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18/08/2020

Até breve




Até breve


por Isabel Paulos, em 18.08.20




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Escrevo as linhas seguintes com a perfeita consciência de que textos como este – pessoais e explicativos do afastamento temporário – são tidos como menoridades desnecessárias, mas isso não me aquece nem arrefece. O certo é que de manhã estava a pensar com os meus botões quais seriam os próximos escritos das Comezinhas. Em mente tinha alinhavado grosso modo o apontamento sobre a diferença entre sentir e perceber como se faz música e conhecer a história ou percurso do compositor, músico ou bandas; a distinção entre o prazer de ler e escrever e saber quais são os géneros literários e o rol de autores e ideias recomendadas; a distância que vai entre catalogar uma pintura com esta ou aquela corrente e o distinguir a forma como desliza o pincel na tela com aguarela, óleo ou acrílico; a destrinça entre gostar de beber vinho, das uvas, das pipas, dos lagares e discutir rótulos de garrafas. Tudo faz o todo. Tudo é importante. Mas não se sentindo - o trabalho, a fábrica, a arte - de pouco vale dissertar, debater ou pseudo-ensinar conceitos abstractos. E recordei – é uma constante do meu pensamento –, quão artificial e volúvel é a atitude de muitos perante as pessoas, ideias e obras. É-se genial ou um perfeito asno por mero acaso, por jeito ou desagrado ‘amigo’, por apetite ou enjoo momentâneo. Por tique.


Há uns dias pensei também em aguardar pelas férias em Setembro e, com tempo e gosto, mostrar em fotografias a confecção dos jantares durante uma semana. E gravar mais uma pianada. Tinha a ideia de fazer dois ou três postais sobre leituras de ciência, matéria em que sou uma nulidade. A ideia era começar por Heráclito. Mas tudo isso ficará para segundas núpcias (nunca deixo de me lembrar da minha avó quando uso esta expressão). Sobreveio a sensação de que preciso, como agora se diz: ajustar as prioridades.


Ler, escrever, conversar e opinar são-me vitais. E o mundo virtual veio ampliar a possibilidade de expandir esses gostos. Por esta altura, faz vinte anos que a internet começou a ter peso na minha vida. Fui utilizadora antes, mas ocasional. E há dezassete tive o primeiro blog. Devo muito à internet. O melhor e o pior. Conversei milhares de horas por escrito. Troquei ideias, concordei, discordei, chateei-me, alegrei-me. ‘Conheci’ muitas dezenas de pessoas. Nos sítios mais inesperados, entre muito lixo humano, variedade de ideias e percursos de vida, encontrei tesouros - não só pelo talento inato e dedicação ao trabalho/arte, como pelas qualidades humanas. Gente que de outro modo muito possivelmente não encontraria, ou não daria a mesma atenção e vice-versa. Como não tenho aquele bom feitio ou talento de guardar trinta pessoas no coração e manter contacto para toda a vida, os meus amigos contam-se pelos dedos de uma mão – vá, talvez precise de um dedo emprestado da outra mão. Poucas e antigas amizades, na maioria com mais de trinta anos, ou seja, muito anteriores à utilização da internet. Ainda assim, não desvalorizo as amizades feitas virtualmente – sei, aliás, ser bastante dissimulado esse desprezo. Prezo-as tanto quanto as mais antigas. A internet passou a ser – a par das escolas, da vizinhança, das universidades, dos locais de trabalho, dos espaços lúdicos, dos eventos sociais, das viagens, etc., o ponto de partida de ligação entre muitos. E desdenhar ou desprezar isto revela pessoas que estão efectivamente fora do munto virtual, ou – também muito comum –, pessoas que estão absolutamente dentro, mas dissimulam por preconceito e ainda se encontrarem em estado de negação.


Tal como prezo, desprendidamente, os ‘conhecidos’ virtuais. Desde criança oiço falar em ter relações ou boas relações. Como diz o outro: é coisa que não me assiste. Não sei fazer relações nem ter boas relações, muito menos chamo a isso ter amigos. Aos amigos escrevo, falo ou estou de quando a quando, quero saber deles, preocupo-me e sei que a inversa é verdadeira. Imagino que ter boas relações – ter muitos amigos - esteja muito longe disto.


Como é natural o reverso da medalha também existe. Lado a lado de muita gente boa, há verdadeiros canalhas. O meio virtual é propício à ofensa, à mentira, à cobardia e à pulhice. Nalguns casos, como não podia deixar de ser, gente muito interessada nas boas relações. O melhor que temos a fazer é aprender a evitar esse tipo de gente. O bom de envelhecer é que começamos a sentir-lhes o cheiro à distância, a tempo de não provocarem estragos. Mas isto não é, definitivamente, o que mais interessa. Melhor é aproveitar a companhia e sabedoria de muito boa gente, de que não usufruiríamos de outro modo.


Durante cerca de doze anos estive fora do mundo virtual, isto é, sem intervir. Sem conversar, sem debater. Quieta. Mas nunca perdi o hábito de ler jornais e blogs. Mantive-me apenas como leitora. O que escrevi foi  para mim e não para os outros. Há menos de dois anos voltei a conversar e dar bitaites. Depois criei as Comezinhas. Mais do que agora se chama exercitar as competências sociais, busquei uma forma exercitar a escrita. Um gosto antigo, mas pouco trabalhado. Nas Comezinhas aproveitei para publicar o que tinha escrito nos últimos anos. Na altura, perguntaram-me por que não tentava publicar à séria. Há várias razões. Primeiro por já ter feito uma tentativa sabendo que dificilmente aconteceria a edição normal e não me apetecer a edição de autor: não tenho o menor jeito para impingir. Segundo, por um pormenor da maior importância: por pouquíssimos que fossem, a Ana Paula teve mais leitores aqui nas Comezinhas, do que algum dia teria numa edição de papel. Terceiro porque já tinha sido lida pelas três pessoas que mais importava lessem. Quarto, por o culto do livro como objecto não ser em mim superior à simples leitura, seja em que suporte for. Quinto e mais importante: a Ana Paula é fraquinha. O próximo – a Quinta -, será melhor e ao terceiro ou quarto estarei no ponto.


