


É difícil definir com precisão palavras ou expressões que aprendi com a minha mãe e avó. São coisas antigas, que passam de geração em geração, em regra, memórias por via feminina. A avó designava-os por pequenos evangelhos. Coisas do género de lembrar de após um lanche de aniversário pôr o bolo tapado em cima do aparador – presumo de forma a estar acessível aos apetites fora de horas.
Nos últimos anos quando não faço lanche de aniversário alargado, saindo ou ficando em casa apenas com o Nuno e às vezes com os meus pais, tenho Bolo Inglês. Não era o costume – desde criança e durante muitos anos o meu bolo era afinal uma Tarte de Ananás, dos Amigos do Doce de Costa Cabral, substituída às vezes pela Tarte de Fruta; coisa estranha para quem não gostava de chantilly -, mas como o Nuno quase não come bolos e gosta do Bolo Inglês, aderi facilmente – é mais pequeno e assim moderamos.
Foi num desses aniversários em que depois de arrumar a mesa de lanche pousei o Bolo Inglês com a faca à mão de semear tapados em cima do aparador e me lembrei com saudade do gesto da avó a fazer o mesmo no aparador maior de Valinhas com o resto do bolo, que a minha mãe me recordou que a essas lembranças de pormenor a avó chamava os pequenos evangelhos atrás da porta.