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31/01/2023

Sacudir a pasmada

A chuvosa temporada Outono-Inverno empestou de caruncho muitos ossos e ânimos e não fugiste à regra. Já os últimos dias de sol forçam sorrisos de esperança tímida, ainda receosa a escamar o musgo à pele. Dás por ti naquela precisão de programa, de desafogo. Instala-se a sensação mesclada de fastio e insubmissão perante apatia de vida. Não. Farta da vidinha casa-trabalho, trabalho-casa, piscina ao fim-de-semana, blogue-blogue, leituras reincidentes, uma ou outra quebra, mas as mesmas caras, os mesmos lugares. O Sol contou-te hoje que nem tudo se pode fazer das mesmas caras, das mesmas páginas escritas e lidas, das mesmas ruas. Tem-te dito isto a vida toda, é preciso que o oiças.


Hoje desceste a pé até ao local de trabalho e pelo caminho viste uma loja de artigos em segunda mão com um cartaz a anunciar que compram quase tudo. Logo te animaste com a ideia de despachares trastes inúteis. Há pouco rápida passaste os olhos pela casa e salvo aquele candeeiro laranja, que até hoje estás para saber o que te passou pela cabeça para comprar, não parece haver nada a livrar. Será apego ou haverá mesmo parcimónia? Dizem que compram roupa, aí sim tens muito para arejar. Mas nesse caso é mais útil continuar a dar. Desfaz-se a ideia de pequeníssimo negócio, porém fica a vontade de dar mais uma volta aos armários para libertar espaço – uma volta maior do que as habituais, mais pródiga, mais libertadora. Pronto, és portadora de um projecto, como agora se apelida toda a acção irrelevante.


Indo para o segundo plano. Sair, arejar, espairecer. Respirar. Não devia ser preciso planear o movimento de inspirar e expirar, mas é nisto que estás. Dois fins-de-semana por mês, dar corda aos sapatos e arranjar programa, especialmente de Sábado, já que ao Domingo apetece mesmo a ronha da vida caseira. Um Sábado para o conhecido – parques, praia, cidade. Outro Sábado destinado ao desconhecido ou há muito não vivido. E baralhar os dois. No habitual parque introduzir a novidade de alugar uma bicicleta para voltar ao gosto sem prática há tantos anos. Outra reminiscência: depois de muitos anos sem a mais pequena vontade de voltar aos bares, deste por ti com desejo de uma bebida rodeada de gente barulhenta – bom, semi-barulhenta, ou um nadinha ruidosa, vá, gente a falar em tom moderado, mas – gente desigual, outras paredes, caras, mesas e cadeiras, outros sofás, histórias e conversas, outros pensamentos e estados de espírito. E música in loco. Alguém te sugeriu o Hot Five, agora em Guerra Junqueiro. Boa ideia. Já havias pensado nisso há dois anos e protelaste. Tens de lá ir uma noite destas. Para já e no próximo Sábado vais ao WOW em Gaia, em regime de matinée - é preciso ir devagarinho.


Esboçar a quebra de enguiço quanto a fins-de-semana fora. No interior, de preferência. Que fosse uma saída por trimestre, já seria incremento. Turismo-rural para matar saudade, já que não tens a menor vontade de voltar ao teu paraíso. Queres deixá-lo intocado na memória, como foi. Está muito bem como está, e tu contente por se encontrar em boas mãos e com a vida que merece, mas precisas de distância para preservá-lo. Agora o mundo rural deverá fazer-se em terras estranhas, desconhecidas. Mas acontecer. Cá está outro projecto. Um fim-de-semana numa terriola que te encante – sabes que uma vez chegada e ao fim de cinco minutos estarás a idealizar casa com árvores e uma vida ali, até caíres na real e voltares de mala em punho aos laços apertados que te atam ao Porto. Será que algum dia os cortas?


E, por fim, ainda por decidir a viagem a Istambul, Ankara e Capadócia. Uma extravagância que seria merecida, crês. Ainda com friozinho na barriga – a ténue réstia do entusiasmo do que um dia foste, do que um dia desejaste ser. E o pó dos desejos irrealizáveis.


Num post habitual brincarias e dirias que todos estes planos são nados-mortos e quase nada se concretizaria. Dás sempre essa ideia de quem passa a vida a idealizar o que não concretiza. Não é verdade, se é certo que há muito por materializar, a tua vida fez-se bastante de ondas de vontades. Não se nota, nem queres que se note em demasia. Com felicidade Deus criou-te sem talento nem vontade para o fogo-de-artifício. Gostas bastante mais de viver do que fazer vista. Primas por pousar as exuberâncias, reduzindo-as ao comezinho e ao longo da vida muitas vezes viste confundir este traço com incapacidade, falta de interesse ou passividade. O que se percebe num tempo em que se privilegia o estardalhaço e o fictício. Além do que se o Universo te fosse satisfazer todas as vontades, sossegar todas as inquietações, suprir todas as insatisfações e  libertar de todas as angústias, não teria tempo nem oportunidade dele próprio existir e convenhamos que há prioridades e mais oito mil milhões de almas para acudir. Por saberes disto vais-te fazendo à vida, tratando das ninharias que te trazem contentamento. Se não atrapalhares a vida dos outros e fizeres pela tua, sendo independente, saudável e tendencialmente alegre, já ajudas. Uma filosofia de vida tão válida como outra qualquer - a que hoje em ti vinga.

30/01/2023

Sobras para mais logo

Com imensa vontade de falar com os teus botões em voz alta. É vício, é fácil, não dá trabalho, não deve ter valor. Bahh, perspectivas agoirentas. Xôoo. Depois da manhã de consulta e tarefas administrativas - que retomarás antes de fechar o estaminé -, passaste a tarde a falar para dentro ao som da Zaz e no entremeio das duas dezenas de almas com quem conversaste ao telefone, mais a dezena que contigo trocou palavras presenciais - escreverias melhor 'à vista'?


Será que há sobras para escrever à noite? Logo se verá.

Zaz

  


Uma semana feliz. 

Rame-rame

b6194b0e-01d3-4a04-bbca-ccb1ad4ae8c1Agora os passeios matinais pontuais nos Jardins do Palácio só voltarão para o ano. Tudo dentro do previsto. Ah, não. Há passeata na Primavera, creio. Mas o que interessa é que tudo corre bem.

29/01/2023

Cenários

Capturar


Imaginando que daqui a dez anos estamos sob a pata de um regime autoritário de Direita, é-de pensar que será feito da vozearia uníssona dos democratas de ocasião que domina a comunicação social, as empresas, editoras e consultoras de divulgação de propaganda política e cultural, os blogues e redes sociais vips. Enfim, os marketers da política e cultura. Naturalmente, a maioria destes orientadores de mentalidade não arredará pé dos seus postos privilegiados. Adequará outrossim, e como é habitual em Portugal, o discurso à situação para se manter na mó de cima com o regime que vigorar. Com oportunismo usará a mesmíssima retórica para defesa de tudo quanto hoje diz detestar. O móbil é o poder e não os princípios. O conhecimento - em rigor, mais parco do que a aparente vastidão dos catálogos debitados e rendilhado da narrativa - é posto ao serviço de interesses egoístas, pessoais e de clã.


Assim que caísse o regime autoritário de Direita - que não creio venha sequer a vingar, ou pelo menos assim tenho esperança, apesar de tudo depender da evolução da guerra e conflitos que se avizinham e dos ajustes e desajustes de poder das principais forças e agentes internacionais -, a mole de gente que domina a opinião em Portugal construiria uma história de incontestáveis factos de resistência aos anos de ditadura que comoveria as pedras da calçada, para se alçar de novo a paladina da Democracia. Enalteceria de novo o pluralismo de opinião, que às suas mãos se reduz a mecanismos de manipulação do pensamento, assim se perpectuando no poder fáctico seja qual for a circunstância, seja quem vingue no aparelho de Estado. E assim se faz a História que não vem nos manuais. 


Só banalidades. Só bitaites comezinhos. Neste espaço não se passa disto, não se aprende nada. Aliás, aqui é só atoardas. Nada que interesse a iluminados. Ide procurar substância, rigor e erudição noutro lado. Andor.

Niquice

Isto chateia. Ainda mal acordei e já levo com um 'cumprir com as obrigações' no lugar do simples 'cumprir as obrigações'. Nem sou muito destas niquices, mas como é destaque de um jornal cheio de prosápia (o único que subscrevo), não resisti.


Agora sim vou abrir o estore e dar início oficial ao Domingo. Até aqui tinha estado por aí a descobrir o mundo ainda no vale dos lençóis, sob o olhar atento do Ritz.

Diário

Esta noite regressei ao velho hábito do computador no colo enquanto estirada no sofá. Televisão na SIC Notícias para me ligar ao mundo – bom, ao mundo com tempo de antena. Já ontem a deixei ligada após o jantar para ir ouvindo o que se passa por aí. Dois dias de notícias, ena.


