Pesquisar neste blogue

31/12/2020

Paul McCartney Carpool - Let It Be


Possivelmente a música (na versão da Joan Baez) que mais vezes ouvi a andar de carro em criança pequena, junto dos meus pais e irmãos.

Dezembro em livros 2

0c46e924-30f7-4bee-803d-9d0cdd006d3a.jpg


Afinal não faltavam dois, mas sim três. Tive mais um de bónus. As ofertas de Dezembro costumam dar para ano novo inteiro. Os livros amealhados agora, a juntar aos do início do mês e a alguns ainda não lidos, comprados da Feira do Livro em Setembro ou espalhados por aí, serão suficientes para acadimar 2021. Haja tempo, ânimo e disposição para me continuar a atirar a eles. Devagar, como o caracol.


*


Acadimar. Não sei se já disse isto, mas há poucas coisas que me dêem tanto gozo como usar palavras que sempre ouvi ou li e não são usadas, apesar da maioria de nós as conhecer. Sempre me perguntei qual a razão: vergonha do arcaico, do tradicional, do rural, do simples? Não iremos muito longe como Nação se tivermos pejo de ser quem somos.

Feliz 2021

5e2d40a1-3563-4e0a-83b2-b44382c2df5d.jpeg


*


Ao sair de casa esta manhã trouxe um pires de barra azul claro e um saco de sultanas para fazer a gracinha: desejar um bom 2021 aos pouquinhos leitores das Comezinhas. Creio que dará uma passa a cada um. Se não der, coloco mais algumas.


Passei metade da vida a dizer mal ao que chamava ‘balelas do pensamento positivo’. Coisas de tonta, quando não tinha apanhado na tromba o suficiente. Bastou conhecer na pele dificuldades porque muitos passam para abrir os olhos e perceber que as boas palavras são fundamentais. E se é verdade que as circunstâncias objectivas de vida determinam muito do trajecto de cada um, não é menos certo que uma atitude positiva perante a adversidade ajuda a superá-la. Mais até: é preciso ter cuidado com o que desejamos com intensidade, porque ainda que de forma enviesada tende a concretizar-se sem o fogo de artifício associado ao deslumbre. O poder do pensamento e das palavras é muito maior do que os cépticos julgam.


E com isto quero apenas dizer que, apesar de cientes das dificuldades futuras, vale a pena acreditar num ano melhor. Vale a pena desejar o melhor em 2021 para os nossos e para todos.  Vale a pena viver e acreditar nos desejos de fim de ano.


Votos de um Feliz 2021.

Provérbios e expressões idiomáticas

 


Tudo falta a quem tudo deseja.


 

Donna Lee by Charlie Parker dazzling fast

Mudança de cor

amarelo.jpg


Amarelo para 2021.


 

30/12/2020

2021

Capturar.PNG


Imagem de ontem à noite. Hoje é noite de lua cheia.


*


Antes de mais o aviso aos leitores inteligentes, cultos e de bom senso: não venham ao engano, é favor saltar para o blogue seguinte que aqui não se aprende nada. Esta é uma casa com defeito, onde se aprecia refugo da humanidade e a autora não se tem em grande conta, contra o que é hábito nos dias correntes. Numa época em que basta escrever a palavra astrologia para emergirem inúmeras vozes esganiçadas a dizer que isso são tretas da populaça e que os astrólogos no ano passado previram um ano maravilhoso e foi o que se viu, é-me mais do que nunca tentador olhar para os astros. Não percebo bem as pessoas que se sentem defraudadas pela astrologia ao mesmo tempo que dizem que não acreditam em nada disto. Oh gente, haja coerência: se não acreditam, não estraguem tanta lucidez a chorar-se pelo engodo. Ah e tal, mas há almas mais impressionáveis e pouco ilustradas que se deixam influenciar e é preciso alertar para a charlatanice. A sério? Armados em salvadores da pátria, ao mesmo tempo que com todo o seu 'engraçadismo' impõem outras quaisquer crendices, ainda sem esse rótulo por fazerem parte dos mitos dominantes da modernidade.  


Continuando a 'destrunfar' no sentido de mostrar às almas que passam pelas Comezinhas que não devem perder tempo a levar a sério o que aqui é escrito, e depois de ter consultado os astrólogos da nossa praça – sim, porque ainda não consigo fazer a leitura dos astros -, aqui estão as previsões para 2021 relativas aos que mais me importam.



  • Os nascidos entre 14 e 18 de Janeiro não vão ter um ano fácil, sendo afectados por sensações muito desagradáveis (Plutão). É favor deitar a mão e ajudar.

  • Os de 21 a 25 de Janeiro estão benzinho, mas em acertos de contas.

  • Os de 27 de Janeiro a 3 de Fevereiro poderão ter surpresas desagradáveis (Úrano), não estando favorecidos. É também favor deitar a mão e ajudar.

  • Os de 7 a 9 de Março terão boas surpresas pessoais e profissionais (Úrano).

  • Os nascidos entre 22 de Março e 4 de Abril vão ter um bom ano para planear a vida (Saturno).

  • Os de 21 de Maio a 5 de Junho podem lançar mãos à obra e confiar nos planos profissionais (Saturno).

  • Os nascidos de 7 e 11 Julho estão favorecidos e especialmente protegidos na casa e em família.

  • Os de 29 de Julho a 6 de Agosto não terão um ano fácil. Podem esperar surpresas profissionais desagradáveis (Úrano) e devem ter cuidados com a saúde (Saturno e Plutão). É favor deitar a mão e ajudar.

  • Os de 23 a 29 de Agosto estão beneficiados no trabalho e no rigor habitual (Úrano). 

  • Os de 24 a 29 de Setembro verão a vida correr bem.

  • Os de 30 de Setembro a 6 de Outubro estarão cheios de sorte e com capacidade para os planos a longo prazo (Júpiter e Saturno).

  • Os de 17 a 21 de Outubro não têm um ano fácil, podendo ter problemas profissionais e devem ter cuidados com a saúde (Plutão). É favor deitar a mão e ajudar.

  • Os de 21 e 22 de Novembro estão benzinho, salvo alguma instabilidade temporária.

  • Os de 23 a 28 de Novembro têm ajuda nos planos a longo prazo (Saturno), mas alguma instabilidade temporária.

  • Os nascidos de 29 de Novembro a 7 de Dezembro têm grandes oportunidades e estão beneficiados no estudo (Júpiter e Saturno).


Sei que não é bonito dar más notícias aos outros, quando se tem boas para si próprio, mas limitei-me a ouvir astrólogos e bem vistas as coisas quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo ou não tem arte.

29/12/2020

Nota prévia

Confirmo que apesar de tudo ainda tenho algum sentido do ridículo: antes de me atirar à ciência desconhecida que não se deve negar à partida, senti necessidade de escrever qualquer coisa que faça sentido e, por isso, ao longo do dia imaginei escrever umas linhas que não envergonhassem. Sucede que o tempo é implacável e não sobra espaço nas horas para a lógica. Só para o fundamental: passar o dia a trabalhar com o youtube no auricular da orelha esquerda.


Cada um considera essencial o que quer.

28/12/2020

Grata à idade

Capturar.PNG


*


Devias começar a jornada por agradecer esta liberdade de poder ser palerma à vontade. Dizer o que te vai na real gana sem temer as consequências, sabendo que a ideia que os outros de ti farão não te demoverá de seres quem és, mesmo nos momentos de menoridade.


