitos) corresponderá antes à vontade de ir à ideia e não à intriga. O facto de nomearmos os autores que lemos, de citarmos os textos concretos, de elencarmos datas, acontecimentos, nomes se nos traz mais informação, a possibilidade de discussão e confrontação e a tão almejada imagem de conhecedor, carrega também uma imensidão de preconceito e de tralha desinteressante. Desossar o pensamento e sentimento expresso por outros dá-nos uma liberdade imensa e aquilo que a olhos alheios parecerá uma abstracção inútil ou até um boato infundado, passe a redundância, é tantas vezes a mais concreta e objectiva observação, simplesmente despida de sujeito e de factos passíveis de identificação. Feito o preliminar a ver se me lembro do que queria dizer na sexta-feira.


Há muitos momentos em que, por razões que não me interessa revelar, face a leituras de trechos nos quais vivem duas personagens que se contrapõem no pensamento ou sentimento, dou por mim a fazer o exercício espontâneo (aliás, começa a ser inelutável) de me colocar nas duas posições, sem chegar a conclusão qual me caberá. Imagine-se a situação se o tema for quadrantes políticos ou até interesses românticos. Para quem está habituado a cada instante a tomadas de posição muito definidas e peremptórias ainda que no momento seguinte desdiga tudo quanto afirmou antes, é difícil perceber alguém que não adere fácil e rapidamente a lados ou interesses.


Lembro quando era criança e brincava com os meus irmãos e primos em jogos nos quais tínhamos de nos dividir em campos opostos sempre acusávamos os que queriam assumir a neutralidade. Era posição de inadmissível cobardia. Nessas ocasiões escolhia (ou escolhiam por mim por ser mais nova) um lado e isso facilitava-me a vida. Pertencer a uma tribo é a mais fácil forma de estar na vida. Noutra circunstância, quando me perguntavam se gostava mais da mãe ou do pai, mentia com todos os dentes, afirmando: dos dois igual. E não é que não conhecesse crianças honestas a dizer o que pensavam. Achava sim que havia verdades que não se diziam, apesar de ter uma absoluta adoração pela minha mãe e só começar a entender-me com o meu pai já perto da adolescência substituindo-o até lá pelos meus tios, de quem em criança pequena sentia muito maior afinidade.


O certo é que como todos em maior ou menor grau comecei a aprender que nem tudo se diz, nem tudo é a preto e branco. Sobretudo a ponderar as razões para a hesitação. Formei carácter na dúvida e não dou significado inteiramente pejorativo à ambiguidade, como é muito usual. Tudo dependerá do grau de indecisão e em última instância do perigo desta nos paralisar por excesso de perspectiva. Tomar consciência de um maior número de dados em jogo numa questão pode conduzir à inacção ou à tal neutralidade, desaconselhável em muitos casos. O caminho do conhecimento não é fácil – fico aterrada com a pretensão expressa nesta afirmação, mas adiante, é exactamente o que quero dizer. Voltando aos exemplos da definição do quadrante político ou de um interesse romântico. Imagine-se quem sempre questiona cada preposição como sendo sua ou de outrem. 


A cada passo identificar-me com argumentos, tomadas de decisão, sentimentos dos dois lados. Serei eu que tenho uma abordagem conservadora na matéria x ou é outro, serei a progressista ou será ele? E não haja a ilusão de que saber definir cada conceito é tiro e queda para resolver a questão. Pelo contrário, quanto mais esclarecidos são os conceitos, mais difícil pode ser identificar-me inteiramente com eles. A vida é bastante mais difícil e interessante do que os lugares-comuns e engodos que dizem ser a ignorância a raiz de todos os males e que nos recomendam o conhecimento como o caminho inevitável para a luz, a tolerância e a bondade. Mais, a via para a verdade.


A cada passo duvidar do ângulo emocional. Serei eu o alvo do desejo ou quem a ele aspira? Qual o meu lugar na relação? Não se sujeite a questão ao simplismo da reciprocidade, a forma como tudo se resolveria nos contos de fadas. Jamais posso aceder inteiramente ao pensamento e sentimento do outro, a menos que confie cegamente, uma impossibilidade em termos de conhecimento. Ora isso aumenta ainda mais a inviabilidade de conhecer os meus. Pensada, a vida complica-se seriamente. O conhecimento não há-de ser caminho único, sequer o principal.