Ontem dei por mim a ouvir um dos blocos informativos, no qual um comentador que considerava, pelo registo franco e honesto, demonstrou já se ter deixado corromper nas ideias. Até há poucos anos dizia o que pensava, hoje limita-se a debitar a irritante lenga-lenga do mainstream informativo-opinativo – aquilo a que durante muitos anos chamei mentalidade de jornalista e hoje é a mentalidade dominante no mundo. Deixou de contar, senão para a contabilização do amontoado de gente que se vende às exigências da falsidade e de modo perigoso encaminha o país para o canto da sereia da autoridade. Sejamos optimistas: pode ser que não corra mal e ainda haja tempo. Pode ser que possa continuar a acreditar que não é irremediável o caminho para a vitória do populismo autoritário (por enquanto vivemos de populismo democrático). Pode ser que não esteja enganada como nas últimas eleições, mas a força da mentalidade acima referida é avassaladora e assim sendo é muito difícil vingar o bom senso no quotidiano político e nas urnas – a população sente-se desnorteada com toda a razão e os mantras da comunicação social são de uma pobreza de rectidão insuportável. Não me vou demorar no tema, por já muito escalpelizado nas Comezinhas. A ideia é simples: a lei da rolha imposta pelo politicamente correcto ou tonteria dos zelotes da imaculada democraticidade das almas tem como consequência o engrossar das hostes ditas radicais. O caminho deveria ser o do esvaziar do populismo pelo encarar com verdade e sem falsos pudores as questões melindrosas. Trazê-las para o espaço de debate dito respeitável sem os habituais anátemas. Resolvendo-as. Pegar nas várias bandeiras populistas e encará-las sem medo, por representarem capital de queixa das populações, que jamais devem ser metidas debaixo do tapete ou sufocadas, minando desta forma a saúde da Democracia. Abafar melindres (tantas vezes maioritários, apesar de não reflectidos no voto) significa calar as populações, o que nunca é boa ideia. Mas, lá está, isto é chover no molhado e muito tempo passará e eleições se realizarão antes que estas constatações sejam absorvidas no discurso dominante. Sendo os portugueses gente de meias-tintas pode ser que passemos entre os pingos da chuva, fazendo de conta que não percebemos o que se passa à nossa volta e dizendo frases simpáticas e falsas que quase todos fingem gostar.


Vi também o programa de debate risonho entre o humorista intelectual, o candidato a ministro da cultura de direita e o comentador da voz comum com as antenas atentas mas ainda criticas à voz dominante. O primeiro citou a clássica ‘nada do que é humano me é alheio’ e discorreu sobre as modernas adulterações, o segundo fez uma piada sobre ir a despacho por emoji naquele ar de quem se ora se diverte ora se enfada com este mundo de gente desprovida de decoro e inteligência, e o terceiro chutou para o canto de problema laboral uma dessas questões que provocam imenso pipocar nos corações dos comentadores dos floreados. Disseram muito mais, mostraram muito calo retórico e inteligência e eu estava em simultâneo a tratar de uma qualquer tarefa. Há muito não os ouvia e julgo que passará outra larga temporada sem o fazer. Já houve tempo em que acompanhava esse e outros debates. Cansei.


Hoje a propósito de leituras nos jornais dei por mim a congeminar qual será a corrente não só de estilo e linguagem, tout court, como de semântica, que vingará daqui a 40 ou 50 anos? À parte da sucessão de correntes há sempre aquilo que acrescenta à bola de neve conferindo nova dimensão. É a isso que me refiro e não a movimentos conjunturais. Fico a pensar se será um certo despojo por distanciamento dos depósitos de erudição. Por mais que respeite gente conhecedora de toponímia, referências cinematográficas, literárias, artísticas, históricas etc. e tal, textos com profusão destes expedientes, num tempo de multiplicação de dados, informação e conhecimento, podem cair em desuso. Claro que virão os excitadinhos do costume falar da promoção e vitória da ignorância, na luta inglória pela cultura, nas cruzadas pela erudição. O caso, pelo contrário, é de exigência. Depósitos e catálogos continuarão a ter o seu espaço, mas serão isso e não reflexões. Pensar implica conhecimento, mas também distanciamento dele. Depuramento dos dados, distância da informação. Se puser a mão em cima dos olhos deixo de a ver.

28/01/2023

Evolução das tulipas

1. 16 de Outubro 2022: Bodeguices na varanda.


2. 21 de Dezembro 2022: Tulipas.


3. Hoje, 28 de Janeiro 2023: 


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A natureza tem os seus tempos. Tudo demora o seu tempo.

Bom dia

(espreitando)


Está aí alguém?

27/01/2023

O Estado sou eu e o meu megafone

É a nova versão do Estado sou eu, mas agora pela prédica de cristão bem-intencionado. 


Diz que o Governo deve governar melhor, a Oposição ser mais afirmativa e pede à Câmara Municipal de Lisboa que gaste menos no palco para receber o Papa. Diz tudo isto e muito mais sob os holofotes dos jornais e televisões. Diz tudo a toda a hora sempre de megafone na mão, procurando agradar ao maior número de portugueses.


E, no entretanto, diz-se preocupado com a perda de relevância das Instituições. As tais que todos os dias pisa e desconsidera através dos inúmeros bitaites, amplamente secundado pela comunicação social. Só rindo.


Entretanto os entertainers da informação e da opinião continuam a distorcer o passado do país e a tentar manipular o presente em benefício da manutenção e fomento da rede de interesses que mantém o país nas mãos de uns tantos presumidos de pouco valor especialistas no auto-elogio e na promoção de governantes e opositores de modo a que, ficando a dever o favor, giram os interesses da fraca casta. O discurso passa sempre pela valorização dos simulados mantras das últimas décadas - que conferem bilhete de ingresso no mundo audível dos meios de comunicação e redes sociais -, e a omissão deliberada ou o refutar de factos relevantes para o percurso da nação, apelidando-os de mentiras ou ódios. Tudo quanto explica o estado de neurose a que chegamos é enfiado debaixo do tapete. E assim se adia o país.


O Estado sou eu e um punhado de gente de pouco valor e avessa à verdade.

Sexta-feira

Yeahhh. 

26/01/2023

O que somos

E não somos. Tudo quanto nos parece evidente, tudo quanto nos é repelente num ápice pode mudar. As circunstâncias baralham os gostos e aquilo que dá ideia ser traço de personalidade, de carácter até, esfuma-se nas contradições mais saborosas da vida. Todos os paus que engolimos e nos fazem ficar tesos de postura, levando-nos a gabar de ter a espinha muito vertical, quantas vezes mais não é do que mania. Pode até ser uma mania com virtude, muito razoável, digna. Mas o vento das ocasiões, das gentes, das diferenças faz-nos mudar. Às vezes regressamos ao ponto inicial, voltando a empertigar-nos como se nada tivéssemos aprendido, como se não nos moldássemos. O dogmatismo diz mais das nossas fraquezas do que do conhecimento e valor que achamos possuir. Serve-nos de escudo para o desconhecido, que teimamos em catalogar de ignorância ou deseducação.


E agora passemos a gatos e à beijoquice. Passei a infância povoada de bicharada e sempre ocupada com cães e gatos, cuidando-os o melhor possível. Após o que que se passaram muitos anos sem o convívio diário com animais domésticos. Repele-me a sua equiparação aos humanos, por mais que goste de os tratar bem. Por mais que saiba que os bichos sentem e sofrem para mim há hierarquias e a vida e bem estar físico do animal não é igualável à do ser humano. Passei anos a fugir das pausas em grupo para café na empresa e uma das razões era a insuportável conversa diária sobre os gatinhos e as suas graças, com partilha de vídeos.


Tal como a conversa sobre gatos a beijoquice fora do nicho familiar ou de amizades próximas repelia-me. Cresci com imenso mimo e fartas demonstrações de afecto familiar. Sei que isso me fez tal como sou: crédula à partida na bondade das pessoas e a levantar a cada desilusão. O depósito de amor que me foi creditado na infância é inesgotável, como se renovasse, permitindo a superação a cada contrariedade. Mas esse reduto de carinho estava reservado ao nicho familiar, aos amigos próximos e, naturalmente, aos amores. Estranhava a beijoquice entre pessoas que apenas se conhecem superficialmente e para dizer a verdade sempre achei o aperto de mão nas relações sociais ou profissionais coisa muito mais civilizada. Há no beijo uma intimidade que me parece excessiva. Claro que isto resulta da educação, do gozo que sempre vi nos meus, sobretudo mais velhos, com os excessos de intimidade com meros conhecidos ou estranhos.


E agora? Os gatos. Está a fazer dois anos da chegada do Ritz cá a casa. Ao fim de tantos anos sem bichos para mimar tornou-se centro de atenções. Passou a ser um dos meus ai-jesus. Quando falo com amigos e conhecidos refiro-o amiúde. Já publiquei um vídeo dele no blogue. É assim a vida. Fonte de contradições. Nem por isso faço-o equivaler a gente. A vida do bicho por mais que goste dele não se equipara a do ser humano. Direi isto só por dogmatismo? Por teimosia arreigada a valores herdados? Com franqueza não sei responder à pergunta.


