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31/12/2021
30/12/2021
Comboios do Mundo
As televisões às vezes acertam.
Que o diga a SIC que nos traz pequenos documentários em forma de viagem numa série chamada Comboios do Mundo integrada no Jornal da Noite. Hoje a travessia de comboio foi feita na Nova Zelândia.
Parabéns à SIC.
29/12/2021
Correrias

Esganada de tempo. Dia de tarefas sobre tarefas e pedidos de respostas urgentes. Sempre a dar-lhe, ainda não consegui ler nada nos blogues, muito menos nos jornais. Aproveitei a hora de almoço para ver o tal apartamento, mas tarde demais. Quero um chá, caramba.
Périplo
Esta noite deu-me um plof, vazio. Nenhuma ideia pegava como os fantasmas de gosma que aderiam ao tecto. Vai daí, fiz um périplo não pouco usual.
Passeei pela página da Marktest para ver as novidades. Portugal está mais velho, apesar da ceifa covídica, ouve mais RFM e Comercial, e a Smooth tem um share de cerca de 3%. Pinta mais o cabelo em casa. A NOS é o maior anunciante e os grandes temas da televisão (quem diria?): Covid, Natal e Futebol.
Dei um pulo à aeiou, tendo lido que o retrato a óleo The Blue Boy, de Thomas Gainsborough, vai voltar a ser exposto 100 anos depois na National Gallery, em Londres, e que os corvos afiam os galhos para assanhar as larvas nos troncos e assim melhorarem o repasto. Por lá gostei do título - faz uso do parêntesis contra todas as regras e utiliza linguagem informal - referente à antecipação da promoção de Gouveia e Melo a Chefe do Estado-Maior da Armada por Marcelo (reafirmo: já dei crédito suficiente com o epíteto de Presidente da República, quem não se dá ao respeito não o pode exigir) para não comprar guerra com o Governo – nada mais definidor do calibre destes políticos: passa-se por cima do regular funcionamento da instituição e da dignidade de quem a dirigia para dar um jeitinho político. O habitual nesta República de povo manso.
No Observador vejo que Rio pontua em duas notícias recentes – fico curiosa em saber como estamos em termos de tempo de aparições televisivas, mais tarde a Marktest dirá -, constato que as fotografias online com mais gostos – no título um arrepiante “mais gostadas" – são as que rodeiam a vida dos futeboleiros Ronaldo e Messi, e das cantadeiras Ariana Grande e Billie Eilish, além de uma estrela nascida num reality show que julgo ser do clã Kardashian. A propósito da Kim e suas irmãs, íamos na primeira década do novo milénio quando descobri envergonhada que estava tão alheada das fofocas destes vultos dominantes da actualidade que não conseguia manter uma conversa de mais de dois minutos com algumas colegas de trabalho. Pelo que à época me impus começar a estudar a matéria inteirando-me destas importantes vidas. Pouco habituada a usar a internet para seguir tais notícias, resolvi comprar semanalmente a TV Guia, que trazia nessa altura tomos do Atlas da National Geographic – mais uma colecção incompleta por só ter aguentado 11 semanas. Ainda assim vénia à Kim Kardashian por este incremento de erudição de intriga e mexerico na minha vida – não há como aspirar a ser um ser humano completo.
28/12/2021
A ler
O longo artigo Luxury homes, short lets and shacks: inside Lisbon’s housing crisis, no The Guardian, sobre a especulação imobiliária em Lisboa e respectivas consequências.



Mais umbigo
Há dias em que pensas: e se é tudo em vão? Nesses instantes tens a certeza que valem os vaipes, as empolgações, as cumplicidades genuínas e desinteressadas, as risadas, tuas e dos outros, sobretudo, daqueles a quem queres bem. Vale o que te alegra, faz vibrar e o que és. Não aquilo que sempre querem que sejas em contramão da tua natureza. Sabes bem. Sabes bem que as lições, os remoques, os espartilhos das conveniências e da douta sabedoria nunca preencherão o vão final - o que vales afinal.
Pejada de defeitos sejas aos olhos de quem não têm o hábito de vê-los em si. De resto, vales o que vales. Será pouco, mas não serás nem mais nem menos do que és, e nunca uma candidata a Miss simpatia, Miss conveniente e conivente, Miss controversa ou sarcástica, Miss popular e bem sucedida ou o diabo a quatro.
As pequenas alegrias