Interessa agora escrever melhor e lançar-me na Quinta. Para isso, e porque sou de carburação lenta, preciso de me afastar por uma temporada maior do que as habituais (agora não chega o volto já de poucos dias que coloquei em Dezembro, Abril e Junho). Já percebi que não vou conseguir recomeçar a escrever com o mínimo de seriedade sem me afastar dos blogs, que são extraordinariamente absorventes para uma desregrada como eu. Admito que vai ser imensamente difícil conter-me.


Resta-me agradecer a generosidade aos poucos leitores das Comezinhas, em especial aos mais assíduos, e aos outros autores de blogs, que li e nos quais deixei bitaites: sempre fui muito bem recebida. E, naturalmente, à impecável equipa da Sapo Blogs.


 


Gostei muito deste bocadinho.


Beijinhos e abraços para quem é dessas mariquices.


 


Até breve.


 

Bobby McFerrin - My Audiobiography

17/08/2020

Conversas íntimas

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A seguinte conversa, muito fiel à tida nesta manhã de Domingo com o Nuno, aclara sobretudo a utilidade de um namorado/companheiro/marido.


*


Nuno, preciso de uma explicação. Há anos dizia que estaríamos perto de epidemias e guerras que reduzissem a população mundial a níveis aceitáveis para a sobrevivência do planeta. Pensava eu e muitos mais. Tal como também há muitos anos imagino este cenário: um dia acordo e ao ligar o telemóvel e o computador percebo que estou sem ligação à internet, minutos depois vejo que a coisa não se revolve com o desligar e voltar ligar o router ou contactar a operadora, vou trabalhar e percebo o alvoroço, volto para casa e tento ligar a televisão em vão, e finalmente confirmo na rádio um 11 de Setembro em grande escala, sem violência material nem mortos directos. Ou seja, o mundo Ocidental - na minha imaginação ainda herdeira dos Aliados -, fica sem comunicações.


Ponto assente que a guerra moderna passa pelas comunicações, explica-me como é que um poderio económico como a China, ou um Estado sem essa capacidade económica, mas bem preparado tecnologicamente como a Rússia, ou um outro como a Coreia do Norte – ou uma entidade com grandes interesses económicos extra estaduais – poderia cortar as comunicações de um país ou grupo de países.


A pergunta não é como, mas sim se. A resposta é não. Não é possível. É possível incomodar ou atrapalhar as comunicações. A comunicação processa-se de várias formas e a internet é apenas uma forma de encriptação e de organização da informação. A internet faz-se através de um conjunto de computadores espalhados pelo mundo - interligados por comunicações tipo telefone, mais avançadas -, cuja localização é desconhecida, incluindo dos proprietários ou utilizadores. A ligação faz-se por satélite, rádio ou cabo (de cobre ou fibra óptica). Muita dessa comunicação é feita por cabos submarinos que ninguém sabe a verdadeira localização, são segredos de Estado.


O meio físico que sustenta a comunicação está tão diversificado que é difícil atacar. As formas de atacar são temporárias, através de vírus ou de software que atrapalhe a comunicação. Toda a comunicação digital é codificada e descodificada, o software vai atrapalhar no momento da descodificação. Nesse momento pode-se fazer espionagem ou roubo de informação, difundir a mensagem, estragá-la ou inibi-la mas isto é impossível a 100%. É um corte temporário e nunca total. Vês isso nos ataques às bolsas ou instituições financeiras.


Podes inibir parcialmente a informação. Podes reduzi-la, estragá-la, mas não eliminá-la. Respondido?


Voltando aos vários suportes das comunicações. Explica-me quais são e como se processa cada um dos suportes. Como funcionam. E como podes eliminar, atrapalhar ou deturpar as comunicações.


Tens a comunicação via satélite. É difícil atacar. Nesse caso terias que estragar o satélite do outro. Não é fácil. São milhares de satélites a circular à volta da terra com frequências diferentes ou específicas. Além do que a informação vai em pacote. A comunicação digital - a conversa de mil pessoas vai em pacote ‘zipado’ em microssegundos para ser enviado e ser descodificado no outro ponto. Imagina que ‘zipas’ mil ficheiros word. Essa compressão é feita com um código atribuído pelo computador no momento da codificação. A compressão é feita rapidamente e ninguém conhece o código – faz-se através de protocolos estabelecidos automaticamente pelo próprio sistema. É difícil fazer espionagem para ver quem fala com quem e diz o quê, porque a mensagem está codificada – ou seja, fragmentada em pacotinhos de comunicação que só na posse do código certo se podem unir em coerência. Funciona um pouco como os cartões visa, mesmo que roubes o cartão, tens que ter o código. Mesmo que tenhas acesso à comunicação, por exemplo, nós estamos aqui no quarto a receber as ondas electromagnéticas, mas não temos processo de as descodificar. Não temos a 'inteligência' e os meios.


A comunicação pode ser atacada, mas no momento em que já foi descodificada ou desencriptada. Salvo se entrar a inteligência de Estado. Grandes e médias potencias fazem espionagem, através das centrais, fazendo com que a informação que venha daquele telefone ou computador seja desviada para determinado local a fim de ser descodificada.


(A questão dos hackers fica para outro dia.)


Podes é enviar software espião para o computador alvo. Não se ataca no processo de ir de A para B, mas no momento da captação ou da descodificação. O software capta a informação por encriptar ou já desencriptada e reenvia-a para outro ponto.


Fala-me dos outros suportes físicos de comunicação.


Os outros suportes físicos de telecomunicação existem, são seguros, mas são caros. Apesar de ser caro, o satélite é uma forma barata de comunicação, apesar da manutenção que é preciso fazer. É seguro porque é redundante. As outras formas são: as ligações por cabo de cobre (antes) ou de fibra óptica (agora) e o rádio.


Num cabo de cobre multiplexado já era possível a conversação simultânea de cem canais de comunicação na mesma linha. Funciona como na rádio, cada pessoa fala em frequências diferentes no mesmo cabo, e depois cada uma das frequências é sintonizada. Isso já era possível na altura do telefone analógico.  