A beijoquice. Ao longo da vida passei por várias circunstâncias em que trocar beijos entre colegas ou conhecidos era um hábito aceite e imposto pela maioria, habituei-me um nada contrariada com base no em Roma sê romana, com a popularização da beijoquice nas últimas décadas na sociedade portuguesa. Acresce que desde miúda tenho uma questiúncula: cresci a dar apenas um beijo quando estava com a família materna e dois beijos quando com a família paterna. Claro que me baralhava, trocando os territórios e usos diferentes. Os meus amigos queixavam-se que os deixava pendurados à espera do segundo beijo. É a vida. Nem todos temos a mesma história em matéria de beijos – isto daria um tratado.


E agora? Aqui nos blogues é uma beijoquice pegada, como já foi antes noutros espaços virtuais em que não conheço a esmagadora maioria das pessoas senão online. Tanto deixou de me fazer confusão como acabo por promover a beijoquice, aderindo ao ambiente menos formal, mais descontraído. Será excesso de intimidade? Corresponderá a uma certa hipocrisia ou falsidade? Por desfasamento do real grau de conhecimento ou cumplicidade entre os beijocadores. Dificultará a seriedade com que assuntos mais densos deveriam ser tratados? A austeridade, que aprecio bastante, conferirá maior sobriedade à abordagem dos temas que vão surgindo? É possível. Mas não haverá espaço para tudo? Não saberá bem a beijoquice distendendo as relações? Não tenho respostas definitivas, nem dogmas sobre a matéria. A vida vai-se fazendo, vivendo.


E o que somos? O que vamos sendo.


*


Temas importantes em tempo de guerra e de efervescências várias, em época de mudanças estruturais de mentalidade. Cada vez que escrevo um post como este acima sinto-me a dar lanço à realidade - a deixá-la ir para a apanhar mais tarde -, sinto-me a ganhar fôlego.

25/01/2023

Dramas existenciais

Aqui a trabalhar e a pensar: hoje tenho de sair às sete para assar o pargo. São altos os pensamentos a mover a mioleira. Mais cedo outro do mesmo calibre: as brancas têm as suas consequências. Não raro na paragem raparigas mais novas fazem-me sinal para passar à frente. E com isto recordo o comentário da minha enteada sobre os transportes públicos no Porto: aqui toda a gente dá o lugar aos mais velhos, não é nada como lá em baixo.


Está a ser um dia pacífico. Está a ser uma semana trabalhosa, mas simpática. A curiosidade é que do nada muito cai em casa. Na segunda-feira a moldura múltipla das fotografias espatifou-se sozinha no chão, partindo-se. Ontem um dos quadros do tríptico florido do IKEA caiu sozinho. Terá o frio influência? No primeiro caso os pregos estavam intactos no sítio, no segundo caiu. Dramas graves.


Ele há fases em que percebemos que há muito menos frivolidade na preocupação com o pé desmanchado da Luísa Carneiro do que nas inquietações dos que denunciam a frivolidade no desmanchado pé da Luísa Carneiro. E outras épocas em que o país e o mundo nos preocupa. Tudo normalíssimo. Quando tiver oportunidade faço um post sobre isto - ai as promessas. Deixo só umas palavras soltas para ver se não me esqueço de associações: café em grupo barulhento, desprezo por conversa sobre gatos, cusquices sobre vips, tagarelice e bitaites sobre acontecidos políticos ou, em geral, actualidade, redomas e nós cegos nas conclusões, volatilidade e amadurecimento. A ver se respondo a pergunta e meia: será a volatilidade mais próxima da maturidade do que o obtusidade? Por que será tão vulgar gente inteligente ser ao mesmo tempo obtusa.


Ai credo, sempre as mesmas referências pobres. Aquelas que toda a gente sabe, conhece. O visto e revisto. Nada de novo, de excitante. Nada de luzidio que se possa passar adiante para brilhar. Que tédio e falta de densidade. É o que dá a ignorância atrevida. Nada daqui se aproveita. Ide à vossa vidinha, espertos(as) arrogantes. Ide iluminados(as) presumidos(as).

Diário

Durante os dias de anteontem e ontem pensei escrever. Mas não foi possível. Enquanto ocupada devaneei. Dei por mim a relatar mentalmente os últimos dias misturados com os eternos projectos que ora se concretizam ora ficam em suspenso. Pequenos episódios, as lembranças associadas, mas não saberia escolher alguns deles para que o post não ficasse extenso e por isso tragável. A seleccionar, possivelmente, o mais relevante é a gente – o essencial. E aí começaria por hoje, pelo facto de ter recebido logo pela fresca mensagem alegre da T., a passarinhar na praia com o gato ainda muito novinho levado pela trela. Depois de trocas de cromos sobre os bichanos de cada uma, combinamos falar no fim-de-semana. As conversas com a T. são longas e fazem-me sempre falta, até por estar habituada a elas há 35 anos e não haver nada como não ter que explicar quem somos a quem nos vai conhecendo de uma vida. Sai (quase) sempre o que nos vai na alma. Orgulho-me particularmente desta amizade por ter sabido preservá-la com presença mais ou menos pontual mesmo em momentos em que poderia tremer. Entretanto deverei ligar nos próximos dias à B. para retomarmos os almoços, desta vez a três, com a minha prima E., de quem “herdei” a amizade da B.. Com elas o grau de cumplicidade é diferente, há muito ainda a explicar, mas nem por isso faço menos gosto na convivência, até porque a curiosidade é muita e vidas muito diferentes da minha levantam sempre véus que me despertam interesse.


Ao saber a T. na praia lembrei-me da mãe dela, que morreu há talvez 15 anos, perco a noção do tempo, e a independência com que já reformada assim que o tempo se punha bom pegava no seu saco e toalha, metia-se no autocarro e ia para a praia, em memória dos tempos de Moçambique. Recordei também os vários familiares da T. que fui conhecendo ou ouvindo falar. Uma família grande de raízes transmontanas. E tudo isto me desperta a noção de ciclo de vida.


Ao pensar no gosto pela praia lembrei-me do meu irmão N. e da S.. E de ter falado com ela há poucos dias esperançosa por ter uma tarde livre de trabalho no dia de aniversário para poder ir à praia. A S. e o N. vão o ano inteiro à praia. O meu irmão T. e a M. R. correm todos os fins-de-semana a cidade de lés a lés a pé em caminhadas matinais. O meu irmão F. e a C. dedicam-se mais à casa e têm muito por onde se entreter. No passado fim-de-semana tive os meus pais cá em simultâneo, em conversa tranquila a quatro. Finda a qual me pus a caminho da piscina para nadar. Naquele dia com particular gosto. A água estava na temperatura ideal (da última vez a caldeira tinha avariado), sentia-me com energia e a disposição era boa. E é assim que a família toda vem à mente de forma recorrente, na presença e na lembrança dela. Uma monotonia só.


O almoço familiar para festejo do aniversário da minha mãe foi adiado para o próximo fim-de-semana e os meus sobrinhos já me confirmaram presença, o que me agrada. Está tudo tratado, é só sentar e usufruir destes laços apertados que servem de esteio à vida de cada um. A minha enteada prepara-se para festejar o aniversário em Amesterdão e o pai vai-lhe dando conselhos sobre a estadia que, naturalmente, ela não quer nem vai ouvir. Estranho seria o contrário. O pai do Nuno celebrou mais um aniversário no Domingo passado. Não estivemos presentes mas fizemo-nos representar por um bolo de massa folhada com doce de ovo. Tudo nos eixos.


Mais umas semanas e ligarei ao meu primo M. para pôr a conversa em dia ou combinar um jantar a quatro – os encontros em casa foram interrompidos antes da pandemia e ainda não os repusemos. Agora não, senão vamos falar da greve dos professores e não estou com vontade de perder tempo com o país e assuntos sérios. E lá para Março, sim, lá mais próximo da Primavera, desafiarei o C. para uma jantarada regada com o vinho que cá deixou há dois anos – espero apanhá-lo nos intervalos de Londres e Amesterdão e Florianópolis - e juntá-lo ao P. - se o conseguir arrancar a Lisboa -. e à T., e respectivas caras metades para reunião de velhos amigos cá em casa. Não sei como caberemos. Teremos de nos apertar nesta sala mínima, mas isso não interessa nada. Convém é não perdermos a oportunidade de estar juntos para podermos dizer todo o chorrilho de disparates que nos vier à cabeça. E o R. que me diga quando vem ao Porto para marcarmos um almocinho – R, estás a ler? Quem sabe para festejarmos os novos caminhos profissionais. Ao P. vou mandar amanhã as fotografias do Ritz, mas não lhe encontro a mancha vermelha na coxa direita. A ver se no decorrer do ano abro o vinho que gentil e generosamente nos deixou na semana passada e lhe fazemos um brinde - terá é de regressar cá a casa, mas desta vez com a C. e com direito a repasto. Isso de conversa a seco tem de acabar.


