Pesquisar neste blogue

31/01/2021

Europe

South China Sea

Sombras

Capturar.PNG


*


Nunca confies em quem contigo fala encoberto ou do degrau de cima. Não te considera ou é desleal. 


 

30/01/2021

Mais automóveis

Capturar.PNG


*


Voltando aos pequenos e risonhos episódios da vida, recordo um almoço há mais de 30 anos. A mesa não estava completa; naquele dia estaríamos talvez dez. Avó à cabeceira. Já não me lembro bem se ainda vivíamos em Valinhas ou se lá estávamos de férias, como usual nos anos seguintes. Apelando à memória creio que terá sido no meu último ano, sendo que os meus irmãos mais velhos já viviam há dois anos em Gaia e nós mais novos permanecíamos; aliás, o T. ainda quis ficar mais tempo para terminar o liceu perto dos amigos.


O tio F. comentou: ontem de madrugada ao vir para casa apanhei uma fogueira no meio da estrada, um perigo. Diz o meu irmão F. num repente distraído: pois estava, ali em São Miguel. O silêncio impôs-se por uns segundos. Vi o olhar fulminante do N. da direcção do F. e entre os quatro naquele instante morreu o segredo, com a eterna desconfiança ou cumplicidade (nunca cheguei a perceber) do tio F. e a distracção dos restantes adultos entretidos nas suas conversas. Pensei na injustiça: pronto, mais uma vez os manos pegaram num dos carros e andaram a dar umas voltas. Eu tinha 12 anos. Eles entre os 15 e os 18. A injustiça traduzia-se no facto de a mim só estar autorizada entre irmãos a condução dentro da quinta. Depois de anos de corridas de bicicleta e andanças das motorizadas, guiava a VW Brasília da minha mãe e o Carocha da comunidade; para dizer a verdade não sabia bem quem era o proprietário do Carocha, talvez o tio G. que vivia na Austrália.


Quando me mudei para Gaia, o F. continuava nas suas aventuras. Chegando ao cúmulo de ser proprietário – ainda menor –, de um velho chaço comprado em sistema de vaquinha entre colegas do liceu, no Porto. Passei a achar mal que pegasse nos carros dos meus pais e ameaçava-o que ia contar. Ele chamava-me chantagista. Um belo dia, vinha eu a sair do liceu, em Gaia, e vejo-o na citroën GS da nossa mãe à minha espera em frente ao portão. Entrei, ralhei, ri. E demos uma grande volta por Gaia inteira. Finda a volta ele deixou-me no liceu e à minha saída do carro diz: acabaram as queixinhas, agora é cúmplice. Fui tramada.


Foi com igual espírito que me explicou coisas importantes para a vida, como noções financeiras. Em criança tínhamos um cofre mealheiro de madeira com quatro compartimentos, quatro ranhuras e chave comum, pelo que fomos habituados a saber o que os outros tinham e a isso respeitar. Já adolescente passei a usar um cofre amarelo com segredo. Um dia abro o cofre com o código e lá dentro tinha um post it a dizer ‘Vale 5.000 mil escudos’. Foi o meu primeiro título de crédito – devidamente quitado -, e talvez explique a minha maior propensão e facilidade para matérias financeiras e fiscais do que para o Direito puro e duro.


 

Uma vez

0f657572-ec56-4dd4-9e4f-c81d8bca845f.jpg


... não são vezes.

A Geopolitical Tour of the World


Ainda em fase de recolha, em vez de voltar a pegar no espanador, deixo um vídeo.

Protecção de dados

21914704_IYobV.jpeg


*


Como aqui comentei no passado, há momentos em que parece ser conveniente limpar os cookies do cérebro. Se é dado adquirido que a pegada digital é controlada e usada para além da nossa vontade, imagine-se o que seria se o palmilhar cerebral estivesse sujeito a manipulação de terceiros. A ideia dava enredo tenebroso para anime. Coisa com um quê de demência.


Seria aterrador. O que vale é que é só imaginação e prevalece o coração.

Destiny

Onde estão os indignados?

Maioria dos internados no hospital de campanha de Portimão são idosos. Alguns, já curados, não têm para onde ir; outros são recusados pelas famílias. Médicos já tiveram de avisar: "Abandono é crime", no Observador.


*


Fico à espera da abertura de jornais televisivos com esta notícia, de postais inflamados, de imagens de dedo em riste e de chusmas de indignados à porta deste e doutros hospitais dispostos a acolher em sua casa os nossos mais velhos.


Mas sentada, porque esta não é uma causa da moda. Não é fashion.

29/01/2021

Perdido por um, perdido por mil

tudo-parece-perdido.jpg


*


Em democracia todos temos direito a opinião, mas é preciso ter consciência que a opinião é manipulável e que os instintos humanos passam pela sobrevivência e também pela dominação. A ambição desmedida mina a sobrevivência da convivência sã em comunidade.


Não tenho escrito muito sobre a tragédia que assolou o mundo e, especialmente, Portugal, por dois motivos: tendo mais intuições do que razões, não sei exactamente o que dizer e não quero concorrer para ser mais uma que vê a calamidade como se fosse adepta de facção.


Por agora tenho duas coisas como certas: podemos pouco contra as leis da natureza - que não são justas ou injustas -, por se sobreporem às humanas, mas devemos continuar a defender a democracia, que é apesar de tudo a forma mais razoável de organização da comunidade. Devemos estar atentos e não permitir arbitrariedades que visem não a protecção ou a defesa dos interesses da sociedade, mas tão somente a auto-legitimação dos poderes públicos.


Apesar de, noutras matérias, sentir os males do País enraizados nos comportamentos e traços de personalidade da população, a dispersão da culpa pela turba serve sobretudo para desresponsabilizar quem tem obrigação de nos proteger. A história recente tem mostrado claramente que a permissividade com os poderes públicos e os governos tem dado cabo do País. Numa altura em que o maior inimigo é o descontrolo da acção humana e que temos a sensação de estar na mão das leis da natureza, é muito tentador ser solidário com um presidente congregador e cansado e uma ministra convencida de estar a fazer o melhor. Quase dá vontade de fechar os olhos às artimanhas do habilidoso primeiro-ministro  e, com fé na imunidade futura e na bazuca, desabafar: depois logo se vê. 


Mas isso seria aviar o provérbio perdido por um, perdido por mil. E como são vidas que estão em causa, é evidente que não podemos alinhar nesta desresponsabilização. Mais ainda quando não sabemos o que por aí vem.


Bom fim-de-semana.


 

28/01/2021

Diário de Bordo

Dia muito produtivo. Parece que não foi hoje que arranjei tempo para um escrito sobre opiniões, mas virá mais tarde ou amanhã. Aproveitei os intervalos do trabalho para o mais importante: tomar o pulso a familiares, amigos e colegas através de telefone, email e whatsapp. Na maioria dos casos não os auscultava desde o Natal. O mundo gira.


Se não estiver de molenga, talvez aproveite ter três dias livres para dar sequência e uso ao espanador.


