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31/12/2022

Tintim por tintim

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Último jantar do ano 2022. A mesa posta segundo (vá, numa tentativa de) herança mista de Gaia e Porto da infância. Bom, nem toalha e guardanapos, nem centro de mesa corrido rectangular com enfeites natalícios e velinhas acesas - digamos que vale por aproximação, e estão presentes os frutos secos, bolo-rei e sonhos que deveriam estar no aparador. Menu muito mais recente: leitão para agrado do Nuno acompanhado de espumante. Resultado para mim: dor de cabeça imediata e uma soneca de 45 minutos no sofá a meias com o Ritz bem enroscado. Perfeitamente retemperada, atacámos os sonhos megalómanos trazidos da padaria da esquina - têm o triplo do tamanho dos que estou habituada e são mauzotes, mas cumpriu-se a tradição. E café com carderninho novo e lápis para anotar os nossos 24 desejos - 12 para cada um. À meia-noite é só endereçar a quem compete. 


As peças de roupa interior azul aguardam-nos: adoro tradições pirosas. São as pequenas-grandes felicidades.

Bom Ano Novo

 


Votos de Um Bom Ano 2023.


 

Recapitulando

À semelhança dos anos anteriores havia pensado escrever dois balanços ou resumos do ano escolhendo as entradas favoritas e os livros lidos. Tal como pretendia dar início a um novo espanador. Nada disso me apetece hoje, nem creio que vá ter vontade para tal nos próximos dias, pelo que ficam sem efeito. Tal como terá (?) ficado sem efeito a cronologia da Covid nos anos anteriores.


Estive as últimas duas horas e meia a ler na diagonal o último ano e picos. Foi mauzote e ao ler o blogue percebi que nem se nota como foi difícil - ainda bem, melhor assim. O balanço dos acontecidos já interessa pouco, já passou. Vive-se. O balanço dos sentimentos já foi feito. Nada importa acrescentar. 


Deixo apenas em recapitulação o post que mais me disse hoje ao reler antes de desejar um Bom Ano Novo aos leitores e amigos das Comezinhas.


*



Ingenuidade


por Isabel Paulos, em 24.07.22


 


Seguir caminho insistindo em acreditar além da dúvida nas pessoas e no carácter sincero e benigno dos gestos e sentimentos. Pôr o pé em ramo verde uma e outra vez. Correr o risco de acreditar e sofrer a correspondente desilusão não parece forma inteligente de viver. Não engrossar a casca. Seguir de varapau e trouxa ao ombro. Sempre. Indo. Deixar a pele sensível ao vento, sol e chuva. Ao amor. À rejeição. Ao desprezo. À indiferença.


Aprender.


Não sofisticar a retórica nem o coração em fraseados cheios de substância estudada, fictícia. Não empedernir os sentimentos com a lábia. Não falar do amor de cor. Não debitar rimas ou aforismos de bem-querença tão óbvios e certos que fedem a falsidade. Não lançar mão da eloquência para exaltar paixões que ardem mortas à nascença de tão calculadas. Não impressionar quem passa com profundas metáforas e perícias românticas. Preferir amar e perder a dar lições de amor.


Aprender.


Não aprimorar o pensamento com os penduricalhos da aparente erudição. Não falsear o pensamento com excesso de argumento e vã sapiência. Não dar ar de tratar por tu os mestres e as suas obras. Não aparentar possuir resposta pronta para cada data, cidade, nome, música, pintura e por aí fora. Não exibir descobertas recentes como as acompanhassem desde o parto. Não dar ar de saber mais do que sabe. Não dar ar de ser mais do que é. Não enxovalhar a falta de instrução alheia para enaltecimento próprio. Não decalcar rótulos e clonar senhas de irmandade interesseira. Preferir ficar aquém, cada vez que se vai mais além.


Aprender.


Fazer a vida de pequenos passos. Sempre aquém, indo além. Indo. De varapau e trouxa ao ombro. Não fugir da ingenuidade como se fosse condenação à condição perpéctua de incapacidade e fracasso. Aceitar a candura. Condescender com falhas próprias exibindo-as sem pudor para sobreviver à auto-exigência. Desde início aqui nas Comezinhas, como no Fora do Baralho. Aqui como acolá há 20, há 40 anos. Acreditando além da dúvida no carácter sincero e benigno dos gestos e sentimentos de quem passa. De desilusão em desilusão, mesclada de pequenos e raros tesouros que ficam para a vida.


Aprender.


Le Portugal face aux palaces verts

30/12/2022

Fim de etapa

Acabou o ano de trabalho.

29/12/2022

Tarde ou cedo

O cúmulo do absurdo do estado de dúvida permanente dá-se no momento em que te reconheces meia ensandecida e olhas em redor e vês a loucura disseminada – sim, normalmente isto seria tão só a confirmação que não estás bem, sucede que além desta prova em causa própria sabes-te amplamente acompanhada. Tudo a rolar como se houvesse sentido, todos a fazerem de conta estar muito sãos, com grande capacidade de análise, a dar ar de lucidez enquanto disfarçam a tremedeira dos joelhos do juízo que, tarde ou cedo, a todos toca.


