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31/07/2024

Alfarrabistas

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Há mais de uma década - não sei precisar bem quando – fui a um alfarrabista aqui no Porto e trouxe quatro tomos desta colecção Os poemas da minha vida, do PúblicoNo caso, escolha de Diogo Freitas do Amaral. Nos outros três: de Mário Soares, Miguel Veiga e Urbano Tavares Rodrigues.


 


Comecemos por partes e a dizer aquilo que é de todo desaconselhável a quem quer ser considerado - e se é evidente que todos queremos ser considerados, desenganem-se aqueles que acham que todos queremos e todos fazemos por estar em cima da burra: há gente estranha capaz até de não ser capaz de estar em cima da burra. Foram raras as vezes em que entrei em alfarrabistas, salvo na Feira do Livro ou em ambiente informal de ar livre. Entrei duas ou três vezes em alfarrabistas nas ruas do Porto, apesar de conhecer várias casas e de sempre ficar de olhar preso à passagem. Tenho ideia de ter visitado um em Tomar e quando viajei por vezes lá entrei num ou outro: em Bournemouth, Madrid, Los Angeles; talvez noutros locais mais ou menos remotos.


Admito que não entro por uma razão simples, que passará despercebida a muitos. Sempre conheci fregueses habituais destes espaços. A prosápia, a vontade de se afirmarem como pessoas intelectualmente superiores que gostam de seleccionar o filet mignon da literatura, do ensaio, da poesia provoca-me imediata vontade de pegar em mim e ir ao Continente ou outro supermercado escolher um livro banal.


É possível que o pecado seja meu: espécie de complexo de inferioridade injustificado que me leva a sentir diminuída ao entrar numa casa em que um par de clientes de ar enjoado face à ignorância que grassa no mundo, faz questão de se mostrar íntimo do dono da casa e íntimo de preciosidades inacessíveis ao comum dos mortais. Nada seria de apontar, se fosse o puro prazer da leitura e da escolha criteriosa do que se lê que estivesse em causa, se daí não se passasse para a proa e o desrespeito pelos outros. Face a esta imagem, apetece-me logo ir trocar impressões sobre literatura com uma funcionária do Continente, com quem sinto maior afinidade. Na verdade, oiço mais os livreiros (não gosto de lhes chamar funcionários, quando fazem bem o seu papel de livreiros – e alguns fazem) da Bertrand, onde sempre encontro uma outra pessoa simpática e com genuíno e desemproado gosto pela leitura.


Para além desta aversão à presunção, a verdade é que tal como numa loja de roupa ou sapataria, ou restaurante, o meu feitio proletário é pouco compatível com a presença inquisitiva e opinativa dos funcionários. Gosto de escolher, comprar e vir embora, sem grandes conversas forçadas para agradar ao cliente. A menos que as coisas fluam genuínas e francas, sem meneios e representações a dar o ar de coisa sofisticada. Não entro, salvo raras excepções, em lojas de roupa, calçado ou restaurantes na moda, chiques e caros. Cada um sabe o que quer para si, e esse mundo de artifício nunca será o meu mundo.


E os poemas eleitos por Diogo Freitas do Amaral – professor e político que já não está entre nós e por quem já aqui admiti não ter simpatia desde o dia em que aos 12 anos fui assistir sozinha a um comício – são na quase totalidade por mim conhecidos, que não sou grande leitora nem frequentadora de alfarrabistas. Abre com o If de Kipling e quase fecha com O Captian! My Captain, de What Whitman – de facto termina com o Infante, de Fernando Pessoa. No entremeio o previsível em português: Gil Vicente, Camões, Alexandre Herculano, João de Deus, Guerra Junqueiro, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Manuel Alegre. Por aí.