É, relendo o que está para cima, não acrescentei nada de novo ao que já disse antes no blogue. Os meus pensamentos ocupam-se muito frequentemente das pessoas que me importam e com a ideia da presença delas tantas vezes apenas projectada e às vezes comunicada, nem sempre efectiva. É a vida. O resto, o trabalho, as circunstâncias, as ideias, os grandes e pequenos pensamentos são apenas acessórios.


Para lá de tudo isto há o indizível. Que de muita exposição vivam as Comezinhas, muito mais há reservado, e assim ficará, apesar de poder não parecer.


E, claro, há a própria vida do blogue e daqueles que vão preenchendo parte dos dias com presença virtual. O facto de não ser presença física não retira importância nem valor. Tenho sentido o carinho de alguns dos leitores ou amigos que por aqui passam e deixam os seus comentários. Uns mais recentes, outros já com alguns anos. É muito bom tê-los por cá, tal como é visitar as suas casas online em regime de espontânea reciprocidade. Haja ânimo para escrever sejam quais forem os estados de alma do dia. Deixando de haver vontade de escrever, nada se perdeu. Fecho o blogue levando boa memória até que também ela se feche esfumando. Mas por ora, é para continuar. 

23/01/2023

Trepadeiras

Glicínias


Gosto de glicínias, são-me muito familiares. Mas olhando a vida pública portuguesa fico a imaginar quão vazio de sentido pode ser o percurso de quem passa a vida a fazer de pau para várias trepadeiras sem valor ramificarem e florescerem cumprindo as suas ambições. A vida oca e penosa dos sustentáculos dos interesses.

22/01/2023

Atubras

Há pouco o Nuno contou-me que passou na SIC uma reportagem sobre trufas brancas. Ao que parece andam por aí investigadores italianos, futuramente com cães, à procura das ditas. Imagino que em breve teremos a moda do cultivo e das receitas nas páginas lifestyle


Nos primeiros anos de vida em comum preparei-as algumas vezes com ovos mexidos por sugestão do Nuno, cujos familiares no Alentejo continuam, como sempre fizeram, a encontrar no campo verificando as rachas na terra, e a consumir como ingrediente nas refeições. Normalmente fritas, ou guisadas com leguminosas, como o Jantar de Grãos.


Mandavam-nas por correio. Para dizer a verdade, quiçá resultado da minha inabilidade para as preparar com sabedoria, não fiquei particularmente fã, atento o paladar a terra.


Talvez um dia perca uns minutos na internet a saber como se cozinham para melhor resultado e peça ao Nuno para falar com os primos a lembrar o gosto pelas atubras. Ou isso, ou esperar pelo resultado das científicas investigações italianas e pelos futuros numerosos posts de connaisseurs na matéria, que apontarão todos os erros de confecção aos antigos consumidores portugueses.

Coisa nenhuma

Agenda, elenco de tópicos, restos de pensamentos soltos ou apenas coisa nenhuma, é o que se segue.



  • A indiferença ou a necessidade de demonstrar que se está a fazer frete ao dar atenção ao outro, não reconhecendo a importância para si da dádiva do outro, fazendo-o passar por devedor de gratidão, revela carácter dominador e egoísta.

  • A falta de consideração, assente no preconceito e cálculo, pelos que podem fragilizar os alicerces da pose de superioridade, denota insegurança.

  • Os homens e mulheres de acção, trabalhando muito e afincadamente para si e para os outros, não raro não os conhecem nem fazem esforço para conhecer para lá do catálogo, não cuidam do essencial nem costumam compreender o sentido da vida, acabando por confundir bajulação com reconhecimento ou por ficar amargurados pela falta de reconhecimento.

  • O que sobra da fragilidade das opiniões que se expressam ao longo da vida, presas às circunstâncias, às influências também elas conjunturais, ao conhecimento mais ou menos profundo dos factos e a inclinações emocionais disfarçadas em função da maior ou menor cientificidade ou erudição, é o carácter de cada um e a honestidade empregue nas palavras e nas acções.

  • Fora dos casos de desavenças graves e para lá do desligamento próprio de fases ou feitios mais independentes, a falta de sentimento de pertença ao ninho e inaptidão para defesa dos seus - da cara metade, dos filhos, dos pais – e, em contraponto, o deslumbre  constante pelos outros revela deslealdade.  

  • A busca incessante da novidade, de aprovação, de novas caras e amizades superficiais, e o correr de admiração em admiração fugaz, denota insatisfação e leviandade.

  • Tipos de amizade. As geradas na infância e adolescência, em ramificações familiares, no percurso escolar ou de vizinhança; as assentes em afinidades e cumplicidades de índole; as circunstanciais, como as baseadas em relações profissionais ou em algum interesse ou actividade mais ou menos duradouro; as relações interessadas ou falsas amizades, mantidas na perspectiva de obter ou conservar qualquer regalia que de outro modo seria difícil ou impossível.

  • Independentemente de como tenham nascido, a profundidade ou superficialidade das amizades afere-se pelo do grau real de abertura e confiança da relação e capacidade mútua de compreensão para lá da presença, atenção ou satisfação de interesses partilhados.

  • O hábito de ver em cada defeito que se aponta ao outro uma possível falha própria inferniza a vida, mas enriquece-a.


*


A cada instante escreves e sentes a pequena angústia de dar o ar tonto de quem acha estar a descobrir a pólvora. Isto é, a debitar uma qualquer banalidade que nada acrescenta ao conhecimento geral. Todos os sermões que plasmaste nas Comezinhas podem ser reduzidos à insignificância, a verdades de La Palice. Ou, claro, deturpados. Falar em relações interessadas, troca de favores, corrupção, desonestidade, dissimulações, desconsiderações, falta de reconhecimento do mérito e, máxime, em injustiça, é tido por ingenuidade: por evidente torna-se ridículo. A suposta sofisticação determina serem considerações desprovidas de validade e interesse prático por alegado desconhecimento ou falta de capacidade em lidar com o carácter duro e implacável da natureza humana e Universal. A realidade é como é, sempre foi assim e será e que há-que fazer pela vida – a fórmula certa de se continuar a viver da esperteza saloia.

21/01/2023

Gentileza

Lido

“Fascismo, nunca mais!” - O alarme contra os “populismos” e a pretensão de os reconduzir a velhas formas de autoritarismo ou totalitarismo, parece ignorar as diferentes circunstâncias, doutrinas e práticas de então e de hoje, de Jaime Nogueira Pinto, no Observador.



Com o aparecimento no mundo euroamericano de movimentos populares com características antiglobalistas e identitárias – movimentos que encontraram expressão política dominante em países como os Estados Unidos, o Brasil, a Itália, a Polónia e a Hungria e têm presença nas oposições da maioria dos países europeus –, tem havido uma campanha mediática forte para os equiparar ao regime fascista mussoliniano que, vai para um século, triunfou em Itália.


Os sinais de alarme contra os “populismos” – contra os de direita, porque os de esquerda são ignorados ou olhados com simpatia, como excessos de generosidade e juventude – e a pretensão de os reconduzir a formas históricas de autoritarismo ou totalitarismo, parecem ignorar as diferentes circunstâncias históricas e as doutrinas e práticas de então e de hoje.


Nesses outros anos vinte, as alternativas que se perfilavam à esquerda e à direita, e que eram declaradamente antidemocráticas, recorriam à violência como forma superior de luta e lutavam entre si e contra um sistema que entrara em falência.  Hoje, a violência física é rejeitada por esquerdas e direitas, e a esquerda tende a apropriar-se da “Democracia”, ou do sistema, para, a partir de dentro, de uma posição de poder, varrer para fora da “normalidade democrática” alternativas à direita que não põem em causa a competitividade democrática, antes, se legitimam através do voto popular.


Por isso talvez valha a pena recordar os anos vinte de há cem anos, começando por lembrar que as circunstâncias das rupturas histórico-políticas se devem mais à incapacidade das classes dirigentes para aguentar novos desafios do que à razão ou mérito das oposições no ataque ao poder.


[...]


A partir deste “zero” como vão vencer? A violência e a radicalidade da revolução soviética, com os seus milhões de mortos, despertara na Europa um clima propício ao estado de excepção permanente para resistir ao que era visto como uma ameaça existencial à civilização; e daqui surgiu o que Ernst Nolte chamou a “guerra civil europeia” – uma luta de princípios, ideologias e concepções de vida totalitárias, que se apoderou de grandes potências e se propagou por todo o Continente.


É com base nesta excepcionalidade – e nas consequências político-sociais e geopolíticas da Grande Guerra – que devemos olhar aqueles anos vinte, e não com uma percepção maniqueísta de ardis e conspirações de um polvo reaccionário desejoso de suprimir a Europa liberal e a liberdade na Europa.


Para entender este tempo, é importante ter em conta estas rupturas e o seu grau de radicalidade. As torturas e massacres das Tchecas soviéticas, o medo que despertaram nas elites e nas classes médias de toda a Europa perante uma revolução que, em nome da utopia, destruíra os factores de uma sociedade livre – desde a liberdade religiosa à propriedade privada – explicam o apoio das classe médias e das elites, não só aos fascistas italianos, mas também aos movimentos autoritários e ditatoriais conservadores ocorridos na Europa Oriental e Meridional, da Polónia de Pilsudski ao Portugal do 28 de Maio.