Adiantas uma explicação para o estado de coisas. Face à inexistência de justificação lógica e racional para os acontecimentos é humano procurá-la fora da razoabilidade. Chamem-lhe o que quiserem. Talvez optes pela expressão: força do Universo. Ou pela palavra: Natureza. Os tempos de excesso de explicação e argumento originam a exaustão da mente humana. Dizem-te brincando: como é possível uma mente inteligente e lúcida cair na esparrela? Bom, não dizem esparrela, usam outro termo qualquer. Respondes que não tens culpa, não está ao teu alcance dominar o pensamento a todo o tempo. Dizem-te também: isso resulta da ansiedade. É possível. É uma batalha diária, de aplacar as associações estapafúrdias num constante processo de domínio. Um trabalho minucioso de domesticar ou domar os devaneios. Sabes que a faculdade de pensar de forma razoável a tempo inteiro (quase inteiro, já que és humana) voltará e aguardas paciente enquanto vais ora rindo ora agoniando com os teus desatinos mentais, lembrando como passaram tantos anos desde o momento que havias passado por isto, na altura com a agravante de tudo ser novo para ti. Não é que não temas a tolice e os seus caprichos, mas agora já a tratas por tu numa espécie de intimidade que te permite o luxo de escreveres posts como este.


Sabes que há quem tema a exposição das fragilidades, receando ficar vulnerável e sujeito a ataques soezes. Talvez não tenham noção da força inerente à assunção das fraquezas. Talvez precisem de escudos para os jogos de medição de egos e o vício das controvérsias sob a moldura da liberdade de expressão e o lugar-comum da tolerância, no lugar da mais ampla e verdadeira abertura de espírito. É deixá-los arrancarem a grande velocidade rumo à sonora e brilhante glória efémera. Assistirás da bancada.

Ennio Morricone


Mantra: não quero saber, não quero saber do país e das suas poucas-vergonhas.


Tudo quanto quero é música relaxante e abstrair das decisões geniais dos meus concidadãos nos últimos anos.


Foi o Governo (e o Presidente) que escolheram recentemente. A maioria foi atrás do pote de mel havendo alternativa de caminho de menor facilitismo.


Os outros que poderiam ter feito a diferença passaram os quatro anos anteriores a escarnecer da alternativa. A divertir-se à custa dela com presunção e bazófia. Arrastando consigo a tendenciosa comunicação social. Já que gostam tanto de se divertir à custa da suposta ingenuidade, falta ardil político e seriedade, habituem-se. Têm o que pediram. Apreciam desdenhar de tudo a eito e não respeitar nada nem ninguém? Sonham com o calculismo e a insensibilidade como paradigma de boa governação? Mas à falta dela, admiram a manha e astúcia dos adversários, preferindo-os aos vossos mais próximos? Tomem-nas. Assim terão a vida feita, plena de assunto para criticar, escrutinar, esquartejar - terão sempre o vosso ganha-pão e montanhas de likes e memes para rir. Não vos faltarão compradores de opinião.


Agora habituem-se, como diz o vosso adorado grande estratega, tão elogiado nos anos transactos. Só não façam de conta que foram ao engano e não espalhem as culpas ao acaso, buscando no passado remoto cordeiros para sacrificar. Só não culpem os outros pelas vossas asneiras recentes.

28/12/2022

Desanuviar

Para desanuviar da novela lusa de endogamanço exibida nos últimos dias numa estação perto de si, de artistas com feições a lembrar o mundo music hall pimba, nada como uma voltinha num dos cavalos de ferro no Comboios do Mundo, apresentado no fim do Jornal da Noite da SIC. Com partida de Inverness, atravessando as Terras Altas escocesas, o Parque Nacional de Cairngorms, as destilarias de espírito gentil - whisky -  entre a neve, com destino a Edimburgo e à magnífica ponte ferroviária de aço: ponte do Forth. 


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Depois disso e de leituras muito leves, resta aquecer o saco de água quente e tirar proveito do presente de Natal que de modo interesseiro dei ao Nuno: um rádio compacto, à moda antiga, para mesinha cabeceira. Bom, além de leitor de cd tem também entrada usb - modernices. Pequenas-grandes felicidades.


Boa noite.


 

The Nylons

  



Depois de espevitar com isto, voltei a Katie Melua que vai ser a banda sonora de hoje. Sereninha.

27/12/2022

A expectativa

Quão frustradora pode ser a expectativa. Podando os melhores pensamentos e sentimentos alheios. Querendo encaixá-los, emoldurá-los em inconscientes desejos e ambições próprias. Ainda que o acto intencional seja benévolo - como quem poda uma árvore para que produza mais e melhor fruto - minado de falta de ampla compreensão, pode pura e simplesmente desmembrar a planta à bruta, sem efeito útil.

Uma conclusão ressessa no meio do turbilhão

Quando as ideias fervilham, a vida quotidiana continua a ocupar o espaço normal no tempo e os acontecidos dobram ou triplicam, não é humanamente possível reduzir as primeiras a escrito. Aproveita-se contudo o  pouco que vai sobrando. E nesta época festiva efervescente caiu-me no regaço este apontamento: apesar de ser verdade aquilo que aqui foi dito inúmeras vezes acerca do peso do acaso e do quão aleatório é o caro privilégio do reconhecimento, não vale a pena zangar-nos com os vaidosos e oportunistas que sempre invocam para si ou para os que admiram especiais qualidades de dedicação, trabalho esforçado e talento, escondendo deliberadamente os favores, as facilidades, as oportunidades, a sorte. Em muitos casos estão convencidos da tal superioridade moral por trabalharem mais e melhor e, sobretudo, por considerarem ter domínio sobre as suas acções e mão na vontade própria. Como estariam cientes do contrário se o vento que lhes calhou soprasse em sentido inverso. Precisam de explicação lógica que satisfaça e justifique o ego – é uma necessidade fisiológica ou, em rigor, na pirâmide de Abraham Maslow, a necessidade de estima ou status.

Anseio simples

Quem me dera num ápice voltar ao normal. É tudo. 