É muita pretensão catalogar de previsível esta escolha, quando não sei que “poemas da minha vida” escolheria. Nunca me dediquei muito a pensar no assunto. Nem nos romances da minha vida. Talvez por isso não entre em alfarrabistas. Não sei muito bem o que li, nem estruturar as minhas escolhas de leitura, nem aconselhar outros na leitura. E isso não me preocupa nem comove. Tal como desconsidero as críticas de quem por tudo isto me acha ignorante – a mim e aos milhões de portugueses que não lêem, lêem pouco ou não sabem dar o ar de que lêem. Talvez por isso não entre em alfarrabistas.


Para quê escrever o que acabei de escrever se soa a ressentimento? Pela simples razão desta manhã ao chegar à mesa de trabalho ter o livro lido ontem em cima do portátil, e tudo isto me vir à cabeça. Não faço especial esforço em dizer o que sinto nem gosto de esconder o que sinto. E não deixo de temer ser injusta com quem não tem consciência nem intenção de ser ofensivo. Nem me sinto particularmente contente comigo própria por ser tão crua, áspera e crítica – mas a verdade é que prefiro guardar a meiguice para os que não se têm em grande conta e para os próximos.


Admito, apesar de me saber ridícula, há uma espécie de desejo de representar as pessoas banais – se não conseguir, não se perde tudo: represento-me a mim e às minhas misérias. Mas gostava de representar - aqui nas Comezinhas - as pessoas que têm vergonha de dizer que não lêem ou lêem pouco, mas não fazem de conta que lêem. Porque as que fazem de conta, as que todos os anos enchem as Feiras do Livro e as livrarias na véspera de Natal – como quem vai comprar um relógio ou uma pulseira de marca, não precisam ser representadas: são as das modas, as que vão com a maré e até pode ser que entre elas uma ou outra tome o hábito de verdade e comece realmente a ler. São as que enchem a internet de conselhos sobre o que vestir, o que comer, o que ler e de muitos emojis com corações, arco-íris e beijinhos muito fofinhos. São as que debitam clichés sobre os benefícios da leitura. Não são de facto essas as pessoas com quem sinto maior afinidade, mas sim aquelas a quem é difícil ler, aquelas em que tudo na vida afasta do tempo, do espaço mental e predisposição para a leitura, e que apesar disso merecem ler, serem chamadas à leitura sem serem tratadas de cima da burra.


E ao escrever burra lembrei-me do escadote de madeira para vindimar as ramadas de videiras – a burra; tenho saudade da burra e até faria outro postal sobre isso, se tivesse tempo. Está na hora do ponto final.


...


Aqui.

30/07/2024

Comentários & Magusto

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É hora de explicar as razões da opção por não abrir a habitual caixa de comentários nas Comezinhas. São essencialmente duas. Lido mal com o contraditório, coisa que não é habitual admitir-se num mundo em que todos se dizem muito democráticos, sejam ou não. E poupo os potenciais comentadores aos disparates de outros comentadores ou às minhas próprias patetices e maus humores. Como se houvesse muitos (ou vários, na melhor das hipóteses) comentários. Mas, enfim, façam por acreditar que isto é um blog a sério.


É essencialmente por isto. Admiro quem sabe debater até às últimas consequências, mantendo sempre a elevação, o humor e o poder de encaixe mesmo quando a javardice impera. Mas não fui bafejada por tão nobres qualidades. Nem com o dom da moderação. E, como além de déspota e imoderada sou incoerente, no último ano e depois de muitos anos afastada das virtualices, deixo comentários em espaços alheios, que sigo assiduamente seja por entretenimento ou para ver se aprendo qualquer coisa.


Para quem foi habituada toda a vida a ser alvo de chacota e a fazer chacota dos outros, o que hoje consideram bullying parece-me coisa para meninos. Entre familiares e amigos vivi sempre de picardias. Aliás, nem sei viver sem elas. Mas nas raras vezes em que tenho juízo poupo-me às desconhecidas, por não estar para aí virada.


Além do que, em boa verdade, comentários não fariam muito sentido num blog de pendor confessional, a forma civilizada de dizer narcísico e exibicionista. E mais: não há aqui substância suficiente para debater.


