Pesquisar neste blogue

30/04/2025

Delicadeza

Os tempos não são propícios a subentendidos senão por desporto de humor. Uma versão supostamente sofisticada da chalaça faz a delícia de gente muito astuta e desconhecedora da delicadeza de um outro tipo de subentendidos menos espertos, mais inteligentes. Os que adivinham a cumplicidade do sadio e do belo, tão menosprezados ou confundidos com simpatia forçada e glamour. Os benignos crescem em atmosferas de educação, amor e mimo não precisando de nada mais para existir senão autenticidade. Simplicidade que prescinde de estratégias de sedução, auras de segredo, elogio excessivo e bom samaritanismo calculado.


Na escrita, antes a ingénua, de fácil compreensão e a roçar o primário. Singela ainda que subentendida. Fora dos figurinos e catálogos intelectuais. A que exprime traços da arte, experimentando, ao correr o risco da asneira e ao assumir ora o pouco, ora o muito que é. Antes a que não quer dar o ar, ao correr atrás do epíteto criativo ou atrás da ostentação de leituras como se o sensível se obtivesse por procuração e pela sofisticação ou despojamento artificial da forma e substância. Inventando mistério e complexidade ou técnica e erudição. E antes também a que não replica rótulos e descreve realidades da pintura, literatura, música ou quotidiano como se redigisse um curriculum – elenco de feitos e pergaminhos. Isto já para não falar da escrita tão só vulgar ou grosseira.


A distância entre delicadeza e manha presumida é um abismo e quem não aprendeu a distinguir não merece a bênção do amor. Nem da arte. Talvez por isso esteja fadado(a) aos holofotes e ao sucesso. É castigo merecido.

Agenda

149148235


O dia de ontem foi muito trabalhoso e hoje perfila-se igualmente intenso. Deixo só uma nota acerca de intenções: escrever sobre delicadeza natural, sensibilidade e grosseria presumida. Quando houver tempo.

29/04/2025

Words

Simulacro

Sim. Sim. Já sei. Os boatos e a desinformação. Mas digam se o dia de ontem não foi um perfeito simulacro para os tempos que se avizinham? Estaremos melhor preparados?

Diário 28 de Abril de 2025

Capturar


Oito horas dormidas, chuveiro e café tomados. Intenção de variar o caminho até à Boavista. Contudo como fui ao supermercado comprar os três pães do pequeno-almoço com os colegas na empresa, acabei por fazer a pé o percurso habitual. O mesmo sorriso da caixa do supermercado, o mesmo cumprimento do desconhecido na Ramada Alta. Já na empresa um pequeno impasse, havia esquecido uma password alterada na semana passada. Questão resolvida com ajuda de outrem. Por volta das 11h30 estava sentada frente aos dois computadores a tratar de tarefas profissionais rotineiras quando se deu o apagão de luz. Tocou o telemóvel, era o colega Z., não conseguia estabelecer a ligação, mas percebia-se de imediato: estava fechado no elevador. Em minutos foi de lá tirado com ajuda de outrem. O apagão estendeu-se à rede, ao wifi e dados móveis das comunicações.


Sabendo que a minha mãe tinha ido para a Loja do Cidadão tratar de assuntos da irmã, comecei a tentar ligar para saber como estava. Fui para casa de autocarro e enquanto seguia confirmei também com o Nuno se estava bem. Pouco depois ligou um dos rádios a pilhas e também conseguiu rede para falar à sua mãe. Consegui trocar mensagens com a minha enteada. Por casa, tudo sereno. Ao fim de algumas tentativas consegui falar com a minha mãe. Estava fechada no elevador do prédio de casa da irmã, cuja condição de saúde não permite saia senão de elevador. Saí do autocarro (o ambiente estava relativamente sereno entre o silêncio de alguns passageiros e a conversa sobre as hipotéticas causas do apagão e inconvenientes) e apanhei um táxi. Depois de algum tempo à espera de entrar no prédio da minha tia e não conseguindo chave de emergência para abrir o elevador chamei os bombeiros. Informaram que havia centenas de chamadas. Entretanto chegaram dos meus irmãos e a L., empregada doméstica da minha tia. Começamos em busca de chaves de emergência por gente da zona. Ao fim de quarenta minutos voltei a chamar os bombeiros. A L. conseguiu uma chave mas não servia. Um dos meus irmãos pediu ajuda a trabalhadores de uma obra na rua. Vieram três homens com ferramenta. E conseguiram abrir. Duas horas depois da falha de energia a minha mãe saiu do elevador. Liguei para a emergência a suspender o pedido de ajuda. Estava resolvido com a solidariedade de boa gente a quem ficamos agradecidos. A minha mãe seguiu de carro para casa com o meu irmão e cunhada.