Agora na comunicação digital, à semelhança do que fazemos em casa com o programa winzip, falámos e imediatamente a conversa é ‘zipada’ pela central (a nossa e de mais 200 pessoas que falam em simultâneo), depois são reenviadas para outro ponto onde são ‘unzipadas’. A diferença de um ou dois segundos que sentimos nas conversas de telefones, é o tempo de comprimir e descomprimir a informação. E só aquele telefone, aquela pessoa ou entidade tem acesso à informação. A forma de espiar isso é ter acesso ao telefone, ter contacto físico com o telefone.


Interrompo. Não me parece.


Sim, é possível extraordinariamente. Acontece a nível de Estado com o acesso ao número de telefone ou número de IP. O Estado consegue espiar conversas via central. Nem as polícias conseguem. Só com autorizações especiais - e falo em termos técnicos e não legais. Se autorizada, a conversa é gravada pelas centrais. Nas operadoras.


Claro que é.


Mas estava a dar exemplos de espião particular e não de Estado. Tipo detective particular.


Falta um suporte físico. A rádio. Como se processa e como pode ser afectado.


Faz-se através de ondas electromagnéticas. Pode ser afectado misturando sinais de rádio mais potentes. Como uma terceira pessoa que fala mais alto e não deixa ouvir.


Recapitulando. Muito sucintamente, diz-me como é que em satélite posso destruir a comunicação, pôr ruídos ou deturpá-la.


Na altura da Guerra Fria quer a Rússia quer os Estado Unidos enviavam satélites lá para cima com armas para tentar destruir outros satélites, e nenhuma dessas armas se revelou eficaz.


Tens a certeza do que estás a dizer?


Sim. E podes confirmar.


Podes é empastelar. Pôr ruídos na frequência. Empastelar é pôr sinal por cima.


E em termos de fibra, já que agora se usa pouco cabo de cobre. Bem, estou a dizer isso mas fora da Europa possivelmente ainda existe muito.


Sim, claro.


A fibra tem a vantagem de não enferrujar. Além do que numa linha de cobre – que é grossa e pesada -, por cada linha de comunicação vai um cabo eléctrico, onde se conseguem poucos canais de comunicação, enquanto no cabo de fibra óptica como é muito mais estreito e leve pode ter mil filamentos, com vários canais de comunicação por cada filamento. Estás a ver a quantidade de comunicação que ali vai.


E, neste caso, como podia cortar a comunicação cabo. Imagina: temos a cidade do Porto. Imagina que queremos um apagão na cidade. Podíamos cortar um ponto mãe ou origem de toda a cidade? Era possível? Existe apenas um ponto?


Não. Existem vários. Era praticamente impossível.


Estar a cortar milhentos cabos.


Tal como a ligação entre Porto e Lisboa. Também seria difícil. Mas agora imagina a ligação entre a Europa e os Estados Unidos. Aí são menos e a localização dos cabos marítimos é, obviamente, secreta.  


A dispersão física torna difícil. E na comunicação rádio?


As nossas emissões rádio da manhã podem ser ouvidas em Plutão algumas horas depois, desde que tenhas como descodificá-las. Toda a rádio que foi emitida aqui chega a Plutão. É difundida ad aeternum. Para todo o sempre e mais além. Mas imagina, chega a Plutão e é como ter uma biblioteca inteira separada letra a letra de todos os volumes misturados. Ou como chegar a uma biblioteca com todas as letras desordenadas num único volume.


Isso já parece Borges. Gosto da ideia.


Tens lá a informação mas não a consegues perceber.


Tudo muito bem. Tudo quanto me explicaste parece fazer sentido, mas intuitivamente sei que um dia vou ligar o telemóvel e o computador e chegar à conclusão que meio mundo está sem comunicações.


A eliminação física não é possível mas a eliminação lógica é possível, através de vírus controlados à distância. A comunicação existe mas teríamos a válvula - o vírus -, a inibir a comunicação e a criar problemas num ou vários pontos. Até hoje nunca foi possível um corte total. Apenas parcial e temporário. Através de grupos de hackers com ataques sincronizados, que conseguem cortar a informação por algumas horas.


No início falei em mundo Ocidental. Um ataque provável é um ataque dirigido a algum Estado ou grupo de Estados, ou então, a determinadas empresas ou entidades.


É possível atacar a Google e deixar grande parte do mundo no escuro.


Então, às tantas, aquele pormenor antigo de atrasar os relógios dos computadores – no servidor –, para dar tempo de reacção, faz sentido?


Faria sentido se o computador estivesse sincronizado no relógio interno e não na hora oficial da internet. Depende de programa para programa e de como estão sincronizados.

14/08/2020

Passear

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Devo aos meus pais conhecer o País de lés-a-lés. Perdoem-me a presunção; claro que há muitas aldeias e vilas portuguesas que não conheço. Mas em criança e adolescente corri Portugal com os meus pais e irmãos. Ficou-nos o gosto, que fomos replicando ao longo da vida. O ponto de partida de muitas dessas saídas era conhecer os rios e afluentes, as barragens, as pontes. As serras e a as velhas estradas de curva contracurva e as suas fontes. As vilas e cidades históricas. As praias (essas, mais a sul). Os castelos ou restos deles. As judiarias. De norte a sul do País; todas as regiões, todos os distritos. Creio que Beja é a única capital de distrito que não conheci (se a memória não me falha), apesar das visitas a outros lugares do distrito, incluindo Ourique, onde nasceu o Nuno. Em miúda escaparam as ilhas, que só conheci já adulta. A primeira vez que fui à Madeira, fiz férias em Porto Santo sozinha - a melhor forma de ficar a conhecer um lugar.


Devo aos meus pais o gosto de passear em Portugal e fora do País. O gosto, comum a muitos portugueses, de usufruir do melhor que a vida tem. É um prazer ou vício que se entranha e não se perde, apesar de nos últimos anos ter passeado e viajado muito pouco. Conto em dois anos regressar a esses passeios e talvez tenha de esperar pela reforma para ir ao Peru. Sozinha. Há sonhos que têm de ser cumpridos a solo (o Nuno já me prometeu carta de alforria).