De qualquer modo, está sempre aberta a caixa de mensagens ali na coluna da direita. Não é pública, mas não se acanhem, sobretudo, em críticas e chamadas de atenção. Só peço é que caso queiram que saiba quem são, identifiquem-se no corpo do texto, porque a caixa é anónima. Não é indirecta, é só para explicar como funciona.


Aproveito para agradecer a quem por cá passa. Faço muito gosto que percam uns minutos com coisas comezinhas e patetices.


E aos que vêm cá com mais frequência quero confessar que as Comezinhas servem sobretudo para me divertir (isto diverte-me) e para ver se aprendo a escrever. Se é verdade que para saber escrever é preciso ler, não é menos verdade que é preciso escrever muito. As Comezinhas funcionam como as primeiras semanas a seguir às férias na escola primária. Quando ficava sempre impedida dos recreios, até acabar de terminar as cópias dos deveres que nunca fazia em casa. Escrever aqui é como fazer os deveres em público. Acho que este foi um momento de saudade da boa e compreensiva irmã Maria Júlia, professora da terceira e quarta classe, que me deu uma única palmada na mão em dois anos, e com toda a razão: depois de avisada para o erro insisti no magosto na redacção sobre o São Martinho. Eu gosto muito do Magusto! Ainda mais, fora de época.


Boa semana.


...


Aqui.


 

29/07/2024

Canso

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Parque da Cidade - Porto, 3  Dezembro 2019


 


*


 


O olhar seco.


Se tanto,


a estima.


 


Quanto menos só,


mais longe


de quem sou.


 


Porto, 27 de Julho 2017


 


...


Aqui.


 

Chá & Conversa

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A semana que agora começa será no essencial dedicada ao histórico das Comezinhas recapitulando alguns postais já escolhidos esta noite. Durante uns dias troco o pista de atletismo pela bancada. Fico a descansar continuando a observar o espingardar dos iluminados.


Votos de boa semana, agora que se aproxima Agosto, suposto mês de descanso.

28/07/2024

Lido

1. O líder supremo do Irão, Ali Khamenei, ratificou hoje o reformista Masud Pezeshkian como novo presidente do país, estando a tomada de posse marcada para terça-feira, no Parlamento.



"Se aplicarmos as políticas gerais do líder supremo, seremos os melhores", garantiu, ao mesmo tempo que prometeu "justiça" ao povo iraniano e apelou mais uma vez à unidade nacional e a que sejam deixadas "as diferenças de lado", numa aparente alusão aos setores conservadores do país.


Pezeshkian venceu as eleições presidenciais com 53,6% dos votos, contra o ultraconservador Saeed Jalili com 44,3%.



2. Hezbollah mata jovens em campo de futebol e Israel responde com bombas no Líbano



"Estamos a aumentar muito a nossa preparação para a próxima etapa do combate no norte", disse o responsável do Estado-Maior do exército israelita, Herzi Halevi, durante uma visita ao campo de futebol atingido pelos rockets lançados pelo movimento islamita libanês Hezbollah.



"Atacaremos duramente o inimigo", sublinhou o ministro da Defesa israelita, Yoav Gallant, em conversa com o líder espiritual da comunidade drusa, o xeque Mowafaq Tarif, que também falou com o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu. O projétil do Hezbollah, movimento pró-Irão, caiu num campo de futebol na cidade drusa de Majdal Shams, onde jogavam rapazes e raparigas drusos (comunidade árabe), matando 12 pessoas. Foi confirmada a identidade de onze das vítimas, todas menores entre os 10 e os 16 anos.



3. O chefe da diplomacia da União Europeia (UE) apelou, este sábado, a uma "solução política" na guerra contra o Hamas na Faixa de Gaza, após um ataque israelita ao edifício de uma escola que terá provocado pelo menos 30 mortos.