Isto do romper grilhetas é coisa que se vai conquistando com a idade: certa imunidade ao adequado, à etiqueta de postura e opinião. Mas é bom que te lembres do reverso da medalha: do medo e da cobardia. Recordes como viveste uma temporada de pés e mãos atados de pavor. E distingas esta conquista do à vontadinha inconsequente, de quem não conhece o peso das palavras e atitudes e o preço da liberdade. Não é respeitinho, é consciência.


 

Intervalo

Como só tenho cinco minutos para fazer um postal profundo e cheio de significado, abrevio.


dormir.jpeg


comer.jpegler.jpg


amar.jpeg


gostar.jpg


plantar.jpg


 


E o resto são tretas. Ops, ou talvez não.


pensar.png escrever.jpeg

27/12/2020

A Terra Devastada - T. S. Eliot

9.jpg


33.jpg


35.jpg


37.jpg


39.jpg


41.jpg

Michael Bolton - Go The Distance


Este berrelas não canta mal de todo. ;)


---


Vídeo trocado, a mesma música menos bem cantada.

26/12/2020

Uma tangente à actualidade

Tentei. Além de um punhado de crónicas, abri o Observador e o Público na viagem de regresso. Com enorme esforço li as gordas e as primeiras linhas de meia-dúzia de artigos. Era suposto ao fim de tantos dias voltar à actualidade. Mas não deu. Tenho uma vaga ideia de ter lido dois ou três textos sobre a chegada das primeiras vacinas. Pois muito bem, queira Deus que corra tudo bem. Também vi aquelas séries intermináveis de textos sobre os acontecidos, os livros, os filmes as músicas etc. e tal de 2020. Está bem. Estou como um amigo me disse ontem: mortinha que acabe 2019 para dar as boas vindas a 2021. E o que mais me interessa é cumprir o acordo bem-disposto que fiz ontem com uma amiga de comprar peças de roupa de cores certas para os bons augúrios do próximo ano. Isto à revelia de jovem e sábio conselho que me deram ontem também de voltar ao azul dos anos anteriores, em atenção ao descalabro que provoquei em 2020 ao escolher a cor errada. Mas não, o ano passado aboli o azul no réveillon e ao fim de tantos anos de superstição e gozo de toda a família e amigos - por ligar a estas palermices -, no próximo dia 31 também irei inovar.


À chegada a casa, coisas mais prementes a tratar: almoço muito tardio para encomendar, mala para desfazer, roupa para a máquina e depois estender, casa para arrumar e já que a genica era tanta, arrumação geral nos guarda-fatos e gavetas para me desfazer do que já cá não fazia falta. Resultado: agora à noite fiquei K.O.. Amanhã será dia de pura sorna.

Lar, doce lar

IMG_20201226_150151.jpg

24/12/2020

Sonhos

f41a87eb-eb16-4278-bd6c-8854dd834580.jpg


*


Dizem as más-línguas que o postal com mais saída nas Comezinhas foi o Mosca-morta. Ponho-me a pensar na razão e fico temerosa: será uma chamada de atenção para o facto de já ter escalado dois absurdos do exibicionismo virtual? – fotografias de comida e de cães. Será que ainda esperam por uma fotografia de beiçola de pato? Não posso. Já passaram de moda. A sequência das imagens de maior fulgor na internet, depois dos bicos de pato e dos glúteos tonificados, foram as das máscaras fashion. Apesar do descambar ‘facebookiómano’, nada disto está ao alcance do meu espírito (e físico, diga-se). Lamento.


São seis e meia da tarde da véspera de Natal. Enquanto não ceamos e o Nuno toca piano, estou estirada no sofá a escrever este arrazoado de devaneios sem saber exactamente onde isto nos vai levar, apesar desta vez já ter preconcebido parte do que vou dizer. O piano silenciou-se e o presente texto vai ser escrito a quatro mãos. Afinal que interesse desperta a Mosca-morta? A boa disposição do Nuno e as nossas picardias domésticas? O meu ódio de estimação à palavra esposa?


O despreendimento com que falo destas coisas vem do facto de estar quase a fazer vinte anos desde que avistámos a fronha um do outro. O susto foi tal e a coisa correu tão bem que pouco depois cada um foi à sua vida. Arruiná-la mais um bocadinho com afinco. E fomos muito eficientes, a ponto de ele se ter esbardalhado na auto-estrada em Alcáçar do Sal e eu desmiolado.


Oito anos depois de nos termos visto pela última vez, quando as nossas vidas já tinham dado provas de suficiente estrago, eis que o destino se encarregou de nos fazer novamente tropeçar um no outro a ao fim de mais um ano empurrar-nos e enlaçar-nos de modo a que só estragássemos uma casa. Daí em adiante as questões que mais nos apoquentam têm sido a quantidade de detergente necessário para lavar a loiça e quem abusa mais de puxar o edredão.


Resumindo e concluindo: passam vinte anos desde que nos conhecemos. Na noite de final de ano fará dez anos desde que concedemos não ter outro remédio, e à falta de melhor, do que nos entendermos - mas Deus é grande, diz o Nuno aqui ao lado e eu acrescento: e a esperança a última a morrer. E fez no dia 1 de Dezembro seis anos que juntámos trapinhos. Muitas efemérides para um mês só. Nesta altura do ano o difícil é arranjar um dia em que se comemore não ter acontecido nada de relevante.


Para o sucesso desta empreitada o nosso lema dos últimos tempos - acabado de inventar -, tem sido: por cada amiga sul-americana colonizada, um ibero amigo colonizador. E com esta o Nuno franziu o sobrolho e fomo-nos arranjar para a Ceia de Natal.


Depois de comer o meu doce de Natal favorito - sonhos -, corrigirei o texto e publicarei.

Mahler - Symphony No.5 - 4th Mvt Adagietto

Recapitulando






Estado de graça


por Isabel Paulos, em 21.03.20


 


open-palm-hand-drawing-8.jpg


*


O estado de graça não se aplica só à política, toca as mais diversas relações. Basta observar a simpatia com que um patrão recebe um novo funcionário. Logo parece mais encantador e trabalhador do que os mandriões que já povoam a empresa há anos. A explicação está não só no dito antigo sobre as criadas que nos primeiros dias até as patas limpam às galinhas como no optimismo com que se encara a chegada de alguém à nossa vida. Quem chega mostra-se confiável e afável, quem recebe quer retribuir o que é dado, e vice-versa. O mesmo vale para as relações afectivas. No início as gracinhas tontas deles geram risinhos leves e alegres delas. Enternecem e é bonito de ver e sentir. As doçuras e gestos espontâneos delas derretem-nos, tornando os homens mais vulneráveis. E há lá coisa mais bonita do que perceber a vulnerabilidade de um homem? Com as devidas adaptações isto aplica-se às relações de amizade, de vizinhança e a todas quantas se possam estabelecer. Só que, como todos sabemos, o estado de graça é passageiro. Com o passar dos meses, dos anos a gracinha do homem pode parecer apenas uma estupidez ou parvoíce evitável e a espontaneidade da mulher uma estupidez ou uma burrice imperdoável ou vice-versa. E pode começar o ciclo de mal-estares e acusações recíprocas geradas no equívoco de que o estado de graça é eterno. Não é. Quando muito se as pessoas gostam e confiam de facto na outra, se a consideram e respeitam, o estado de graça vai aflorando no dia-a-dia ao longo dos anos, ou mesmo de uma vida, em manifestações de atenção e carinho que polvilham a vida quotidiana de quem gosta e é razoável consigo e com o outro. De quem aprende a perdoar as palermices e demais defeitos e tem esperança, mas nunca a certeza, de que a alegria vai durar.