Na semana passada sempre levei avante a ideia de retomar as conversas fora das fronteiras. Já escolhi o barco virtual para o périplo e por enquanto ainda só aportei na ásia meridional, onde há, como é sabido, gente com curiosidade pela Europa, quando não vontade de para cá vir viver. Há 20 anos não conseguia estabelecer conversas de mais de dois minutos com esta zona do mundo, atenta a voracidade dos interlocutores e a incapacidade de manter uma conversa normal. Ou as coisas melhoraram do lado de lá, ou aprendi a chutar para canto com mais facilidade.  Mas a ideia é seguir para o extremo oriente.


 

Véspera de féria

Hoje está difícil. A ver se arranjo tempo para um postal sobre o papel de cada criatura, o direito a dizer o que pensa, os equívocos sobre o que é ou não válido, desejável e tolerável entre o que debita cada cabeça.


Tomara seja capaz de escrever um todo inteligível e razoável. Até lá, terei de trabalhar. Mais bem-disposta por amanhã ter ‘uma féria’. Um dos três dias ainda por gozar do ano passado.


Boa quinta-feira. 

Sting - I Can't Stop Thinking About You

26/01/2021

É ou não é

Capturar.PNG


*


Os tiques de pensamento único e o ardil da retórica estão tão impregnados em Ana Catarina Mendes, à semelhança do primeiro-ministro e do Governo, que a líder parlamentar do PS conseguiu queixar-se de ser calada por Ana Lourenço, a mais razoável das jornalistas em televisão e das poucas dignas de ser levada a sério.


São mais úteis estas discussões sobre o que de bom ou mau está a ser feito no combate à pandemia e às consequências económicas e sociais, e escrutinar verdadeiramente o que o Governo e os serviços públicos estão a fazer, do que alinhar nos discursos aparentemente cordatos e apaziguadores, mas que nas entrelinhas são bicadas recreativas de intriga política feita para tentar criar crise política na oposição, com a estratégia de a queimar por dentro e alçar de novo à ribalta a direita da surdina e dos corredores opacos.


Para uns realidade é intriga política, para outros o próprio País.

Ella Fitzgerald - Just one of those things


E nada como o jazz para animar. 

Frivolidades

21957939_n6vob.png


*


E aí vem ele: mais um postal umbilical. Adivinho a reacção, mas longe vão os tempos de preciosa e explicativa ter necessidade de responder a todas as objecções. Dezenas delas todos os dias e resposta para quase todas. Melhor ou pior, mas pensada. Deixei-me disso ao menos em parte. É um exercício inglório e sem fim à vista. Pode não parecer, mas hoje oiço e leio sem abrir a boca frases e frases inteiras com a substância do que antes presumi e as decorrências que conheço de antemão. É melhor assim, para todos. Além de mais, apesar da aparência e ao que parece, finalmente e até ver, aprendi o que importa: manter a cabeça fora da água.


Vamos às frivolidades.


Depois de ter cortado duas vezes o cabelo ao pianista cá da casa, creio que vou ter que usar a tesoura no meu próprio cabelo. Imagino que vá ficar um mimo. Nada que faça muita diferença neste conjunto assustador em que me transformei, que me repele de olhar ao espelho mais do que 5 segundos, não vá deprimir de horror para todo o sempre.


A vida é como é. Depois das manias e traumas de adolescente ou jovem tonta, por que a maioria das mulheres passa ao achar-se horrível, nos últimos 14 anos pensei ter deixado a parvoeira de lado. Apesar de ter engordado muito, tinha aceitado a vida como ela é e aprendido a estar bem na minha pele. Bastante bem, diga-se. Mas como o destino não gosta de nos deixar saborear por muito tempo o lado luminoso dos dias e parece ter especial gozo em nos pôr à prova demonstrando que tudo pode sempre piorar, eis que nos últimos 5 anos me presenteou com mais um quarteirão. A ideia deve ser ver se ainda me consigo encontrar neste corpo estranho que transporto. É a versão neurótica do onde está o Wally.


Acresce que no meio de tanto mimo e doçura da vida, pessoas como eu ainda têm que levar com os doutos e céleres comentários e conselhos dos expertos em vida e alimentação saudável e sobretudo recriminações por falta de disciplina. Quando me vêm com a conversa da culpabilização, apetece-me enfiar-lhes goela abaixo as pressões, o metabolismo e a camada de químicos a que fui sujeita para ver se continuam a gostar de dar palpites fáceis. Desconfio que a maioria ficaria na choraminguice para o resto da vida e rapidamente arranjaria explicações muito científicas em sites lifesytle para se consolar.


Sei. É evidente que se engordei é porque como demais. Não tenho dúvida nenhuma disso. Não sou parva. Não gosto é que das lengas-lengas culpabilizadoras, que não tomam em consideração as diferenças de cada um, produzindo um discurso infantil muito em voga entre celebridades e parte da classe médica. Gente supostamente possuidora de conhecimento técnico e científico, que é capaz de aderir às vagas das ‘maleitas da moda’, sujeitando os pacientes à prescrição em força da vitamina D seja ou não precisa ou à recomendação também em massa de excisões da tiróide. Quem não andar a dormir, sabe que tem de estar atenta e ter reservas quanto às modas da medicina.  


Quanto ao resto, é evidente que tudo tem solução e é preciso força de vontade e disciplina. Não me venham é foder o juízo mais do que ele já foi.


 

As outras máscaras

dissimulado.jpg


*


Não fosse ter olhos e ouvidos e não conhecesse a desfaçatez, dissimulação e prosápia dos doutos do pequeno terreiro onde vivemos e ficaria condoída com tanta comoção pela tragédia portuguesa e atirar-me-ia para o chão em vénia radical de tanto espanto e admiração perante a lucidez e sensatez dos ilustres da nossa praça. Não fosse saber que nada mais os move do que a retórica, a mesquinhez e a vontade de vergar os outros às suas fúteis razões e cederia a argumentos inquinados e viciados, e não me divertiria tanto ao vê-los acusar os outros dos próprios vícios, como se nada fosse. Não fosse saber que usam as mortes para impressionar o seu nicho de público, cultivar a vaidade e dar imagem de pessoa decente e moralmente superior, e ficaria impressionada.


Felizmente, há muito me deixaram de impressionar os dotes de oratória e a retórica dessa gente que continua a cavar a tumba do País, muito convencida de estar a dar lições de inteligência e cidadania. Muito cheia de si e pronta a educar os outros.


Longe dessa áurea de brilhantismo do pedestal dos doutos do mercado da opinião, sou uma pindérica sem coração nem razão, preocupada com o pé desmanchado da Luísa Carneiro. Como se verá no postal seguinte.


 

Provérbios e expressões idiomáticas

 


De boas intenções está o inferno cheio.


 

25/01/2021

'Analismo' político

49361410786_e091673901_m.jpg


*


Um ano depois volta às Comezinhas o 'Analismo' político.