Os puros

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A primeira leitura nos jornais da manhã.


Para desenjoar da venda de invólucros virtuosos das causas identitárias que assistimos todos os dias nos jornais televisivos. Já repararam que indivíduos da ala esquerda e com causas identitárias são sempre personalidades muito ‘fofinhas’ e sem pechas de espécie alguma?


Os jornais televisivos fabricam notícias à imagem dos guionistas das telenovelas: os maus muito maus, canalhas da pior espécie, os bons muito bons, sempre vítimas muito vítimas, que briosamente lutam contra as injustiças. E, no fim, vence o amor.

12/08/2020

Itália

Veneza.JPGPraça de São Marcos -Veneza, Maio de 2009.

Eu Não Sei Quem Te Perdeu


Recapitulando.

11/08/2020

Verdes - Frutos

O melhor é deixar as teses sobre cheios de si e ilustres novos senhores dos tempos modernos – os triunfantes caterpillars das certezas -, que hão-de passar pelo mundo a argumentar sem sentir a matéria, e voltar ao meu verde chão de Valinhas. Voltar à essência. Continuar a distrair-me com a pouco sofisticada banalidade de refazer o mundo como ele se me apresentou. Ter crescido cercada de terra e verde fez-me consciente de começar a vida em franca regalia.


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A convivência diária com os tempos, as tramas da terra e o restolho de galhos de árvores habitados por corujas a cantar o hino a cheiro da terra e erva molhada. A perfeita quietude ao assistir do nojento lamber da placenta nas paridelas das gatas, às travessuras ternas dos cachorros ou à briosa ronda de vigília dos cães de guarda. O chiar das grandes chaves dentadas em castelo a rodar o segredo nas fechaduras e do ranger de portas perras. O aberto cheiro intenso e fresco das maçãs nas prateleiras das arrecadações, das sopas das panelas tripé de ferro e os estalos das achas secas no fogão a lenha. O toque áspero do empoeirado sótão e dos forros, no qual jaziam restos de mobílias antigas que pareciam reconstituir o tempo até à fundação. Tudo isto e muito mais me encherá afortunada memória até ao último suspiro. Entre as maravilhas que experimentei, as árvores de fruto têm destaque especial. E não deixarei de pagar tributo tentando apelar à memória para restaurar a imagem das árvores de fruto da minha infância, e para isso roubarei três ou quatro imagens por essa internet fora. Crescer numa quinta fez-me habituar a comer fruta colhida directamente das árvores ou apanhada do chão. Para os maníacos dos novos tempos as linhas que se seguem são uma overdose de glicose.


Começo pela especialíssima lima. Aprendi a gostar de comer limas amarelas com a minha avó, depois de dominar a arte de retirar o bagaço - as membranas brancas ou transparentes que cobrem a polpa e estragam o refrescante, ácido e doce sabor deste fruto. Uma heresia para os tempos de hoje, em que se recomenda comer o bagaço e as cascas dos frutos para aproveitar todos os bons nutrientes que neles se concentram. Se na laranja e em miúda cortava com a faca o branco e comia-o à parte antes da polpa propriamente dita – contra as recomendações familiares -, na lima essa táctica não era de todo recomendada, sob pena de não se conseguir tragar um fruto que bem descascado é um mimo. Isto, claro, falando na variedade doce da lima.


lima-arvore.jpgLima amarela.


Talvez este hábito de infância explique um outro costume que tive durante muitos anos: o de no final de refeição que contivesse gorduras ir à cozinha, abrir um limão e espremer uma metade directamente para a boca. Pena que o tenha perdido. É sinal que o organismo se habituou às gorduras tal como, infelizmente, se habituou ao excesso de açúcares que em novita mal tolerava.


No meu catálogo de preferência vem, em seguida, a maçã bravo de Esmolfe. Não sendo especial fã de maçãs, em geral, a bravo tem um aroma apetecível e um sabor rico. Entre uma variedade de cinco ou seis maçãs, era sempre a eleita. Gostava de a saborear junto ao tanque. O melhor dos mundos, refrescar a maçã que normalmente estava sobre o quente - acontecia em regra nas tardes de fim de Setembro -, indo passá-la pela água fresca da mina que jorrava do tubo, para esbater as manchas acastanhadas de oxidação a cada dentada. O pomar possuía outras macieiras para diferentes paladares: pé-de-boi, reineta, golden e pipo de Basto.


No departamento das ameixas as eleitas eram as vermelhas de polpa amarela. Nascidas de árvores tristemente sem tratamento nem poda por não estarem como as outras no pomar, mas sim no terreiro entre as tílias. As ameixoeiras frutificavam também no Verão e a par das maçãs eram o mais abundante fruto da quinta, onde existia um punhado de árvores das vulgares amarelas e uma ameixoeira caranguejeira. A estas últimas já ouvi chamar rainha cláudia ou aparta caroço e outro nome a cuja grafia não consigo chegar, pelo que me abstenho de nomear.


No Outono as janelas e porta da sala de jantar eram brindadas com a vista para uma das árvores mais bonitas que tenho visto, quando carregada de fruto. O diospireiro coroa-de-rei. Frutificava quando a árvore estava despida de folha, e só de ramos cinza ao pôr-de-sol volvia-se em pernadas douradas, apinhadas de largos e gordos corações cor-de-laranja no cimo cravados e enfeitados com a coroa suspensa pelo pedúnculo. Fruto apreciado pelos afins, mas não pelos da casa, que só lhe reconhecem beleza. No pomar havia outro diospireiro, mas dos mais vulgares, que dizem os entendidos não têm qualquer graça de paladar. Creio que depois de farejar cuidadosamente os coroa-de-rei nunca tive coragem de os provar. Ver comer a polpa fibrosa à colherada não é um espectáculo apetecível.


b4--bg.jpgDióspiro.


