Hoje andámos a pé um pouco e pensei na globalização versus nacionalismos e ímpetos imperialistas. É enganosa a ideia de que a globalização tem os dias contados. Ela é efectiva. Se o comércio internacional está a ser posto em causa, o pensamento, o conhecimento e a comunicação são planetários. Se os apetites de posse de territórios alheios são uma realidade, a reacção humanista será global. As estratégias de domínio do comércio internacional baterão numa parede de betão. Um muro estranho, digamos assim, já que a principal característica é a fluidez da informação, comunicação e troca humana. As violações do direito internacional, os crimes contra a humanidade em guerras arbitrárias com imposição da lei da força e injustiças insuportáveis e perdas irreparáveis enfrentarão reacção humanista. Temos uma globalização efectiva versus ímpetos de personalidade associados a movimentos ideológico-utilitários. É como se tivéssemos crianças agarradas à bola querendo impor aos grupos de amiguinhos que joguem uma partida de futebol viciada a seu favor.
A Europa vai aumentando os orçamentos em defesa e rearma-se, o resto do mundo rearma-se preparando-se para uma guerra à escala global. Os Estados Unidos perderam para a China a pole position no arranque da corrida que se adivinha. As alianças militares do século passado estão tremidas. Na Rússia um facínora só sossegará quando morrer. Na Coreia do Norte um louco mantém o regime insano e criminoso herdado do seu pai e avô. O tabuleiro das relações internacionais é uma incógnita. Cada nação tentará defender os seus interesses ou passar o melhor possível entre os pingos da chuva. O pensamento acerca do futuro estremece certezas de oitenta anos para alguns, de mais ou menos tempo para outros. Afinal cada país nos diversos pontos do mundo tem a sua própria história.
Podemos tentar compreender a realidade soltando-nos dos preconceitos de conhecimento adquirido. Não faz sentido a desconsideração de quem não traz no repertório discursivo as referências a nomes e leituras. É, aliás, caricato assistir ao carácter obtuso do pensamento dito preparado e estruturado. Sustentado em conceitos da ciência política muito bem definidos e supostamente incontestáveis. Ancorado nas teses, visões pré-registadas no espaço público é mimetizado à exaustão sem questionamento que não esteja supostamente demonstrado e um milhar de vezes decalcado. Os sábios limitam-se a acompanhar a realidade e descrevê-la como se a conhecessem antecipadamente, apesar de não acertarem. Não raro enviesam a argumentação posterior para fazerem prova de que anteciparam a realidade presente, escondendo as partes do discurso passado nas quais se enganaram redondamente. Apesar disto vivem à superfície com muita audiência de memória curta por criarem os iscos que o público anseia: emoção, querela, impacto no caso dos voluntariosos ou harmonização por uso utilitário de valores conservadores dos ditos moderados. Valores que funcionam como tranquilizantes, adormecendo a audiência no conforto de um mundo que já não existe.
Esta é a fórmula de viver suspenso sobre a realidade não a integrando, não participando. Dá uma falsa sensação de segurança. Como se evitasse ser tocado pelo problema, ignorando a realidade tal qual se apresenta na pele de cada um. O recurso ao juízo, à opinião, ao comentário põem oradores, autores e audiências a salvo de si mesmos, como se abstraíssem do próprio papel no mundo, limitando-se a julgar de fora ou de cima, do patamar do juiz que não tem interesse na causa. No comentário disseminado à escala global todos se disfarçam de juízes, sem se assumirem como parte interessada que usa todos os meios para ganhar a causa. Todos passam o tempo a julgar os defeitos dos outros sem perderem tempo com as suas próprias menoridades.
Prefiro o tempo gasto com o quotidiano, o comezinho, o íntimo, ainda que repetido à exaustão. É disso que se fazem os dias de gente de carne e osso. A opinião incessante acerca de política, geoestratégia, música, livros, arte, gastronomia, viagens, futebol, actualidade, sociedade etc. é uma distracção e se obstinada revela uma dissociação de personalidade de quem se teme a si próprio. Se falar sem parar sobre si próprio e a sua vida, revela narcisismo ou egocentrismo, falar sem parar sobre o mundo exterior sem consciência de si próprio revela ignorância, desonestidade íntima e desconforto interior. Estas últimas características são muito comuns em gente que não respeita o semelhante e em gente que não percebeu ainda o sentido recente da evolução da civilização. Irreversível no sentido de uma maior consciência humana apesar do estrebuchar ultraconservador. Gente que vive com cem anos de atraso na mentalidade e por isso reage com urticária a autores, sobretudo a autoras, que se desconstroem sem pudor em público, prescindindo dos mostruários de erudição e técnicas previsíveis de atingir a notoriedade que nada dizem sobre qualidades humanas e valor intelectual. Gente que condena Prémios Nobel da Literatura justos por não corresponderem aos estereótipos de masculinidade reaccionária. Gente que vive do lema “Ó tempo volta para trás”. Não volta, por mais venham aí tempos de trevas, serão superados para que o mundo volte a um trajecto de evolução mais humano e justo. A Democracia não é uma abstracção ao serviço de privilegiados — de ilustres que gostam de hastear levianamente a bandeira das democracias liberais, mas não respeitam o semelhante -, é um sistema de governação ao serviço de gente de carne e osso, sem discriminação em função do sexo, raça, cor, origem social ou nacional, orientação sexual, idade, religião, convicções políticas, condição económica, nível de instrução, deficiência ou qualquer outra característica pessoal.
O conhecimento que aí vem decorrente das descobertas no campo das neurociências, por um lado, e o aprimoramento efectivo da Inteligência Artificial, benigno se bem usado e perigoso como instrumento em mãos desonestas e malévolas, ditarão o rumo do mundo. Os esforços de quem está por bem na vida deverão ser no sentido da esperança e da luta por criar — além de instrumentos colectivos de desenvolvimento de bem-estar e equidade — mecanismos que tragam maior compreensão acerca das particularidades de cada ser humano de forma a conseguir maior igualdade de oportunidades na vida — maior justiça.
Os nacionalismos, os imperialismos, a geoestratégia dos interesses económicos globais, nacionais e empresariais em larga escala fazem-se no cérebro de homens e mulheres poderosos mas simultaneamente vulneráveis. Quem decide e age fá-lo em função de circunstâncias variáveis. E a mente humana é imprevisível. Nem tudo vem nos livros, nem tudo é História, nem tudo é conhecimento adquirido. O mundo por vir está por descobrir por mais que os sábios e iluminados queiram fazer as vezes de bruxas esotéricas e falem no futuro em ponto final, como grandes oráculos do Universo saltitando de sentença em sentença provisória e decalcada nas televisões, nos jornais, nas redes sociais, nos blogs, nos livros, na rua.
Boa semana.