 


Quem vê pequeno jamais consegue conceber como lógico o gesto simbólico ou a atitude de carácter. Quem vê pequeno vê inteligência no utilitarismo e nem se dá conta do mundo possível além da miséria do cinismo.


Mas se por acaso vê consagrada a vitória do carácter, o mesmo que passou o tempo todo a desdenhá-la, passará a render homenagem e a publicitá-la até ao exacto momento em que deixar de ter utilidade.  


 

Empertiguês

Não é que o meu português escrito e, particularmente, falado – bem atrapalhado - sejam uma especialidade, mas cada dia me encanito mais com o empertiguês. Ao ouvir alguém despejar frases seguidas muito articuladas e sem interrupção num todo aparentemente harmonioso, fico certa de que o orador não está a sentir o que diz, quando não a mentir. Pura representação teatral. E quanto mais palavras em voga ou arrevesadas arremessa, mais certa fico faltar convicção.

Aos coveiros de Portugal

Ed87-Gravediggers1.jpg


*


No rescaldo das eleições sobra-me apenas uma profundíssima desilusão, não com o resultado em si, mas com o futuro que se avizinha. A plena consciência de que pior do que possam fazer aqueles com quem poucas ideias comungamos, muito pior é aquilo do que são capazes os mais próximos do nosso ideário. Os adversários estão cá dentro e comem o País por dentro. Incapazes de gestos nobres. Incapazes de perdoar e ajudar a corrigir as pequenas pechas de quem pode representar uma solução futura. Inábeis, não concebem congregar esforços em volta de alguém com deficiências de sensibilidade política, mas capaz de representar os interesses do País. Cheios de vaidades e conhecimento do ardil da ciência política sabem tudo, estão certos de tudo. Os outros são pobres ingénuos, alheados das realidade. Plenos de erudição e da arrogância das citações sarcásticas cujo alcance nunca percebem além do seu umbigo, preferem os amigos de sempre, os Relvas desse Portugal funesto. E assim se continuará a adiar Portugal, que num futuro próximo se verá nas mãos de um primeiro-ministro enfraquecido pelas sanguessugas da intriga política, ou nas mãos de um qualquer outro primeiro-ministro ele próprio elevado a sanguessuga-mor, com o aplauso das alcofas fofas, tão miseráveis de nobreza de carácter. Pode ser que tenham sorte e caia um lugar no Governo ou numa entidade pública. Pode ser que tenham sorte e se sintam reconhecidos como a verdade efémera do seu tempinho. MAS não valem o País que herdaram. Não valem a ingenuidade dos alheados que acreditando em homens e mulheres imperfeitas foram ajudando a fazer a Nação.


Resta a prostração, a vontade de fugir e a vergonha de ver o País assim entregue aos doutos, lúcidos, perfeitos e impolutos coveiros de Portugal. Todos de consciência muito tranquila.


 

The Missing Piece


Bom dia. Boa semana.

24/01/2021

Está explicado

Ah, muito me contam: por isso se prevê abstenção entre os 50% e os 60%. Com dois votos por pessoa nalguns casos é natural que a coisa não fique tão negra como seria de esperar. Só rindo.


Estou a brincar (hoje em dia é preciso salvaguardarmo-nos, não nos vão acusar de disseminar falsidades online).


 

Edu Miranda, Tuniko e Giovani Goulart

Dois votos

boletim.jpg


*


Lá fomos. Todas as eleições há uma novidade. Nesta calhou votarmos em locais diferentes. Não reclamo; suponho que seja para não haver concentração de eleitores. O Nuno no Carolina Michaëlis e eu no Rodrigues de Freitas. Escrevo no masculino por ainda não me ter habituado a dizer escola secundária e não liceu, apesar de já no meu tempo assim se designarem. Arrancámos a pé para a primeira paragem. Preparadíssimos: máscara, gel, cartão do cidadão, certificado multiusos e caneta. Desta vez esperava-nos uma régua ou matriz de voto em braille. Novidade introduzida já em eleição anterior, mas que por alguma razão não nos tinha sido apresentada.


Sucede que o Nuno perdeu a visão aos 40 anos e ao mesmo tempo teve como brinde amnésia traumática, pelo que quando era suposto, nos anos imediatamente a seguir, não aprendeu a linguagem que a burocracia dita ser universal para quem não vê. Talvez também não tenha aprendido braille por falta de vontade, coisa que para o pianista cá de casa, cuja vida profissional sempre passou pela tecnologia, é um arcaísmo dispensável. Gostava que ele soubesse, mas não discuto: vejo-o tocar e compor e editar música no computador, guardar e organizar centenas de milhar (por favor poupem-me à discussão do português correcto; hoje mereço descanso) de ficheiros de música, assistir a filmes, ouvir audiobooks, conversar online com pessoas no mundo inteiro e sei que não foi o braille que abriu todas estas janelas. Mas hoje tivemos direito à régua de braille. Claro que foi estranho para mim, que nunca tinha tocado numa coisa daquelas e gerou-se uma pequena confusão. Pareceu-me uma relíquia oitocentista e tudo quanto queríamos era que eu pudesse fazer a cruzinha no quadrado do candidato em quem o Nuno quis votar. E assim foi. Aos teóricos do simplex da vida só quero dizer que a conversa do incentivo à autonomia e da prevenção da fraude dá-me sobretudo e cada vez mais sono; um tédio.


Ainda estou para perceber como é que nos dias de hoje, com a disponibilidade e acessibilidade tecnológica existente, e ainda por cima num dia em que morreram 275 pessoas de Covid, não há voto electrónico.  


Seguimos para a segunda paragem. E lá fui votar nulo, por todas e mais esta razão. Já chovia bem, voltámos para casa de Uber. Fizemos a nossa parte, tomara o próximo inquilino de Belém faça a dele.


 

23/01/2021

Edu Miranda, Tuniko e Giovani Goulart



Costura

2a54be14-2627-46d6-bf18-bedea9812fbd.jpg


*


O tempo lá fora fere e há razões bem mais sérias para achar que o mundo vai acabar do que aquelas que as linhas seguintes expressam. Pousaste o livro a pensar que o vais terminar amanhã e rendeu mais de vinte dias intercalado com contos de outras latitudes - lês devagarinho como o caracol. Estás no sofá a dar colo ao computador ao som da cada dia mais perigosa smooth e a escrever sobre o sucedido há três horas. Deste por ti de agulha e linha na mão, pelo que tiveste a confirmação que é bem provável que o planeta esteja a ruir como um baralho de cartas. Já não te chegava acordar por volta das oito, antes do despertador, de todas as rotinas que paulatinamente se têm vindo a impôr à natureza desalinhada que julgavas inalterável, e deste contigo a estender camisolas de lã, lavadas em programa pensado para não as estragar, em cruzetas (ou cabides para os mais evoluídos) e logo depois a coser uma peça de roupa. Claro que ficas a pensar: afinal, quem és tu? Seria para isto que ao longo dos primeiros vinte anos a tua mãe e a Eca te ofereceram quatro ou cinco conjuntos de costura? Alguns nem sabes onde andam. O dado pela tua mãe era de madeira, tinha asa e as tampas dos dois compartimentos deslizavam. O encanto, achaste sempre, estava no próprio mecanismo, nem sequer te lembras do conteúdo. Os da Eca eram mais miúdos. Kit de viagem; a graça estava em serem pequeninos e coloridos, pareciam de brincar e assim os tomaste. Fazia sentido: coser só mesmo por brincadeira. Os vários tubos de linha desses conjuntos estão na maioria virgens; salvo um pontarelo mal feito ali outro acolá, a coisa deve andar na média de trinta centímetros de linha gastos ao ano. Nem sabes bem se foste tu que reuniste os tubos, agulhas, fita métrica, alfinetes, dedal e dispersos na lata de xadrez vermelho e verde que a Eca te deu e persistes em preservar quando há muito fizeste desaparecer a maioria dos bibelots