Existia uma solitária figueira, não sei porque razão desterrada para a ponta do patamar baixo do pomar, já abeirada de uma das matas da casa. Não tenho ideia dos figos estarem suficientemente maduros para serem saborosos. Talvez estivesse sombreada demais, mas não deixava de ser uma bela árvore. Os meus companheiros da escola primária diziam que o leite do caule dos figos verdes curava os cravos. Assim tentei fazer desaparecer a meia-dúzia de cravos que em criança me surgiram nos dedos das mãos.


Ao lado da árvore da lima, no patamar de cima, fulgurava um limoeiro adulto sempre apinhado de limões. E uma jovem luzidia laranjeira, que cedo começou a dar fruto. De laranja doce, ao contrário da velha laranjeira junto à parede lateral da eira que, de nunca ter sido tratada, dava um fruto leve, seco e repleto de grossa membrana branca. A única utilidade conhecida dessas laranjas era a de nos ajudarem a afinar a pontaria das espingardas de pressão de ar. No mesmo patamar mas no lado oposto havia, junto a uma das casas de caseiros, uma tangerineira de pequeníssimas e magníficas tangerinas, bem azedas e aromáticas.  


Das uvas havia castas várias, sendo as favoritas as das ramadas: americanas a que também já vi chamar morangueiras, e umas de mesa rosadas e longas cujo nome não sei. Vivi anos de vindimas, observei o tanoeiro consertar pipas, vi a aflição de uma pipa suspensa no gancho virar fora do atrelado do tractor com destino à cooperativa, assisti ao pisar das uvas a ao fazer do vinho. E de tudo quanto se liga às videiras, o que mais me dá pique à memória é a cor das parras no início de Outubro no caminho de ida e volta para as primeiras aulas da escola primária, e as pausas perdida nas vinhas a depenicar os raros e esparsos bagos distraídos da vindima e já encarquilhados e bicados pelos pássaros.


As bordas dos campos, onde abeiravam as matas da casa, eram ricas em silvas e amoras. Muitas e empoeiradas, algumas com teias de aranha e outra bicharada. Era arrancá-las aos muitos espinhos que nos arranhavam as mãos e passá-las por água antes de saborear. Outras vezes, só soprar. Ou, então, colher um punhado delas para que a avó fizesse o sorvete de amora para a sobremesa do jantar. Julgo que os ingredientes da iguaria se resumiam às amoras e ao iogurte natural. Digo natural por não ter memória de haver sombra de açúcar no sorvete. Nos muros da rampa de acesso à casa, junto dos ramos das glicínias, moravam as framboesas, mas a essas limitava-me a apanhar e trazer para casa. Aproveitava e trazia também os ovos, já que estava nesse piso e junto ao galinheiro. Mas aquela leve penugem da framboesa nunca me passou pelo gargalo. Tem o mesmo efeito do pêssego, no qual não consigo tocar na pele, o que me faz pedir que o descasquem, ou acabar por preferir nectarinas.


IMG_3856.JPGAmoras.


Na ponta da rampa das traseiras, no início da mata, havia uma cerejeira perdida entre pinheiros, carvalhos, e eucaliptos. Não se percebe bem aquele epifenómeno e era difícil chegar ao pequeno fruto amarelo avermelhado. Agora dou por mim a pensar se era mesmo uma cerejeira, já que não me recordo de a ver florida. Terei sido traída pela memória? Mas o certo é que do que me lembro dessa árvore, distinta pelo tronco das que a rodeavam, era a se ser o marco da partida da alegre descida corrida pela mata fora, calcando em viva restolhada as folhas secas, com destino à escola, mas agora por caminho alternativo ao da frente. Essa mata tinha o condão de ter também castanheiros, e quem não abriu ouriços com as solas dos sapatos antes de picar os dedos das mãos para tirar umas belas castanhas?


Puxando pela cabeça para me lembrar de mais frutos da quinta, recordo que na berma do pomar havia uma nogueira de que só tenho memória muito pequena, pelo que deve ter tombado num dos vendavais ou sido cortada. De qualquer modo, resta a memória das unhas e mãos encardidas daquele negrume viscoso que cobre a casca das nozes. E lembro que no patamar dos citrinos existia uma pereira. Nunca vi as pêras no ponto: ou estavam rijas como pedras, ou já caiam de podre. Talvez o tempo delas fosse naquele entremeio em que partíamos para férias.


Céus. Como me pude esquecer da nespereira, que ficava entre as duas tílias da frente e lado a lado com as japoneiras e os rododendros? O espaço mais íntimo do terreiro e que tento reproduzir na minha varanda. Tento. A ver vamos se a pequenita japoneira sobrevive a este Verão, mas ao menos a nespereira - e é sobre árvores de fruto que trata este escrito – está para durar.


É possível que me tenha faltado algum fruto, mas hoje fico por aqui. O texto vai longo para um blog.


 


Adenda 1. Um telefonema para a minha mãe foi suficiente para confirmar que a memória não me atraiçoou: havia mesmo uma cerejeira no fundo da rampa traseira. Aliás, uma cerdeira, com lá se chamava. E, pelo visto, anos antes de eu nascer existiu uma outra cerejeira, na base da rampa da frente. Que nos tempos antigos do bisavô acabava numa espécie de ginja: o 'chicherichi', isto é, cereja em aguardente (mimo, que agora me lembro ainda chegou ao meu tempo através da avó: uma ginja guardada na despensa por cada neto, pescada com a mínima concha de haste alta). Mas não vale enumerar o antes e depois de lá viver, se não este post não tem fim. Nesse caso teria que falar na plantação de framboesas, antes de grande parte dos campos da quinta serem terraplanados para darem lugar a ampla vinha. 


Adenda 2. Diz o meu pai que comia as cerejas da rampa e que me esqueci dos pessegueiros. Sei porquê. Como disse acima nunca consegui tocar em pêssegos (em rigor, consigo a muito custo). Eram árvores jovens e estavam junto da também novita laranjeira. Esta creio que foi mandada plantar pela minha avó já lá eu vivia, mas antes dos meus avós deixarem o Porto e passarem também a viver o ano todo em Valinhas. Acrescenta o meu pai que era o único cliente dos dióspiros coroa-de-rei e que os outros do pomar nem os pássaros queriam. O que confirma a regra: só os afins gostam. E lembra que as uvas cujo nome não me lembrava eram as moscatel.