Aproveitei a época de festas para trocar o serviço de loiça do dia-a-dia - o anterior tinha 15 anos, estava desfalcado, era pesadíssimo e eu estava farta de branco. O tipo de coisas que me traz boa disposição.
27/12/2021
Trapalhona
No dia em que escrever um postal e não o corrija 10 ou 20 minutos depois, 3 ou 4 horas depois, 4 ou 5 dias depois e por aí fora, faço uma festa.
Diário
E pronto, já a velocidade cruzeiro na labuta habitual, depois de três semanitas de (quase) descanso. Comecei a manhã a receber a chamada da imobiliária do apartamento que vi ontem online, o qual se os astros se conjugarem a favor será nosso. O momento alto do dia de hoje foi a vídeo chamada com a dentista. O mundo mudou: agora confirma-se a escolha de alinhadores de dentição no conforto de casa.
Sim, os ventos de mudança entraram por estas bandas: além de estar a trabalhar para perder metade do peso, vou corrigir a dentuça. Mais um retoque aqui e acolá e daqui a dois anos entrarei nos cinquenta como deveria ter chegado aos quarenta (não é que os quarenta tivessem sido maus).
Matérias de suma importância e puro altruísmo – tão em voga nesta época natalícia em que vi desfilar tantas boas intenções de impolutas pessoas - deixam-me pouco tempo para as notícias. Ouvi pelo menos o relato das suspeitas do Ministério Público quanto a negociatas com transferências de jogadores no meu portinho e observações sobre a cleptocracia russa, com os tentáculos estendidos não só ao Reino Unido como a Portugal.
Panca das Casas

Muito tentada.
(comentário do Nuno: isto assim é como viver em hotéis.)
Bom dia. Boa semana.
26/12/2021
Nunca é tarde
Enquanto foram passando por ti ao de leve e se foram centrando nos seus próprios assuntos, na sua própria vida, a tua era adiada ad aeternum distraída que estavas a pensar no todo e em tudo. Devaneando. Definido o que queres e aquilo que com dor queres deixar de gostar, é hora de aprender a alheares-te um pouco dos outros e fazeres-te à vida antes que seja tarde demais.
25/12/2021
Leituras abreviadas

Novos cómodos para as Pessoas com Pressa, que vão crescendo no intuito de tentar saber mais qualquer coisa sobre o mundo.
24/12/2021
Gratidão
Para lá das vidas blogosféricas neste Natal sinto vindo dos outros mais afecto, mais presença, mais atenção. O que sabe muito bem. Tem sido um belo Dezembro. Deus tem sido generoso. Obrigada.
23/12/2021
A ler
Em actualização.
Aguardo a publicação dos programas eleitorais para a legislativas de 30 de Janeiro de 2022 do PS, PSD, CDS, Iniciativa Liberal e Livre.
Últimos cartuchos

Em preparação para recomeçar a trabalhar a 100% (em teletrabalho por duas semanas).
Ao que assisto desde criança
É muito curioso ler ou ouvir declarações inflamadas contra a injustiça de escolhas para determinados prémios, cargos ou tarefas. Os mesmos que escrevem e discursam com grande propriedade contra o compadrio ou mediocridade na selecção, rejeitam a mestria ou atiram sistematicamente para lugares subalternos e invisíveis gente de qualidade por medo ou cobardia – a ousadia e exigência assustam – para premiarem a vulgaridade.
É um vício nacional, estando longe de só se verificar na política que, aliás, só replica os usos da sociedade. Protela-se o país dissimulando a injustiça, fazendo de conta que não se repara no mérito alheio - de que se tira partido a bel prazer - e fabricando meia dúzia de elogios floreados, forçados e imerecidos a quem faz parte das tribos influentes para tentar convencer papalvos.
Os mesmos que observando o passado enunciam as grandes injustiças que se fizeram com vultos a quem mais tarde se reconheceu grande valor, durante a vida desconsideram semelhantes valores, chegando mesmo a desprezá-los para dar espaço e enaltecer vacuidades.
Os mesmos que louvam a independência de pensamento de raras figuras destacadas são incapazes de respeitar a liberdade e independência de gente comum, que não faça soar as sinetas do poder, dos interesses, da popularidade, da polémica - enfim, de tudo quanto tenha valor venal.
É o país que temos.
Bom Natal