Lembras-te da caixa de costura da tua avó. De couro preto estava sempre cheia, de tal forma que a tampa estava rasgada. O mais difícil de acomodar era o ovo de madeira. Da lata também preta estampada com flores e um furo na tampa. Recordas-te da dobadoura para ceder o fio aos novelos de lã. Quando não havia dobadoura, os teus braços ou de algum outro neto podiam bem ajudar na tarefa. Das agulhas de tricot, da agulha de crochet e da linha de algodão branco (esqueceste-te do número: seria a 8 ½?) e dos anos a fio a fazer buracos, como dizia o avô a contabilizar o número de orifícios que possuiriam cada uma das vinte e duas (estiveste a contá-las agora) cortinas das onze janelas do piso do meio da casa. No todo era um número astronómico de buracos. E das duas caixas de costura vermelhas de plástico com divisórias da tua mãe. Do som da preciosa tesoura que roubavas para cortar papel. O som de tesoura afinada é mais eloquente do que a maioria das palavras. Do marcador de tecido e do papel vegetal para tirar os moldes da Burda. Do pedal da singer e do móvel que a albergava, ido e vindo de Angola. Da tua mãe sentada a fazer peças de roupa. E da F., costureira de profissão, sentada a trabalhar: assim dá gosto, fazer a peça inteira, não é como na fábrica onde só se faz bolsos ou golas.


Avó, mãe e a sua grande falta de paciência para quem não tem jeito para nada. A lição é simples: o que é preciso ser feito faz-se e isso não faz de nós menos gente. A avó entremeava Agatha Christie e crochet, dava explicações de francês e preparava canelones ou fazia doce de maçãs podres, como soube enquanto enfermeira tratar de feridos na guerra civil de Espanha. A mãe tendia a massa para os pastéis de massa tenra com o mesmo método com que mexia e encorpava os ovos moles no ponto para o molotof e cruzava dados demográficos de poveiros mortos há trezentos anos, como soube enquanto professora ensinar angolanos das sanzalas a ler, escrever e contar. Agora passa da história de Israel para um romance de cavalaria ou o sudoku, como desentope canos da banca.


É a lição no feminino. E quantas lições há por essas casas em Portugal inteiro. Aprendeste pouco. Vale teres visto e ouvido mãe e avó. E Eca, um talento não para as costuras, mas para a bricolage e para a verdade. A pura da crua da verdade. O céu existe? Sim, sim: o céu dos ratos é a barriga dos gatos. Ainda hoje estás para perceber por que carga de água a tua mãe teve a ideia peregrina de pôr a Eca a dar-te catequese para a primeira comunhão. Só podia ser uma piada, a melhor das ironias vinda de quem diz não ter sentido de humor.


 

22/01/2021

Aselhice doméstica

364b2746-5d79-4d47-bce9-24f54d900d22.jpg


*


Ia assar no forno lombos de salmão e batatas miúdas, mas se calhar é melhor não, fica para a próxima.


 

Estado de alma

1_x_63htcQx3QGZhj2uWZZaA.png


Final de tarde - Sexta-feira.


*


Bom fim-de-semana.

A lata societal

descarregar.jpg


*


«Este ziguezaguear... não digo oportunista, mas a espreitar sempre à excepção ou a tentar fazer diferente é o que nos tem causado tantos problemas em termos societais», palavras do ministro da educação, Tiago Brandão Rodrigues, referindo-se às actividades lectivas após determinação governamental do encerramento das escolas, hoje no Primeiro Jornal da SIC.

Inenarrável

 


É inenarrável esta esperteza saloia de políticos/autarcas iberos.


 


Autarca de Reguengos de Monsaraz tomou vacina contra a covid-19 sem pertencer aos grupos prioritários24 Sapo.


Polémica em Reguengos. Ministério remete responsabilidade da vacinação do autarca para o lar de idosos, Observador.


O escândalo do político espanhol que tomou a vacina contra a Covid-19 e acabou demitido, Observador.


Lacerda Sales defende vacinação de políticos em simultâneo com outros “serviços críticos”, Eco Sapo.


*


Peço apenas o favor de não dizerem que este é um postal populista e demagógico. Se for, então, já vale tudo.  E obrigada a quem alertou para estas notícias (ando um pouco arredada dos jornais).


 

21/01/2021

Porquê

interrogacao-300x225.jpg

As palavras

b3fb0984-dc73-4d9c-8154-95067a42c029.jpg


*


Se as quisesses


não podias.


Espalhadas no tempo


finaram de morte prematura


golpeadas a tesoura


sem remorso, mas ternura.


 


Ditas a mágoa, paixão


medo e deslumbre,


soltas por precisão -


paz despojada, livre da posse


sinais e intentos.


 


Foram tantas por dizer


e tantas arrancadas,


interessa agora velar  


as lavradas? Coisa nenhuma


sem o todo. Sentido.


 


Voltas à palavra


por uso e vício, só aí


no último silêncio


tu e a palavra, feitas matéria,


dirão: nada mais, somos poeira.


 



 

David Bowie



*


Não há como fugir a dar de caras consigo mesmo.

20/01/2021

Fazer a diferença

*


Não interessa fazer a diferença por fazer. As opiniões são como os ditos, todos têm uma e quem tem o dito tem medo. Muitas das melhores decisões das nossas vidas são aquelas em que contrariamos tudo e todos. Poderá não ser a regra, mas o caminho certo poderá bem ser o que só a nós parece correcto, apesar da turba inteira dizer: não vás por aí. Não só porque no campo das probablidades temos de colocar a hipótese de termos um conjunto de razões não equacionadas pelos demais, como também pelo facto de assumirmos que queremos mandar na nossa vida e conduzi-la segundo as nossas convicções.

A.I. * For Always - Lara Fabian


A.I. - Inteligência Artificial, o próximo filme a ver.

