





Amanhã (isto é, logo) talvez faça legenda deste post, actualizando-o. O jantar e o saborear da melhor noite da semana. Agora só me apetece agarrar no novo saco de água quente e fazer sorna.
Adianto só: pois sim, sim. Com as vieiras seria obrigatório vinho branco, rosé ou champanhe. É, ou isso, ou o que nos apetecer. E quisemos maduro tinto, Papa Figos. Um vinho que descobri há uns anos para ofertas de Natal tentada pela beleza do rótulo. Um risco. Aposta ganha.
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Então, na qualidade de tagarela incorrigível, vamos lá (plural majestático, para o que me haveria de dar nos últimos tempos?) acrescentar umas palavrinhas neste postal sobre a noite de ontem.
O vinho da Adega de Vila Real é mais um conselho do Ricardo e, em bom rigor, devia ser o de 2017, mas apesar de ter ido ao Lidl só encontrei o de 2019. Ao que dizem também muito bom. Confirmarei noutro dia bastante mais adiante dado andar a abusar. Os conselhos abrangeram também o miolo de vieiras, que há muitos anos não comia.
Em Valinhas nas várias divisões havia espalhadas conchas de vieira a servir de cinzeiro. Aliás, tirando o de pé em bronze - junto à secretária dos meus pais, os quais não tinham vício de cigarro, e mais tarde no escritório à beira do braço do sofá -, não tenho memória de especiais cinzeiros a uso na casa que não fossem as vieiras apesar de quase todos os adultos serem fumadores. Talvez houvesse, seriam peças mais de ornamentação do que uso corrente. A minha mãe fumou enquanto fez o curso por se sentir reconfortada no meio dos livros e apontamentos, o meu pai fumava às vezes no final das refeições para soprar o fumo aos outros que o empestavam, numa espécie de revanche: se me bufam, também bufo.
No final do almoço ou jantar, há hora do café – eterna em Valinhas no som das histórias contadas em tom baixo pela minha avó e das opiniões dos circundantes, uns mais exuberantes do que outros, uns com mais graça do que outros, uns com mais razão do que outros, uns mais pensados do que outros, uns mais atentos aos outros do que outros - sobre a mesa de jantar era habitual estar uma, duas, três conchas, que iam revezando o sacudir da cinza dos muitos dedos que iam habitando ou passando pela casa. Era assim quando criança, mas tudo evoluiu. O hábito foi-se perdendo, cada vez havia mais ex-fumadores, até que nos últimos anos a minha mãe e a Susana argentina impuseram através de papéis escritos pendurados no candeeiro a proibição de fumar junto da minha avó - a quem nunca ouvi um reparo sobre cigarros, apesar de nunca ter fumado. Não é que não fosse lesta nos reparos, mas para dizer a verdade não tomava conhecimento nem despertava o menor interesse.
E isto só por causa das vieiras. A memória voa. Não fazia a menor ideia há 15 minutos que iria recordar uma vez mais Valinhas. Ontem quando comprei o miolo das ditas e as saboreei à noite (apetitosas e tenras, sendo a parte amarela também recomendável para contraste de sabor - será este o ponto fulcral ou toda a conversa à volta?) estava longe de pensar no que agora escrevo. Só há pouco me lembrei de como de tudo faço associações – as normais à semelhança da avó dão azo a histórias, e as anormais dão para partir na direcção a terrenos movediços – fiquei agora mesmo aqui a congeminar se tudo isto não tem um sentido último. Afinal não tão movediços assim, é aceitá-los por mais perturbadores possam parecer. Num despropósito muito a propósito li aí uma amargurada condenação da crença em Deus. Como dizer o que quero dizer agora sem ser imbecil ou ofensiva? Talvez apenas: a vida é mais fácil sem braços de ferro com a Natureza.
E nunca, lembra-te no futuro de não caíres no erro, ó autora destas linhas, nunca presumir que há responsabilidade própria em acreditar ou desacreditar no sentido último da vida. E sobretudo não te esqueças de ser agradecida e de saborear a ajuda. Não te esqueças de dizê-lo. Não sabes se durará este doce enlevo dos que te rodeiam inspirarem tema a desenvolver. Do nada, às vezes só te apercebes mais tarde. Não estavas habituada a facilidades e conheces bem o esforço de viver com ventos adversos. Agora que te sentes bafejada e com tanto engatilhado (é a terceira vez que usas a palavra nos últimos dias; são engraçadas as revoadas) agradece e festeja. Não sofras da soberba e arrogância que tanto criticas. Admite e declara as ajudas que recebes. Este vento favorável que te ajuda a ter momentos de felicidade na escrita – este texto nem está particularmente bem escrito, mas outros correram bem; uns e outros fazem-te contente ao escrever, ao ler e ao reler, como se brincasses num alegre recreio – também há amuos, mas que parque não é povoado de risadas e amuos? Felicidade na escrita e na vida. Se calhar, sem “e”. Começam a confundir-se os planos. Onde começa e acaba o que vives e o que escreves?
O resto é brócolo e batata vermelha cozidos com sal, e um fio de azeite no prato, a acompanhar as vieiras com dois ou três pingos de limão em cada. Simples.