"Mais um ataque contra uma escola utilizada como refúgio para os deslocados internos em Khan Younis. Em simultâneo, uma população já muito fragilizada é forçada a deslocar-se para outros locais por várias vezes, sem que se veja um fim", prosseguiu o chefe da diplomacia europeia numa outra mensagem.


O ataque israelita dirigido a uma escola de Deir al-Balah, no centro de Faixa de Gaza, foi pelo menos o oitavo que atingiu edifícios escolares desde 6 de julho.


Segundo o ministério da saúde controlado pelo grupo islamita, estes ataques provocaram mais de 100 mortos.


O Exército israelita indicou que a operação de hoje se destinou a atingir terroristas que se encontravam nas instalações.






 


4. Há 11 anos no poder, Nicolás Maduro espera a reeleição nas presidenciais da Venezuela, mas as sondagens dão vitória à oposição. Analistas políticos ouvidos pelo JN traçam um cenário económico e social devastador e avisam que as antigas táticas de intimidação já não funcionam.



Num país em colapso económico, as estatísticas de académicos e universidades privadas (o Governo não providencia números oficiais) apontam para mais de 90% dos cerca de 30 milhões de habitantes a viverem abaixo do limiar da pobreza e 50% em pobreza extrema. A mudança pode chamar-se Edmundo González - o candidato escolhido pela Plataforma Unitária Democrática, aliança da oposição, depois do afastamento forçado da liberal María Corina Machado, que, embora não seja a candidata oficial, continua a ser o rosto da oposição nestas eleições (leia abaixo o perfil). 


[...]


Traçando um cenário económico e social devastador, o jornalista venezuelano Elides Rojas indica ao JN vários fatores para que a balança penda para o lado da oposição. “Há mais empobrecimento, mais desemprego, não há gasolina, não há eletricidade. Não há água potável. A inflação está acima dos 270%. Há muito descontentamento e uma perda de apoiantes do Chavismo”, resume Rojas, que aponta ainda a falência dos sistemas de saúde e educação e a deterioração dos salários, que não chegam para suprir as necessidades básicas.









Ainda assim, “é muito difícil saber o que vai acontecer”, diz ao JN Alejandro Motta, diretor da consultora Think Consulting, especializada em análise da opinião pública. “Numa eleição normal, Maduro perderia. Se fizermos uma média das sondagens, Edmundo González Urrutia teria cerca de 60% dos votos, Maduro 30% e o resto seria dividido por uma dúzia de candidatos, a maioria dos quais ao serviço de Maduro para fragilizar a oposição”, diz.


 



Mas a normalidade não está garantida e o risco de manipulação “existe sempre com este Governo”, não só no dia das eleições: “É preparada com antecedência: negando o direito de voto aos venezuelanos no estrangeiro, mudando as assembleias de voto para dificultar o voto dos eleitores, desqualificando os líderes políticos, nomeando amigos pessoais de Maduro para dirigir estas instituições... A chave é ver se estas condições são suficientes para impedir a mudança política através do voto.”[...]Em eleições anteriores, os partidos da oposição foram proibidos de se candidatar, sendo rotulados pelo Governo como "marionetas fascistas" alinhadas a potências estrangeiras - como foi o caso do ex-deputado e opositor Juan Guaidó, que está em exílio e se diz "perseguido" pelo "regime" de Maduro. Desta vez, o presidente autorizou a participação da coligação de opositores, a Plataforma Unitária, e o acordo resultou num breve alívio nas sanções económicas dos EUA, que acabaram por voltar a ser impostas face ao bloqueio, do Supremo Tribunal da Venezuela, da candidatura da liberal María Corina Machado. Outros opositores também foram inabilitados politicamente.


 


 





6. O líder catalão independentista Carles Puigdemont, exilado desde 2017, prometeu, este sábado, regressar a Espanha para participar no debate de investidura do próximo presidente da Catalunha, não obstante o mandado de captura emitido contra si.