Tudo e o seu contrário

*


Sim. Prefiro trabalhar em casa. Digo-o sobretudo quando estou em casa. Quando vou à empresa, sinto o frenesim do trabalho, vejo da janela o mar, as caras dos colegas com quem troco algumas palavras, fico contente em revê-los e apetece-me ficar lá. Contradições. São como são. Talvez nem seja mau, talvez tenha herdado o feitio de valorizar o que me é dado a cada movimento. Talvez seja isso. Mas duas coisas são certas. As correrias no Verão, estação com que embirro, dão cabo de mim e continuo renitente quanto à unanimidade de que se trabalha mais em casa: cada um é como cada qual e não acredito que pessoas com queda para a preguiça e falta de brio passem de patinhos feios a belos cisnes diligentes.

Amizade

Capturar.PNG


*


O ritmo dos acontecidos no mundo lá fora e no espírito aí dentro é frenético. Têm sido meses de excepção, anos de espertina. Há momentos em que dá ideia teres acordado de um longo sono, de um longo descanso. Não te pesa o que perdeste enquanto adormecida, por saberes o quanto precisavas do afastamento, da redoma que permitisse voltares a acreditar. É curioso que tenhas saído do tronco onde hibernaste pouco antes do mundo virar do avesso. De repente ou paulatinamente, quando tudo se tornou mais frágil, começaram as aproximações dos que te são mais importantes. Nas vésperas do mundo virar do avesso, era a distância que marcava presença. Não te dedicavam tempo, nem tu a eles. Era espaço frio e sentido. E de repente ou paulatinamente começaram a abeirar-se como se o mundo pudesse acabar e quisessem dizer que ainda lhes vales qualquer coisa. E tu a eles. E chegaram também novos amigos e conhecidos. E dás por ti a sorrir e a lembrar do murro no estômago que levaste quando um dia, talvez há treze ou catorze anos, tomaste consciência que em várias semanas, e sem estares ligada a redes sociais ou quejantes, tinhas recebido uma única chamada. É certo que acabaras de trocar de telefone pela terceira vez, o que não ajuda. Mas eras tu e o teu deserto. O tal que se prolongou por alguns anos. Tu, a que estava habituada desde sempre à turba de amigos e conhecidos. Às saídas, aos cafés, às conversas, aos sorrisos, às piadas, às gargalhadas, às cumplicidades. Na Rotunda da Boavista com o telemóvel na mão e ao ver uma chamada única, perguntavas: onde estão todos? Para onde foram todos? E mais do que tudo, para onde tinhas ido tu, que não querias sair do tronco onde hibernaras.


Ontem tropeçaste num amigo e deste convosco em francos desabafos. À cabeça a constatação de que a fragilidade trazida pela Covid veio mexer com os afectos e ânimos terrenos. De alma exposta, falou-te do coração e tu radiante percebeste que já encontrou a ponta da meada do futuro risonho e mimado que já merecia; estavas certa em dizer que, apesar de tanto duvidar, era esse o seu destino. Também tu abriste a alma e o coração no teu velho costume de te sentires mais confortável e entendida aos olhos e ouvidos dos amigos masculinos. E sem outro conselho que não fosse a divertida proposta de mudares de vida e abrires uma linha de tarot ou de qualquer outra bruxaria divinatória, cada um foi à sua vida de alma mais leve. Supões que seja para isso que servem os amigos.  


Resta-te a pergunta: e depois, varrida a fragilidade e pousada a imunidade, que vai ser feito dos nossos agora mexidos corações? E da atenção e cumplicidade? E da amizade?

19/01/2021

Lida da Casa

1..jpg


1.JPG


3..jpg


2..jpg


Já em desespero tento, tento, mas nem com a pantalha ligada as nódoas difíceis saem. A televisão está mesmo encardida.


Às tantas está na altura de fazer outra barrela e afogar o maldito aparelho.

Noto

*


 Dia de Noto no saudoso coração de Siroco. Do mal o menos, a meio do tormento o sossego dos manos Boreas e Euro. E ténue esperança no Zéfiro que há de vir.   

Recapitulando

Da culpa e da Arte de enfraquecer o povo, no post de 2 de Novembro. Vá, aquela da 'vacina antes da quinta vaga' foi um pouco ao lado, talvez fosse melhor imunidade antes da quarta ou quinta vaga, ou coisa semelhante. Para não me repetir, coisa cansativa, copio.


*


A arte de enfraquecer o povo



por Isabel Paulos, em 02.11.20


 

Oiço ao longe a voz do nosso Presidente da República. Prescindi de o ouvir nesta divisão da casa – onde reina o quase silêncio -, como medida profiláctica. Hoje à hora de almoço tive a oportunidade de sentir o medo estampado na cara e na voz de uma empregada doméstica, que se indignava em tom pesaroso contra as pessoas que andam sem máscara e não têm cuidado nenhum, e agora só se ouve falar em grandes festas e essas coisas. Concluindo: isto está muito mau e tudo vai depender de como as pessoas se portarem.Depois desta amostra, fiquei logo ciente de não precisar de ouvir o nosso Presidente ou o Primeiro-Ministro. O trabalhinho já havia sido feito e o nosso destino estava marcado.Há momentos em que acredito que há progressos e que o juízo vai acabar por imperar, mas depois caio em mim e noto que isto vai num crescendo. Há meio ano, na primeira vaga, o lema era: fiquem em casa, que vai ficar tudo bem. Agora na segunda: ponham a máscara, tentem não sair, guardem a distância física a ver se não isto não piora muito por vossa culpa. Lá para a terceira já devemos estar no patamar: denunciem e castiguem os maus exemplos para evitar que morramos todos. E, finalmente, na quarta vaga, presumo que tenhamos: há que sacrificar prevaricadores para salvar a humanidade e ganhar o reino dos céus. A vacina chegará antes da quinta vaga, mesmo a tempo da governação e presidência se congratularem com novo milagre português do baralha, parte e volta a dar, mantendo a população na ignorância e os governantes inimputáveis.A arte de governar sacudindo a água do capote. Ou, na boa sabedoria chinesa: a arte de enfraquecer o povo. E voltamos ao mesmo.


 


21854561_Eo8nu.jpeg



 


Credo na Boca

 


Somos o povo do Credo na Boca. 


 

Brumas

*


Há dias em que é difícil escolher o que pensar: entre o que é e o que cada um de nós constrói acerca do que é vai uma eternidade. Resta pano para as mangas da imaginação e para equívocos e mal-entendidos. Uns dão mau resultado outros bom, a maioria fica naquela enorme sombra entre o nada e coisa nenhuma. Não é razoável a cada instante bater no ombro do outro e perguntar: desculpe, mas quando disse aquilo estava a pensar exactamente em quê? Quando usou aquela palavra era neste sentido ou noutro? Nem nos podemos corrigir a todo o momento: não não, não foi isso que quis dizer, mas aquilo. A maturidade e a inteligência educam-nos nos subentendidos. Os ingleses são exímios. Suponho que os portugueses se saiam melhor nos trocadilhos, o que não é exactamente a mesma coisa.