 




Feliz Natal

735d9afd-ec0a-4214-b776-1fc0621ce50d.jpeg


Bom dia. Feliz Natal para todos.

23/12/2020

Handel - Ombra Mai Fu


*


Da Ópera Serse, de Handel.

Ferroada

Presépio despedaçado em Fibbiana (Florença).jpg


*


Comovo-me às lágrimas com a conversa avessa às reuniões familiares e ao consumismo no Natal. Fico condoída com a necessidade premente em criticar todos quantos mimam e querem mimar os seus. Gente bárbara, hipócrita e sem sentimentos esta que gosta de exprimir o que sente e com gestos fazer notar o seu amor pelos outros.


Mandem para a forca esta gente perigosa. Venha o Natal respeitador dos puros. Sem Sagrada Família, sem festejos de nascimento do Menino Jesus e demais tralha que faça lembrar a família e os laços familiares e de amizade.


Precisar dos outros? Respeitar quem diz precisar dos outros. Bahh, isso é coisa de gente fraca. Viva a autossuficiência e a soberba. Viva a forca.

22/12/2020

Agenda

21733599_dDanA.jpeg


Além do eterno adiado texto sobre a cronologia da covid, que ando a anunciar desde Maio, estão na calha, sem a menor ideia do rumo do que vou pensar ou escrever enquanto os redigir, dois postais. Um sobre astrologia para 2021 com duas ou três palavras para os conjuntos de dias do ano que respeitam aos que mais me importam - oh credo, com tanta tragédia pelo mundo, como ainda há gente com este tipo de burrices, egoísmos e leviandades? quanta vergonha, quanto horror -, e outro sob este título aproximado: 'entre o respeitinho e o chover no molhado'. No primeiro pretendo tão só acautelar-me do que possa suceder a quem está perto do coração e afugentar - com a mera referência à astrologia - os espíritos racionais e devotos da absoluta ciência das certezas; no segundo tentar dizer aquilo que penso há muito sobre a discussão de ideias e creio não ter ainda traduzido em palavras escritas. Assim como quem levanta o véu, inclino-me para não ter a menor pachorra para quem critica o 'respeitinho' não pela ideia em si, que seria boa se não redundasse noutro respeitinho mais pateta. E hei-de chegar a alguma conclusão na forma de fazer a ponte entre o respeitinho e o chover no molhado, que é o que mais faz quem critica o respeitinho. E revelar quão divertido é ver os adeptos do vale tudo tropeçarem nos próprios pés, não resistindo às indignações selectivas em voga a cada momento. Somos todos muito liberais até a liberdade nos pedir a conta.

Ainda as Calendas

(!) Atenção: este postal tem dados (relativos ao Porto) duvidosos e para fins meramente lúdicos. 


Esta é uma advertência necessária num mundo virtual apinhado de livres interpretes da ciência, que bem capazes são de nos vir explicar com santa e devota minúcia que tal como o sagrado, devemos esconjurar o profano. E nós, quais carneiros ofuscados com tanta clarividência, anuiremos: ámen.


Capturar.PNG


Vamos ao que interessa: se nos fiássemos nas Calendas bem podíamos esperar por Outubro de 2021 para voltar saborear dias soalheiros.


Entretanto a descoberta de hoje: o atalho para o grau (celsius) é Alt 0176.

Pergolesi - Stabat Mater


Diz quem me mostrou isto que depois de se ouvir já se pode falecer. Renitente em falecer - palavra que odeio em todas as suas variantes -, prefiro qualquer coisa tão simples quanto morrer. A ver vamos se é autorizada a partilha do vídeo para que mais alguns possam morrer um pouco por uns minutos.


Como nota de curiosidade de referir apenas que o compositor Pergolesi feneceu aos 26 anos. O que me faz pensar: que raio ando eu cá fazer?


*


Para ouvir é só ultrapassar o pequeno percalço 'Vídeo indisponível' e carregar no 'Ver no YouTube'.

Nulidades altifalantes

altifalante.jpg


*


Há dois mil anos era preciso dar pão e circo.


Hoje a bem da paz social exige-se pão, circo e altifalante.

21/12/2020

Relógio

6c81ffb2-0ffc-401f-85cc-9e33abe45e19.jpg


*


Comentava há pouco aquilo de que já me apercebi num postal anterior. Ando com muita conversa subjectiva e pouco dada a objectividades. Talvez por não ter perdido muito tempo com os jornais nos últimos dias (semanas?). Acontece. E sempre que acontece, semanas ou meses depois, percebo que não perdi nada de substancial. A coisa – a matéria dos acontecidos do país e do mundo –, vai-se enganchando de tal modo no tempo, que é só puxar pela corrente (reparem que não escrevi cadeado) e logo o todo se mostra mais perceptível do que se andasse em desassossego permanente a fuçar nos jornais. Claro que escapam os inevitáveis episódios caricatos que enchem os dias de aparente significado. Tanto melhor, mais espaço por contaminar fica. É precisa certa pureza para prosseguir achando que ainda vale a pena pensar e escrever qualquer coisa que não seja espartilhada pela sofreguidão das notícias.


E voltando ao subjectivo e aos meus dias. Voltei – ao fim de três semanas -, ao trabalho presencial e eis que descubro ao dia 21 que ainda não havia comprado o passe de transportes. Foi difícil convencer a funcionária dos STCP que sim, era mesmo isso: queria o passe de Dezembro a dez dias do final do mês. É estranho, mas feitas as contas, oito dias de títulos individuais sairiam mais caros. Voltei ao rame-rame, revi caras e soube notícias dos colegas e de quem lhes é importante. O normal: aflições e alegrias. Senti o gostinho da aceleração própria de quem não está em casa, a três quatro metros da cozinha e a seis ou sete do sofá. É outra coisa. Bem dizia há uns anos a alguém que me queria convencer das vantagens do teletrabalho, que qualquer coisa me impelia a sair e ir trabalhar com horários e obrigações mais palpáveis, digamos assim. Aliás, acho admirável que a maioria das pessoas diga que trabalha mais em casa. É certo que se trabalha fora dos horários, mas meus queridos, não me venham com histórias, conheço muito sorna que atira com essa verdade dominante, e só rindo. Tal como conheço muito espavento que também advoga as virtudes do teletrabalho, e só rindo. Nesta matéria, como em muitas outras, fico dividida: gosto de estar e casa, mas sabe muito bem espevitar.