Apanhei autocarro após comprar uma garrafa de litro e meio de água e um pacote de bolachas numa loja asiática. Pelo caminho vi filas para os multibancos e gente acumulada às portas de lojas abertas. Junto a casa os supermercados estavam fechados. Entrei na loja chinesa onde tinha encomendado a capa de telemóvel e a película (a dona ligou-me para a Guarda nas férias a dizer que já podia levantar), mas entrei e saí. Estava um grupo de pessoas a comprar lanternas. Comprei uma Coca-cola de litro e meio na padaria e subi para casa. Era tarde de serviço da dona L. Atenta toda a situação e trânsito disse que regressasse mais cedo já que ia demorar a chegar a Gaia onde vive. Ouvi um pouco de rádio a pilhas para me inteirar das notícias. Soube que era previsível a energia voltar até ao final do dia. E à moda do que fazia em criança deitei-me a dormir para o tempo passar mais depressa. Quando acordei ouvi que se previa a reposição em duas horas da energia eléctrica no Porto. Foi preciso mais tempo: quatro horas desde o momento que ouvi. Aqui nesta zona de Cedofeita (paredes meias com Paranhos) chegou perto das 21h00. Vi e ouvi manifestações de alegria na rua e varandas. Na varanda da frente um abraço de alegria, na rua gritinhos e palmas de festejo. Expressão de alívio e contentamento.


Usámos energia apenas para fazer café, aquecer o jantar e ligar o rádio. E até agora temos mantido acesa uma luz de baixo consumo. À noite falei com o meu pai, troquei mensagem com o meu irmão mais velho e falei com o meu sobrinho. Falta ainda ter resposta da minha sobrinha. Às 23h45 ainda estou sem internet. Tive acesso apenas por poucos momentos. Um dia de apagão na energia eléctrica e comunicações com vicissitudes semelhantes a tantos pelo país fora.


 


Adenda. Depois da meia-noite voltou a internet. Recebi resposta de um casal madeirense que fez o passeio das Aldeias Históricas connosco. Conseguiram chegar ao Funchal já depois da meia-noite. 

27/04/2025

Ponto de situação

Depois destes cinco dias de passeio por terras beirãs da raia deixo as fotografias nos posts anteriores, mas não haverá relato como houve o ano passado no passeio a Alto Douro ou há dois anos à Turquia. Não me vou dar ao trabalho. O passeio está feito e bem gozado. É o que mais importa. Haverá com certeza uma memória ou outra que se reflectirá no que escrever mais adiante. De resto e por hoje, sobra cansaço de corpo moído e vontade de me deitar cedo. Amanhã é dia normal de trabalho. Não restará tempo para devaneios.

Idanha-a-Velha

20250427_155038


20250427_154128


20250427_154427


20250427_154456

Monsanto

20250427_124548


20250427_144043


20250427_141706


20250427_141328


20250427_124326

Serra da Estrela (e Covilhã) e Serra da Gardunha e Castelo Novo

 


20250427_093515


 


*


 


20250427_093139


20250427_095321


20250427_101726


20250427_103808


20250427_102132

Folga

Ainda na Guarda e com três últimas visitas em vista. Serra, castelos e muralhas.


Mais tarde no caminho entre o Entroncamento e o Porto talvez tenha oportunidade de registar uma impressão destes cinco dias nas íngremes e desafogadas terras beirãs.


Um intervalo na vida citadina, no atafulhar de edificações, na catadupa de máquinas em movimento e avalanche de acontecidos.


Para ganhar ar e alento  foram dias a serpentear muito verde, muito granito e xisto ainda agarrado à nossa terra. Ao chão que nos defende. Um regresso a tempos antigos e congregadores da identidade nacional. Uma folga na lufa-lufa rotineira tão distraída do elo que nos une e perpectua.