Se a realidade se mantivesse quieta por instantes e os sinais dos demais não se esfumassem em inícios de madrugada de neblina baixa. Pudesse eu saber o que pensar. Reparo que é quase voluntária esta inquietude (será hábito ou vício?), caso contrário teria insónias. Mas não, nos últimos anos ao deitar-me durmo quase logo. E acordo na manhã seguinte pronta a tentar decifrar mais brumas. Pronta a agigantar a imaginação e as ambiguidades.


 

18/01/2021

Dark Moon · Afro Celt Sound System

Retoques na fronha

As Comezinhas não tinham email acessível, o que não fazia muito sentido. Só para esse efeito reabri o separador 'Mais sobre mim'. 


Aproveito para agradecer uma vez mais as visitas e o destaque à Sapo Blogs

Consciência

Isto de escrever e dar palpites todos os dias dá em contradições. Todos os dias reparo nas incongruências dos outros, hoje detectei-me uma (presumo que serão muitas mais). Não sei se vá buscar o chicote ou se siga assumindo que a vida é assim mesmo. Está bom de ver por que caminho seguirei.

17/01/2021

Gabriel Garcia Márquez

GGM2.jpg


GGM3.jpg


GGM4.jpg


GGM5.jpg


GGM6.jpg

Covid-19

worldmeters.PNG


(Worldmeters)


 Mais consultas possíveis no Covid Visualizer, no ECDC e na DGS

A ver

mw-320.jpg


*


Num tempo em que muito pouco na televisão vale o nosso esforço para ver e ouvir, o Leste/Oeste semanal de Nuno Rogeiro, na Sic Notícias (se não conseguirem a ligação, vejam na gravação da box), é óptima excepção. Numa época na qual para além do problema de saúde das convicções precoces e das guerrinhas pessoais e políticas com que somos brindados  a todo o momento no twitter e facebook (e blogues, sejamos justos), os programas e tempos de informação, opinião e debate televisivos transformaram-se quase todos em espaços amorfos ou excitados de evangelização e os seus protagonistas em crentes ou pregadores. Neste clima é bom saber que ainda há quem se dê ao trabalho de pensar e trabalhar, passe o pleonasmo.  

Jornais

21821074_en6jA.jpeg


 


Numa olhadela rápida pelos jornais, comecei por procurar na BBC o estado de alerta nos 50 estados norte-americanos. Entediei-me mais um pouco com a ladainha da liberdade excessiva do Natal no The Guardian, que por cá também medra para consolo das almas inquisitórias. Passei pela China para ver dados da Covid no China Daily. E acabei mais satisfeita na Der Spiegel por finalmente ver um artigo na revista que explica com acerto e minúcia as dificuldades que pessoas com deficiência têm em aceder aos conteúdos da internet. Por incrível que pareça temos regredido nesta matéria, pelo que seria bom que os designers das páginas online lessem o artigo.  


(emendado)

16/01/2021

Livrarias online

Capturar.PNG


(imagem editada.)


Tirando irmos à falência, não há razão para não continuarmos a comprar livros.

Fiel da Balança

balança.jpg


*


Com alguma pretensão o nome desta casa feita blogue poderia ser Fiel da Balança. Não por especial queda para pesar grandes gestos de afeição ou brandura, até porque por estas bandas o jeito foi sempre meio bruto ou bruto inteiro, mas pela propensão inelutável para denunciar o lado mais forte. Seja no sentimento seja na razão só por distracção ou toldada por emoção nesta casa se declara alinhar pelo vento favorável e só por desconhecimento não se tenta usar o contrapeso para corrigir a situação. A coisa é de tal modo inata que quando criança à pergunta bicuda de quem gosta mais, e apesar de não haver alma que não soubesse que o Fiel da Balança denunciava absoluta preferência pela mãe, ninguém algum dia ouviu resposta diferente do que esta: dos dois igual.


Não é defeito, é feitio. O Fiel da Balança serve para isso mesmo: orientar na direcção do justo. E não se confunde com o politicamente correcto, que é apenas encosto cómodo.


 

São Miguel

IMG_20210116_163555.jpg


*


Dezasseis de Janeiro


do ano vinte e um.


Ordem de clausura


e encontro clandestino


ao meio-dia e meio caminho


do cordão umbilical.


 


A casa São Miguel.


Em jeito de escusa, mão-cheia:


oito bravo-de-Esmolfe,


um beijo na mãe


e o parabém.


 

Coisinhas boas (resultado)

+1.jpg


E pronto, fiquei com as costas num oito (nada que uma noite de sono não tenha curado), mas lá levei a minha avante. É impressionante o que pode caber em menos de cinco metros quadrados. Agora calhar, calhar, calhava bem a reforma para ler os vários que não li e reler os que mais gostei.

15/01/2021

Coisinhas boas

Estado de espírito às 16h30: reina a boa disposição e a ideia de mudar móveis em casa fervilha. Morta por acabar o dia de trabalho e jantar, para depois começar as mudanças. É um vício que nasce connosco, não há que lhe fazer. Faço-o desde miúda. Quando acabam as ideias para mudar os móveis é porque está na altura de mudar de casa. Há menos de três anos neste apartamento e já mudei a sala três vezes. Cada vez mais rápida: depois de vir à cabeça a nova disposição, em quaisquer trinta minutos a alteração está feita. O único senão são as modificações que implicam parte eléctrica, nesses casos lá tenho que chamar o Sr. A. nos dias seguintes. Mas hoje vai ser apenas uma mini troca de posições: estante do escritório por aparador do +1.


Conheço as tretas da psicologia: blá blá blá, quando se tem tanta necessidade de mudar os espaços é porque alguma coisa de errado connosco. Balelas: errado estaria se estivesse quieta a olhar para os mesmos monos há anos no mesmo sítio ou a pedir conselhos a decoradores em função das modas. Valha-nos a vontade própria.

Escola da Ponte

Não é atraente, não ignoro as objecções dos defensores da escola clássica, também me arrepio com expressões como ‘pessoa humana’ e não deixei de reparar no 'há quarenta anos atrás'. E, a despropósito, tenho uma vaga noção do laxismo das novas oportunidades. Mas não custa baixar a crista e ouvir um pouco.



Escola da Ponte, na Wikipédia.

A ler

 


Donald Trump e a força das coisas, de Jaime Nogueira Pinto, no Observador.


 


[...] «Na América – como em Portugal e mesmo na generalidade dos países europeus – a reacção popular às grandes linhas da globalização político-económica, ao ideário da correcção política e ao apoderamento da opinião e do sistema por “vanguardas” interessadas, é, por enquanto, só isso: essencialmente reactiva. É a antítese, a negação de um discurso que se quer impor como discurso único. E nesse discurso coincidem os bilionários da Big Tech, grande parte dos académicos e dos comentadores, quase todos os noticiaristas (agora autopromovidos a pensadores políticos) e os activistas Antifas e seus equivalentes europeus. Uns, porque ganham muito dinheiro, mais ainda que o que já ganhavam; outros porque impõem as suas ideias sobre o homem e o Estado ou porque vão com a maré; outros ainda porque passam por heróis, a derrubar ou a vandalizar estátuas de “fascistas”, como Abraham Lincoln ou como o Padre António Vieira. O apetite do lucro de uns junta-se ao zelotismo utópico ou ao instinto de saque de outros. E à ignorância e ao simplismo populismo de quase todos.»[...]