Votos de um Bom Natal para todos os leitores e amigos das Comezinhas.
*

Este ano o Menino Jesus escondeu-se das garras do terrorista.
Para o ano voltará.
22/12/2021
Covid-19
Cada vez mais afastada dos temas que parecem tocar todos, o facto de quase não haver postais nas Comezinhas sobre a pandemia não é uma premeditação. Simplesmente o assunto não entra nos meus pensamentos e só entra em conversas quando puxado por outra pessoa. Nessas alturas sinto penosamente a obrigação de dizer qualquer coisa e, como é evidente, saem vacuidades. É certo que é uma sorte não ter o vírus como tema, quanto mais não seja quer dizer que não perturbou a vida dos meus. Há um certo egoísmo nisto, mas há também uma total falta de paciência para a dissecação e histerismo associado.
De qualquer modo, também para que este blogue não pareça extraterrestre de todo, cumpre-me informar que sim, ainda me recordo que desde final de 2019 - Março de 2020 em Portugal - continuamos a viver sob a ameaça do coronavírus, tendo morrido mais de cinco milhões e trezentas mil pessoas por esse mundo fora, além das muitas que terão sucumbido à falta de tratamento de outras maleitas em virtude do congestionamento dos serviços hospitalares decorrente desta situação de excepção. No início do ano a variante Delta era a preocupação agora é a Ómicron, mais transmissível e menos mortal. Já ouvi especialistas alertar para a possibilidade de surgirem novas variantes e considerarem a hipótese das mutações poderem degenerar quer na maior transmissibilidade, quer na maior severidade da doença.
Quanto ao resto, ao mundo de opiniões sobre o vírus em si ou sobre a forma como os governos vão fazendo frente à propagação vou-me abster. No Verão passado opinei com irritação, mas volto à sensação inicial. Quase não tenho opinião. Limitei-me a vacinar na minha vez e tenciono voltar a fazê-lo quando tiver vez, a procurar não ouvir notícias em excesso sobre o assunto e a continuar na minha vida o mais normal possível longe dos histerismos e culpabilizações que reparei tanto atraírem milhares de ridículos e excitados indivíduos nas primeiras fases da pandemia, sempre dispostos a acusar o vizinho do lado de violar as regras e propagar a doença.
As cores