[...]


Hoje, não há nada de semelhante ao “perigo fascista” nem ao “perigo comunista”. Mas há uma circunstância real, ou percebida como tal pelos povos da Euroamérica: uma ameaça aos valores da civilização laica e cristã – à religião, à nação, à família, à liberdade, à vida – tal como foram entendidos ao longo de gerações; uma ameaça com cambiantes experimentalistas e rupturistas imprevisíveis a longo prazo. Chamar aos que contestam essa decadência, “fascistas”, pode deixar satisfeitos os acusadores e perturbar alguns dos rebeldes. Mas não vai mudar nada.


 


Deveras interessante

Já dei vista de olhos pelas parangonas. O ambiente é de ressaca. Há 15 dias deu-se o festival do excite, agora entre tonturas e ressabiamentos uns tentam agarrar-se a qualquer rastilho que dê publicidade e vendas, outros tentam esfregar o ego invocando ridículos desdéns para disfarçar a azia, e o resto vai dispersando. Até ao próximo excite. Numa próxima revoada o país parecerá parar com tanto assanhado desejoso de assistir à descoberta da verdade, até um jogo de futebol ou uma qualquer intriga reles e entediante sobre notabilíssimos reporem a ordem natural das coisas, devolvendo o país audível ao seu normal estado de amorfo mixuruca. 


Tudo deveras interessante. Nadar, amanhã vou nadar.

20/01/2023

Programa de festas

Passam catorze minutos das dez da noite, estou jantada, com a casa organizada, lixo no ecoponto, série de luzes pendurada na sala a piscar, e rádio na smooth fm na sala de modo a ouvir baixinho aqui no +1. Aquecedor a óleo ligado desde o momento de chegada a casa para temperar o espaço na previsão de passar aqui o serão.


A semana decorreu desigual, entre a sensação de impotência face aos contratempos nos primeiros dias e maior serenidade nos últimos. Entre a rotina, a diferença de ter cozinhado todos os dias e o ganho de um pouco de peso. A comida caseira sabe melhor, é um perigo. Há-que reduzir à dose.


Hoje no supermercado achei piada ao empregado que, vendo-me a parada a olhar para a fruta, comentou: em lado nenhum vê a fruta tão bem exposta. Sorri, encantada. Ele acabava de a colocar bem ordenada, cada peça com o pé para cima. Dirigi-me às pêras williams - costumo comprar pêra rocha, mas acaba sempre uma no lixo, daí variar - tirei as únicas três que estavam sobrepostas, mas também como o pé na vertical, e escolhi para quarta a primeira da fila. Não queria desordenar todo aquele aprumo de empregado tão dedicado. Se tivesse ido ao Continente, teria de me ter desviado de 10 outros compradores, com probabilidade de esperar vaga nos sacos ou na escolha da fruta e na caixa. Ali, no Froiz perto de casa, onde gosto de ir ao fim do dia da relaxada sexta-feira buscar (ainda não tinha dito que gosto desta palavra despretensiosa e ainda bem que não lhe busco sinónimos aperaltados ou insossos) os mimos de fim-de-semana, estão sempre meia-dúzia de gatos-pingados às compras e funcionários atentos e disponíveis. Creio que a média é de um funcionário por cliente. Claro, é provável que a lei da vida imponha, mais cedo ou mais tarde, o fecho do paraíso - enquanto não, aproveito o privilégio dos espaços preteridos. Já o Froiz do Centro Comercial Cidade do Porto está sempre apinhado. Antes neste mais próximo funcionava o Minipreço, com a mesma sorte dada a concorrência do Continente (a menos de 100 metros) e o Pingo Doce (a 200 metros). Os estudos de mercado ditam haver mercado suficiente nesta zona densamente habitada, mas a clientela faz-se de outras nuances e fidelidades, como o apelo das concentrações, da popularidade e dos hábitos enraizados. Quem sabe também a preferência pelas cadeias de distribuição portuguesas. Será que há um certo patriotismo nisto? Talvez não. Trouxe torrão de Alicante, como faço ocasionalmente, nunca deixando de recordar a avó, que era grande fã desta guloseima.


O gato faz-me companhia. Não resiste ao calor por perto. Se bem que não alinho naquelas teorias do grande cálculo e carácter interesseiro dos felinos. Até eles, se mimados e respeitados na sua independência e necessidade de sossego, acabam por ter características de comportamento semelhantes aos cães sensatos e leais. 


Bem, parece que já fiz a festa, e era só para ser o programa dela. Não tencionava ao começar escrever já um post inteiro, mas apenas duas linhas sobre o que viria a seguir. Vou ler o que anda por aí espalhado e talvez faça mais uma entrada esta noite, isto é, a próxima madrugada. Talvez volte a conversar com os meus botões em público. Ai a vergonha, ai a vergonha. Tudo depende do que vier à mioleira, do acaso, do que ler, do que ouvir. Enfim, do futuro imediato que desconheço. Andar ao sabor do vento pode ter muitos senãos, mas há belo aqui, no acaso.


Agora passam muitos mais minutos das onze. Mais de uma hora para escrever um quiqueriqui. Mas "sabeu" bem. É o que interessa.

Down To The Bone


Boa sexta-feira.

18/01/2023

Haja paciência

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  • «Infelizmente, não pude apresentar os resultados de 2017. Serão bons resultados, diria que devem ser os melhores da história da empresa, talvez do grupo também. Ainda não tenho os dados todos», Fernando Pinto, ex-CEO da TAP, a 31-01-2018.

  • Christine Ourmières-Widener, CEO da TAP diz, hoje, a 18-01-2023, que receitas superam expectativas. Anuncia alívio no corte de salários e diz que 2022 foi dos melhores anos de sempre.

Criadores de conteúdo e limões

Às oito e trinta dei com o nariz na porta da farmácia. Aproveitei, comprei pão fresco na padaria e vim tomar pequeno-almoço a casa com o Nuno, cuja gripe está a provocar dificuldades respiratórias. À hora de abertura, às nove, lá voltei. Adquiri uma catrefada de medicamentos e fiz-me ao curto passeio. Ao atravessar a rua na passadeira reparei na velocidade do carro que vinha na minha direcção e parei antes de pousar o pé em posição que me fizesse correr risco. Abrandou, passei. Comecei a ouvir berros desbragados. Primeiro nem sequer percebi. Eram insultos dirigidos a mim, por ter parado. Uma grunha cujo focinho não vi, de vidro aberto gritava desalmada impropérios. Sem abrir a boca, continuei sem olhar para trás, abri a porta do prédio e entrei. Só ao dar a medicação ao Nuno desabafei, rogando pragas à sujeita – uma qualquer selvagem com volante nas mãos, mais uma. Saí de casa de novo em direcção à paragem de autocarro, já a pensar: a fulana às tantas teve um revés de manhã. Ou seja, condescendi. E hesitei: não sejas parva, é por isso que a grunhice impera, por causa da tolerância com comportamentos destes boçais que estão a tomar conta do mundo, resultado da educação postiça que impera entre pretensas elites feita de chavões, mentiras, meias verdades e manipulação do pensamento comum.


Já na empresa comentei o sucedido com uma colega. Contou-me que hoje ao conduzir teve de conter-se por encontrar uma senhora mais velha a guiar o carro da frente e demorar imenso a cada paragem e arranque. Além de ter dado por si a matutar a razão para um homem ter entrado de determinada maneira na via: pois, o carro é novo, ele ainda não está habituado. Comentei: lá está, teve em consideração o outro. Ao que ela me recordou que não é assim serena todos os dias. Pois não. Não somos assim todos os dias. Mas conheço-a o suficiente para saber que, em regra, é respeitadora. E se todos temos os nossos momentos, há quem faça da grunhice comportamento habitual na vida, de forma frontal ou dissimulada. Primeiro eu, é o lema imposto pelo culto das esfregas na auto-estima. Os cheios de si, dos direitos e da disseminação e verificação manipuladas dos factos e factozinhos e toda a ninharia associada vingam em sociedades onde não se valoriza a educação, mas a aparência dela.


Os grunhos de volante nas mãos, capazes de influir negativamente na vida dos concidadãos, não têm razão para ser diferentes pelo exemplo que acham vir de cima. Confundem o que há de melhor na sociedade com gente endinheirada ou popular, isto é, a elite postiça da troca de favores, das trafulhices venais e dos clichés e contra-clichés feitos delírios culturais ou intelectualóides. Minoria cujo prestígio decorre tão só de trazer o dedo mindinho esticado para disfarçar a boçalidade, enquanto atropela e se aproveita de todos os que seguem na sua vida normal no respeito pelo outro.


Como num lago cheio de lodo os mais grosseiros indivíduos da base sociedade limitam-se a espelhar a sórdida camada de gente que dirige e influencia os destinos do país.