Ao fim da tarde, para gozo de alguns – ah e tal, deixar as compras de Natal para os últimos dias -, em cerca de quarenta minutos resolvi a questão dos presentes para cinco pessoas. Tungas. Três lojas. E na última vi-me envolvida numa batotice que não costumo fazer. Entro na loja de bijuteria, vejo o relógio que quero oferecer em trinta segundos. Pego nele e vou para a fila. Cerca de seis ou sete pessoas à frente. Vejo uma das funcionárias a olhar para mim. Vem ter comigo, pergunta se vou levar aquele mesmo. Digo que sim. Diz que me vai buscar a caixa. Faz-me sinal. Incrédula, vou até à porta. E ali mesmo, com outro terminal multibanco, tratamos das contas. Perante o meu espanto, vai-me dizendo que ninguém notou e, logo chega uma senhora a pedir igual tratamento. Pois que não, diz-lhe a menina em voz alta, e a mim em baixa: ora, havia de ser para todos, eu é que escolho. Bem-disposta continua: vou autografar-lhe isto para quando eu for famosa. Ao que respondi que era melhor dizer-me o nome, para quando chegar esse momento saber quem é. Ela responde: I. Magalhães. Digo que também sou Magalhães. Ela pergunta-me de onde sou. Respondo por comodismo: Porto. Ela simpática diz que é de Amarante. Digo que ainda assim é provável que sejamos primas. Pergunto se ali também sai talão de troca. Diz-me que ali faz tudo, só não tira café. Digo que é pena, porque já tomava um. E, entretanto, vou ouvindo gargalhadas no auricular; sim, fiz todas as compras ao telefone (vício que sempre odiei, mas a que aderi nos últimos tempos). Despeço-me e oiço no auricular depois de alguns comentários sobre o sotaque da minha interlocutora: é de mim ou ela estava a fazer-se a ti? Respondo que nada disso, aliás, pela conversa mais depressa se deduzia o contrário e adianto uma explicação lógica e verossímil: a menina, esperta rapariga nortenha como só as nortenhas sabem ser, percebeu que naquela fila eu era a pessoa que ocupava mais espaço – na loja visivelmente a ultrapassar o número limite de clientes imposto -, logo, solícita e delicada veio atender-me, sem me fazer sentir isso mesmo. Mostrando saber ser além de inteligente, elegante. Et voilà. Muito savoir-faire.

20/12/2020

O NATAL COMO REALMENTE DEVE SER CELEBRADO

Compotas.jpg


*


Equipa de arqueólogos da Direcção-Geral de Saúde (DGS) é responsável por descoberta histórica que pode mudar os nossos hábitos para sempre: afinal, a tradicional Ceia de Natal, errada e teimosamente celebrada na noite de 24 de Dezembro, é ao pequeno-almoço (o período entre as 7h00 e as 8h00 da manhã é o momento ideal para reuniões familiares e trocas de presentes, obviamente). O nascimento de Jesus Cristo deverá ser celebrado em qualquer dia do ano, excepto nos dias 24 e 25 de Dezembro. O Menino Jesus não nasceu numa gruta escura em local incerto, mas sim num patamar iluminado e arejado, sítio sagrado onde foi adorado pelos seus familiares, amigos e animais de estimação. As oferendas dos três Reis Magos nunca foram ouro, incenso e mirra, mas sim frascos de compota de diferentes sabores. Ficou inequivocamente provado que a compota foi e deve continuar a ser o prato principal do Natal (a introdução do peru, polvo e bacalhau foi uma invenção desesperada dos tempos modernos e decadentes). Provou-se também que a ausência de compotas na Última Ceia levou a desentendimentos, desacatos e traições entre os comensais. Esta desavença inultrapassável teve consequências trágicas e foi responsável pela origem de outra festividade religiosa: a Páscoa (que, para júbilo da DGS, também não é celebrada em data certa). O prato principal do Sábado de Páscoa (nunca foi ao Domingo) é composto por geleia e marmelada. O mata-bicho pascal deve ocorrer ao lanche, preferencialmente num quintal.


Ricardo Álvaro


 

Boas Festas

7833d400-34ab-4302-93ca-84f32bef9017.jpg


*


Nesta última incursão pelos blogues vim parar à Sapo e acabei por criar o hábito de ler uma dúzia de autores para além dos que lia nos últimos dezassete anos. Entre eles encontrei a sempre atenta, informada e mordaz Isabel, do Perspectivas & Olhares na planície, as viagens e o olhar justo e esclarecido sobre o mundo do Kanes, do Não É Que Não Houvesse, os primores, a versatilidade e dedicação à escrita da Maria, do Dias de Outono e a generosidade e o conhecimento despojado do Vorph, do B(V)log de Alterne. Lado a lado com o benévolo punhado de leitores das Comezinhas, estes e outros blogueres e comentadores têm-me feito companhia no último ano. Na maioria descobertos entre a preciosa clientela da caixa de comentários do blogue charneira Delito de Opinião, do Pedro Correia e demais autores.


A todos agradeço a companhia e as leituras, que amenizaram a dureza e vazio do último ano, e desejo um Bom Natal e Feliz Ano Novo.

Recapitulando

 


Hoje é dia de recordar um postal de Agosto.


*



Conversas íntimas


por Isabel Paulos, em 17.08.20


 


data e hora.png


A seguinte conversa, muito fiel à tida nesta manhã de Domingo com o Nuno, aclara sobretudo a utilidade de um namorado/companheiro/marido.


*


Nuno, preciso de uma explicação. Há anos dizia que estaríamos perto de epidemias e guerras que reduzissem a população mundial a níveis aceitáveis para a sobrevivência do planeta. Pensava eu e muitos mais. Tal como também há muitos anos imagino este cenário: um dia acordo e ao ligar o telemóvel e o computador percebo que estou sem ligação à internet, minutos depois vejo que a coisa não se revolve com o desligar e voltar ligar o router ou contactar a operadora, vou trabalhar e percebo o alvoroço, volto para casa e tento ligar a televisão em vão, e finalmente confirmo na rádio um 11 de Setembro em grande escala, sem violência material nem mortos directos. Ou seja, o mundo Ocidental - na minha imaginação ainda herdeira dos Aliados -, fica sem comunicações.


Ponto assente que a guerra moderna passa pelas comunicações, explica-me como é que um poderio económico como a China, ou um Estado sem essa capacidade económica, mas bem preparado tecnologicamente como a Rússia, ou um outro como a Coreia do Norte – ou uma entidade com grandes interesses económicos extra estaduais – poderia cortar as comunicações de um país ou grupo de países.


A pergunta não é como, mas sim se. A resposta é não. Não é possível. É possível incomodar ou atrapalhar as comunicações. A comunicação processa-se de várias formas e a internet é apenas uma forma de encriptação e de organização da informação. A internet faz-se através de um conjunto de computadores espalhados pelo mundo - interligados por comunicações tipo telefone, mais avançadas -, cuja localização é desconhecida, incluindo dos proprietários ou utilizadores. A ligação faz-se por satélite, rádio ou cabo (de cobre ou fibra óptica). Muita dessa comunicação é feita por cabos submarinos que ninguém sabe a verdadeira localização, são segredos de Estado.


O meio físico que sustenta a comunicação está tão diversificado que é difícil atacar. As formas de atacar são temporárias, através de vírus ou de software que atrapalhe a comunicação. Toda a comunicação digital é codificada e descodificada, o software vai atrapalhar no momento da descodificação. Nesse momento pode-se fazer espionagem ou roubo de informação, difundir a mensagem, estragá-la ou inibi-la mas isto é impossível a 100%. É um corte temporário e nunca total. Vês isso nos ataques às bolsas ou instituições financeiras.


Podes inibir parcialmente a informação. Podes reduzi-la, estragá-la, mas não eliminá-la. Respondido?


Voltando aos vários suportes das comunicações. Explica-me quais são e como se processa cada um dos suportes. Como funcionam. E como podes eliminar, atrapalhar ou deturpar as comunicações.


