E não somos. Tudo quanto nos parece evidente, tudo quanto nos é repelente num ápice pode mudar. As circunstâncias baralham os gostos e aquilo que dá ideia ser traço de personalidade, de carácter até, esfuma-se nas contradições mais saborosas da vida. Todos os paus que engolimos e nos fazem ficar tesos de postura, levando-nos a gabar de ter a espinha muito vertical, quantas vezes mais não é do que mania. Pode até ser uma mania com virtude, muito razoável, digna. Mas o vento das ocasiões, das gentes, das diferenças faz-nos mudar. Às vezes regressamos ao ponto inicial, voltando a empertigar-nos como se nada tivéssemos aprendido, como se não nos moldássemos. O dogmatismo diz mais das nossas fraquezas do que do conhecimento e valor que achamos possuir. Serve-nos de escudo para o desconhecido, que teimamos em catalogar de ignorância ou deseducação.
E agora passemos a gatos e à beijoquice. Passei a infância povoada de bicharada e sempre ocupada com cães e gatos, cuidando-os o melhor possível. Após o que que se passaram muitos anos sem o convívio diário com animais domésticos. Repele-me a sua equiparação aos humanos, por mais que goste de os tratar bem. Por mais que saiba que os bichos sentem e sofrem para mim há hierarquias e a vida e bem estar físico do animal não é igualável à do ser humano. Passei anos a fugir das pausas em grupo para café na empresa e uma das razões era a insuportável conversa diária sobre os gatinhos e as suas graças, com partilha de vídeos.
Tal como a conversa sobre gatos a beijoquice fora do nicho familiar ou de amizades próximas repelia-me. Cresci com imenso mimo e fartas demonstrações de afecto familiar. Sei que isso me fez tal como sou: crédula à partida na bondade das pessoas e a levantar a cada desilusão. O depósito de amor que me foi creditado na infância é inesgotável, como se renovasse, permitindo a superação a cada contrariedade. Mas esse reduto de carinho estava reservado ao nicho familiar, aos amigos próximos e, naturalmente, aos amores. Estranhava a beijoquice entre pessoas que apenas se conhecem superficialmente e para dizer a verdade sempre achei o aperto de mão nas relações sociais ou profissionais coisa muito mais civilizada. Há no beijo uma intimidade que me parece excessiva. Claro que isto resulta da educação, do gozo que sempre vi nos meus, sobretudo mais velhos, com os excessos de intimidade com meros conhecidos ou estranhos.
E agora? Os gatos. Está a fazer dois anos da chegada do Ritz cá a casa. Ao fim de tantos anos sem bichos para mimar tornou-se centro de atenções. Passou a ser um dos meus ai-jesus. Quando falo com amigos e conhecidos refiro-o amiúde. Já publiquei um vídeo dele no blogue. É assim a vida. Fonte de contradições. Nem por isso faço-o equivaler a gente. A vida do bicho por mais que goste dele não se equipara a do ser humano. Direi isto só por dogmatismo? Por teimosia arreigada a valores herdados? Com franqueza não sei responder à pergunta.
A beijoquice. Ao longo da vida passei por várias circunstâncias em que trocar beijos entre colegas ou conhecidos era um hábito aceite e imposto pela maioria, habituei-me um nada contrariada com base no em Roma sê romana, com a popularização da beijoquice nas últimas décadas na sociedade portuguesa. Acresce que desde miúda tenho uma questiúncula: cresci a dar apenas um beijo quando estava com a família materna e dois beijos quando com a família paterna. Claro que me baralhava, trocando os territórios e usos diferentes. Os meus amigos queixavam-se que os deixava pendurados à espera do segundo beijo. É a vida. Nem todos temos a mesma história em matéria de beijos – isto daria um tratado.
E agora? Aqui nos blogues é uma beijoquice pegada, como já foi antes noutros espaços virtuais em que não conheço a esmagadora maioria das pessoas senão online. Tanto deixou de me fazer confusão como acabo por promover a beijoquice, aderindo ao ambiente menos formal, mais descontraído. Será excesso de intimidade? Corresponderá a uma certa hipocrisia ou falsidade? Por desfasamento do real grau de conhecimento ou cumplicidade entre os beijocadores. Dificultará a seriedade com que assuntos mais densos deveriam ser tratados? A austeridade, que aprecio bastante, conferirá maior sobriedade à abordagem dos temas que vão surgindo? É possível. Mas não haverá espaço para tudo? Não saberá bem a beijoquice distendendo as relações? Não tenho respostas definitivas, nem dogmas sobre a matéria. A vida vai-se fazendo, vivendo.
E o que somos? O que vamos sendo.
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Temas importantes em tempo de guerra e de efervescências várias, em época de mudanças estruturais de mentalidade. Cada vez que escrevo um post como este acima sinto-me a dar lanço à realidade - a deixá-la ir para a apanhar mais tarde -, sinto-me a ganhar fôlego.