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05/07/2022

Guilty pleasures

AVISO: Gente iluminada é favor passar adiante, aqui mora e escreve uma ignorante, papalva. Daquelas a quem há o hábito de recomendar: se quer ser considerada não deve patati patatá. Ide procurar palavras esclarecidas noutras bandas.


Crescendo e tendo sido educada na desconsideração absoluta pelo sobrenatural e bruxarias, habituada a que fosse tema de escárnio em casa, nunca deixei de sentir um encantamento cauteloso pelo esoterismo. Na adolescência li alguma coisa sobre astrologia (numa biblioteca pública), ao longo da vida a ela prestei atenção por fases e desde miúda atrai-me a interpretação dos sonhos, partilhando com alguns amigos estes gostos. Nunca perdi tempo com tarot ou reiki e outros oráculos ou terapias energéticas. Digamos que tenho as minhas preferências entre crendices: astros e sonhos. Falar disto é sempre perigoso por logo ser rotulada de imbecil ou pelo menos estranha. Fora de época, já que se noutros tempos o gosto feminino pelos astros foi um cliché de bizarria elevado a tópico literário e cinematográfico, hoje está de todo fora de moda. Em qualquer caso, estas matérias são os meus guilty pleasures.


Há algum tempo achei piada à forma como alguém se fascinava pela inteligência e graça de um humorista (dos menos conhecidos) - na minha opinião mero papagueador de lugares-comuns cheio de si  – e como aderia a tudo quanto estava em voga, desde os ténis de marca, dietas alimentares da moda, necessidade de smartphone com funções muito além das utilizadas, vício nos conteúdos televisivos e redes sociais de tendência. Enfim, pessoa do seu tempo. Falo dela, apesar das inúmeras qualidades que lhe reconheço, pelo caricato que é perceber que são pessoas com estas características, de débil juízo crítico e extremamente influenciáveis, as mais afoitas a denunciar a falta de inteligência de quem possa ter algum interesse pelo esoterismo. Como se não fosse possível ter plena consciência do papel nefasto da bruxaria ao longo da história e os perigos para a saúde física e psíquica da credulidade no sobrenatural e apesar disso interessar-se pelo tema. Talvez valha aqui o velho argumento que sempre ouvi: ainda estão muito perto. O facto das pessoas vivenciarem a crendice no seio familiar o social até há bem pouco tempo leva-as a repudiarem-na como forma de afirmação de inteligência e superioridade. Doutra banda, os mais evoluídos ao tratarem o tema procuram fazê-lo com distância que permita alça-los à categoria de estudiosos dos fenómenos da crença, naturais e sobrenaturais, jamais admitindo a mínima vulnerabilidade a tais influências. Outro aspecto que me causa alguma perplexidade é a proximidade do quadro mental da psicologia à linguagem esotérica e vice-versa. São mundos que se tocam, por mais que os arautos das ciências sociais se sintam ofendidos na qualidade de novos cientistas.


E tudo isto por hoje ter sonhado estar a usar uma cafeteira para fazer café muito forte e espesso, contendo borra, que consegui no sonho se fosse tornando mais líquido, pronto a ser bebido em companhia. Desde o início das Comezinhas tenho relatado pontualmente sonhos tidos. Sonhos realmente tidos e não exaustivas narrativas concebidas para cumprir os estereótipos das interpretações freudianas. No esboço de há três anos das Tílias (anda muito parado) o papel dos sonhos é quase o cerne da narrativa.


Resumindo, este é um postal totalmente desaconselhável: é muita ousadia num só texto abordar o tema bruxarias sem "distância social" e revelar o argumento de um livro que às tantas demorará dez anos a ser concebido para ser lido no blogue por meia dúzia de pessoas. E para cúmulo sentir-me satisfeita e realizada com isso - se bem que devia estar preocupada com as tristezas e desilusões preconizadas pelo sonho de hoje. É muita lata e falta de vergonha.