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30/04/2025

Delicadeza

Os tempos não são propícios a subentendidos senão por desporto de humor. Uma versão supostamente sofisticada da chalaça faz a delícia de gente muito astuta e desconhecedora da delicadeza de um outro tipo de subentendidos menos espertos, mais inteligentes. Os que adivinham a cumplicidade do sadio e do belo, tão menosprezados ou confundidos com simpatia forçada e glamour. Os benignos crescem em atmosferas de educação, amor e mimo não precisando de nada mais para existir senão autenticidade. Simplicidade que prescinde de estratégias de sedução, auras de segredo, elogio excessivo e bom samaritanismo calculado.


Na escrita, antes a ingénua, de fácil compreensão e a roçar o primário. Singela ainda que subentendida. Fora dos figurinos e catálogos intelectuais. A que exprime traços da arte, experimentando, ao correr o risco da asneira e ao assumir ora o pouco, ora o muito que é. Antes a que não quer dar o ar, ao correr atrás do epíteto criativo ou atrás da ostentação de leituras como se o sensível se obtivesse por procuração e pela sofisticação ou despojamento artificial da forma e substância. Inventando mistério e complexidade ou técnica e erudição. E antes também a que não replica rótulos e descreve realidades da pintura, literatura, música ou quotidiano como se redigisse um curriculum – elenco de feitos e pergaminhos. Isto já para não falar da escrita tão só vulgar ou grosseira.


A distância entre delicadeza e manha presumida é um abismo e quem não aprendeu a distinguir não merece a bênção do amor. Nem da arte. Talvez por isso esteja fadado(a) aos holofotes e ao sucesso. É castigo merecido.