Este final de ano não vou escrever aqui sobre previsões astrológicas, mas não resisto a uma pequena nota de superstição. Deixo o significado das cores retirado de uma página brasileira e conto que depois de há dois anos ter eleito o cor-de-rosa - é sabido que os resultados desta cor são sempre desastrosos - e o ano passado o amarelo - sob o ponto de vista material houve uma melhoria ténue - para 2022 vou escolher o laranja. Nada tem a ver com o PSD, mas sim com a vontade de ter genica suficiente para tomar importantes decisões e levá-las avante.
Fica a palete de cores para os leitores das Comezinhas escolherem a sua eleita para 2022.
21/12/2021
Comezinhas 2021
O que se pôde encontrar nas Comezinhas neste 2021 que agora termina? Acordar com um bom dia florido entre apontamentos de harmonia sobre a vida caseira, em postais como costura, varanda, casa & conforto e sol e sombra. A contrastar com as fúrias e desilusões com o mundo das máscaras deste Portugal no seu pior entregue à voz dominante dos coveiros. A arrogância de uma elite de fancaria que não permite se trate do bê-á-bá e se ofenda velada e sistematicamente quem não quer entrar no joguinho hipócrita da opinião institucional das televisões, jornais e blogues - plural só na aparência. Tristeza recorrente que me leva dia após dia a escrever mais um postal daqueles no mundo da convicção.
Deixo memórias íntimas no início e no fim ou apenas risonhas a propósito de automóveis. Sobre futebóis, equívocos virtuais, olfacto e o céu nocturno estrelado. Tão simples como a observação da envolvência nas esperas e pequenas viagens de autocarros num mundo efabulado. Mais antigas, recordando os Júlios, ou mais recentes sobre o percurso no trabalho. E o recorrente exame de consciência fora de moda: são os caminhos mais apertados que se escolhem.
Fiz nota no dia da chegada do novo elemento da família Ritz e também da vida selvagem que se lhe seguiu. Uns entram, outros espero que saiam. Não que não lhes tenha dedicado tempo e atenção, mas posto que tudo quanto querem é joguinhos levianos e dissimulados de sedução é bom que fiquem para trás, no passado - têm muito por onde escolher para lançar as suas redes de arrasto. Ano novo, vida nova. Ainda assim fica o registo dos meus devaneios imbecis aqui mesmo nas Comezinhas: brumas, pasmada e novelo.
Sorteei três diários de 6 de Fevereiro, 8 de Agosto e 13 de Setembro, afinal foram recorrentes ao longo do ano. E como já tinha notado no ano passado, sempre tenho umas leves notas feministas, agora nos postais mulheres convencionais, aos ladrões da luz e estratégia masculina um e dois.
Escrevi um pequeno texto bonito: são truques; outro de que gosto, ou não se chamasse coisa. Tive férias com apontamento de Verão num brando contentamento. Contei a minha mudança profissional. Dei conta mais uma voltinha na Uber e de um corte de cabelo.
Falei de sonhos em vários postais, fica um de amostra. E também de um pesadelo. Confessei uma vez mais as minhas dificuldades de concentração, o que deve explicar em parte a relação esdrúxula que tenho com a leitura, patente nas entradas A Queda e alfarrabistas.
O Nuno veio às Comezinhas para desconfinarmos e falei dessa busca e acaso que é o amor com as particularidades que possui, como a cegueira.
Opinei sobre colonização, mundo árabe e extremismo islâmico, a linguagem e o que se diz, a moda da psicanálise na vida corrente e o que não se costuma dizer a propósito do existencialismo e comunismo.
E estou a construir algumas séries. O Espanador cuja ideia é realçar notícias ou aspectos cujo interesse me cative sobre cada país. Os Verdes que são memórias de Valinhas. As Tílias que contendo também memórias minhas e dos meus são excertos de uma tentativa de novela ou romance que ficou por fazer ou se está a fazer desta forma estranha.
Quase a terminar o ano perguntei-me: o que seria uma vida boa?
*
No final do ano passado fiz igual suma para o ano anterior no postal Comezinhas 2020.
20/12/2021
Leituras de 2021
Deixo aqui a relação das leituras de 2021 de que me lembro. Desta vez foi-me fácil refazer o fio da meada por ter deixado ao longo do ano postais com fotografias de muitas das leituras que ia fazendo.
- Férias em Paris, de Somerset Maugham;
- Contos, de Vergílio Ferreira;
- Doze contos Peregrinos, de Gabriel Garcia Márquez;
- A Selva, de Ferreira de Castro;
- Não mais amores, de Javier Marías;
- Água Viva, de Clarice Lispector;
- As velas ardem até ao fim, de Sándor Márai;
- Poesia III, de José Gomes Ferreira, Diabril Editora;
- Poeta Militante II, de José Gomes Ferreira, Círculo de Leitores;
- Terra e Cinzas, de Atiq Rahimi;
- Giz Preto, de Gonçalo Fernandes;
- Os poemas da minha vida, Escolha de Freitas do Amaral, Público;
- Filosofia para pessoas com pressa, de Lesley Levene;
- História da Filosofia, de Julián Marías (consulta demorada e não leitura);
- As Melhores Crónicas de Amor, de Miguel Esteves Cardoso.
É natural que tenha lido mais uns livritos, sobretudo, contos e poesia. Ou que tenha terminado romances começados no ano anterior. Mas fica o essencial.
Reparo que me poupei muito: nenhum calhamaço para me desgastar a mioleira. Tudo leituras não direi leves - seria um desprimor -, mas pouco volumosas, a condizer com a actual disponibilidade e capacidade de concentração.
Na calha (dois deles há um par de anos e já começados):
- As Rotas da Seda, Peter Frankopan;
- Para Sempre, Vergílio Ferreira;
- Dom Casmurro, Machado de Assis.
Insegurança
Tantas vezes dóis-te das tuas fragilidades, vendo os outros como fortalezas plenas de segurança. Admiras ou invejas sem grande maldade a confiança convicta dos outros quando comparada com a tua confiança temerária que ora vai e se atira ao futuro a tremer de medo ora recua expectante e hesitante. Tantas vezes dás por ti a desejar ser menos insegura e saber definir ao menos para ti aquilo a que aspiras.
Eis quando reparas num pormenor de fragilidade de alguém e ficas a pensar: se sofrem da eterna dúvida como tu, como conseguirão fazer passar a imagem de segurança? Nunca o saberias fazer.