26/12/2022

Passando ao de leve o espanador pessoal

É um nada difícil responder à questão: o Natal correu bem? Tenho respondido sempre: muito bem. Mas já que as Comezinhas valem como diário convém honestidade. À parte de ter passado um bom pedaço da manhã de 24 à porta das urgências do Santo António – aproveitei o “sossego” do momento para “mensajar” as Boas Festas a familiares e amigos - e o fim-de-tarde de visita lá dentro – nada de preocupante com a familiar visitada, tirando pouco mais do que o transtorno de lá estar. À parte de ter espatifado no chão o doce que levava para a Consoada, o que vale é que para contrariar a doçaria o Nuno e eu fizemos duas taças de salada de fruta para o jantar de 24 e o almoço de 25. À parte dos alinhadores dos dentes não encaixarem e de às vezes ter guinadas de dor forte – ao que parece é inerente ao processo de alinhamento. À parte da vizinha de baixo ter vindo queixar-se da infiltração de água da varanda que o Condomínio tinha ficado de tratar há meio ano, e de amanhã ter de accionar o meu seguro, apesar pagar também o seguro do Condomínio – inverte-se a situação por que passei em Bessa Leite, ficando com a perfeita noção que nisto de responsabilidade dos seguros vale a arbitrariedade total. À parte de hoje depois do almoço ter sido mordida superficialmente por um cão pequeno e irritante, só por o ter calcado num difícil movimento de quadratura do círculo no passeio, tentando impedir que abalroassem o Nuno - pronto, talvez tenha sido desajeitada -, tendo dito a inteligente dona do cão tinhoso: calcou-o. Borrifando-se para o facto de ele me ter magoado - foi muito superficial, nada que o Ritz não consiga fazer a brincar -, enquanto o Nuno esboçava uma reacção de desagrado e eu o puxava para sairmos daquele inferno momentâneo de estupidez - o que mais faço na vida é desenfiar-me de complicações como se nada fosse comigo e como se não fosse afectada. À parte das milhentas solicitações e da cabeça a mil. Tirando estas coisitas menores, o Natal foi óptimo.


A 24 Bacalhau Escondido, dizem que é assim que se apelida agora o primeiro prato que publiquei aqui nas Comezinhas em Dezembro de 2019 - feito pela minha mãe fica bastante mais bonito e delicado, com os ingredientes cortados mais miúdos e ordenados; para o ano tento fazer um mais bonitinho para figurar no blogue. Foi a primeira Consoada sem o Bacalhau Espiritual. A 25 Peru com batata assada, arroz, e introdução deste ano: ervilhas e cenouras estufadas a substituir os grelos e penca do dia anterior e o azeite fervido com alho. À sobremesa bolo-rei, sonhos, aletria (tentei uma nesga mínima, mas não, definitivamente não sou fã), panetone (não comi, ainda não aderi a esta novidade de há 20 anos da minha mãe) e salada de fruta (agora me lembro, esqueci de preparar o abacaxi da minha mãe, mas a salada continha, por isso não vem mal ao mundo). Primeiro ano sem rabanadas - foi estreia em muitos aspectos. Muita conversa, riso e troca de lembranças a 24; conversa viva, riso, cães, duas ou três horas a jogar Trivial e depenicar frutos secos a 25. Como nos esquecemos do café (acho que também foi a primeira vez que tal aconteceu) às seis da tarde estávamos cheios de sono. Acabou com a vitória do par de jogadores que tinha mais queijinhos no Trivial.


Isto é que é Natal?, perguntava há 20 anos a russa Maria. Ou seria a Nina ucraniana? Nem cantam? É, não cantamos. Conversamos e sobretudo gozamos com os defeitos uns dos outros, o que acontece sempre que nos juntamos. O Natal é só mais um pretexto para implicarmos.

Lulas

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Há quem chame Lulas à Bordalesa, outros estufadas ou guisadas à Portuguesa. Não sei nem faço especial questão de saber o nome. Em criança tratávamos o prato por "Lulas", com pequenas fatias de pão torrado no fundo da travessa ensopadas no molho de estufar as ditas - tal como alguns pratos alentejanos o pão serve para aumentar a dose e economizar - acompanhadas de arroz branco. Era o meu prato favorito em criança. Continuo a adorar arroz branco, e de mil e uma maneiras; prefiro-o à batata e à massa, apesar de não torcer o nariz a quase nada. O gosto pelo arroz branco diziam-me vir da costela Magalhães.


Hoje fui comê-las ao Orfeu. Não me souberam especialmente bem, por responsabilidade própria, já que não mastiguei as primeiras garfadas com o devido tempo e paciência, o que origina sempre mal-estar.


A ver se um dia as aprendo a fazer em casa. Não têm parecença com as cortadas às rodelas, cor-de-rosa alaranjado. São rosa escuro e a definição de cor aqui é tudo. Lá terei que descobrir os ingredientes. Creio não terem tinta, mas lá que ficam com o semi-ar disso, ficam. Será?


*


Adenda. À noite falei com a minha mãe sobre este post. Recordou-me que o que comíamos era uma evolução - degenerescência, digo eu -, dos Calamares en su tinta feitos pela minha avó. Lá está, a cor da tinta de lulas frescas é o nó górdio desta importante questão.

Contratação Pública

A propósito do livro Como o Estado Gasta Nosso Dinheiro, de Carlos Moreno, sugerido pelo leitor Jorge aqui, que não li.