Porquê escrever todos os dias irrelevâncias sobre o meu dia-a-dia e daí partir para considerações que podem parecer forçadas ou estapafúrdias? Será rabugice ou velhice precoce? Ou tão só falta de assunto mais interessante para tratar? Porquê não me debruçar sobre a interessantíssima vida política e mediática portuguesa? Ou cultural? Cada vez com menos vontade de chafurdar nesses lixos viciados, sobre o quais quase todo o comentário só acrescentará mais visco ao lodo. Porquê não levantar questões de elevadíssimo interesse intelectual? Cada vez com menos vontade da mais pequena associação a medíocres pretensiosos. De que falarei amanhã? Talvez de limões, limpeza de sarjetas, pneus de autocarros, unhas encravadas. Tudo será preferível ao visco que vinga nos escaparates e vozes com maior audiência, neste mundo de criadores de conteúdo e entertainers da informação de sucesso.

17/01/2023

Pequenas felicidades

Hoje ao fim da manhã na empresa levantei a mão pousada junto ao teclado olhando instintivamente para o movimento. Em baixo da mão, não sei como nem “cumo”, estava um pequeno insecto de cor castanho-claro com pouco mais de meio centímetro de patas para o ar. Fiz a fita própria daquilo a que chamo desde a adolescência citadina parvalhona. Assim me mimoseava a partir do momento que passei a viver longe do campo e me assustava ou enojava com a bicharada. Saltei da cadeira com interjeições várias, fui buscar papel à cozinha e deitei o bicharoco no caixote de lixo. Fiquei a pensar que não sabia o nome. Depois de conversar chegámos à conclusão que talvez seja uma espécie escaravelho. Como foi lá parar? Possivelmente agarrado à roupa ou situação parecida. Tudo me ocorreu, desde o simbolismo do escaravelho até ao conto infantil A maior flor do mundo de José Saramago, passando pelo parentesco com a coleóptera carocha.


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Já em casa depois do jantar percebi a real importância do achado de hoje – Deus revela a sua grandeza nas pequenas coisas. Para tentar encontrar o bicharoco e ficar a saber o nome fui pesquisar escaravelhos na página da Wilder. E que fui encontrar, céus? O tal insecto cor de laranja que invadia Valinhas. Chama-se percevejo-do-fogo ou percevejo-da-tília, o que faz todo o sentido – procurar a causa das coisas ajuda, apesar da exaustão a que conduz.


Conclusão: encontrei resposta para dúvida antiga da série (futuro hipotético livro) Tílias.

Sensações

Há instantes o cérebro apagou-se-me numa pequena fracção de segundo - não é redundância, o momento é de facto fugaz. A sensação é de desligar, de partir. De ausência momentânea. A mioleira a pedir descanso? Já senti o mesmo há uns anos por meia dúzia de vezes. Nestes últimos tempos foi a segunda.


Ontem pela primeira vez na vida esqueci-me do aniversário da minha mãe. Imperdoável. Ontem, apesar dos dois telefonemas quotidianos, só a meio no segundo caí em mim. No fim-de-semana tinha planos para a ocasião, a trabalhar passei o dia a escrever a data e lembrei-me de outros aniversários que não podia esquecer este mês. Como fui deixar escapar o principal?


Hoje às nove da manhã estava à porta de casa da minha mãe com um saquinho de cinco bonitas e cheirosas maças, eram para ser seis rosas no dia anterior. Não consegui àquela hora.


O festejo está programado para o próximo fim-de-semana.


Entretanto, perdi mais uma vez o passe dos transportes - fiz outro antes de vir trabalhar. Nas últimas semanas a cabeça está totalmente aérea - temo as consequências.

16/01/2023

Conversas por aí

Conheces sicrano? Conheço, é mais novo que eu, mas está muito acabado. Tem a mania que é um Don Juan - diz o Don Juan da treta, muito convencido do seu viço, sobre o Don Juan cortês e alquebrado.

Recapitulando


O Livro dos Três Princípios - Aconteceu - 19 (continua)


por Isabel Paulos, em 16.11.19

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       Outra visita da casa da Ana Paula era a Lara. Ao contrário da Marta Soares nada apreciada pelo Pedro. Quase enlouquecia com a forma como o Rui, o marido, enfiava a cara no prato e sorvia a sopa, enquanto ela dissertava sobre música e cinema alternativo, sentada de lado e cotovelo apoiado na mesa. Alternativo era termo que encanitava o Pedro; topava a presunção. E apesar de ouvirem algumas bandas em comum e do cinema de autor ser do agrado do sofisticado Pedro, aquele modo insurrecto e rude de estar e falar arreliava-o bastante. Nessa época, a Lara trabalhava ainda num pronto-a-vestir da Rua 19, no centro de Espinho. Depressa se fartou de passar o dia entre saias travadas, camisas de gola engomada e casacos cheios de chumaços, com vista para a rua central na qual passavam as mesmas pessoas à mesma hora, mas o salário certo ao fim do mês e a independência económica falaram mais alto. Cinco anos mais tarde, atraída pela novidade dos centros comerciais da Sonae, começou a trabalhar na Zara no recém-inaugurado Gaiashooping, como subgerente de loja, o que permitia acréscimo financeiro. Trabalhar na loja de roupa mais popular entre gente nova dava-lhe gozo, apesar da pouca paciência para aturar a clientela. Pouco depois, entediou-se deste emprego e a considerou arranjar outro. Na visão da Lara, e na de muitos portugueses, não se tratava de querer trabalho, mais sim emprego. Nos cinco anos de trabalho no pronto-a-vestir conseguiu obter três baixas médicas, por períodos de pelo menos de trinta dias cada, mas na Zara tais veleidades não eram bem aceites, pelo que rapidamente foi sugerida a saída. Estava sintonizada a parte significativa da sua geração. E tinha respaldo caseiro, sobretudo do pai, funcionário da junta de freguesia desde 1977, quando se filiara no partido socialista, mas também dos primos Aurélio e Jacinto, transmontanos, migrados para Espinho no final da adolescência, na segunda metade dos anos oitenta, no intuito de fazer o curso de programação de computadores em linguagem COBOL.


      Durante parte dos seis meses do curso ficaram na pequena casa dos tios. Sabido que em casa de transmontanos nunca se nega dormida à alargada família. Dormiam num canto, no sofá da sala. Tinham a obrigação de levantar, lavar-se e arrumar o espaço que serviria a família nuclear de anfitriões. O curso feito permitia o acesso a estágio e aspiravam ingressar no sector bancário. Tal como o tio, em curto espaço de tempo fizeram relações interessadas, e ainda a terminar o curso filiaram-se no PSD, a convite de um dos formadores, membro dos órgãos da direcção distrital do partido. A militância dava garantia de emprego, acabado estágio e caso não ficassem a trabalhar no banco que os acolheria. A escolha do PSD foi circunstancial; a social-democracia de Cavaco Silva ou o socialismo de Soares, então primeiro-ministro e presidente, eram conceitos abstractos que não faziam esforço de entender nem questionar. Comentavam entre si, isso sim, que o tio Ângelo e os amigos do PS falavam sempre como se tivessem a propriedade da liberdade, trabalhavam em serviços públicos e eram velhos de conversa, ainda que alguns deles tivessem a sua idade e aparentassem saúde formidável. Rematavam sempre, mas temos lá bons amigos. E tinham, sobretudo o amigo funcionário da segurança social, que conseguiu arranjar os contactos certos para obterem renda de casa paga pelo Estado, ao abrigo da legislação em vigor, destinada a favorecer a formação dos jovens portugueses. E revelara-se profundamente amigo, porque apesar da renda efectiva cobrada ser de cinquenta contos, sugeriu declarassem o valor de cem contos, em conluio do senhorio, e dividissem entre si o lucro gerado pela burla da pandilha, em prejuízo óbvio dos contribuintes.


      Já o formador era um tipo novo, cheio de genica e empreendedor. Além das aulas de formação na área informática, na qual trabalhara apenas sete ou oito anos, agora prestava serviços através da empresa que criara com o amigo e colega de curso, e já criara vinte postos de trabalho, tudo com ajuda dos fundos da C.E.E. É evidente que, além de prestar serviços de assistência informática à Banca, prestava serviços a si próprio, conseguindo desviar, através de esquema de facturas falsas, alguns fundos destinado à compra do JIPE da praxe e umas verbas extras na ajuda da construção da moradia à beira-mar. Foi nessa empresa informática que a Lara entrou, anos mais tarde, para ajudar na contabilidade e fornecedores. Nunca deixou de desdenhar do patrão e da forma de servir-se da empresa em benefício próprio de forma lícita e ilícita. Mas começou também a perceber como podia tirar vantagens das lacunas da legislação ou tão só das oportunidades que iam surgindo. Queixava-se ser mal paga. E fazia notar que tinha de se esforçar no sustento a família, já que, apesar das gorjetas, o salário do marido era parco.


