Em regra os teus sonhos são pacíficos. Com frequência muito povoados de conhecidos e desconhecidos, como já aqui contaste. Alguns divertem-te pelo no sense. Mas há momentos raros em que tens pesadelos. Cada vez menos. Em criança muito pequena arvoravas-te em defensora dos teus irmãos, que em sonhos julgavas mais novos, bebés ainda. A dormir fazias guarda aos manos com armas de meccano. Em novita tiveste de matar um desgraçado que te perseguia e queria fazer mal a um dos teus irmãos. Lembras-te do homem sentado numa esplanada e de disparares a arma em esforço vezes infindas até conseguires apagar aquele olhar persistente de desafio e ameaça. Mataste-o, era o que tinha de ser feito. Resolveste um problema. Fora estes pesadelos, ao longo da vida sonhaste com alguns assaltos às várias casas onde viveste e a coisa ficava sempre pelo suspense. Acordavas ainda no susto. Houve uma altura curta que ao adormecer vias imagens violentas. Questionaste uma médica sobre o assunto. Sossegou-te afirmando que a causa era fisiológica. A maior parte dos sonhos dos últimos tempos são benignos. Houve anos em que transferiste a pulsão protectora para o Nuno: acordavas sobressaltada noites seguidas amparando-o de queda iminente.
Na noite de Sexta para Sábado sonhaste com uma série de andaimes onde repousavam muitos corpos humanos mortos e feridos semi envoltos em cobertores de cor castanha. O que mais te impressionou é que a imagem não te comoveu. Longe do tempo em que eras mais nova e enfrentavas as aberrações estavas impávida a observar, com aquela protecção já tua conhecida de não veres o que dói. Acreditas que seja uma defesa de sensibilidade. Acontece-te na vida real por micro-segundos não assistir a tragédias. É certo que te defendes, olhas como se fosses uma lente que desfoca o corpo ferido ou morto, como tomasses consciência do ocorrido sem a violência do pormenor. Claro que foste ler as interpretações, difíceis de definir, apesar de saberes bem que são as imagens da Ucrânia a razão primeira.
Foges da violência, mas a morte não te assusta em particular. Assististe ao momento da morte da tua avó, de quem tanto gostas e admiras. Encaras a partida com naturalidade. Não é que a desejes, aliás gostarias de como ela chegar a velhinha, mas se viesse agora aceitá-la-ias. Tens sonhos para o futuro, mas não urgência de deixar pegada. Se acontecesse agora irias como se tivesses 10 ou 20 anos. Com devaneios vagos por cumprir. Nada de importante. Não foste aos 33 porque Deus te deu a mão e quis que ficasses. Tudo o que veio daí em diante foi bónus. E é assim que encaras a vida: um bónus.
É claro que te custa a ideia dos teus morrerem. É sobretudo mimo. A sensação de ficar atordoada sem o conforto dos mais queridos. E medo que sofram, claro. Aos quatro ou cinco anos, estando a tua mãe doente (nada de grave) entravas em parafuso. Pedias ao Universo que te levasse a ti primeiro por saber que não a aguentarias perder. Depois cresceste e começaste a aceitar as leis da Natureza.
Adenda.
Isto saiu uma mexerufada pouco conseguida. Ainda por cima neste texto deste por ti novamente a ter dúvidas na distinção entre forma pronominal dos verbos e o pretérito perfeito. Mais: ontem esqueceste-te do pin de um cartão e 24 horas depois ainda não conseguiste lembrar. Começa o recorrente cansaço do Verão.