Foi a primeira vez que Puigdemont, que abandonou o país após a tentativa abortada de secessão da Catalunha em 2017, para escapar à justiça espanhola, falou em público desde que o Supremo Tribunal espanhol recusou, a 1 de julho, permitir-lhe beneficiar da lei de amnistia para os separatistas catalães.







 


 


Vários países ocidentais, nomeadamente os Estados Unidos, criticam a China por ter reforçado o seu apoio económico a Moscovo e acusam as empresas chinesas de venderem produtos na Rússia para apoiar o esforço de guerra do Kremlin.










 


9.  O secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, manifestou hoje preocupação com as "ações provocatórias" da China sobre Taiwan, durante uma reunião descrita como "aberta e construtiva" com o seu homólogo chinês, Wang Yi, segundo o Departamento de Estado.



O chefe da diplomacia norte-americana manifestou "a preocupação dos Estados Unidos com as recentes ações provocatórias da China, incluindo um bloqueio simulado aquando da tomada de posse" do Presidente de Taiwan, Lai Ching-te, disse o alto funcionário norte-americano.









 







Após a tomada de posse do novo Presidente Lai Ching-te, em maio, a China cercou Taiwan com navios de guerra e aviões militares no âmbito de manobras militares. Estes exercícios seguiram-se a um discurso de tomada de posse que a China denunciou como uma "admissão de independência".



 



10.   Revelada identidade de espiões sul-coreanos na Coreia do Norte










 



 



 


 


 


 

Comentários rápidos.

 

Gosto de ler o Jornal de Notícias e de ter voltado ao jornalismo de antigamente. Mas faço um reparo. Continuo a notar que não sabem, tal como a SIC, a diferença de usar os verbos "avisar" e "ameaçar". A menos que queiram marcar posição e não me parece que seja o caso.

 

Fico sem saber o que se passa em diversas partes do mundo que parecem apagadas do radar das notícias. Seja no JN seja nos outros jornais nacionais. Quando quero saber de qualquer coisa consulto o The Guardian, e ainda assim é difícil.

 

De tarde se não sentir necessidade de descansar, lerei as outras notícias, incluindo as nacionais.

 

Entretanto vejo por aí agressores instalados na sua cobardia virtual chamarem loucos a pessoas lúcidas. O fenómeno Trump e as suas tácticas de amedrontar criam lastro.






Fim-de-semanário

Afinal continuo com o comezinho. Ontem passei parte da tarde na Aguda. Na Associação Cultura Curto Espaço. A casa festejava oito anos e chegámos ainda antes de abertura. Os horários ali são de franca liberdade. Gostei de conhecer um espaço acerca de qual há me havia chegado eco por quem é pouco apreciador – nada como ouvir sempre e conhecer os dois lados das causas; é o caminho mais difícil e cansativo, mas é o que me calhou. Fui com a T. de comboio. Saímos na Aguda e no regresso apanhámo-lo na Granja. Há quantos anos não me passeava pela Granja.



 



Como tinha dormido apenas três horas a disposição não era grande pintarola. Havia-me cansado muito, a mim e ao Nuno, com conversas exaustivas. Mas não tive coragem de desmarcar. Fiz muito bem em obrigar-me sair. Só faz bem arejar e já estão apalavradas outras saídas com a T., voltarmos à Aguda, mas para fazer praia. E jantarmos com o C.


A chegada a casa não foi feliz. O Nuno teve um episódio de epilepsia. O que nos assusta sempre. A mim pela surpresa do fenómeno e pela sensação de impotência. A ele quando lho conto, por não se aperceber que passou por uma alteração de consciência. Hoje pela primeira vez li na Internet acerca da maleita. Não me recordo ter lido antes apesar de no passado ter tomando três anos medicação para epilepsia para tratamento doutra doença, com prejuízo claro das faculdades mentais – não foi só sensação minha, atestaram outros médicos de todo contra-indicado terem-me dado aquela específica medicação. Voltando ao Nuno, o medicamento que toma não parece afectar a bom funcionamento da inteligência, mas ao que verifiquei ontem, a falta de toma de um dia, associada a poucas horas de sono, stress e ansiedade pode gerar uma convulsão. Mais um alerta para termos cuidado e defender-nos. E um alerta para a necessidade de ter o cuidado de não cansar o Nuno. Já chega cansar-me a mim.


