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06/07/2022

Flores e má-língua

Queria tempo para escrever, mas só mais tarde conseguiria fazê-lo pensando. Como isto é uma compulsão vou interromper a conferência de números para dizer qualquer coisa rápida. Sonhei com flores, estava agastada por não encontrar as que queria. Destacava-se uma espécie de sardinheira vermelha, mas com menos pétalas e mais redondas, a assemelhar-se aos amores-perfeitos. Havia outras tipo gerberas cor-de-fogo e a minha irritação resultava de não encontrar o que queria, além de reparar que a terra estava seca não conseguindo voltar a espetar os pés soltos. À hora de almoço fui à varanda e reparei que finalmente a roseira tem dois botões encarnados. Andava a resmungar por não ter flores nesta altura do ano e eis uma boa notícia – já ontem tive outra, a de finalmente haver a previsão de obras para Setembro das fachadas do prédio, em simultâneo com pequena remodelação dentro de casa que já comecei a apalavrar. A alegria rosa continua a não dar o ar da sua graça. Há-que dar-lhe fertilizante.


Há pouco veio-me à ideia que não é inteiramente verdadeira a observação por mim feita há dias sobre a preferência por mulheres com encantos acadimados e previsíveis. A má-língua impõe-me o comentário seguinte depois de voltas dadas nos últimos tempos e da recordação de alguns exemplares: há também um importante nicho de mercado para a vulgaridade no feminino. Se bem que não seja um exclusivo delas, mas muito apreciado por muitos eles, o facto é que tem plateia e vende a afirmação pela linguagem e atitude ordinária, como via de emancipação e suposta espontaneidade. Gostos.


Por fim, mais má-língua para fazer reparo a um tipo de espécimes cuja sensibilidade está de tal modo embrutecida que não conseguem sobreviver sem intriga e relato com mexerico. Noto que há gente que não tem qualquer tolerância a referências ao trivial do dia, aos pormenores da vida, aos gestos, aos sentimentos. Tudo quanto não seja acção, trama ou intriga é-lhes desinteressante, ficando muito surpreendidas pelo facto de haver quem aprecie e valorize o lado comezinho da vida. Imagino sempre que devem ser pessoas de convivência difícil, incapazes de arranjar e tirar partido de interesses próprios e de reparar no que é importante para os que as rodeiam. O mais caricato é que fazem comentários como se valorizassem temas relevantes e prementes, quando tudo quanto as comove é a má-língua – ora aqui têm um postal para as satisfazer, irrelevante para que se possam entediar ou irritar, mas cheio de maledicência para que se vejam ao espelho.