17/07/2022

Widdershins

Diário

Os dois postais agendados para este fim-de-semana ficam em suspenso. Não me forço a pensar. A manhã de Domingo abriu com uma hora e três minutos de natação para a parte da tarde se desenrolar na contagem de pintainhos (família e amigos) pelo telefone. Novidades, preocupações e alegrias em dia, marcações de encontros para breve, ou dentro do Verão ou quando a vontade calhar. Coração mais preenchido. Fim da tarde de relaxe. E sono, muito sono a anunciar descanso do bom.

Tcheka

16/07/2022

Nota breve

O pior caminho para escolher um hotel, restaurante ou bar é usar as páginas online da especialidade onde habitualmente absolutos selvagens opinam - sobretudo portugueses e brasileiros cujos meios financeiros os convencem de ter alguma noção do que é bom e do que é ser educado - quando tudo quanto procuram é recintos que preencham os requisitos de popularidade ou lhes dêem notoriedade. Aliás, é normal vê-los bem alarves às mesas dos pequenos-almoços ou jantares nos hotéis.


Quanto mais rascas, mais se acham. E mais alto falam.


Por regra, não confio nessas opiniões. Tal como não preencho inquéritos de satisfação. Deixo essa vontade inelutável e gratuita de insultar para os javardos. Salvo ocasiões como esta em que uso o blogue para os insultar também.

Sábado

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iBar, na Foz, Porto. Regresso a hábitos de tempos antigos. Uma esplanada despretensiosa, numa zona da cidade onde abundam, a que me habituei mais nova. Em termos de rotinas antigas por aquelas bandas, corresponde à luz do dia ao Bonaparte à noite, onde também ia em novita. É contígua ao antigo Aquário da Foz, que deu nome à praia. Hoje lá almoçamos Amêijoas a Bulhão Pato bem picantes. Os moluscos não quiseram figurar nas fotografias - ressentiram-se do meu dedo frente à lente, vá-se lá saber porquê. Outros bivalves dão o tom escuro das rochas bem descobertas pela maré vaza em dia de nevoeiro. Abençoada névoa. Ao afastar as multidões devolve à Foz e às esplanadas o sossego que as faz apetecer. A música em baixo volume permitiu ouvir o mar, privilégio raro nos tempos que correm. Agora vou nadar.


Adenda. O telemóvel disse que hoje me portei bem: 10.000 passos.

Varanda

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A segunda rosa começa a dar o ar da sua graça. Impressiona o que cada botão esconde. De um nada pequeno e frágil, como se vê a partir da evolução das últimas fotografias, surge a multiplicação de pétalas, como se de origami de papel se tratasse - a Natureza ensina-nos quase tudo. Sobretudo paciência e não nos entediarmos com o que parece monótono. O bom de gostar e possuir plantas é, ainda que não sejamos perfeccionistas nem tenhamos jardins exuberantes para exibir, quase todos os dias podermos assistir a uma pequena surpresa. Aliás nestas rosas já se nota a diferença de manhã cedo para o início da tarde - quando era criança entretinha-me ao final da tarde a ver fechar umas flores, cujo recolher diário podia ser assistido a olho vivo - pena não ter fixado o nome. A recomendação mais importante para quem quer plantas é de não deixar passar uma semana sem olhar para elas e perceber o que precisam. Logo se ressentem.

15/07/2022

A ler

No Observador.




Segundo o portal The Space Review, trata-se de um sistema de laser de alta precisão que estará a ser desenvolvido num complexo de vigilância espacial, localizado no oeste da Rússia. Com este equipamento, os russos querem “cegar” os sistemas electro-óticos dos satélites de imagem estrangeiros que sobrevoem o território russo.


O mecanismo inclui um laser móvel, conhecido como “Peresvet”, que está a ser construído desde o final de 2019. É com recurso a esse laser que o “Kalina” irá produzir imagens suficientemente nítidas que permitem localizar os satélites e, depois, atacá-los.


O “Kalina” faz parte do programa de expansão do sistema “LOL” (“Laser Optical Locator”), que inclui um telescópio com 1,3 metros, capaz de capturar imagens de alta resolução de satélites em órbita.



 




Ao Expresso a Força Aérea disse ter conhecimento que o cartel espanhol foi “investigado em Portugal”, mas acrescenta que “como o Ministério Público arquivou essa investigação” a Força Aérea diz-se “confiante” e “acredita que as autoridades competentes avaliaram devidamente as ramificações empresariais”. “Na presente data não estão identificados quaisquer factos suscetíveis de participação criminal”, acrescenta ainda.