Quinteto Luísa de Carvalho

10/08/2020

A era das certezas

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Corro o risco de parecer um gira-discos encravado nestes dias de ressaca colectiva antes da próxima covídica bebedeira terrestre, na qual tudo é premente, todos estão certos de conhecer o melhor argumento e prontos a dar conselhos - a presunção é um dos traços mais característicos dos nossos dias. A marabunta vai hasteando a candeia e ao mover-se em turbilhão encandeia-se mutuamente com destino ao absurdo. No dia 3 de Agosto considerei mais sensato ficar por aqui. Dominar os estados de alma ou disfarçá-los costuma ser apanágio de gente inteligente e achei-me capaz, mas afinal não sou. Não sou imune aos pequenos pormenores de carácter que minam o desenvolvimento saudável das relações humanas. E por essa razão publico em seguida o apontamento escrito nesse dia, com uma nota prévia: nada do que digo a seguir se aplica a quem, por genuíno e desinteressado gosto de ensinar, passa efectivo conhecimento a outros.


*


Duas ideias assaltaram-me o pensamento esta manhã. A primeira tem a ver com a estranha necessidade de estar sempre a dar conselhos. Partir do princípio que sempre se pode e deve instruir o outro. Em menor ou maior grau todos temos essa tendência. Nos casos mais agudos passa por estarmos constantemente a determinar aquilo que na ideia ou no pensamento do outro está errado. É normal. As pessoas divergem, dirão. Umas estão mais preparadas do que outras. Não me parece nada tão evidente. Se não se fizer um esforço de perceber o outro lado, a outra ideia ou a outra acção, as relações e o mundo têm tendência a degenerar em vez de evoluir. O não ouvir o outro, julgá-lo a priori como pouco capaz, preguiçoso, preconceituoso, ou desprovido de personalidade, e partir do princípio que nos compete formatá-lo e melhorá-lo é a mais perfeita realização da nossa tirania e pequenez. Não passa de vaidade. Não precisamos cair no relativismo, nem anular o carácter humano, mas se fossemos decentes tenderíamos a buscar a justeza das coisas e a respeitar o outro nas relações familiares, sociais e profissionais. Às vezes bastaria abstermo-nos de certas posturas de superioridade que nem chegamos a verbalizar, mas deixamos transparecer pela forma como nos apresentamos aos outros, pela atitude arrogante que tomamos não só com o interlocutor como, em geral, com os outros e, em particular, os muitos que desconsideramos por motivos fúteis.


É verdade que pode haver nalguns uma menor propensão para aprender e por isso para evoluir. Mas pergunto-me quem já reparou que o estar permanentemente a falar de cátedra e a amesquinhar quem o rodeia pode determinar o afastamento legítimo de quem não está para ser ofendido? E nem vale a desculpa esfarrapada de que cada um tem que se saber impor e fazer com que os outros o respeitem, pois a realidade demonstra à saciedade que a sorte é tão determinante quanto o talento no êxito. E, em regra, só quem é ou está deslumbrado consigo próprio ou foi bafejado por vidas amparadas, fáceis ou bem sucedidas, está absolutamente convencido que tudo pode e que a vontade do homem é o elemento mais determinante no sucesso na vida pessoal e profissional. Também não colhem razão os exemplos de sucesso pelo empenho de gente social ou economicamente desfavorecida ou com handicaps físicos ou mentais, porque esses não são os únicos factores determinantes. Claro que é de louvar quem transpõe barreiras difíceis. Mas quem já reparou que por trás desses feitos estão um sem-número de outros factores que se prendem com a sorte? Não se pode abstrair dos infinitos: ‘e se…’ E se tivesse nascido noutro país ou noutra cidade? E se o clima desse país ou cidade fosse outro? E se a assistência médica fosse outra? E se a família não fosse esta? E se não tivesse o exemplo do sentido de humor em casa? E se os colegas fossem marginais? E se os amigos fossem meninos-bem? E se o emprego não surgisse fácil? E se não tivesse calcado caca de cão no dia da entrevista? E se as competências não fossem ignoradas por quem decide no local de trabalho? E se o rapaz não fosse tímido? E se a rapariga não fosse bonita e elegante? E se a namorada não se revelasse mesquinha? E se o marido não se revelasse agressivo? E se a professora primária não fosse dedicada? E se os professores do liceu não fossem medíocres? E se não houvesse crise económica? E se não houvesse uma guerra? E se os primeiros livros lidos fossem aqueles e não outros? E se naquele dia, aquela hora aquele homem não se tivesse cruzado com aquela mulher mas com outra e vice-versa? O acaso é absolutamente determinante na nossa vida. E quem nega isto anda muito, mas muito distraído.


Quem já reparou que muitos dos que falam de cátedra aprendem amiúde com pessoas que desconsideram e cujos conhecimentos e vida usam sem reconhecer tributo? Guardam os agradecimentos para quem convém recompensar, ignorando ou desprezando os que julgam dispensáveis de figurar na íntima lista do reconhecimento, apesar de serem os que, sobre si recusando estardalhaços, dia após dia os ajudam a brilhar. Pisam gente que não perdendo tempo a puxar dos galões simplesmente dá, oferecendo o seu trabalho, o seu conhecimento, a sua vida. E estes tiques funcionam em escalada. Quanto mais seguros de si e das suas certezas mais longe costumam estar da verdade das coisas. O cúmulo do caricato é ver gente com história de vida receber lições destes oráculos da sabedoria sobre a seu próprio percurso. Sim, há quem que se dedique a explicar ao próprio quem ele é, o que pensa, o que sente, e quantas vezes a projectar preconceitos inexistentes nessa vida, sem de facto ouvi-lo e sem fazer grande esforço para o entender além da aparência ou dos aspectos que interessam para construir, dentro da estreita mundividência do educador do povo, uma personagem que pouco ou nada tem a ver com o original.  Dir-me-ão: é a vida, cada um vê o mundo como vê. Respondo: será, mas há visões que de tão pobres e falsas, e apesar de venderem bem, deturpam o sentido benigno da partilha de conhecimento.