      A Lara engrenou bem na corrente do tempo. Após quatro décadas da imposição cega de deveres, sobrevieram quatro décadas de reivindicação cega de direitos. Olho por olho, dente por dente. E se há índices certeiros para medir a desonestidade, dois deles são a prontidão no conhecimento da legislação que favorece os interesses e a amnésia quanto à criadora de deveres ou obrigações, mas também a permanente crítica dirigida a quem está numa situação de privilégio económico ainda que legítimo, numa demonstração de pura inveja. Ao longo da vida a narradora pôde verificar ser comum entre portugueses rasgar-se as vestes contra a corrupção dos políticos, dos banqueiros, dos grandes empresários, dos patrões, dos trabalhadores, dos vizinhos, dos pais dos colegas dos filhos, dos colegas de trabalho, dos adeptos dos outros clubes, enfim dos outros, enquanto se leva a vida quotidiana de burlazinha em burlazinha, a subornar funcionários públicos, a apresentar atestados médicos falsos, a não declarar rendimentos auferidos, para obter subsídios e abonos, ou tão só não pagar o inerente imposto, a declarar valores inferiores de venda de imóveis, evitando o pagamento da proporção legal do imposto, a prestar declarações falsas para a obtenção de subsídios da segurança social, a apresentar orçamentos falsos às companhias de seguro. Enfim, interminável rol de trafulhices que não se considera corrupção, tão só pela circunstância de se ser o prevaricador. Aos olhos de muitos o corrupto é sempre o vizinho do lado, sendo o próprio a vítima que mais não faz senão tentar fazer pela vida neste país injusto e desigual que deveria tê-lo consagrado a grande resistente, o verdadeiro herói.


Não resisti

A propósito de ontem não resisti a pesquisar a existência de borboletas brancas no Inverno. A primeira entrada que encontrei foi esta: Saiba identificar as borboletas que pode ver no Inverno. Já estou contente. Seria a borboleta limão?

15/01/2023

Diário

Palpita-me que este vai ser um diário muito longo, pleno das insignificâncias dos meus pensamentos no último par de dias. Esta manhã está sol, dormi muito pouco por ter estado a fazer contas à vida de madrugada – se há momentos frutuosos para a contabilidade doméstica, são as primeiras horas do dia.  O quarto é luminoso e nestas manhãs soalheiras de fim-de-semana gosto de pegar no computador e escrever aqui deitada na cama junto à janela radiosa – apesar de ser raro. Depois do Ritz gozar 10 minutos de liberdade lá fora, fi-lo entrar e deixei uma fresta da vidraça aberta para correr o ar frio dos dias bonitos. Outro dia um amigo dizia-me, aqui em casa quando veio dar a vacina ao gato e brinquei por ele estar de manga curta numa manhã fria, dizia-me que gosta de apanhar o frio da manhã. Percebo. Por isso gosto tanto de andar na rua no Inverno a apanhar ar gelado na tromba – mas não nos braços. Apesar disso hoje decidi não andar por aí nem ir à piscina atenta a gripe que me assola nos últimos três dias.


As contas que fizemos ontem à noite prendem-se com os gastos absurdos do último mês e meio. Um rombo imenso que ainda vai continuar. Dezembro é por si um mês de muitos gastos com as festividades, juntando-lhe as obras e arranjos deste Janeiro – além das interiores, pagámos mais uma batelada para a fachada das traseiras do prédio; a ver vamos quando começa o raio da obra -, a coisa tem sido exagerada. Por isso, tivemos que tomar pulso à vida e decisões. Se queremos ir este ano à Turquia – em Novembro de 2021 escrevi aqui que tinha vontade de visitar Amesterdão, Istambul, Moscovo e São Petersburgo -, teremos de apertar cordões à bolsa. Calculámos por isso os gastos supérfluos dos últimos quatro meses. Acabar com as compras da UberEats permite uma poupança mensal significativa. Daí partimos para engendrar menus para as refeições diárias. Como não tenho a mais pequena paciência para sites de receitas, a fórmula complicómetro das ditas impele-me a fechar essas páginas em segundos ou fracções deles. Digamos que no meu espírito cozinhar tem a mesma lógica do conceito (credo, usei esta palavra) de mobiliário IKEA. Deve ser inteligível e prático sem rodriguinhos que não acrescentam nada em termos de melhoria de textura e sabor, só enchendo o olho ou a presunção de perfeccionismo rococó. Além de também não ter paciência para os discursos postiços do amor e carinho com que se deve cozinhar. Dediquei-me por isso a sugerir ao Nuno que víssemos as páginas dos legumes e misturas congeladas no site do Continente, tal como frescos. Passámos depois aos hidratos e leguminosas e para um punhado de formas de os cozinhar. Depois a carne, peixe e marisco, em rigor, bivalves, já que por causa da alergia do Nuno perdi o hábito dos crustáceos. Depois de passar pelos ingredientes base e modos fáceis de os confeccionar, engendramos 17 menus muito simples para usarmos nos próximos meses – sei que alguns depois entram na rotina; é assim que vou fazendo ao longo dos anos. E no fim programamos as refeições da próxima semana, acabando a fazer compras online em função dessas escolhas. A ideia é ir reduzindo o que temos em casa àquilo que vai ser consumido na semana, até porque o congelador não é grande, e saber de antemão o que vamos comer durante a semana para não passar pela enorme chatice que é ter de pensar a cada refeição o que fazer. Até sob o ponto de vista económico convém, por nada ser mais pródigo do que os apetites momentâneos. Teremos direito a esses momentos, mas não é conveniente fazer deles a regra. Quase todas as considerações de economia doméstica feitas neste parágrafo foram feitas no passado. A largueza relativa do último ano e meio levou-me a relaxar nesta matéria, mas se quero voltar a viajar este tipo de poupança e outros são essenciais. Não sei o que o futuro me reserva e a ideia de voltar a passar 10 anos sem sair de Portugal, com uma ou duas pequenas excepções, não me agrada.


Hoje ao acordar estive a percorrer mentalmente as viagens que fiz e os lugares onde me senti ou não senti em casa. Dos 15 países que visitei poucos me serviriam de lar. Ou melhor, não sejas imbecil, rapariga, qualquer um serviria em caso de necessidade. Mas vá, via-me a viver em Brisbane ou mesmo Sydney (eu que dizia não querer viver em nenhum grande centro urbano), em Amesterdão ou em Bournemouth, mas não numa das cidades italianas que visitei, apesar da beleza – deslumbre mesmo – ou em Paris, ou em Praga, ou em Los Angeles – apesar dos atractivos de cada uma delas. Há terras em que me sinto forasteira – na verdade, sinto-me assim no mundo, incluindo Portugal, mas isso é outra história -, e outras em que sinto aquele conforto de lar. Em Amesterdão vejo-me a viver num pequeno apartamento naquelas casas austeras cujo alpendre parece ser o principal toque de graça, sair de casa para trabalhar – até me habituaria a andar de novo de bicicleta -, ir ao banalíssimo supermercado Jumbo, apanhar o autocarro, visitar museus, assistir a concertos, ir a uma loja de ferragens comprar pregos para pendurar quadros. É uma terra funcional. Nada disto me aconteceria mentalmente em Paris ou Florença, apesar do meu fascínio pela segunda e de ter sido concebida na primeira. Não é minha, não me pertence. Mesmo Luanda, que é o mais aproximado da minha terra de nascimento, afasta-me pelo clima húmido. Hei-de voltar a Angola, mas irei para Sul. Pela mesma razão, o clima tropical me afastaria de Singapura, apesar da ordem e segurança.


Não ter casa própria nem carro e gastos inerentes permitiu-me viajar um pouquinho nos 20 e, admito, o facto de pisar os cinco continentes deu-me alegria. Se há coisa que não me arrependo é das viagens. Há quem ache que é uma opção; não foi. Não programei nada disto nem a minha vida pessoal e profissional potenciava o punhado de viagens que fiz. Foi a forma como a vida correu. A impossibilidade de organizar a vida com compromissos, como o fazer um empréstimo bancário para ter casa própria, pela inexistência de um vínculo profissional, leva muitos hoje como já na minha geração a uma vida que é tida por mais livre ou, para os mais críticos, irresponsável. Possivelmente se tivesse ficado a trabalhar num dos primeiros bancos por onde passei lesta e saí pelo próprio pé, teria tido casa aos 20. Possivelmente se tivesse casa teria sido mais fácil orientar a vida afectiva – ou não, nunca se sabe. Chamar a isto opções ou escolhas de vida é manifesto exagero. Talvez seja apenas um misto do correr da vida face às circunstâncias do mundo actual e a natureza de cada um.