Tens a comunicação via satélite. É difícil atacar. Nesse caso terias que estragar o satélite do outro. Não é fácil. São milhares de satélites a circular à volta da terra com frequências diferentes ou específicas. Além do que a informação vai em pacote. A comunicação digital - a conversa de mil pessoas vai em pacote ‘zipado’ em microssegundos para ser enviado e ser descodificado no outro ponto. Imagina que ‘zipas’ mil ficheiros word. Essa compressão é feita com um código atribuído pelo computador no momento da codificação. A compressão é feita rapidamente e ninguém conhece o código – faz-se através de protocolos estabelecidos automaticamente pelo próprio sistema. É difícil fazer espionagem para ver quem fala com quem e diz o quê, porque a mensagem está codificada – ou seja, fragmentada em pacotinhos de comunicação que só na posse do código certo se podem unir em coerência. Funciona um pouco como os cartões visa, mesmo que roubes o cartão, tens que ter o código. Mesmo que tenhas acesso à comunicação, por exemplo, nós estamos aqui no quarto a receber as ondas electromagnéticas, mas não temos processo de as descodificar. Não temos a 'inteligência' e os meios.


A comunicação pode ser atacada, mas no momento em que já foi descodificada ou desencriptada. Salvo se entrar a inteligência de Estado. Grandes e médias potencias fazem espionagem, através das centrais, fazendo com que a informação que venha daquele telefone ou computador seja desviada para determinado local a fim de ser descodificada.


(A questão dos hackers fica para outro dia.)


Podes é enviar software espião para o computador alvo. Não se ataca no processo de ir de A para B, mas no momento da captação ou da descodificação. O software capta a informação por encriptar ou já desencriptada e reenvia-a para outro ponto.


Fala-me dos outros suportes físicos de comunicação.


Os outros suportes físicos de telecomunicação existem, são seguros, mas são caros. Apesar de ser caro, o satélite é uma forma barata de comunicação, apesar da manutenção que é preciso fazer. É seguro porque é redundante. As outras formas são: as ligações por cabo de cobre (antes) ou de fibra óptica (agora) e o rádio.


Num cabo de cobre multiplexado já era possível a conversação simultânea de cem canais de comunicação na mesma linha. Funciona como na rádio, cada pessoa fala em frequências diferentes no mesmo cabo, e depois cada uma das frequências é sintonizada. Isso já era possível na altura do telefone analógico.  


Agora na comunicação digital, à semelhança do que fazemos em casa com o programa winzip, falámos e imediatamente a conversa é ‘zipada’ pela central (a nossa e de mais 200 pessoas que falam em simultâneo), depois são reenviadas para outro ponto onde são ‘unzipadas’. A diferença de um ou dois segundos que sentimos nas conversas de telefones, é o tempo de comprimir e descomprimir a informação. E só aquele telefone, aquela pessoa ou entidade tem acesso à informação. A forma de espiar isso é ter acesso ao telefone, ter contacto físico com o telefone.


Interrompo. Não me parece.


Sim, é possível extraordinariamente. Acontece a nível de Estado com o acesso ao número de telefone ou número de IP. O Estado consegue espiar conversas via central. Nem as polícias conseguem. Só com autorizações especiais - e falo em termos técnicos e não legais. Se autorizada, a conversa é gravada pelas centrais. Nas operadoras.


Claro que é.


Mas estava a dar exemplos de espião particular e não de Estado. Tipo detective particular.


Falta um suporte físico. A rádio. Como se processa e como pode ser afectado.


Faz-se através de ondas electromagnéticas. Pode ser afectado misturando sinais de rádio mais potentes. Como uma terceira pessoa que fala mais alto e não deixa ouvir.


Recapitulando. Muito sucintamente, diz-me como é que em satélite posso destruir a comunicação, pôr ruídos ou deturpá-la.


Na altura da Guerra Fria quer a Rússia quer os Estado Unidos enviavam satélites lá para cima com armas para tentar destruir outros satélites, e nenhuma dessas armas se revelou eficaz.


Tens a certeza do que estás a dizer?


Sim. E podes confirmar.


Podes é empastelar. Pôr ruídos na frequência. Empastelar é pôr sinal por cima.


E em termos de fibra, já que agora se usa pouco cabo de cobre. Bem, estou a dizer isso mas fora da Europa possivelmente ainda existe muito.


Sim, claro.


A fibra tem a vantagem de não enferrujar. Além do que numa linha de cobre – que é grossa e pesada -, por cada linha de comunicação vai um cabo eléctrico, onde se conseguem poucos canais de comunicação, enquanto no cabo de fibra óptica como é muito mais estreito e leve pode ter mil filamentos, com vários canais de comunicação por cada filamento. Estás a ver a quantidade de comunicação que ali vai.


E, neste caso, como podia cortar a comunicação cabo. Imagina: temos a cidade do Porto. Imagina que queremos um apagão na cidade. Podíamos cortar um ponto mãe ou origem de toda a cidade? Era possível? Existe apenas um ponto?


Não. Existem vários. Era praticamente impossível.


Estar a cortar milhentos cabos.


Tal como a ligação entre Porto e Lisboa. Também seria difícil. Mas agora imagina a ligação entre a Europa e os Estados Unidos. Aí são menos e a localização dos cabos marítimos é, obviamente, secreta.  


A dispersão física torna difícil. E na comunicação rádio?


As nossas emissões rádio da manhã podem ser ouvidas em Plutão algumas horas depois, desde que tenhas como descodificá-las. Toda a rádio que foi emitida aqui chega a Plutão. É difundida ad aeternum. Para todo o sempre e mais além. Mas imagina, chega a Plutão e é como ter uma biblioteca inteira separada letra a letra de todos os volumes misturados. Ou como chegar a uma biblioteca com todas as letras desordenadas num único volume.


Isso já parece Borges. Gosto da ideia.


Tens lá a informação mas não a consegues perceber.


Tudo muito bem. Tudo quanto me explicaste parece fazer sentido, mas intuitivamente sei que um dia vou ligar o telemóvel e o computador e chegar à conclusão que meio mundo está sem comunicações.


A eliminação física não é possível mas a eliminação lógica é possível, através de vírus controlados à distância. A comunicação existe mas teríamos a válvula - o vírus -, a inibir a comunicação e a criar problemas num ou vários pontos. Até hoje nunca foi possível um corte total. Apenas parcial e temporário. Através de grupos de hackers com ataques sincronizados, que conseguem cortar a informação por algumas horas.


No início falei em mundo Ocidental. Um ataque provável é um ataque dirigido a algum Estado ou grupo de Estados, ou então, a determinadas empresas ou entidades.


É possível atacar a Google e deixar grande parte do mundo no escuro.


Então, às tantas, aquele pormenor antigo de atrasar os relógios dos computadores – no servidor –, para dar tempo de reacção, faz sentido?


Faria sentido se o computador estivesse sincronizado no relógio interno e não na hora oficial da internet. Depende de programa para programa e de como estão sincronizados.



