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08/07/2020

A urticária a Rita Rato

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Sobre a nomeação da ex-deputada Rita Rato para o Museu do Aljube – Resistência e Liberdade queria deixar o registo do quão divertidas e ridículas são algumas reacções  para quem vai observando o país real nas últimas décadas. Não me refiro a bons textos a denunciar mais uma nomeação de alguém sem competência para o cargo, por pessoas que sempre estiveram do lado da liberdade e que pautaram a vida pelo respeito dos valores democráticos e da igualdade. Mas aos que só acordam – ou fingem acordar – para estes princípios por oportunismo ou diversão.


Refiro-me a alguns jarretas de hoje e jovens dos idos setenta e oitenta, que simpatizavam ou militavam em partidos de extrema esquerda. E não a todos - alguns havia que lá estavam por acreditarem num Portugal mais justo e tinham razões várias face à realidade que os viu nascer -, mas apenas àqueles cuja adesão ao discurso e aparência de esquerdista funcionava como adereço in para singrar no seu tempo. Gente que foi vingando a roçar-se entre conhecidos partidários e nomeações para lugarzitos em instituições públicas ou da governação. E que uma vez entrada na meia ou terceira-idade revelou o seu primitivo e natural cariz reaccionário, sobretudo por ter chegado o tempo em que não precisa de disfarçar. Afinal ser pseudo-conservador confere certo pedigree. A estes indivíduos oportunistas não há como reconhecer idoneidade para criticar a ignorância selectiva de Rita Rato.


Noto também neste tipo de homens (normalmente são homens) a tendência para serem mais críticos e exigentes quando os (mal) nomeados são mulheres. É que ainda que se façam apreciações negativas a homens designados por motivos alheios à seriedade, ao conhecimento e à competência, normalmente esses remoques não são tão vexatórios. Às mulheres humilha-se, como se não faz aos homens. Talvez seja uma questão de tiques. A ex-deputada Rita Rato não é conhecida por beber bons vinhos e gostar de boas almoçaradas, fumarolas e futebol. Nem por se comportar na sua vida como uma tiranete. Se fosse homem com este tipo de postura e citasse passagens de autores em voga talvez nem reparassem que nunca tinha lido nada sobre Gulag e a nomeação passasse despercebida por ser mais uma entre os amigalhaços do costume.


Passei a vida a temer ou mesmo recusar lugares de maior responsabilidade por não me achar capaz ou preparada, e também por isso nunca saí da cepa torta. Sou contra as quotas. Detesto ver mulheres a fazer má figura e encho-me de orgulho quando as vejo brilhar por saber o quão difícil é num país onde mandam os homens. Mas bem vistas as coisas nem sei bem se não será boa uma nomeação como a de Rita Rato. Talvez seja a maneira da comunista aprender alguma coisa e afinal entre centenas de nomeações de tiranetes masculinos, corruptos, ignorantes e incompetentes, haja mulheres nomeadas. Afinal no que parece estar tão errado pode estar o acerto e, no futuro, os filhos dos outros – porque os não tive – vivam num país mais justo para as mulheres.

28/01/2020

As novas lavadeiras

sem nome


Um nico de presunção não faz mal a ninguém e sempre alivia o tédio. Vamos lá a isto.


O que repele na argumentação de seitas e tribos do Twitter e do Facebook é o grau de infantilismo e de vulgaridade que assombra os cerebrozitos. Desde o tempo dos grupinhos de liceu – normalmente de meninas desinteressantes, porque há trinta anos a maioria dos rapazes não ligava a assuntos fúteis -, não via gente a perder tanto tempo a dissertar sobre o acerto ou desacerto do aspecto do cabelo, o tamanho e padrão do vestido, a piroseira da marca da camisola ou do fato mais justo, o cenário fashion ou kitsch - como se fossem manifestações essenciais ao carácter -, o diz-que-diz-que, o leva-e-traz, a pura intriga e revanche, tudo isto disfarçado de opinião ou pensamento sobre actualidade, política e cultura.


A sensação que tenho é que os cochichos fúteis das senhoras de outrora foram convertidos pela boa democracia em popular mexerico de tanque comunitário, sendo as novas lavadeiras, na maioria dos casos, homens com idade para ser avô e, em certos casos, ditos intelectuais.


E diverte particularmente ver os/as próprios/as - as novas lavadeiras - a desdenhar da falta de urbanidade, das fake news e do cariz desprezível das redes sociais, como se fosse um fenómeno inteiramente novo. Não, gente. Não é. A única diferença é que há microfone comunitário e é mesmo plural. Esta coisa da democracia é uma chatice para quem queria aceder aos privilégios que via em poucos e, agora, vê alargados a quase todos. Que aborrecida é igualdade. Onde estará o pedestal cobiçado?


Com diria a minha avó: ‘ainda estão muito perto’.