Boas intenções
Nas últimas três horas estive a reler o último ano das Comezinhas no intuito de à semelhança do ano passado escrever um postal que faça a ligação entre cerca de vinte ou vinte cinco entradas. Sucede que não tive critério algum dando por mim a reunir perto de oitenta. Como é óbvio vou fazer um desbaste à séria para não tornar o 2021 revisitado numa estucha. Se conseguir durante esta semana publicarei o resultado. Como começo a ter algum trabalho já a partir de amanhã (hoje, aliás), vai ser mais difícil arranjar tempo. Logo se vê.
Boa semana.
A matutar
Há muito sei ser comum o acusador possuir os mesmos defeitos que denuncia. Muitas vezes dou por mim a pensar que a minha principal irritação é contra a arrogância e a prosápia. Serei arrogante e vaidosa? Parecendo que não, não levo esta consideração de ânimo leve e isto chateia-me mesmo.
19/12/2021
Recapitulando
Hoje é dia de postal preâmbulo. Vêm aí mais escritos egocêntricos, narcísicos e exibicionistas. Daí a necessidade do aviso prévio. Não porque renegue tantos defeitos – assumo-os -, mas por sentir precisar de explicar esta queda inevitável para aquilo a que pomposamente se chama cunho diarístico ou pendor intimista da prosa. Há seis ou sete anos quando comecei a escrever diariamente – nos primeiros anos apenas para mim, dando a ler a três pessoas -, pus a questão que continuo a colocar: enquanto não aprender a deixar de falar de mim quando escrevo e começar a criar alguma coisa de valor, para quê escrever? Habituei-me em adolescente usar a escrita como desabafo. Eram peças manhosas sem qualquer valor que não fosse o da cura ou catarse, que nunca dei a ler a ninguém. Fosse em prosa ou em (tentativa de) verso o resultado era mau. Má caligrafia, má gramática, má semântica. Aos 33 anos, no pior momento da minha vida, deitei tudo isso fora e fiz muito bem.
Na casa dos 20 escrevi pouco, apesar da participação na internet. Na casa dos 30 escrevi pouco, apesar de ter blogues e participar em fóruns. Digo que escrevi pouco por não considerar escrever emitir opiniões sem o mínimo critério de forma. Na segunda metade da casa dos 20 e início dos 30 conversava por escrito online em chats e fóruns, e tive os meus modestos blogues – onde me portei muito mal com os co-autores, não os respeitando nem dando liberdade suficiente. Lá juntei um amontoado de frases cheias de erros, gralhas, vaipes, gracinhas, desabafos sobre tudo e mais um par de botas. Apaguei o que pude e se tivesse mão em tudo quanto deixei, apagaria tudo. Não concordo nada com a ditadura de quem nega o direito aos autores de apagarem o que escreveram. A censura não se faz apenas no sentido de não deixar falar, como no sentido de forçar todos a dizerem e a escreverem qualquer coisa e ficarem agarrados ao que escreveram eternamente. Como se o mundo tirano se reduzisse a quem pode ou não escrever em função de poder ou não deixar perpectuar o que escreveu. Penso que quem assim age não tem a consciência que está a coarctar a liberdade de outros, salvaguardada que esteja a necessidade de quem escreve assumir por inteiro as opiniões emitidas e as consequências que daí advenham. Creio que não passa pela cabeça de muitos defensores fundamentalistas do arquivo, que todos temos direitos sobre aquilo que produzimos ou criamos – entre eles o de alienar ou destruir o resultado. E imaginar que só a cobardia ou o mau carácter justifica essa destruição é de uma pobreza de espírito própria de inquisidores.
Ao entrar nos 40 comecei a escrever diariamente sem publicar online. Nos anos anteriores crescia a vontade de construir uma novela ou romance, sempre adiada por preguiça e falta de alento. Com a idade fiquei menos preguiçosa, e o alento veio muito do Nuno, que marca a diferença de tudo quanto estava acostumada, por ser um extraordinário incentivador e constante defensor. Esta voz positiva na minha vida fez toda a diferença. Depois de muitos anos afastada na internet, no final de 2018 voltei à carga, outra. Voltando a gostar das pontuais conversas bem-dispostas e das trocas de ideias despretensiosas online. E também a apreciar dar bitaites. E a gostar muito de escrever nas Comezinhas, que fiz à imagem daquilo que verdadeiramente me dá prazer: estar como se tivesse sentada na mesa redonda da salinha da salamandra em Valinhas a conversar com muito poucos – é verdade que aqui sou eu que falo (quase) sempre, mas sei que posso visitar em silêncio ou não muitas das casas de quem me visita, aqui na SapoBlogs, na Blogger, no email ou no Whatsapp, onde possa ser. Há dias em que disparato em função de coisas que leio ali ou acolá ou da má-disposição momentânea. Desculpem-me. É a telha, não há o que fazer. Já me penalizei demais por isso e não faz sentido.
Mas voltando ao início: a questão é porquê perder tempo expondo-me, mostrando qualidades e fragilidades, se há tanto no mundo mais interessante sobre o que me debruçar? Não sei bem, ou talvez saiba: acho que ao fazê-lo falo do mundo e acreditem ou não – sei que é difícil acreditar -, mas não é do meu umbigo que escrevo ao mostrá-lo.
Azareco
Queria ouvir o discurso de Rui Rio e a gravação da box avariou. Todos os Invernos acontece o mesmo. O cartão ressente-se do frio e humidade, mas caramba tinha que ser hoje. A ver vamos se consigo recompôr a coisa.
Três olhares
Nos olhos apáticos e desapaixonados não se sabe onde está a emoção nem o pensamento. Ah, mas há olhares que iluminam, irradiam vigor e vontade de tudo devorar e olhos que sempre bebem o que outros e o mundo dizem: ora murcham ora sorriem.
18/12/2021
Estridência
Há fogueiras onde arde tudo: amor, beleza, delicadeza, franqueza, honradez, bons propósitos. Há fogos que os consomem como quaisquer pedaços de madeira que nada sintam, nada dêem, nada se entreguem. Vai tudo a eito. Qualquer bom sentimento é carne para canhão. Aos olhos de quem ateia fogos, o importante é a cena, o brilho momentâneo. Hão-de vir outras achas apetecíveis à queima, prontas a produzir o fulgor que alimenta os incendiários.