26/04/2025

Belmonte

20250426_163133


20250426_164859


20250426_172111


20250426_171123


20250426_160228


20250426_152921


20250426_153839


20250426_160804

Sortelha

20250426_121802


20250426_115638


20250426_120011


20250426_121635


20250426_121918

Sabugal

20250426_095028


20250426_103130


20250426_103923


20250426_103427


20250426_110032


20250426_110135


20250426_111239

Apontamento

Esta madrugada não houve pequena escrita, só descanso. Ontem imaginei contar as peripécias, o lado cómico dos convivas e acrescentar o elenco dos variados pratos do almoço em Folgosinho, mas o cansaço venceu. 


Os momentos nos dias vão variando entre a apreensão com os embates sociais para que cada vez me sinto menos atreita e o deixar fluir entrosado, leve e bem-disposto. O passeio em si e os lugares visitados muito recomendáveis.


Por agora fico por aqui. Os ritmos impostos pelas viagens em grupo assim determinam. É escassa a liberdade. Castigo de não ter carta de condução. Porém cada vez mais convencida que fiz bem atenta a minha descomunal distracção.


*


Adenda. A árvore que vi em profusão ao longo destes dias e não identificava é o carvalho. Falha grave uma vez que convivi com carvalhos toda a minha infância.

25/04/2025

Linhares da Serra e Folgosinho

20250425_123612


20250425_122822


***


20250425_131156


20250425_153145


20250425_153329


20250425_154544

Sopé da Serra da Estrela e Celorico da Beira

20250425_130004


20250425_130145


20250425_111248


20250425_110127

Amálgama

Hoje não há escrita ritmada e inspirada. Não sabes tirar das gavetas de arquivo da mioleira as memórias acumuladas. Baralhas os nomes das árvores e a correspondência com as imagens vividas. Nunca soubeste os nomes de algumas, mas outras, céus, as folhas serviam até para sopas de água fria das brincadeiras de criança. De novo na serra querias identificar e as ajudas eram poucas: um comentário aqui outro acolá, uma miopia cerrada e fraca memória. Na Serra da Marofa e Vale do Côa  reconheceste oliveiras em abundância, viste amendoeiras e esparsos sobreiros e azinheiras (seriam?), os costumeiros eucaliptos e pinheiros em menor número. Mais umas tantas árvores que tentas colar aos áceres ou salgueiros e outras que imaginas sejam freixos. E ainda estás para saber se identificarias um ulmeiro. Uma vida seria pouco para conhecer um pouco de botânica. Muitas vidas seriam pouco para saber um pouco do muito que há a descobrir, como o nome da flor branca que nasce em tufos rasteiros junto à urze.


Estás em terra de vigia. Fronteira natural, mas também da raia da alma humana. Portuguesa. Os castelos e fortificações multiplicam-se e alguns esforços de preservação e valorização das aldeias que os acolhem dignificam a memória dos antepassados que deram corpo e alma pela nação. Não tens facilidade em fixar nomes de batalhas e ilustres. Hoje do alto de Castelo Rodrigo pudeste avistar as planícies onde se deu a Batalha da Salgadela no âmbito da Guerra da Restauração. Logo te esquecerás do nome, da imagem - do rosto da história. Mas sobram as pedras encasteladas que asseguram a memória da nação.


Serão menos livres e poéticas do que os penedos, as pedras ou rochas graníticas da Serra da Estrela? As dos castelos estão mais explicadas, ou melhor, mais publicitada a sua história. A ciência dos penedos das serras, a geologia, tem menos argumento e debate. Outra vida seria pouco. Quantas vidas ficariam aquém? Infinitas. Tão sem fim quanto a ignorância. A tua assumida ignorância. Por isso te faz tanta confusão a presunção dos cheios de si. Por vezes ficas com receio de ser injusta ou precipitada no julgamento, sobretudo, no mundo online no qual a condenação pode ser mais leviana. Mas logo deparas ao vivo e a cores com iguais exemplares de carne e osso prontos a falar de cátedra ou a meter o bedelho onde não são chamados com conselhos supérfluos ou bitaites acéfalos. E percebes que nunca compreenderão o que ouvem ou lêem. Para alguns tudo é umbigo ou certeza, exacto ponto final e literal, num campo raso de conhecimento. Dos literatos aos simplórios, como o mundo seria diferente se percebessem o que ouvem e lêem antes de se habilitarem a opinar.


Acabas as linhas precedentes e matutas: melhor fora se lessem o post escrito de ontem. Este ficou verdadeiramente aquém.

24/04/2025