Um memogravador talvez ajudasse nos dias em que se encadeiam tarefas em tarefas e os pensamentos surgem na ideia sem tempo para os reduzir a escrito nem em traços tão gerais que só dêem para agenda. Isso para quando estou em casa, já que fora será difícil debitar em voz alta o que me vai na cabeça. Logo verei.
As manhãs teriam tudo para a mente ser mais profícua, mas quase tudo se perde. Ou não, talvez mais tarde os rasgos venham desfeitos e ligados a outros como massa de bolo na batedeira. À hora de almoço ainda se aproveita qualquer coisa, a partir daí vai em decrescendo até chegar a esta hora (depois das dez da noite) e já não me conseguir lembrar das 37 ideias geniais que tive mais cedo. E pensar que em novita gozava dizendo que a minha inteligência só funcionava de madrugada – como a vida muda. Agora - nos últimos anos - pouso a cabeça na almofada e poucos minutos depois estou a dormir.
Neste momento vou parar os dedos e fazer um último esforço de memória. Fiz. Demorou três ou quatro segundos e veio a ponta da cauda de uma ideia - as ideias são como as estrelas cadentes, temos de ser rápidos a avistá-las, senão já passaram -, a que atrelei outra. Vamos lá tentar. A questão de nos vermos ou não reflectidos no olhar do outro. Corre no pensamento de alguns que é coisa negativa, com origem no egocentrismo. E se for apenas um dom especial associado à observação de perscrutar no olhar, voz e atitude o pensamento do outro. Uma qualidade desenvolvida mais por pessoas ditas introvertidas ou inseguras. E se essa especial percepção existir mesmo não sendo mera mania de perseguição ou falta de confiança? E se ainda que haja consciência que é um transtorno viver com esta aptidão, se perceber que desperdiçá-la inteiramente não é um caminho sensato – nem viável. Ou vá, arranjemos um consenso: se optarmos por uma visão nem tanto ao mar nem tanto à terra. Porquê incentivar sempre a elevação da auto-estima e a vaidade própria se a dita potencia tanto conflito e erro de avaliação? Alguém cheio de si tem quase nula percepção da forma como os outros o vêem. A auto-estima é fabricada por necessidade de alimentar o ego e não por uma avaliação real de qualidades e defeitos – que nos é dada também pela forma como nos damos em família, social e profissionalmente. Os freios são colocados pela relação com o outro. Se ela for equivocada, baseada apenas no que é visível por ter sido declarado, perde-se todo um mundo de realismo que usualmente se escamoteia romantizando ou diabolizando o real ou pior escrutinando como se estivéssemos perante um Juízo Final – é esse o estado actual de mentalidade dominante. Num mundo de vaidade e certezas não há espaço para o fortuito ou o acaso. Nem para entendimento. Tudo deve ser explicado esmiuçadamente para provar a culpa dos condenados do dia, nem que amanhã tudo se esqueça e se passe a outros. Os heróis são escolhidos com igual leviandade. Nada tem adesão à verdade, apenas ao enredo construído num laborioso no sense por excesso de descrição.
Saltando de tópico. Julgo já ter abordado a ideia mais do que uma vez, mas repito. A necessidade extrema de alguns em exibir desprezo elitista pela aversão à violência, desonestidade e insensibilidade, mostrando não só vasto conhecimento como tolerância pelo sórdido, desde que a fonte objecto de análise seja inteligente ou estranha e cativante. A versão erudita da atracção pelas histórias de faca e alguidar. O pézito no chinelo dos iluminados no pretexto de intelectualizar e humanizar o mundo imundo. A fórmula fácil de garantirem gozo próprio à custa do sofrimento alheio e obviamente de se mostrarem mais sofisticados e, de modo artificial, emocional e intelectualmente seguros. O logro é patente no recurso constante ao mimetismo dos contra-clichés fabricados a partir do consumo produtos de propriedade intelectual vendidos ou disseminados em circuitos supostamente restritos que lhes dêem sainete.
Para terminar, um cálculo aritmético difícil. Como encontrar a dose certa de lucidez na criatividade – sim, hoje reabilito o termo. Quem se permite seguir sem freios nem filtros (como se vulgarizou dizer; acho piada por há cerca de 20 anos ter usado a ideia já no sentido deste último parágrafo, já na altura contra-corrente e antecipando o rótulo da moda) dir-se-ia seguir um caminho mais genuíno. Não sei se é verdade. Perder a noção da realidade, do bem e do mal, do que é saudável e nocivo pode parecer um caminho altamente apetecível e rentável do ponto de vista criativo mas não me parece desejável ou sequer honesto do ponto de vista artístico. Faz-se à custa do (falso) facilitismo, da exploração de fragilidades próprias e alheias. Por várias vias possíveis. Por exemplo, pelo consumo de álcool ou estupefacientes ou pela falta de tratamento de perturbações mentais. Fica caríssimo sob ponto de vista financeiro e da saúde. Muito prosaicamente não me parece bom caminho.