 


Josh Groban - You Are Loved (Don't Give Up)

19/12/2020

Meio Sábado

descarregar.jpg


*


Ida e vinda a Campanhã. Tudo impecável. Condutores de Uber simpáticos e faladores a fazer esquecer o da quarta-feira passada. Para lá histórias de comboios com cenas inspiradas em filmes de ‘Berlusconi’ (risos). Creio que ele queria dizer Fellini, mas isso não interessa nada, até porque a passageira sabe tanto de cinema quanto o condutor; bom, pelo menos sabe que os filmes de Berlusconi são doutra natureza. Interessa sim o que ficou na memória agora relatada: as chapadas que ele deu aos sete ou oito anos aos saudosos que se despediam na plataforma de Campanhã. Ah, e a Linha do Tua. Linda, linda. O pior é o calor naquela terra onde são nove meses de inverno e três de inferno. Tinha para a troca: num inverno em criança, o comboio para a Covilhã em carruagem antiga daquelas com camarotes e janelas que abriam, como nos filmes. E ele mais as travessias da Dona Maria e dos tremores encostados ao resguardo quando passava o comboio. À vinda conversa cordial mas com palavras mais caras, como paradigma e família monoparental, e isto só para falar listas de compras no Continente. Fosse a viagem mais longa e imagine-se o que teria sido. Teria de puxar do dicionário. Vou começar a andar com bloco na Uber.


Compras. Almoço. Telefonemas pluriparentais para suprir o confinamento. Sim, falámos com os quatro; não deixamos escapar ninguém. A boa disposição reina, mas as gargalhadas maiores vieram da última chamada. Pelo insólito.


Liga-me o meu pai. Ah e tal e coisa, comprei-te um livrito. Sabes, ouvi na televisão alguém falar do livro e lembrei-me que talvez gostasses. Hum, pai. Não será o Férias em Paris, do Maugham? Ah? Não (risos), como sabes? Sim, é esse todo. Pois, eu também ouvi o Rogeiro, mas por acaso até já o tinha comprado para dar ao pai no Natal (risos). Às tantas nem é preciso trocarmos, cada um fica com o seu. Não, não, trocamos sim (mais risos).


E pronto, no próximo dia 24 como manda o figurino, em vez de compota, lá vai haver uma permuta de Maugham em papel pardo da Fnac por Maugham em papel palavroso da Bertrand, o autor que desde criança vi na mesinha cabeceira do meu pai. Especialmente as Histórias dos Mares do Sul. Com a idade até o insólito começa a ficar previsível.

18/12/2020

O desporto da ofensa

Há quem a pretexto de dizer o que pensa sobre o mundo, se divirta a ofender tudo e todos, não respeitando nada nem ninguém. Só sobra soberba. E há quem diga o que pensa e sente, cuidando de não ofender gratuitamente ninguém. Nem sempre com sucesso.


A ironia das ironias é ver gente que passa os dias em insultos gratuitos, arvorar-se em grande juiz da decência. Haja paciência.


Cansei, como diz a outra. Farta de vendedores de atrito.

Banco de Portugal

É de mim, ou o novo Governador do Banco de Portugal arroga-se de certo protagonismo político, como se ainda estivesse no Governo? Ainda sou do tempo em que ao Governador do BdP competia supervisionar as instituições de crédito, regular e fiscalizar o bom funcionamento dos sistemas de pagamentos, mediar as relações monetárias com o exterior. E de todas estas funções exigirem certa sobriedade. Bem sei que também lhe competem as estatísticas financeiras e monetárias e o aconselhamento ao Governo nestas matérias, mas será que isso se faz através de conferências de imprensa e artigos nos jornais?


Devo ser muito conservadora, mas pensei que estas coisas técnicas deveriam ser tratadas sem recurso a protagonismo político e juízos de valor.

17/12/2020

Natal & Covid

A ver se nos entendemos. Quero comprar um bilhete de comboio e estou à espera que a eminência parda que nos preside - muito afoita a sugerir o crime de desobediência, com a conivência da maioria e o encolher de ombros do País inteiro -, e o ilusionista que nos governa definam de uma vez por todas as regras. E se os bitaites que mandaram há duas semanas - sobre o regime excepcional dos 3 dias -, sempre valem no Natal ou se era só a brincar e nós, quais crianços, teremos de ficar em casa de castigo viradinhos contra a parede para não perdigotar outros crianços. Sim, está visto que a Covid levou todos os adultos para parte incerta; no mundo agora só existem dois tipos de criaturas: crianços e educadores de infância licenciados no Piaget.


Ao que parece é amanhã que Costa fala.

Sinais do tempo

Ontem depois do jantar resolvi sair e comprar um livro para oferta. No caso, a bem disposta Uma História de Espanha, de Arturo Pérez-Reverte. Para me despachar e respeitar os horários covídicos usei a Uber. Para lá o rádio estava ligado numa estação regional, tendo ouvido logo à entrada o anúncio da frequência para Felgueiras, Lousada e Paredes. Conclui que deveria ser mais um motorista daquela zona e, com pouca e cordial conversa, senti-me em casa. Para cá, uma paragem pelo meio para deixar o livro, num Renault Mégane, cuja porta do passageiro rangia com vontade. Coisa estranha na Uber, na qual tenho apanhado sempre carros cuidados. O condutor de fato treino e funk na rádio (o do youtube abaixo). Música com espantosa letra para brindar os passageiros. Hoje ao lembrar-me do pequeno percurso e daquele momento de ontem, recuei quase 25 anos, e recordei o episódio em que saída do carro de um amigo na Praça da Batalha, juntamente com o seu pai, português de Angola, e emigrado para o Brasil nos anos 70, onde vivia desde então, dei por ele completamente imóvel e siderado. Como se não conseguisse sair daquele pasmo, perguntei o que se passava e ele de olhar fixo na direcção de Santa Catarina, ali na embocadura de Rua 31 de Janeiro (de Santo António) e da antiga Livraria Latina, disse-me: Oh, é tanta cor na roupa das pessoas. Da última vez que estive aqui [talvez há outros tantos 25 anos] era tudo negro, as pessoas vestiam todas de negro. O pai do meu amigo guardara a imagem do País que conheceu e que perdera de vista nos muitos anos de Angola e Brasil. Portugal não era há muito o País de antes.


Ao ser presenteada num banal percurso de Uber com o funk de ontem foi disto que me lembrei: céus, como o País liberou. E isto digo eu que cá sempre tenho estado, imagine-se para quem aterre depois de muitos anos de ausência.


16/12/2020

O Morto - Vergílio Ferreira

VF-1.jpg


VF-2.jpg


VF-3.jpg

Vénia

c620259f-64b5-481f-b302-5f2df91a3dbe.jpg


*


Sobre o vinho ver o Público de ontem. Reparo que há aqui contradições nos rótulos entre a fotografia que me enviaram inicialmente e a notícia. Mas vale a ideia.

Segurem-me

Liguei a televisão e vi uma coisa ridícula a imitar gente - bem caricatural -, a perorar como devem ou não os portugueses comportar-se no Natal. 


Desde o início de Dezembro tenho ouvido - não só na televisão como pessoalmente, porque a loucura neste momento anda à solta impunemente pelo mundo fora -, gente absurda e sem um pingo de bom senso e respeito pela inteligência do próximo, a achar-se no direito de determinar como devo ou não estar. Gente a quem estou certa seria preciso ensinar tudo - mas mesmo tudo -, desde que nasceu, por manifesta desadequação à realidade. É trazê-los aos infantários e ensiná-los a apertar os atacadores, por amor de Deus!


(é o segundo ou terceiro ponto de exclamação que uso nas Comezinhas.)


*


Adenda: este texto tinha dois erros, entretanto corrigidos. Fúrias.

Em frente

 


Por cada desconsideração, um passo em frente de cabeça erguida.