Tudo o que é belo sucumbe nos propósitos menores.
Tristeza
Poucas coisas me fazem ter sentimento de desprezo.
Mas é inevitável senti-lo por pessoas arrogantes que a todo o instante em vez de extraírem prazer do que fazem bem, enaltecem os seus grandes ou pequenos feitos espezinhando os outros por comparação, desporto e vanglória. Para alguns todo o propósito serve para mostrar que se é melhor que a raia miúda, a gentinha de mau gosto e hábitos, os ignorantes, enfim, os que não sabem apreciar as maravilhas do mundo e viver segundo os cânones dos auto-proclamados sábios, talentosos e detentores do bom gosto.
17/12/2021
Trapézio da rede furada
Uma ideia repisa a minha mente nos últimos anos, sem que a consiga ainda concretizar com exactidão. O capital humano está a levar o mesmo caminho do capital financeiro.
A todo o instante me deparo com absurdos no tempo despendido na prestação de qualquer serviço e presumo que o mesmo se passe com a produção e distribuição.
Seja ao balcão de um banco ou nos cuidados de enfermagem num centro de saúde, seja a tratar do transporte e entrega de um produto ou a preparar uma semana de aulas, o manancial de procedimentos e formalidades associadas a cada um destes actos vai-nos afastando a um ritmo alucinante do cerne da questão: conservar, administrar, poupar ou investir dinheiro, cuidar da saúde, entregar objectos ou instruir.
(veio isto a propósito da dita necessidade de mais médicos, enfermeiros e pessoal auxiliar num país como o nosso que tem um excelente rácio médico/habitante; estamos face a um sumidouro de recursos e em causa pode bem estar a ideia que subjaz a este postal – a par de outras como a má gestão.)
Nos últimos 20 anos, até por experiência própria, apercebo-me do cavalgar insano de duas correntes: simplificação e eficiência, por um lado, e segurança e qualidade, por outro. Da segunda ainda não tenho opinião completamente formada, o que não invalida que tenha o direito a dizer que a sensação de absurdo se assemelha à primeira. Quanto à simplificação verifico sistematicamente que por cada mecanismo implementado (pronto, ao fim de 30 anos já podemos usar a palavra, até porque os sinónimos não ajudam), é criada outra ou, na maioria das vezes, outras tarefas adicionais. O mesmo vale para a eficiência, o que convenhamos é um contrassenso.
Este rendilhado de cúmulo sucessivo de novos procedimentos começa a tornar a vida impraticável e será a isso mesmo que seremos conduzidos a breve trecho.
(de referir que muito do que se refere neste postal decorre de obrigações legais e regulamentares em catadupa.)
Qual o perigo disto?
Imagino que a muitos este postal pareça apenas uma ingenuidade de alguém arcaico, simplista, fora da realidade ou tão simplesmente impreparado, não percebendo a sofisticação das relações sociais e económicas, nem a necessidade de as regulamentar por imperativos de justiça e segurança; alguém que desconhece por ignorância ou preguiça as leis do parlamento ou os decretos-lei e regulamentos do governo.
Seja. De qualquer modo, vou adiantando que me parece (sim, como não estou convencida de carregar comigo a verdade do mundo num minuto para num momento posterior a desdizer sem me justificar fazendo de conta que nada disse de contrário anteriormente, e como tenho sempre dúvidas reservo-me o direito de amiúde achar, parecer, crer e ter sensações): o trabalho, o capital trabalho está a tomar o caminho do capital financeiro. E se todos podemos constatar o absurdo e o perigo de cair na especulação financeira, percebamos o que é viver a especulação laboral.
Com toda a panóplia de teorias económicas, o toma lá dá cá entre a brigada do reumático sindical e o snobíssimo patronato parece um número de trapezistas feito sobre uma rede a ser tecida por mãos inábeis – mas muito convencidas da pertinência do seu trabalho e sempre críticas da falta de redes de segurança eficazes - numa infindável malha abstracta e especulativa que em teoria servirá para garantir eficiência na segurança em caso de queda dos artistas, mas na realidade romperá a cada tombo.
O que quero dizer é que se já nos foi nefasta a especulação financeira e se vamos percebendo que foi o caminho para a absoluta impunidade por parte de oportunistas – que existem desde que o mundo é mundo, e existirão até que o Sol se extinga, a menos que se descubra outra estrela que nos acolha longe daqui – é aterradora a ideia da especulação do trabalho. Estou a falar de gente, seres humanos. Da humanidade a trabalhar sem qualquer critério de justiça ou segurança por capitulação do sistema – cada vez mais afastado da razão primeira, da causa, de cada actividade - capitulação dessa malha de aparente sofisticação legal e procedimental que dá trabalho a tantos iluminados e esclarecidos, que desconfio não terem tempo ou vontade para colocar em perspectiva o interesse e as consequências do seu próprio labor.
Rodrigo Leão
Neste estive lá. Coisa rara, como raro é o talento de Rodrigo Leão, que se faz acompanhar por excelentes músicos e vozes.
Breve nota
Corrigi este postal, no qual disse por lapso que tinha a ambição de até ao final do ano escrever um texto conciso que abarcasse a História da Filosofia. Era minha intenção dizer até ao final do próximo ano. Tenho lata, mas nem tanta: naturalmente, vou demorar a tentar organizar ideias. Além de mais acho que já estou em modo 2022, tenho a sensação que já lá estou. Daí a confusão.
16/12/2021
Diário
Saída de manhã para comprar o microondas, porque o antigo avariou. Fui presentada, e estou apaixonada pelo novo por ser pequeno e pretinho. Saída ao início da tarde para levar calças a fazer bainha na costureira. E resto da tarde em tarefas domésticas entremeadas com descanso no computador. Três secções do armário despensa grande da cozinha arrumados. Entre caixotes e caixas dez ou doze para o papelão. Umas poucas dezenas de sacos de plástico dos supermercado (cruzes, credo, pecado mortal) dobradas para caberem arrumadas numa caixa de plástico.