*


A gestão ruinosa no grosso da contratação pública - parcerias públicas privadas e empreitadas feitas sob o conforto de cobertura de risco total por parte do Estado em benefício de "eleitos" por laços partidários, familiares, de amizade ou mera troca de favores e de grandes grupos empresariais - tem sido denunciada por inúmeros portugueses em comentários na comunicação social e redes sociais. Sê-lo enunciado por quem fez auditorias e esteve no Tribunal de Contas, e o faz de forma mais depurada de subjectividades, confere o benefício de perceber os interstícios da coisa. Deitei os olhos a parte das primeiras páginas: noções de finanças públicas. Passei à frente. Li o índice, fiquei curiosa quanto às sugestões do autor para resolução. À falta do livro, encontrei-as aqui (espero que sejam fidedignas): InVerbis - Estado gasta por mês 130 milhões sem concurso.
Apesar de perceber a intenção da proposta de obrigatoriedade de consulta a três entidades que operem no mercado, uma delas, uma PME, da obrigatoriedade de justificação no caso desta não ser incluída, os cuidados de divulgação e a responsabilidade dos infractores extensível aos decisores políticos, a verdade é que tudo isto se esvai na multiplicidade e na astúcia das práticas de corrupção que dominam o país. Por exemplo, ao avisar concorrentes dos critérios, ao estudar e aplicar exigências que excluam de facto as PME ou qualquer outra para além do "eleito" previa e intencionalmente e que assim sirvam para justificar a exclusão das primeiras. Todos estamos fartos de saber que a maioria dos concursos públicos são feitos por medida. Nem a divulgação e dita transparência é capaz de resolver a questão. Quanto à responsabilização, a forma como tudo é feito impede a prova dos factos. Como provar intenções e subentendidos? Qualquer defesa dos arguidos alegará sempre narrativa fantasiosa. O ardil da corrupção joga com esta dificuldade de partindo dos indícios se poder fazer prova de incumprimento ainda em sede de Tribunal de Contas e da falta de consequências no foro criminal resultante do facto de termos legislação e um sistema judicial excessivamente garantístico.

25/12/2022

Espanando ao de leve

Comecemos pelo centro nevrálgico. Como andava distraída do que se passa em Israel vejo com quase surpresa o regresso de Benjamin Netanyahu depois de destituído há ano e meio. Parei naquela solução sui generis de coligação com cabeça de série dividida. Bem me parecia ter visto Henrique Cymernam no ecrã nos últimos tempos. Está explicado. O resto, pretextos para vender notícias, meros fait divers.  


A Ucrânia começa a assinalar – escrever celebrar seria ofensivo para os ucranianos - o nascimento de Jesus a 25 de Dezembro, segundo o calendário gregoriano, para demarcação da Igreja Ortodoxa Russa, que segue o juliano. Na invasão da Ucrânia pela Rússia os Estados Unidos estimam que haja 40.000 vítimas civis, a Comissão Europeia calcula 20.000 mortos e feridos. Ambos estimam 100.000 mortos e feridos entre as forças ucranianas e 100.000 mortos e feridos entre as forças russas. Putin faz o seu número de circo de Natal ao dizer que a Rússia está pronta para negociar.


A coqueluche portuguesa da Igreja Católica fala em tempos de surdez e na necessidade de ajuda mútua. De fragilidade e vulnerabilidade humana. Tomara tenha uma vaga noção do que isso seja e não se limite a debitar banalidades agradáveis aos ouvidos dos outros e ao reconhecimento alheio. Tomara esteja enganada e a ser injusta.


No Irão continuam os protestos contra o regime teocrático de governo muçulmano xiita que dirige aquela república islâmica desde 1979. Verificaram-se centenas de assassinatos e milhares de detenções de protestantes desde a morte de Mahsa Amini a 16 Setembro detida e morta pela polícia da moralidade por usar o véu islâmico de forma incorrecta.


A empresa britânica Airfinity estima que a China registe mais de um milhão de infecções e cinco mil mortes por dia. Não há dados oficiais chineses fiáveis publicados.


A variante do tipo BF.7 do Ómicron que foi detectada em Espanha é a mesma registada na China com números exponenciais de infecção. As autoridades de saúde espanholas desvalorizam afirmando que a taxa de mortalidade nesta variante não é alta.


Reacende-se a  disputa pelas Ilhas Curilas entre o Japão e a Rússia com movimentações militares de parte a parte.


Serviços de Informações e Segurança moldavos acreditam numa invasão do seu país pela Rússia em 2023.


As tensões entre a Sérvia e o Kosovo agudizam-se, denunciando a primeira-ministra da Sérvia o desrespeito dos direitos de autonomia dos sérvios kosovares.


Na Áustria desapareceram duas pessoas por avalanche. Na Galiza seis passageiros de autocarro perderam a vida em despiste. Em França um radical matou três curdos. No Canadá e Estados Unidos uma tempestade de frente de ar árctico provocou 22 mortos.


É Natal.

Café de Natal no +1

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23/12/2022

Feliz Natal

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*


Votos de um Bom Natal.


 

Sexta-feira

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Não houve tempo para ir a casa. Almocei a solo no Orfeu. E conferenciei: estão abertos segunda-feira. Talvez venha às Lulas à Bordalesa. Já do lado de lá da rua, um cheirinho a água de rosas que me encantou.


 


 


 


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Ao contrário do forte odor adocicado vindo do rótulo "uma das melhores confeitarias do Porto" com as inefáveis filas nas traseiras resultantes da fama do bolo-rei. Há anos que lá não entro. Não gosto do pretensiosismo (nem de cheiro a doce, mas disso ninguém é responsável). 

Mais uma mexerufada

Um memogravador talvez ajudasse nos dias em que se encadeiam tarefas em tarefas e os pensamentos surgem na ideia sem tempo para os reduzir a escrito nem em traços tão gerais que só dêem para agenda. Isso para quando estou em casa, já que fora será difícil debitar em voz alta o que me vai na cabeça. Logo verei.