Ou esses tempos ou a última dezena e meia de anos em que tudo se passa à volta da casa. Ontem, por exemplo, cá estivemos nos arranjos domésticos. A manivela do estendal funciona na perfeição – é bom que assim seja atenta a exorbitância que custou -, mas depois de feita a máquina da roupa fiquei apreensiva. Este estendal leva menos roupa do que o de pés, que tinha abas – já está atrás do frigorífico para não ocupar espaço. Finalmente o intercomunicador voltou a funcionar na plenitude. Passou a vida a cair às mãos do Nuno (e minhas, às vezes). Até agora era eu que arranjava os fios na placa de contactos com palitos e fita adesiva – o Nuno foi-me dizendo como fazer. Mas há meses estava bastante espatifado, apenas a tocar e não falar. Pena o telefone “novo” ser creme e a base branca - soluções de recurso do Sr. A.. Poderia sempre inventar que foi de propósito para criar dissonância na decoração nas utilidades da cozinha, mas não, digo que ficou um nada mal-amanhado. Na casa de banho notou-se o facto do Sr. A. estar mais velho e com mais preguiça ou lentidão mental. Calculou mal os furos para pendurar o espelho e acabou por fazer quatro e ainda assim não encaixava apesar da segunda medida estar exacta – bruxedo, concluímos, até que eu saísse do recinto para não dar mais azar. Dito e feito, depois de 10 minutos de insistência sem sucesso, assim que saí o espelho encaixou. A propósito destas tarefas domésticas e bricolage vem-me à ideia a conclusão que sempre tiro: jamais conseguiria conviver de forma harmoniosa com alguém que não valorizasse a casa e estas actividades práticas. Ao longo da vida convivi com muita gente e sempre achei soporíferos indivíduos que vivem apenas de teorias, molduras e conversa fiada – para quem está há uma hora a escrever este postal é preciso ter lata, não é? O que quero dizer é que a intelectualidade ou sobranceria desprovida de sentido prático e amor aos objectos e funcionalidade do dia-a-dia me entedia. Idolatrar objectos pelo seu valor ou aparência condizente com as modas do momento ou pertença a estilos marcantes do passado é-me estranho, ou melhor, esses aspectos passam-me ao lado. Indiferença total. Por incrível que pareça passa neste momento uma borboleta branca na varanda, vejo-a daqui; no Inverno, céus. Talvez por isso goste do IKEA e tenha gostado de visitar Amesterdão. Tal como me aborrece enormemente o esconder da verdade e dos aspectos comezinhos da vida. Não acredito na superioridade de tretas conceptuais desprovidas de vida, de verdade. Pouco nos últimos dias me dá tanto prazer como a série de luzes de Natal que deixei de forma o mais pirosa possível pendurada na parede. Agora entra o Nuno saído do banho com barba feita – isto é, despido do alentejano de má raça que trazia vestido nos últimos dois dias. Ontem dormi parte substancial da tarde no sofá para me reestabelecer do cansaço da exigente manhã e também da neura, no conforto das quatro cores das luzes que me reportam à infância. É aconchegante, como nunca seria um móvel só por ser de autor ou representativo da corrente xpto. Gosto que tomar posse do que me rodeia e tomar posse significa não uma forma de dominação, pelo contrário, quer dizer que integro os objectos na minha história, que fazem parte do percurso de vida e que me foram úteis e aconchegantes sob o ponto de vista prático e afectivo. Não gosto de inutilidades nem de supérfluo. E odeio o dar o ar de. Abro uma excepção para quem tem arte e bom gosto – qualidade que estou longe de possuir -, conseguindo criar espaços harmoniosos com arte. Mas esses são raros, apesar das montanhas de conceitos e paradigmas da conversa fiada da decoração e arquitectura de interiores.


Por falar em conversa fiada, isto hoje está lindo. E dura, dura. As mulheres falam demais, algumas mais ainda do que as que falam demais. Admito, falo pelos cotovelos: ela conversa com  todos, conseguiu pôr a conversar o mais mono dos alunos da turma que não abria a boca, dizia a professora de português no ciclo. Não há nada que não possa ser falado a menos que se queria dar ar do que não se é. E agora, o que falta contar? Ontem de manhã fui à ourivesaria aqui da rua para apertar o anel que trago a uso, não fosse ficar sem ele tantas foram as vezes que me saltou do dedo. Como por vezes o Nuno e eu vimos alianças nas montras da ourivesaria, ontem resolvi perguntar o preço de um par delas de 2.8 milímetros – calma, não tenho decorada a medida, perguntei ontem -, e fiquei a saber que seriam 700 euros. Pensei de imediato que me dá muito mais gozo o novo lavatório, como irá dar a cabine de chuveiro ou a viagem a Istambul – para qualquer deles esse valor é significativo. Perguntei ao Nuno o que achava, disse-me que usaria a aliança com gosto, mas se eu achar um desperdício, passa bem sem ela. Falámos também de casamento e disse-lhe que tal como as alianças - mais do que elas, em rigor – continuo a temer o azar que esses selos formais de compromisso trazem. Além de mais e na verdade não percebo a necessidade de casar para além das questiúnculas legais, com que me preocupo pouco. Digamos que a instituição casamento é como um móvel de autor, ora eu sou mais pelo prático e funcional e encontro mais afectividade numa série de luzes da loja do chinês. Há uns tempos uma colega dizia-me que acha horrível o termo companheiro – ela também vive em união de facto e o mesmo drama de saber como se referir ao companheiro diante de outras pessoas. Para ela dizer companheiro é coisa de ilha, de gente sem educação. Já eu associo aos camaradas comunistas, vá-se lá saber porquê. Mas não me faz espécie nenhuma. Chega uma idade em que começa a ser ridículo dizer namorado, como concluímos as duas, e marido dá sempre aquele ar de estarmos a mentir. Farto-me de dizer marido e corrigir logo a seguir – bom, ele não é marido ou não somos casados -, como se me justificasse. O que é de um ridículo só. Por isso, nada como a verdade: companheiro. Camarada de luta (isto diverte-me). Aliás, devia dizer homem à moda do Porto, como ele diz mulher, sem qualquer problema – acrescentando para eu não duvidar, e não há razões para dúvidas apesar de saber que sendo homem nunca diz a verdade inteira: sinto-me casado contigo. Dando sempre a ideia que correspondo ao ideal de companheira e a nossa casa ao verdadeiro lar. Tal como eu, não na questão da idealização, porque não tive um ideal de homem para a vida inteira, mas na mais terrena convivência prática e afectiva, nenhum outro homem entrou na minha vida como tamanha cumplicidade, conseguindo transformar-nos em família. Em suma, casar ou não casar nada tem a ver com amor, com entendimento ou ligação. É uma questão de gosto e também de honestidade. Continuo a dizer que prefiro casar apenas aos 80 anos pela Igreja – coisa que podia ter acontecido há anos como acontecer hoje se tivesse vontade -, se ambos estivermos vivos para agradecer a Deus ou ao Universo (depende dos dias) o que vivemos, do que fazer promessas futuras sem sentido, não sabendo sequer se algum de nós tem intenção de as cumprir. Odiaria viver a mais importante relação afectiva da minha vida como se estivesse a cumprir um contrato, ou a prestar contas ao Estado misturando afectividade com legalidade. O Nuno, concordando parcialmente comigo, acha possível as duas situações, não vendo o casamento de forma tão negativa.


Pronto, falei de gripe, viagens, ferragens, casamento e luminosidade. Está tudo muito bem apesar de não ser quase nada do que pretendia escrever quando abri o post. É o que se chama não ter ponta de vergonha na cara – há formas mais grosseiras de dizer esta última frase, mas além de vulgar não faria sentido nenhum, como aliás na maioria das vezes que leio essas expressões. Tal como não gosto do supérfluo, detesto o uso excessivo da vulgaridade para ter impacto ou criar reacção. Porquê isto agora? Não faço ponta de ideia, saiu. Sei que ia escrever, isso sim, sobre outro tema, mas como é costume varreu-se-me. Já agora conto que varro duas vezes ao dia uma zona da casa por causa da areia do gato. Como sobreviveriam os pouquinhos leitores das Comezinhas sem esta última informação?


Lembrei-me agora do que faltava falar. Há uns dias pareceu-me que alguém sugeria que tendo eu nascido numa família muito conservadora não o era. O Nuno diz que sim, que isso define o meu percurso ou movimento. Pelo que percebi acha que não sou carne nem peixe, ou seja, tendo para o liberal que aprecio, mas trago o conservadorismo do meio agarrado à pele. É certo que nasci numa família muito conservadora, mas nunca senti necessidade de rebelião. Agrada-me o conservadorismo, dou-lhe é umas valentes facadas quando não faz sentido.

14/01/2023

Lido

 

Lido

A tempestade Fien, uma massa de ar polar e outra do Ártico: vem aí uma semana branca e gelada (e a Proteção Civil deixa alertas), no Observador.



Se já começou a sentir aquele friozinho cortante que até agora andava desaparecido e nem tinha feito parecer inverno, prepare-se. A partir deste domingo vai ser sempre a arrefecer. Esta vai ser a primeira semana verdadeiramente invernal em temperaturas e os dias mais gelados os de quarta e quinta-feira. A previsão é que o centro e norte do país possa ficar coberto de neve na madrugada de quarta-feira, quando o termómetro pode descer aos 7ºC negativos.



 


Portugal tem estado sob o efeito de um comboio de tempestades carregadas de vapor de água vindas da zona das Caraíbas, transportadas por ventos de sul e responsáveis pelos recentes fenómenos extremos de chuva consecutivos. A partir de domingo, há uma mudança de carris. As tempestades passam a vir de latitudes superiores, são superfícies frontais frias que atravessam o país de norte para sul, com ventos de nor-noroeste. E a primeira, este domingo, traz associada uma massa de ar polar marítimo.