 


[...]«Também a Trump, que derrotou os tradicionais conservadores do Partido Republicano – de Jeb Bush e Marco Rubio a Ted Cruz – e se apoderou do lugar e da agenda deles, lhe faltou sempre aquele substrato de convicções e de princípios profundos, que vem das ideias e das concepções de vida de longa-duração. Talvez por isso, e por temperamento e circunstância, não tenha percebido que, a partir de um certo momento, não valia a pena persistir, mesmo com razão, numa batalha que a força das coisas já tornara perdida. A partir do resultado consagrado pelos poderes deste mundo na eleição presidencial o que passava a estar em jogo era conservar a maioria no Senado.


No momento em que o Presidente se afastasse, deixando o que houvesse a decidir aos tribunais, a coligação anti-Trump que elegeu Biden desmobilizava. Com a sua insistência, usando o peso da popularidade entre o eleitorado republicano, e com o seu pouco ou nulo empenho na campanha senatorial da Geórgia, os Republicanos acabaram por perder dois senadores, perdendo assim a maioria no Senado.


O Partido Republicano que Trump ajudou a construir, um partido mais popular, mais baixa classe média e trabalhadora, mais chegado aos latinos e aos negros, era um bloco de 74 milhões de eleitores, face a uma coligação negativa que ia dos megabilionários de Silicon Valley – e de outros vales – aos Antifas, passando, claro, pelos novos “cabeças de ovo” da Academia e dos media, habituados, como bons puritanos, a justificar os próprios excessos pela bondade das suas causas e a demonizar e perseguir o inimigo, as suas causas e os seus excessos. A invasão do Capitólio por adeptos de Trump serviu-lhes na perfeição para confirmar e justificar a estratégia de Redutio ad Hitlerum que há muito prosseguiam.»[...]


 

Cláudia Pascoal - Espalha Brasas


Bom dia.


Fim-de-semana à espreita, yeahh.

14/01/2021

Voto Nulo

o-que-diz-o-direito.jpg


*


No início de Outubro, já aqui havia falado do meu voto nas presidenciais. Nesse postal, não mencionei Mayan Gonçalves. Julgo que no momento ainda desconhecia o nome do candidato. É indiferente, o cantar liberal é-me demasiado próximo para não conhecer os vícios e prejuízos que comporta. Conheço a argumentaria desde sempre e, mais ainda, dos anos de faculdade. Em política, partir do princípio que existe um mundo sem desigualdades no qual a cada um é dado aquilo que merece é uma crença cínica que não convence.


Em Dezembro respondi a uma extensa e minuciosa sondagem da Pitagórica e já tinha, então, decidido voltar atrás e não votar João Ferreira a quem considerei dar o meu voto. Por não me rever em nenhum dos candidatos, voltarei nulo. 


Também já aqui falei do sentido habitual do meu voto. E daquilo que não se pode ignorar para além das questões ideológicas e programáticas puras e duras – que se esvaem rapidamente nos mais terrenos jogos de interesse e do peso das limitações reais. Tenho plena consciência que a maioria das pessoas sensatas acham um total disparate – uma tolice ou burrice -, deambular entre um partido dito moderado de centro direita – o PSD – e o PCP. A essas pessoas sensatas só tenho a dizer que faço parte da maioria: a maioria dos que estão pelos cabelos. Mas com uma diferença: em quase 30 anos de eleitora, só faltei a uma eleição, por estar em viagem de Luanda para Lisboa (recordo agora que foram duas: acabei por não votar, apesar de estar junto da assembleia de voto, numa eleição que exigiram prova de deficiência ao meu companheiro que tinha feito 300 quilómetros nesse dia para votar e esquecido da porcaria do papel que prova que é cego). Votei quase sempre no PSD, muito raramente no PCP (ou CDU) e julgo que vai ser a terceira vez que voto em branco ou nulo. Apesar de tudo ainda me dou ao trabalho de não faltar à urna de voto, mas percebo bem quem já nem a isso se digne. 


Como nota mais leve, conto apenas que foi curioso na sondagem a que respondi, quando perguntada com que candidato preferia jantar, escolher Marcelo Rebelo de Sousa e ao mesmo tempo ter respondido que preferia comprar um carro usado a João Ferreira. A única razão possível é que Marcelo Rebelo de Sousa diverte mais. Definitivamente algo vai mal. Não sei se comigo, se com o mundo.


Leio o que acabei de escrever e lembro-me do primeiro Comício a que fui - assisti a três ou quatro na vida e todos antes dos 19 anos. Tinha 12 anos, pedi autorização materna para sair da escola e ir assistir ao Comício; obtive-a. Saí e sozinha e, no meio da multidão do Jardim frente à Câmara Municipal de Felgueiras, vi e ouvi Freitas do Amaral. Detestei-o; sentimento que mantive ao longo da vida. À saída colaram-me um autocolante de Soares é fixe. Piada a que só então, quando criança, consegui achar graça.


 

Os reis da banalidade

Acho imensa piada às pessoas que passam uma vida inteira a dizer banalidades, a usar termos de tendência e que se mantém sempre 'ajeitadinhas' ao que é suposto render lucro e reputação a insurgirem-se, por estar na moda fazê-lo, contra uma ou outra banalidade isolada. 

Blade Runner

blade-runner-25.jpg


*


Nesta manhã estava difícil arranjar uns minutinhos para respirar e dizer que, finalmente, vi ontem à noite o Blade Runner. Há anos insistiam que deveria ver e com pouca aptidão para a ficção científica fui sempre adiando. Quem me aconselhava a escolha usava dois argumentos: não é um filme banal de ficção científica e é um hino à vida.


Sem esmiuçar nem recorrer a grandes interpretações e adjectivações confirmo apenas que o valor da vida é a ideia que transcorre todo o filme e está bem patente nos instantes finais, sobretudo, na penúltima grande cena. Apesar do que chamo bonecada e adereços – não levem a mal os amantes dos efeitos especiais, tecnologia e futurologia, bem sei a importância que têm, simplesmente e talvez por ignorância, nunca me impressionam - e dos clichés do cinema de acção norte-americano - todo o filme remete para o essencial: o sentido da vida.


Valeu a pena. Um filme a ver nestes tempos angustiantes.