As manhãs teriam tudo para a mente ser mais profícua, mas quase tudo se perde. Ou não, talvez mais tarde os rasgos venham desfeitos e ligados a outros como massa de bolo na batedeira. À hora de almoço ainda se aproveita qualquer coisa, a partir daí vai em decrescendo até chegar a esta hora (depois das dez da noite) e já não me conseguir lembrar das 37 ideias geniais que tive mais cedo. E pensar que em novita gozava dizendo que a minha inteligência só funcionava de madrugada – como a vida muda. Agora - nos últimos anos - pouso a cabeça na almofada e poucos minutos depois estou a dormir.


Neste momento vou parar os dedos e fazer um último esforço de memória. Fiz. Demorou três ou quatro segundos e veio a ponta da cauda de uma ideia - as ideias são como as estrelas cadentes, temos de ser rápidos a avistá-las, senão já passaram -, a que atrelei outra. Vamos lá tentar. A questão de nos vermos ou não reflectidos no olhar do outro. Corre no pensamento de alguns que é coisa negativa, com origem no egocentrismo. E se for apenas um dom especial associado à observação de perscrutar no olhar, voz e atitude o pensamento do outro. Uma qualidade desenvolvida mais por pessoas ditas introvertidas ou inseguras. E se essa especial percepção existir mesmo não sendo mera mania de perseguição ou falta de confiança? E se ainda que haja consciência que é um transtorno viver com esta aptidão, se perceber que desperdiçá-la inteiramente não é um caminho sensato – nem viável. Ou vá, arranjemos um consenso: se optarmos por uma visão nem tanto ao mar nem tanto à terra. Porquê incentivar sempre a elevação da auto-estima e a vaidade própria se a dita potencia tanto conflito e erro de avaliação? Alguém cheio de si tem quase nula percepção da forma como os outros o vêem. A auto-estima é fabricada por necessidade de alimentar o ego e não por uma avaliação real de qualidades e defeitos – que nos é dada também pela forma como nos damos em família, social e profissionalmente. Os freios são colocados pela relação com o outro. Se ela for equivocada, baseada apenas no que é visível por ter sido declarado, perde-se todo um mundo de realismo que usualmente se escamoteia romantizando ou diabolizando o real ou pior escrutinando como se estivéssemos perante um Juízo Final – é esse o estado actual de mentalidade dominante. Num mundo de vaidade e certezas não há espaço para o fortuito ou o acaso. Nem para entendimento. Tudo deve ser explicado esmiuçadamente para provar a culpa dos condenados do dia, nem que amanhã tudo se esqueça e se passe a outros. Os heróis são escolhidos com igual leviandade. Nada tem adesão à verdade, apenas ao enredo construído num laborioso no sense por excesso de descrição.


Saltando de tópico. Julgo já ter abordado a ideia mais do que uma vez, mas repito. A necessidade extrema de alguns em exibir desprezo elitista pela aversão à violência, desonestidade e insensibilidade, mostrando não só vasto conhecimento como tolerância pelo sórdido, desde que a fonte objecto de análise seja inteligente ou estranha e cativante. A versão erudita da atracção pelas histórias de faca e alguidar. O pézito no chinelo dos iluminados no pretexto de intelectualizar e humanizar o mundo imundo. A fórmula fácil de garantirem gozo próprio à custa do sofrimento alheio e obviamente de se mostrarem mais sofisticados e, de modo artificial, emocional e intelectualmente seguros. O logro é patente no recurso constante ao mimetismo dos contra-clichés fabricados a partir do consumo produtos de propriedade intelectual vendidos ou disseminados em circuitos supostamente restritos que lhes dêem sainete.


Para terminar, um cálculo aritmético difícil. Como encontrar a dose certa de lucidez na criatividade – sim, hoje reabilito o termo. Quem se permite seguir sem freios nem filtros (como se vulgarizou dizer; acho piada por há cerca de 20 anos ter usado a ideia já no sentido deste último parágrafo, já na altura contra-corrente e antecipando o rótulo da moda) dir-se-ia seguir um caminho mais genuíno. Não sei se é verdade. Perder a noção da realidade, do bem e do mal, do que é saudável e nocivo pode parecer um caminho altamente apetecível e rentável do ponto de vista criativo mas não me parece desejável ou sequer honesto do ponto de vista artístico. Faz-se à custa do (falso) facilitismo, da exploração de fragilidades próprias e alheias. Por várias vias possíveis. Por exemplo, pelo consumo de álcool ou estupefacientes ou pela falta de tratamento de perturbações mentais. Fica caríssimo sob ponto de vista financeiro e da saúde. Muito prosaicamente não me parece bom caminho.

21/12/2022

Tulipas

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Não é a vistosa flor de Natal nem o elegante azevinho em primoroso arranjo artístico. É um vulgaríssimo vaso de plástico, numa banal varanda de parede branca suja de salpicos de terra, atenta a força da chuva nos últimos meses. Na terra despontaram dois pés de tulipa cujos bolbos plantei no passado dia 16 de Outubro


Andava distraída da varanda, só ontem à noite a minha mãe me alertou: algumas das suas tulipas já haviam despontado. Pelo que a primeira coisa que hoje fiz ao acordar foi ver se as minhas duas também. El voilà.


Gostaria muito de dar uma volta pelos jornais e ver o que se passa no mundo. Ando há dois ou três dias para espanar o globo, não em modo de escrita mas apenas de leitura. Porém nem isso consigo. Sinto tudo efervescente, todavia nada assente na ideia. Por exemplo, que se passa no Kosovo? E na Moldávia? E quem diz Kosovo e Moldávia, pergunta que se passou e passa no Peru. Isto já para não falar da Ucrânia, da Rússia, dos Estados Unidos, da China e da Índia.