No fim, para relaxar nada com ir para a página da Ikea.
Concorrência

Eu bem queria ter luz, mas a concorrência é apertada em qualquer foco de calor desta casa.
15/12/2021
Esquema alimentar







Hoje bem me apeteceu treinar os movimentos de mastigação numas empadas de vitela que eram comidas à minha frente.
O drama do fastio
A conversa de ontem sobre chineses deu-me fome e apeteceu-me Chau Min com Gambas. Nem sei quando poderei voltar a provar tais comezainas – perdi momentaneamente a noção ao tempo que vou estar em restrição alimentar. Por enquanto estou contente por no próximo Sábado já poder beber a aguada de cozer feijão e carne picada. Até agora e ao fim de 11 dias: iogurte diluído em água, chá, sumo de fruta coado, água de cozer carne branca, batata e legumes; e alegria das alegrias: no próximo dia 27 já posso comer uma sopa passada. Mal posso esperar. E quem diria: provar bolacha Maria, pena que seja esmagada ou molhada ou lá o que é. É que nem um crepezito.
Com todos quantos falei que tivessem passado pelo mesmo processo, aliás, semelhante, já que fizeram apenas a sleeve e não o bypass gástrico, disseram-me que foi tudo fantástico, que se sentiam muito bem, sem qualquer tipo de fome. Confirmo que fome é impossível ter, já que passamos o dia inteiro a beber aos pequenos tragos e a sensação de saciedade é quase permanente. Sucede que ao fim de onze dias já estou farta da aguada de iogurte. O resto vai-se tragando bem, mas admito que por esta altura já começo a sonhar umas lulinhas ou salmão grelhado, uma massa com carne de vaca guisada, ou coisinhas mais leves como rojões à minhota.
Falam muito no desgosto de não comer doces. Para dizer a verdade, isso passa-me um pouco ao lado. Talvez venha a ter vontade de comer chocolate ou um bolo ou doce de quando em quando, mas essa nunca foi a minha tragédia. Gosto de comer comida, à séria.
Vão passar meses até que possa fazer uma refeição normal. E o corte mais drástico para quem estava habituada a quatro cafés por dia é a proibição do dito pelo menos nos primeiros três meses.
No postal seguinte, e como este blogue é um livro aberto, vou colocar as fotografias do esquema alimentar após cirurgia bariátrica.
Speaker's Corner
Quando aos 16 anos estive pela primeira vez no Hyde Park, face a Speaker's Corner não adivinhava que me iria colocar tantas vezes em cima do caixote blogueiro. É assim que me sinto: a falar de tudo e nada, do conveniente e do inconveniente face a meia dúzia de passantes que não conheço e, na maioria dos casos, não irei conhecer. É preciso ter lata.
Auto de fé