Resumo dos tempos modernos

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Cem mestres por cada discípulo. A cada momento, em cada esquina, alguém morto por ensinar. Com tamanha vontade de explicar, persuadir e disfarçando de tal forma a falta de memória sobre a fonte da sabedoria, que se revela despido da mais pequena aproximação à verdade ou ao belo. A ambição não é aprender, conhecer e passar testemunho, mas sim ganhar ascendente. Assim vingam os geniais criadores da treta.

09/08/2020

Funes el memorioso - Jorge Luís Borges

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Ficções


Disponível aqui.

Manhã Triste

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Parque da Cidade - Foz, 9 de Agosto de 2020.

08/08/2020

Once Upon a Time in the West


Ennio Morricone.

Once Upon a Time in the West


Dulce Pontes, Ennio Morricone.

07/08/2020

Casa

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Ai a minha vida. A centelha do vício de ver casas na internet reacendeu e fez-me acordar do estertor do dia.


Está uma casa à venda na Praia do Paraíso, frente ao mar. Com supermercado (?) e paragem de autocarro a cinco minutos. Nem sou muito de primeiras linhas de mar e sei das desvantagens, mas esta é tentadora: não é feia, está bem distribuída e tem ar de com umas obritas ir logo ao sítio. Ali a poucas centenas de metros da refinaria, a minha paisagem de fantasia da infância e adolescência. Cada um tem a sua panca, e eu adorava portos e paisagens industriais do tipo cimenteiras, refinarias e que tais.


Segurem-me, que me vou a ela.


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Expectativa do fim da história: nos próximos fins-de-semana vou dar um giro para fazer a prospecção da zona e chego a infalível conclusão que ali cheira a petróleo que tresanda. Isto mais ou menos ao mesmo tempo que concluo pela enésima que sou uma tesa. Ainda assim: será que me habituava ao cheiro? É que aquele mar é tentador. Hum.

Ponto de situação

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06/08/2020

Areia nos olhos

Capturar.PNGDaqui.


Sem tempo.


Peço encarecidamente - e agradeço antecipadamente -, a quem tiver três neurónios e noção da realidade para comentar as notícias sobre o desemprego, como esta do início do mês passado, ou esta de ontem: «A taxa de desemprego foi de 5,6% no segundo trimestre.» 


Se continuarmos a achar tudo isto normal - e haverá dezenas de expertos a explicar cabalmente a oportunidade e acerto destes números -, ainda havemos de chegar a uma apoteótica taxa de desemprego próxima de 0%.


 


Adenda: usar dois advérbios terminados em 'mente' nas cinco palavras iniciais do pequeno texto não abona muito a favor da autora. Enfim, relevem. ;)


 

Prioridades

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Hoje é dia de tempo todo contado.
Foi assim durante muitos anos, até que no ano passado as coisas abrandaram e, para dizer a verdade, tomei-lhe o gosto. Já não tenho pachorra para o frenesim sufocante de trabalho. Não é justo nem sequer saudável.
Morta por voltar à tona para poder ler e escrever qualquer coisa.

Dave Brubeck - Take Five

05/08/2020

Miles Davis - So What

Saúde para além da Covid-19

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Segundo dados do Público, em Julho último morreram 10.390 pessoas em Portugal. Se consultarmos os dados da Pordata, verificamos que nos últimos três anos em Julho morreram 7.935 (2017), 7.963 (2018) e 8.202 (2019). Pelo que a notícia avançada ontem pelo jornal de que os 10.390 representam um aumento de 26% não só é pertinente, como a situação é ainda mais preocupante se comparada com 2017 e 2018. Só se recuamos a 2013 esmorece esta significativa diferença, e ainda assim nesse ano houve 9.172 mortes.


O facto da Covid-19 representar apenas 1,5% dos óbitos de Julho é elucidativo do desamparo a que os portugueses e demais residentes em Portugal foram votados nos últimos meses em tudo quanto não diga respeito ao coronavírus. Todos nós temos conhecimento de situações de adiamentos e cancelamentos de consultas, exames, tratamentos e cirurgias. Em causa própria ou de familiares e amigos sabemos que, enquanto nos questionávamos se deveríamos ir ou não a tal ou tais consultas no hospital de residência, recebemos chamadas dos médicos que nos consultaram por telefone. E quando perguntávamos quando seria aquela cirurgia, nos respondiam para contar com pelo menos mais meio ou um ano de atraso e, em rigor, para não contar com nada certo, porque isto (o SNS) está de pantanas. Sabemos também que pessoas de saúde frágil tentam marcar consultas nos Centros de Saúde, vendo não só dificultado o agendamento em si, como a consulta ou outro acto médico permanentemente adiado. Algumas sucumbem.


No País onde a população - com a conivência dos profissionais de saúde e auxiliares - recorria e entupia os hospitais por motivos fúteis, passou-se ao extremo contrário de ter medo de lá ir ou tão simplesmente a ser dissuadido de o fazer. O SNS – ao qual gosto sempre de prestar a devida vénia pela regra de qualidade técnica dos médicos e enfermeiros - está igual a si próprio no que diz respeito à gestão e organização: caótico. Tal como o País, onde o maior dos males é a irracionalidade e a desorganização estrutural das instituições e de alguns cidadãos.

04/08/2020

Papéis

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Houve tempos em que arrumar papéis significava estar um par de horas a ler desabafos, postais, cartas ou outros escritos com cinco, dez ou vinte anos. Há muito que tal não acontece por ser cada vez mais raro usar papel e caneta, senão profissionalmente ou para brevíssimas anotações. E mesmo aí noto que começo a perder o hábito de ter a caneta e folha de papel que sempre me acompanharam, preferindo o simples bloco de notas do Windows. Temo deixar de saber escrever com caneta ou lápis. Depois de há treze anos ter destruído todas as notas manuscritas hoje, quando quero escrever ou rever qualquer coisa escrita dos últimos anos, socorro-me de suportes digitais.