 

Josh Groban - Solo Por Ti

Michael Buble vs. Josh Groban

Mimos

521be97a-1160-4c06-97d9-dd89115e1882.jpg


*


O que vale é que a vida se vai desenrolando com normalidade e somos brindados com mimos que fazem toda a diferença. Como gostei do robalo com açorda de coentros encomendado antes, hoje ao almoço resolvi fazer um pedido no mesmo restaurante de favas com costeletinhas. Ora, chega o rapaz da ubereats, entrega-me o saco e notei num pequeno sorriso debaixo do meu nome. Abri-o e vejo um delicado e alegre post-it com as Boas Festas do restaurante Sonetos. Nunca lá tinha ido, não os conhecia antes da primeira encomenda, mas sabendo-os capazes destes gestos com os clientes, passei também a sê-lo. Muito obrigada e Boas Festas para o Sonetos. 

15/12/2020

Certezas e dúvidas

É mais aconselhável confiar em quem hesita, do que em quem jamais tem dúvidas. Quem passa anos e anos a fio a falar com gente percebe que o discurso muito afirmativo, articulado e sem hesitações, esconde dogmas e preconceitos, quando não mentiras e falácias.


Procurar estar certo, assumindo que não se detém a certeza, ainda que se tenha enorme grau de convicção, é sempre preferível à imposição de verdades.

Loops

21950969_DD6Iz.jpeg


Para quem acompanha a saga do Quanta, informo que hoje é dia de leitura nesta casa e lá dentro estão neste ponto: esqueçam a teoria das cordas, a existência de partículas simétricas e o alvoroço da busca da origem da matéria ou o chamado bosão de Higgs. Lembram-se de ter referido aqui e aqui que a matéria é descontínua? Pois, é isso mesmo: ao que parece a física agora anda numa de gravidade em loops. Mas dizem-me que os loopistas ainda têm todo o trabalho pela frente. Posso imaginar, palpito com todo o atrevimento: se é difícil provar que qualquer coisa existe, mais difícil deve ser provar que não existe e pior que ora existe ora não existe. Ainda por cima dizem as más línguas que o Quanta é tímido: só se revela quando não estamos a olhar para ele (isto daria um romance).

Acreditar

49380512342_efb6517bc6_m.jpg


*


Passa das nove e meia e um dia sem escrever. Já estranho dias assim. Pode ser que o café ajude. Vou fazê-lo e quando voltar talvez tenha uma ideia magnífica. Voltei, mas havia muito para fazer e continua a haver. Entretanto são quase onze. Ontem pensei em escrever qualquer coisa sobre pessoas que não valorizam os outros e o que lhes é importante, ou pelo menos parecem incapazes de o assumir, apesar de valorizarem. E dei por mim a pensar pela milésima vez quão chato é estar com este tipo de moralismos e apreciações críticas sobre outros. Mas lá está, foge-me o pé para isto e não há como dar a volta e fugir.


Que espécie de embrutecimento ou insegurança leva alguém a sistematicamente diminuir, desvalorizar ou mesmo denegrir alguém mais ou menos próximo? Não tenho muita pachorra para o chavão das ‘pessoas tóxicas’, por saber que é muito fácil confundir alguém que nos critica e chama a atenção para os nossos defeitos com uma destas pessoas. É uma tentação querer viver confortável só com o lado cor-de-rosa da vida, e isso normalmente resulta na nossa mediocridade e falta de noção da realidade.


Ainda que ciente disto, é facto que o vício do criticismo e o constante desacreditar nas nossas capacidades mina o melhor que possamos ter. Se nos habituarmos a sempre ver apontar defeitos e nunca reconhecer qualidades, passaremos parte substancial do tempo da nossa vida a lutar contra fantasmas e derrotismos. E a sujeitarmo-nos ao permanente julgamento que nos eterniza como culpados.


É também por isso que admiro o Nuno. Com os mais feios e duros revezes que tivemos na vida, especialmente ele, em momento algum se tentou com a fuga fácil para a mesquinhez, as acusações e o derrotismo. A forma sã com que aceita, incentiva e se encanta com a alegria e os triunfos próprios e alheios faz dele um homem bom. Não é um optimismo bacoco de quem não teve dificuldades na vida ou as ignora. É a militância em ser naturalmente melhor.


Somos duas pessoas livres. Não sabemos o dia de amanhã. Mas conheço bem a sorte de ter por perto este tesouro, que nunca quis mudar quem sou e sempre me acreditou.

13/12/2020

Ai, Ai, Ai chama o bombeiro!

Natal

azevinho.jpg


*


A decisão está tomada: vamos aproveitar a generosa precária de três dias para rumar a Almada no próprio dia 25.

Momentos perfeitos


Há momentos em que a realidade é tão perfeita que nos custa a crer que seja verdade.


A perfeição existe. Vale a pena acreditar na humanidade.

12/12/2020

Nojento

O aproveitamento político e mediático que está a ser feito do homicídio do cidadão ucraniano Ihor Homenyuk.

Josh Groban - You Raise Me Up

Recolha do Lixo

recolha lixo.jpg


*


Todas as sextas-feiras à noite me sinto privilegiada. Há pequenos gestos que nos fazem sentir bem e alguns vêm de onde menos se espera. Nesta noite tenho o hábito de deitar fora o lixo da casa, seja o indiferenciado, seja o que tem como destino o ecoponto. Não é única vez na semana, mas esta é especial: a ideia é preparar o fim-de-semana livre de lixo.


Dou por mim a pensar na sorte que temos ao ter um contentor de lixo quase à porta de casa e o ecoponto a cinquenta ou sessenta metros com recolha diária. Podia ater-me nas falhas do sistema. Perguntar por que razão se diz que o verdadeiro tratamento de lixos e reciclagem não é feito, acabando tudo na queima. Não sei se isto é verdade, teria de averiguar. Também não é esse o ponto, mas sim a constatação do quão afortunados somos por vivermos num país e num tempo com este tipo de comodidades. Se há cinquenta anos na cidade já havia recolha regular de lixo, nos meios rurais, ela era feita pela população em valas na terra com queimadas regulares. E já agora, havia também reciclagem por se separar o lixo orgânico, que servia para os animais ou fertilizante da terra.


Quem passou por um país africano e viveu no campo ou para lá disto tem a percepção mínima do mundo e tempo em que vive, sabe que o conforto de se sentar no sofá sexta-feira à noite a fazer o quer que seja, com a serenidade de não ter na cozinha sacos malcheirosos ou o descanso de pensar que caso adoeça nessa mesma noite pode ser tratada em hospitais públicos com meios físicos muito razoáveis e bons profissionais, tem um preço. Usufruímos destas e muitas outras comodidades sem que muitas vezes o reconheçamos. Quem fala em recolha do lixo, fala em água canalizada potável, saneamento, acesso a medicação comparticipada pelo Estado, escolaridade gratuita, protecção social, sistemas rodoviário e de transportes etc. Se quisermos apontar defeitos a cada um destes serviços públicos, arranjaremos com toda a certeza mil e um motivos. Mas creio que é necessário situar muitos dos críticos fanáticos para quem tudo isto são tão só direitos adquiridos.