 

13/01/2021

Episódios de Janeiro 2021 - O Oriente

Oriente.PNG


*


Lembro-me dos primeiros quatro conhecidos virtuais do final do século XX: dois norte-americanos, um kwaitiano e uma neozelandesa e das curtas e úteis conversas que tive, apesar do meu parco e mau inglês. Mais talvez do que os rápidos diálogos tidos em viagens de turismo, que pouco acrescentam ao nosso conhecimento sobre os locais que pisamos, conversar com os outros sem scripts determinados por circunstâncias limitadoras da livre expressão, dá-nos a oportunidade e a proximidade necessária para deixar de ver o mundo através do simplismo e dicotomia nós e eles. O Golfo Pérsico deixou de ser uma abstracção da televisão onde caíam rockets e o Kuwait passou a ser a terra onde nasceu, vivia e trabalhava um conhecido com apurado sentido de humor. Os Estados Unidos deixaram de ser só um rico e belíssimo país que visitei e que é permanentemente desprezado pela sobranceria das pessoas pouco educadas da velha europa, para ser o berço do cristão defensor das causas cívicas da costa atlântica e do mais terra-a-terra texano. E a Nova Zelândia deixou de ser apenas um enorme e idílico campo verde, para se transformar na casa de uma mãe preocupada com a fragilidade de um filho. A vinte anos de distância pergunto-me se esta mãe terá votado em Jacinda Ardern e se sentirá representada. Infelizmente, nos vinte anos seguintes quase só cavaqueei com portugueses. As conversas de outrora fazem-me falta para tomar pulso ao mundo.  


A Terra não está para meninos. Não é a enterrar a cabeça na areia e a negar a realidade, a injuriar comodamente ou a fazer chacota de quem põe em causa as nossas regalias, ou a defender romanticamente um status quo que não serve a cada vez maior número de pessoas, que vamos defender a vida, a democracia e a liberdade de expressão.


A flor amarela que está no meu perfil este ano foi arranjada num site chinês. Conhecendo a dificuldade em encontrar o que preciso em sites através do português e tendo-me habituado a fazer pesquisas noutros idiomas (apesar da franca dificuldade no seu domínio) para conseguir obter o que quero, e não tendo intenção de vir a aprender mandarim ou cantonês, lancei mão das ferramentas que existem, e para quem não tem grandes ambições – apenas saber com que linhas se cose o futuro do mundo -, o tradutor do Google para chinês simplificado é suficiente. Dou por mim a devanear na ideia recorrente dos últimos anos e numa das 350 resoluções anuais, das quais concretizo duas ou três: talvez esteja na hora de recomeçar a conversar. Talvez com o Oriente.


Mundo longínquo que me chegou até hoje sobretudo por via feminina nos relatos que me fizeram em criança da visão ocidentalizada da China impressa nos livros de Pearl Buck, e no final da adolescência da áspera história das últimas gerações dos Cisnes Selvagens, ou das mais recentes incursões pela China, na viragem do milénio, de Peter Hessler. Apesar de não ter lido estes autores/livros – e de ainda ter as Rotas da Seda na calha da próxima série a ler -, digamos que os relatos que me chegaram foram bastante minuciosos.


Esse mundo surgiu-me também na viagem de dois meses à Austrália, com duas paragens em Singapura, para lá com a preocupação de viajar com quem adoeceu no vôo, para cá com dois dias e o tempo suficiente para visitar em zona industrial uma fábrica em laboração – onde vi os mais belos planisférios de porcelana azul breu que tenho memória e pena de ter perdido as fotografias -, o Jardim Botânico e o Mercado, no qual retive os profundos e impressionantes olhos verdes esmeralda duma jovem vendedora. E onde me senti em absoluta segurança – quase única quando fora de Portugal – ao passear à noite pelas ruas da cidade. Mas também das leituras de História e das dinastias e das consultas esotéricas que na China envolvem as crenças e superstições na sabedoria que nos traz o mundo antigo, no qual palavras como parcimónia, vento, rio e vénia voltam a ganhar significado. Sem esquecer a mundividência que transportam os filmes de animação japoneses e sul-coreanos. Nem o conhecimento da extraordinária capacidade de trabalho, dedicação e abdicação das gentes de leste. E num plano mais terreno dos contactos profissionais nos últimos 15 anos com cidadãos chineses residentes em Portugal.


Tudo isto é nada. É muito pouco o que me chega do Oriente. Só conversando sobre as banalidades do dia-a-dia com orientais poderei vislumbrar mais do que isto. Será que é este ano que retomo as conversas fora do português?


A ver vamos.


 

12/01/2021

Episódios de Janeiro 2021 - O Ocidente

Ocidente.PNG


*


O vício dos dias de hoje, atenta a voragem informativa, é elaborar sobre compartimentos estanques. Seja em termos de espaço seja de tempo. Socorrendo-se de ideias feitas ou conhecimento válido, discorre-se sobre o que se passa em cada dia, como se o passado se tivesse desvanecido. Escreve-se sobre o que se passa em Portugal, como se a realidade norte-americana, britânica, australiana, angolana, nada tivessem a ver com isso e com o estado de sítio deste mundo globalizado. Termo tão na moda durante anos e varrido dos jornais e espaços virtuais. Curiosamente por acção da Covid, a mais globalizada de todas matérias.


A título de exemplo pergunto que ideias válidas e consequentes se poderão retirar da reacção aos chavões racistas e xenófobos do Chega, sem perceber que por mais que o Antifas norte-americano tenha origem funda naquele grande e novo país de imigrantes com oportunidades desiguais, tão distantes das velhas raízes do pequeno país definhado, ruína de antigo e envergonhado império colonizador feito terra de emigrantes, todo o moderno ruído mediático e virtual é instantâneo, global e imparável?  


Em termos mais gerais, há perguntas às quais talvez ainda seja cedo responder. Como se mescla na História a nova realidade feita de destempero e da mexerufada de ódios recentes - com trinta ou quarenta anos -, e os rancores antigos que há muito se julgavam expiados? Como se abstrai do que continua a ser a luta de rebelião e resistência pelo quinhão de poder? Como é possível negar nas bandeiras empunhadas a contradição e absurdo nuns casos, mas também a necessidade e justeza noutros? Como se cultiva, a pretexto de grandes declarações de amor à democracia e através de meios digitais, o atavismo obsoleto? O que fez o mundo ocioso do Ocidente emergir do falso unanimismo das últimas décadas e levantar-se do sofá para discutir com o vizinho do lado? Qual a razão para cada um se lembrar agora da sua quota de poder?


Mas há outras questões bem evidentes que interessam a quem se preocupe com o efeito borboleta. Se quisermos tentar perceber o que se passa e pode vir a passar nas próximas semanas ou meses, teremos que assentar na ideia de que a opinião pública ocidental, educada há décadas no facilitismo e na falta de juízo crítico, repele ou cede tão ou mais levianamente ao apelo ou slogan dos longínquos mentores das causas imediatas que vê bradar nos jornais das televisões e redes sociais, como aos sentimentos e razões do seu pequeno território de interesses e influência. Os órgãos de informação não têm autonomia financeira, nem independência face à voragem dos acontecimentos, nem arcaboiço estrutural de conhecimento. Os estados estão desprovidos de autoridade na cúpula, sendo geridos como empresas que concorrem ao melhor lugar para trabalhar e estão subjugadas aos grandes grupos de interesse económico. Da autoridade militar estranhamente pouco se fala.


A ver vamos.