Arrumar papéis tem agora um significado diferente. De meses a meses procuro ver o fundo das gavetas. O que quer dizer sentar-me à secretária e depois de despejar os papéis das gavetas, organizá-los por pequenos montes: finanças, seguros, saúde, etc. E arquivá-los. Há anos que repito o ritual e de todas as vezes me sobram os inclassificáveis ou pendentes, que acabam no fundo da gaveta em micas, até à próxima.


Costumo conseguir realizar a tarefa numa noite. Mas desta vez deixei para terminar amanhã, na vaga esperança que a coisa fique mais completa.

Desdém

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Há dias assim: maus. Atravessamos temporadas a observar, respeitar, dar o benefício da dúvida e eis que chega o momento em que acordamos e damos de caras com a realidade ordinária e desprezível do desdém. Entremeada de confrangedores actos falhados de humor. É quase inacreditável ainda haver gente decente a respirar no meio do lodo.

Ella Fitzgerald How High is the moon

03/08/2020

Passear

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Lubango.pngVamos a Lubango?

Soberba

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Oiçam. Vou contar um segredo: de manhã escrevi um texto sobre a palermice de se estar sempre a dar conselhos e determinar como os outros devem pensar e agir. Era um texto sobre a pequenez e burrice de se considerar intelectual ou moralmente superior aos outros.


Decidi desistir do texto, para não dar o exemplo.


Boa semana.

02/08/2020

Poema épico

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X CONTRA XV

[Coimbra, MMXX]

 

FC PORTO CAMPEÃO

FAZ DAS TRIPAS

COROAÇÃO.




 

 

Ricardo Álvaro



 

Sobriedade

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Só uma nota que é devida. Ontem critiquei o ressabiamento na televisão em matéria futebol. Mas não quero deixar de assinalar a diferença que faz uma pessoa educada: hoje, no comentário da SIC, Ribeiro Cristóvão demonstrou uma vez mais ser um Senhor.

Jacques Brel - Ne me quitte pas

Sting - Ne me quitte pas

José Duarte


Nem sei bem porquê veio-me à memória a imagem de José Duarte, um dos principais responsáveis - senão o principal - por gostar de jazz. Pode parecer que não, mas houve um tempo em que a televisão educava. Acabo de ouvir esta entrevista e divirto-me com o mau feitio próprio de quem leva a sério aquilo de que gosta e se dedica, perdendo a paciência com a mediocridade. 


Costumava ver os programas da RTP2 no início dos anos 90, numa altura que cheguei a ir à Escola de Jazz do Porto. Já em 2001 conheci o Hot Clube, na Praça da Alegria, em Lisboa. Pena que tenham sido momentos tão fugazes.


Sem perceber nada sobre jazz, é o género musical que mais liga os meus neurónios: equilibra-me. Dá-lhes sentido. Há dias em que é uma necessidade. 

Bela noite de Sábado

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A noite corre de feição. Ao contrário do hábito de há vinte ou trinta anos não vi o jogo, de que fui tendo notícias pela reacção alegre e efusiva dos vizinhos. Uma das grandes vantagens de me ter mudado para uma zona mais popular da cidade.


Liguei a televisão ao apito final e mais uma vez vi gente cheia de azia. Tanto faz haver comentadores representantes dos três grandes, como não. Saem esses e ficam os jornalistas da casa que são tão ou mais facciosos e ressabiados do que os que deixaram de aparecer.


No dia que o Porto ganhou o campeonato, face ao portista contente com a vitória, vi duas criaturas cuja linguagem, olhar e postura corporal provavam doses impressionantes de raiva e despeito. Desliguei a televisão ao fim de dez ou quinze minutos.


Hoje já só apareceram jornalistas autóctones. A raiva e o despeito continuam presentes, mas agora dissimulados em análises sobre o jogo que, como de costume, se consubstanciam em falar de tudo quanto pode menorizar a vitória. Desliguei ao fim de cinco minutos. Ainda mais rápido do que no fim do campeonato.


Amanhã já estarão todos a falar no treinador e nas glórias do Benfica ou nas intermináveis trapalhadas e questiúnculas do Sporting. Que sejam muito felizes, amanhã. Hoje o meu portinho ganhou e posso continuar a noite alegre e a ler as Ficções, de Jorge Luís Borges.


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Isto apesar de perceber bastante mais de futebol - que cresci a seguir com atenção, aprender as regras e a apreciar -, do que sobre o sábio e erudito imaginário de Borges. Mas não há como insistir, ler, fuçar e alguma coisa há-de cá chegar, apesar de ter a sensação que para ler este livro, que já me tinha passado pelos olhos duas vezes teria primeiro que cair – como o Obélix na poção mágica -, no caldeirão bibliográfico borgiano, uma fonte inesgotável de força mental.


Vamos ao que interessa: obrigada uma vez mais ao Futebol Clube do Porto - ao treinador e jogadores, à equipa. E com isto passa mais uma buzina estridente. Que se oiçam bem nesta bela noite.


Beijinhos e abraços aos amigos portistas. A taça é nossa. 

01/08/2020

Rui Rio no Observador

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O artigo O PS vai dar um Orbán a Portugal?, no qual Rui Ramos faz o que chama uma 'interpretação de uma possibilidade política', é um manifesto de má-fé. E custa ver isto numa pessoa que tantas vezes leio ou oiço com gosto. A tese simplificada: há um bloco eleitoral de dependentes do Estado, que pode naturalmente transferir-se do PS para a direita encabeçada por Rui Rio e André Ventura. Entre a direita reformista do passado e a direita que quer apenas ocupar o Estado - ou seja, clientelista -, Rui Ramos, numa dissertação mais elaborada que quem quiser pode ler, coloca Rui Rio na segunda categoria. Ora, não custa perguntar se o passado de Rui Rio na condução de cargos públicos prenuncia que venha a ser um líder populista sustentado por clientelas. Respondo: não. Antes pelo contrário. Mas isto não interessa nada a quem argumenta com base em ódios e estimas não ancoradas nos factos, mas em preconceitos de gosto.

Gary Clark, Jr. - Catfish Blues