Depois destas últimas semanas (meses) mergulhada em memórias, umbigos e sensações (também preciso) terei de voltar a situar-me. Não sei se é possível antes do Natal. Quase não consigo ouvir/ler notícias de fio a pavio. Estou moída e cheia de sono. Por hoje resta-me tomar chuveiro e dormir.


Boa noite.

Lições de Vida

Na Escola da Misericórdia passei por duas situações que me marcaram para a vida – podia ficar pela palavra “situações”, mas não vincava a durabilidade que me apetece reforçar. Bom, e também perdia a oportunidade de dizer que até tarde, talvez aos doze, ainda tinha dúvidas se me “abetecia” ou apetecia, tal como uns anos antes não sabia se tinha “bescoço” ou pescoço. E diverte-me a profusão de teorias e sentenças dos mestre-escola e dos psicólogos lifestyle sobre falhas como esta face à ausência total de teorias sobre o assumir de erros. A apontar defeitos aos outros, milhões, mas a assumir erros próprios, isso agora não há quem goste, a menos que se faça uma piadinha e através do brilhantismo da ironia se assuma o pequeno erro – qual pecador magnânimo perante os rebanhos de seguidores hipnotizados pelo humor e inteligência dos mestre-escola e psicólogos lifestyle e fascinados com a forma como são capazes de replicar na perfeição as graças e as sentenças. Bom, voltemos às situações que me marcaram na escola primária. Foram bastantes mais. Se todos atentássemos nos muitos episódios que nos formam e enformam, não faríamos nada mais de interessante na vida senão o papel de tia chata a contar histórias que não interessam nem ao Menino Jesus. Todavia (notem o esforço de variar a adversativa “mas”, só para vos deixar contentes, a vós que fazeis de conta não prestar atenção aos comuns mortais – a menos que tragam benefício – tão ocupados estais na comunicação social e redes sociais a enaltecer amigos e ilustres de conveniência que vos potenciem o sucesso) a vida é como é e à falta de assuntos e afazeres palpitantes para tratar, continuo nestas sensaborias das memórias. Como imaginam os demais leitores (felizmente contam-se pelos dedos de duas mãos, às vezes três), estas historietas que deixo entediam-me tanto que continuo a conversá-las. É militância. Um sacrifício só. Espero que estejam a sofrer comigo e mortos por se pôr na alheta para enfim ter animação ou alimento intelectual de jeito.


Antes dos sete anos, não tenho presente a idade certa, apenas me lembro que andava na primeira ou segunda classe - como a memória não é boa, distingo os anos pela sala que ocupava à época - a irmã dá sinal para intervalo da manhã e entra uma das empregadas com pão com marmelada num prato, dizendo ser para a menina. A minha mãe dera indicação para que comesse qualquer coisa na escola a meio da manhã. Sucede que a maioria dos meus colegas não levava nada, ou nalguns casos levavam um pão com nada ou pouco mais que nada. Recordo que houve uma altura em que o ministério distribuiu pacotes de leite – nunca o bebi, espero que tenha sabido bem a quem o bebeu – não me lembro de o possuir e se o tive do que lhe fazia. Mas antes disso, chega-me então um pires com um pão recheado de uma generosa fatia de marmelada, que eu odiava, diga-se. Nesta ocasião talvez chegasse um buraco para enterrar o pão, a marmelada, o pires e a menina. Mas como tudo pode piorar também tive o baptismo na sala de refeições junto à cozinha. Éramos dez no máximo. Chega sopa para todos. E um prato de massa cotovelo riscada com chouriço para a menina, que por acaso adora massa com chouriço mas ainda hoje está para saber se conseguiu dar uma garfada no apetitoso prato atento o monumental nó na garganta. Quando percebi o que me estava a acontecer só queria fugir. Não havia buraco que chegasse para enfiar a massa, o chouriço, o prato e a mim própria. Não me lembro o que disse em casa, mas sei que não voltei a comer na escola primária. Folguei muito quando cheguei ao ciclo preparatório e apesar de algumas contrariedades percebi que havia cantinas democráticas, onde toda a gente comia o mesmo.


Por isso, naquelas discussões imbecis quando se dizia que o problema dos portugueses é não trabalharem para o porsche em vez de invejarem o do vizinho, digo com toda a franqueza que odeio "porsches" e não é por inveja mas por genuinamente não achar piada nenhuma a carros muito menos a desportivos e, também, por respeito ao próximo. E pela mesma razão não gosto de vaidade vã ou soberba intelectual. A imagem não é elegante e aliás presta-se a trocadilhos fáceis com dor de cotovelo – sempre a saída mais fácil de rotular tudo neste país onde se querem perpectuar dois fracos sinais de inteligência das elites fajutas: a leviandade e a presunção. O certo é que a vaidade e a arrogância me dão vontade de vomitar a massa cotovelo riscada com chouriço.


As gralhas devem ser mais do que muitas, mas tenho sono. Não vou rever novamente.

20/12/2022

Porquinho mealheiro

Uma simpática família de Braga acaba de ganhar 50.000 euros na RTP  - gostei.