Não sei como há pessoas capazes de só pensar em compras nesta altura natalícia. É desvirtuar o significado da data. Gente consumista. Parece impossível. Há gente para tudo.
14/12/2021
Vidas comuns
Sou cliente habitual de uma loja chinesa na minha zona de residência. Conheço bem as afirmações peremptórias de quem diz negar-se a entrar nessas lojas e as críticas à falta de qualidade dos produtos vendidos, mas o certo é que é um local onde me sinto bem e sempre encontro objectos que não são em nada piores do que os vendidos noutros espaços – em muitos casos a proveniência é a mesma: o trabalho mal pago oriental – sobre a qual se coloca uma etiqueta de marca e um carimbo de uma qualquer directiva que regula as isos da qualidade. E diabo seja cego, surdo e mudo, mas que raio de mundo absurdo é esse o das isos.
É certo que estas lojas também têm produtos de fugir: fitas colas que não colam, sapatos de cartão que se desfazem quando chove etc. Produtos que não me atrevo sequer a experimentar como comestíveis ou detergentes.
Compro coisas como pen drives, cabos informáticos e áudio, capas ou protectores de telemóvel, molas de roupa, toalhas de mão de cozinha, esfregonas, coisas desse género. Hoje fui lá porque a capa transparente da parte detrás do telemóvel amarelou ao fim de um ano de uso e quero-a substituir por outra.
Os donos são um jovem casal com filhos pequenos e está muitas vezes presente um senhor mais velho, que presumo ser avô das crianças. Sempre que entrei na loja e cumprimentei fui correspondida com simpatia.
Hoje não tinham o que pretendia. Logo se dispuseram a encomendar e entregar-me a capa no próximo Sábado. Coisa que aliás já sucedeu antes com outros produtos – imagino sempre que um dia por semana vão a Árvore, em Vila de Conde, reabastecer-se de stock, e creio que será mesmo assim. Um dia pergunto. Reparei das duas vezes no caderninho do dono da loja para anotar as encomendas: sempre repleto. E mais notei ainda que escreveu o meu nome sem qualquer erro e o número de telefone num ápice enquanto eu o ditava.
Fico a pensar nos muitos chineses que atravessam o mundo para virem para uma terra com língua diferente e como em pouco tempo a aprendem a manejar – são coisas que me fazem admirá-los, até por alguma similitude com os portugueses que se despacham pelo mundo.
Tão diferentes de nós agarrados ao rectângulo sem esforço, sem despacho, sem progredimos.
Quando vi o rapaz começar a escrever, hesitar um milésimo de segundo, e grafar o nome correctamente lembrei-me do dia em que fui pedir o cartão da Biblioteca de Gaia – creio que aos 13 anos – e da funcionária da dita ao compor a écharpe típica da função pública ter escrito no formulário Ezabel ou Esabel, já não estou certa mas que começava por “E” recordo.
Agenda

Como é recorrente faço uma agenda para relevar planos. Se conseguir no espaço de um mês sairá um postal sobre programas eleitorais e outro sobre a Filosofia Moderna. Não comecei nem sei rigorosamente o que vou escrever. Terei que ler para o efeito: os programas eleitorais (julgo que por agora vou ter que me remeter aos das legislativas de 2019) e os pensadores renascentistas, empiristas e iluministas, por aí. Tenho uma ambição maior de até ao final do próximo ano escrever um texto conciso que abarque a História da Filosofia. Creio que quem me lê já sabe que não pode esperar grande coisa: nem aprofundada nem exaustiva. A ideia é uma vez mais tentar alinhavar a história do pensamento, perceber a sua evolução e tentar assentar em noções básicas que fui perdendo ao longo dos anos ou não cheguei a conhecer. E faço-o sobretudo para me orientar através de um fio condutor - muito pessoal, provavelmente - e tentar reter alguma coisa das leituras que vou fazendo. Cada um tem a memória que tem, cada um tem a capacidade de concentração que tem, cada um tem as fragilidades que tem e parece-me conveniente combater as minhas.
Não esqueci nem a cronologia do Covid prometida em Abril de 2020, mas ainda não é tempo, nem vou deixar de terminar a série Espanador com a Coreia do Norte e a Nova Zelândia, porém estou com preguiça de me debruçar sobre o Oriente ainda que de uma forma muito ligeira.
Imprescindível: sapatos confortáveis

Os azuis são os novos: chegaram hoje.
Quando gosto, gosto à séria e sou fiel.
Panca das Casas




Pronto, apaixonei-me outra vez. Uma casinha de bairro económico recuperada, com um terraço interior a puxar pelos dias quentes de Primavera e Verão. Uma copa envidraçada para pôr uma mesa de pequeno almoço. Uma especie de anexos melhorados debaixo do terraço superior com dois espaços com janela que dão para escritório. Snif, snif. Eu quero.
Vá, tem uns defeitos. Mas está tão apetecível.

