E situar como? Antes de mais fazer perceber que só uma parte do mundo a eles tem acesso e fazer reconhecer - muitos sabem perfeitamente mas preferem fazer de conta -, a mudança abismal em termos de qualidade de vida que teve o grosso da população portuguesa nas últimas décadas. E não tenhamos ilusões. Em miúda também costumava alinhar nas historinhas romanceadas de portugueses que até há cinquenta anos não viviam assim tão mal quando comparado com a vida triste dos subúrbios conquistada a partir do último quarto de século xx. Mas entretanto cresci e dei-me ao trabalho de ler dados estatísticos referentes à taxa de mortalidade infantil, taxa de escolaridade, dados sobre despesa da segurança social etc..


Claro que o que acabei de referir não serve de justificação para o mau funcionamento de serviços públicos, mas deveria impôr nos utentes algum pudor e discernimento na forma como reivindicam o melhor dos mundos sem querer perceber que nada cai do céu e que alguém paga ou pagará tudo quanto é dado. E aqui temos o busílis da questão, porque para haver justiça teria que haver consciência colectiva e individual do que cada um de nós dá e pode dar e recebe no todo comunitário.


Há anos faço este exercício de balanço na qualidade de cidadã para verificar como está o meu peso na comunidade. Para isso é preciso ter uma noção daquilo que se produz, aufere de salário ou lucro, recebe do estado (não necessariamente através de subsídios, mas de todos os serviços e produtos gratuitos ou comparticipados) e paga ao estado através de impostos. Fazer este exame ajuda a situar e a ser mais prudente nas críticas reivindicações fáceis. Claro que este exercício só terá validade se formos honestos connosco próprios. Se a ideia for sobrevalorizar o que produzimos e o que pagamos em imposto e esquecer ou subvalorizar o que auferimos como salário ou lucro e em serviços do Estado, mais vale estar quieto.


Porquê falar nisto agora? Por se tratar de questões que se podem e devem equacionar mesmo em tempo de pandemia e no seguimento de várias crises financeiras, que estão a pôr em causa muitos dos progressos do país em matéria de bem-estar. Como é costume, não é assunto que esteja a dar. As Comezinhas têm um tempo um tanto desfasado do que está a dar, mas são assim mesmo, e assim continuarão.

11/12/2020

Novos Julgamentos

descarregar.jpg


*


Tal como julgo ter esgotado por uns tempos os postais sobre a insensatez de não se ouvir o que têm a dizer os extremos mais à direita, depois de em Portugal passarmos quatro décadas de beneplácito com os extremos mais à esquerda, vou tentar secar de uma vez o tema dos fact-checks, polígrafos e afins. Ciente que não vou conseguir e que, como se costume, me vou meter em mais uma alhada interminável.


Quem tenha assistido à forma como a mentalidade predominante evoluiu nas últimas décadas e presta atenção no modo desajustado com que se diz repôr a verdade dos factos com esse tipo de mecanismos, percebe que esse mundo é um saco de gatos onde cabe tudo: desde factos propriamente ditos a preconceitos, suposições, intenções e juízos de valor e tudo mais quanto se possa imaginar.


Quem tem uma noção do que é o Direito sabe o quão ingénua ou perversa é a ideia daqueles acreditam ou dizem acreditar que a interpretação da lei se faz por juízos objectivos. Julgar o Direito mera questão técnica é uma tolice. Para lá de todo o conhecimento da lei propriamente dito e da técnica, está o espírito da dita e é ele que guia a interpretação ou julgamento mais correcto. Não se pode interpretar uma lei, sem perceber a sua causa, aquilo que lhe deu origem. Muito menos aplicá-la ao caso concreto. E até o espírito da lei pode ser questionado porque, como tudo na vida, obedece aos critérios de tempo e espaço.


E vem isto a propósito da dificuldade de fazer juízos de valor válidos sobre o quer que seja, incluindo factos. E se isto é assim para gente que está habituada ao estudo e interpretação das leis – disciplina com uns séculos de experiência -, imagine-se para os detentores há relativamente pouco tempo do poder de divulgação de notícias e escrutínio dos vários poderes instalados na comunidade e a tentação que existe de se arvorarem em juízes supremos de todo e qualquer comportamento humano.


E é neste contexto que vemos gente convencida – sem qualquer hesitação de tão inteiramente convencida -, de ser capaz de julgar como verdadeira, falsa ou talvez nem tanto determinada afirmação, sem se dar ao esforço de perceber nada do que está por detrás de cada declaração produzida. Percebendo zero da causa das coisas. Correndo para o que mais parece interessar hoje em dia: intenção de julgamento rápido. Os fact-checks dos jornalistas caem no mesmo logro das redes sociais. Acreditam ser detentores do poder de julgamento e com isso pretendem fazer vingar a mentalidade dominante. A mais atraente para cada um destes auto-investidos juízes.


O que me levou a escrever as linhas precedentes foi a constatação de que há jornalismo que usa as redes sociais como fonte e ganha-pão e, para cúmulo, em vez de estar agradecido, destrata-as para se arvorar em grande senhor dos factos. Ora, as fontes – agora com voz própria audível e com todos os vícios que sempre tiveram -, merecem respeito. As redes sociais, ainda que não embelezem a democracia, são a mais pungente manifestação da dita.

09/12/2020

Roger Waters - Every strangers eyes


Boa noite. 

As Calendas

Capturar.PNG


A acreditar nos antigos poderíamos atentar nos estados do tempo a partir do próximo dia 13 e até dia 24, fazendo corresponder cada um desses dias à previsão meteorológica dos 12 meses seguintes. São coisas que aprendi em criança, mas só hoje tive curiosidade em saber mais. Caso venha a ter vontade em desvendar mais sobre assunto, posso sempre ler isto com maior atenção.


Entretanto deixo as referências do dicionário e da Wikipédia sobre o significado primeiro de Calendas.


Capturar..PNG

O travão

A minha vida seria tão menos difícil sem os eternos e anacrónicos travões do orgulho e preconceito. Nunca deixei de os ouvir, apesar perfeitamente ciente do peso negativo que sempre tiveram em mim, e assim será enquanto existam. Chama-se respeito. Tomara fosse de parte a parte.


Era suposto a entrada de hoje ser mais uma longa memória bem-disposta. Está pronta, feita e acabada, mas não dá: a vida não é fácil. Vou deixar ficar para as calendas gregas.

08/12/2020

A tecla de sempre

descarregar.jpg


Ai e tal e as redes sociais são um lixo. São. E antes das redes sociais e a par delas, a comunicação social? A manipulação da informação através de imagens. As fotografias fofinhas ou credíveis dos políticos ou figuras públicas de que se quer dar uma imagem limpa e as distorcidas ou mal-amanhadas dos detestáveis. Tudo se vende e vendeu durante muitos anos na comunicação social. Venderam candidatos a cargos políticos, jornalistas, analistas e comentadores, empresários, cozinheiros, estilistas e outros ídolos. Ah, as redes sociais estão ao nível dos reality shows. Pois, é uma chatice: agora vendem empregados de mesa, cabeleireiras, personal trainers, lojistas e strippers. É verdade, é outro target. Mas o princípio é o mesmo. Quantas vezes dizer que há diferença entre informação credível e atoardas é pouco mais do que embrulho? E as encomendas de notícias a favorecer determinado político ou empresa? Ah, mas temos que pôr um travão nisto e não relativizar, se não é o descalabro total, e a democracia vira uma choldra. Mas, como assim? Choldra já ela é. E se criticamos o mexilhão por não saber distinguir factos de boatos, não podemos fechar os olhos à maior corrupção de princípios de quem tinha a obrigação de fazer diferente.