Catarina Fonseca

(continuação do conto Albatroz de Catarina Fonseca)17.PNG


 


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19/12/2022

Afinal as moralidades ficam para depois

Não consigo lembrar as teorias moralistas que ia debitar de manhã. Mas como a esperança é a última a morrer pode ser que se me abra o espírito antes de terminar o post e a elas faça referência. São quase nove e meia da noite, a televisão exibe o Vasquinho - como conhecemos cá em casa o programa de perguntas de cultura geral da RTP a que o Nuno assiste todas as noites. Hoje divide comigo o sofá no pretexto de estrearmos as meias de motivos alusivos à época – é a primeira vez na vida que uso uma peça de vestuário natalícia. São muito quentinhas: acolchoadas, com pêlo interior e anti-derrapante. Ontem aqui passamos o fim de tarde de televisão desligada, como fica melhor, e no pretexto de ouvir as maçadoras canções de Natal enquanto depenicávamos pipocas salgadas. Após jantar assistimos ao ardil no condicionamento da opinião do mui experimentado comentador Marques Mendes, seguido de vivas gargalhadas provocadas pelo RAP – não posso deixar de reparar no tique de professor primário que agora faz escola entre os líderes de opinião de sucesso. Voltando a Marques Mendes, teve o mérito ao apresentar o Quem Quer ser Primeiro-Ministro, de me recordar os jogos de tabuleiro, acabando por mandar vir o Trivial Pursuit, o que é um tanto estranho quando este tipo de jogos tem variantes digitais acessíveis nos smartphones – já houve um tempo que joguei no telemóvel; pouco, por me cansar rapidamente.


Depois da primeira parte de tão imprescindíveis revelações e de tão fértil forma e substância, não sei que mais diga. Talvez adiante que lá à frente hei-de escrever sobre a impossibilidade de gente com percursos de vida muito distintos pensar e sentir o Natal de forma semelhante. E daí partir para o complexo quadro de influências, às vezes antagónicas dentro de uma alma só, daquilo que faz a matéria física, pensante e emocional de cada um. Não há duas almas iguais e disso se faz a beleza e a dificuldade da vida. O quadro dos ventos naturais que determinam as circunstâncias de vida e dos ventos psicológicos que desenham o perfil racional e emocional. Talvez lembre só que é comum confundir-se racionalidade com objectividade e emoção com subjectividade, o que faz pouco sentido – daí usar tantas vezes juntos os verbos pensar e sentir, para evitar essa subalternização sem fundamento lógico do emocional face ao racional, como se fosse um achaque de pessoas pouco preparadas para a vida. Visão que resulta do medo das emoções e leva ao culto da pseudo-razão.


E quem diz Natal, diz tudo o resto. A perspectiva na vida faz-se do percurso e não só. Dos imaginários ficcionais a que cada um foi permeável. E na ficção não entra só a leitura, cinema, música, etc, como todo o manancial de narrativas de descrição da realidade que formaram as mentalidades ao longo de décadas, especialmente, no último século.  Para lá das circunstâncias físicas, a forma como a realidade foi apresentada ou vendida nos livros, cinema, música, comunicação social e agora nas redes sociais molda e condiciona não só ideais intelectuais e morais como as ambições emocionais – parecerá isto a subversão dos paradigmas da objectividade e subjectividade?


Esqueci-me mesmo das moralidades. Pena. Mas virão noutro dia. Sei que sim. Como prémio de consolação, depois de reler o texto confirmo que cumpri a promessa de escrever baboseiras. Entretanto, ocorreu-me a ideia de escolha entre ser respeitada por aprofundar a loucura das baboseiras ou manter-me na mediania da tona - a decisão recairá sempre na última: era o que me faltava andar a sustentar lunáticos à custa da minha saúde.


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Adenda.


Não, não é gesso. Não parti os dois pés. São acolchoadas.


Desde que as pus, tenho dificuldade em manter a dignidade sabendo que por cada par de pés alegre e a viver em tranquilidade como os meus estão este ano, há muitos milhares a sofrer. A vida é cruel. Mas também sei que não é por escrever meia-dúzia de palavras contra o consumismo ou a falsidade desta época do ano que a realidade difícil muda, por exemplo, na Ucrânia.

Katie Melua

 


De manhã pensei numas patetices moralistas para escrever, mas não tive tempo.


No início da tarde tive algum tempo, mas não me lembrei das palermices. Mais ao fim do dia ou mesmo à noite cá virei; lá ia perder a oportunidade de escrever baboseiras.


Perguntei a uma colega que me aconselhava ouvir. Respondeu-me Katie Melua. Cá fica ela, no concerto que estou a ouvir no momento.


Boa semana, gentes.

18/12/2022

Ponto de situação

Sofá largo para dois e bolo-rei – é Natal. Dois pares de meias anti-derrapante e Trivial Pursuit a fazer recordar velhos tempos. Encomendados e a caminho, a trazer pelas modernas renas do Continente, vestidas de vermelho condizente com a época de festividades. Tudo preparado para a semana que antecede a Consoada. De dia trabalho, à noite sorna relaxada. Seria perfeito, não fosse a maldita dor de dentes que não me larga – mentira, até larga. Um vaivém ou ondas sobretudo quando ingiro qualquer alimento a indiciar que é uma cárie. Ando assim há uma semana e amanhã à hora do almoço a dentista dirá se sempre é cárie – maleita que não sofro há anos – ou se faz parte do ajuste do maxilar provocado por este açaime com que ando há quase um ano.

Catarina Fonseca

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(cont.)

The Nullarbor

João-Afonso Machado

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Lido

Marcel Proust: a política e a escrita, de Jaime Nogueira Pinto, no Observador.

17/12/2022

Sexta à noite

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Amanhã (isto é, logo) talvez faça legenda deste post, actualizando-o. O jantar e o saborear da melhor noite da semana. Agora só me apetece agarrar no novo saco de água quente e fazer sorna.


Adianto só: pois sim, sim. Com as vieiras seria obrigatório vinho branco, rosé ou champanhe. É, ou isso, ou o que nos apetecer. E quisemos maduro tinto, Papa Figos. Um vinho que descobri há uns anos para ofertas de Natal tentada pela beleza do rótulo. Um risco. Aposta ganha. 


*


Então, na qualidade de tagarela incorrigível, vamos lá (plural majestático, para o que me haveria de dar nos últimos tempos?) acrescentar umas palavrinhas neste postal sobre a noite de ontem.


O vinho da Adega de Vila Real é mais um conselho do Ricardo e, em bom rigor, devia ser o de 2017, mas apesar de ter ido ao Lidl só encontrei o de 2019. Ao que dizem também muito bom. Confirmarei noutro dia bastante mais adiante dado andar a abusar. Os conselhos abrangeram também o miolo de vieiras, que há muitos anos não comia.


Em Valinhas nas várias divisões havia espalhadas conchas de vieira a servir de cinzeiro. Aliás, tirando o de pé em bronze - junto à secretária dos meus pais, os quais não tinham vício de cigarro, e mais tarde no escritório à beira do braço do sofá -, não tenho memória de especiais cinzeiros a uso na casa que não fossem as vieiras apesar de quase todos os adultos serem fumadores. Talvez houvesse, seriam peças mais de ornamentação do que uso corrente. A minha mãe fumou enquanto fez o curso por se sentir reconfortada no meio dos livros e apontamentos, o meu pai fumava às vezes no final das refeições para soprar o fumo aos outros que o empestavam, numa espécie de revanche: se me bufam, também bufo.


No final do almoço ou jantar, há hora do café – eterna em Valinhas no som das histórias contadas em tom baixo pela minha avó e das opiniões dos circundantes, uns mais exuberantes do que outros, uns com mais graça do que outros, uns com mais razão do que outros, uns mais pensados do que outros, uns mais atentos aos outros do que outros - sobre a mesa de jantar era habitual estar uma, duas, três conchas, que iam revezando o sacudir da cinza dos muitos dedos que iam habitando ou passando pela casa. Era assim quando criança, mas tudo evoluiu. O hábito foi-se perdendo, cada vez havia mais ex-fumadores, até que nos últimos anos a minha mãe e a Susana argentina impuseram através de papéis escritos pendurados no candeeiro a proibição de fumar junto da minha avó - a quem nunca ouvi um reparo sobre cigarros, apesar de nunca ter fumado. Não é que não fosse lesta nos reparos, mas para dizer a verdade não tomava conhecimento nem despertava o menor interesse.  


E isto só por causa das vieiras. A memória voa. Não fazia a menor ideia há 15 minutos que iria recordar uma vez mais Valinhas. Ontem quando comprei o miolo das ditas e as saboreei à noite (apetitosas e tenras, sendo a parte amarela também recomendável para contraste de sabor - será este o ponto fulcral ou toda a conversa à volta?) estava longe de pensar no que agora escrevo. Só há pouco me lembrei de como de tudo faço associações – as normais à semelhança da avó dão azo a histórias, e as anormais dão para partir na direcção a terrenos movediços – fiquei agora mesmo aqui a congeminar se tudo isto não tem um sentido último. Afinal não tão movediços assim, é aceitá-los por mais perturbadores possam parecer. Num despropósito muito a propósito li aí uma amargurada condenação da crença em Deus. Como dizer o que quero dizer agora sem ser imbecil ou ofensiva? Talvez apenas: a vida é mais fácil sem braços de ferro com a Natureza.


E nunca, lembra-te no futuro de não caíres no erro, ó autora destas linhas, nunca presumir que há responsabilidade própria em acreditar ou desacreditar no sentido último da vida. E sobretudo não te esqueças de ser agradecida e de saborear a ajuda. Não te esqueças de dizê-lo. Não sabes se durará este doce enlevo dos que te rodeiam inspirarem tema a desenvolver. Do nada, às vezes só te apercebes mais tarde. Não estavas habituada a facilidades e conheces bem o esforço de viver com ventos adversos. Agora que te sentes bafejada e com tanto engatilhado (é a terceira vez que usas a palavra nos últimos dias; são engraçadas as revoadas) agradece e festeja. Não sofras da soberba e arrogância que tanto criticas. Admite e declara as ajudas que recebes. Este vento favorável que te ajuda a ter momentos de felicidade na escrita – este texto nem está particularmente bem escrito, mas outros correram bem; uns e outros fazem-te contente ao escrever, ao ler e ao reler, como se brincasses num alegre recreio – também há amuos, mas que parque não é povoado de risadas e amuos? Felicidade na escrita e na vida. Se calhar, sem “e”. Começam a confundir-se os planos. Onde começa e acaba o que vives e o que escreves?


O resto é brócolo e batata vermelha cozidos com sal, e um fio de azeite no prato, a acompanhar as vieiras com dois ou três pingos de limão em cada. Simples.

16/12/2022

Ponto de situação

Nunca mais toca para recreio, apre.

Mar

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Hoje o mar está como gosto:


azul chumbo.


Será monocórdica esta obsessão pelo azul?


Aí vem um fim-de-semana sem programa. Delícia.


Boa sexta-feira.


*


Aqui a pensar com os meus botões que imagem colocarei este Dezembro no perfil. Fugirei às cores, já que ao fim de quatro anos de invenções (cor-de-rosa, amarelo, laranja), regressarei ao pacato azul de sempre. Se encontrar uma imagem bonita de um pássaro no ninho (passei anos a fio em novita a tentar desenhar um), será essa que ficará.