Talvez por isso tenhamos refeito os sonos esta noite. Dormi nove horas seguidas, tendo acordado relaxada como devia acordar sempre. Tenciono nas próximas semanas descansar e pôr um ponto final neste estado de exaustão que tenho vindo a viver. Uma noite bem dormida e um acordar com ânimo para um pequeno-almoço farto. Mais olhos do que barriga. Foram as duas torradinhas (ai o erro crasso de linguagem no uso de diminutivos; heresia) com café, e dividi com o Nuno a metade da fatia de bolo de chocolate que comprei ontem de manhã na padaria. Não tive vontade durante o dia de ontem de a comer, e hoje também não me souberam por aí além as duas garfadas que ingeri. Cedo demais para doces.


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São agora nove e meia da manhã e tenciono ler os jornais online.


Para que não se pense que consigo um postal sem uma alfinetada – interpretada como mexericos por precipitadinhos da Silva ou mesmo maliciosos; sabem lá da contenção e do bom senso precisos para travar os dedos face a injustiças violentas dissimuladas – digo apenas que há todo um mundo para lá do “eu é que sou o Presidente da Junta” manifesto seja na forma seja na substância de alguns discursos. O que quero dizer? Que tentar mostrar-se sempre mais conhecedor - alinhando em correntes de linguagem de época, em vagas de moda instruída, para se alçar a grande mestre - por mero despique de achincalhamento é uma menoridade.


Numa olhadela rápida prévia sobre as parangonas o que me saltou à vista foi a forma como os trogloditas ultra-conservadores estão a sair da toca onde estiveram escondidos nas últimas décadas. Quem conhece o fenómeno das agressões dissimuladas por este tipo de gente no mundo online sabe que são muitos e perigosos. Fazem parecer os tontos devotos do movimento woke meninos de coro. Todavia a intelectualidade vip continua preocupada apenas com estes últimos. Apesar das constantes lições de história que gosta de dar, a intelectualidade de pacotilha há-de preocupar-se com os criminosos dissimulados ultra-conservadores quando a coisa já estiver quase insolúvel. Até lá vai continuar a insultar os alvos destes agressores, sugerindo que se trata apenas de má-língua de oportunistas medíocres ou loucos (um cliché da História, chamar louco tentando desacreditar quem alerta para os perigos reais do mundo no momento certo e não tempos depois quando o dano se verifica para colher os louros). E nós aturámo-los. Aos woke, aos ultra-conservadores e aos intelectuais com audiência que vivem de rentabilizar o despique entre facções.    

27/07/2024

Cristianismo

Tudo me causa reparo no Cristianismo. Nossa Senhora ou Virgem Maria representa tudo quanto uma mãe não é. Mãe é por natureza biológica injusta e agressiva na defesa das crias. A benevolência e bondade da Virgem Maria é uma ficção mal-amanhada. Deus é representado como pai. Masculino. O que não faz sentido algum, como de resto não faria sentido se fosse feminino. Deus há-de ser uma entidade neutra, assexuada. E a figura do Espírito Santo não me satisfaz. Por isso me refiro sem diferença a Deus ou Universo. Deus está acima da família e da questão da fecundidade humana, apesar de ser esta que dá aos homens o sentido da vida. Cristo como sacrificado por todos nós é a visão mais medonha que se poderia conceber. Um filho sacrificado é sinónimo de terror.


Nada faz sentido. Ainda assim todas as semanas, de segunda a sexta-feira, desde há mais de um ano entro na igreja pela qual passo de manhã antes de ir trabalhar e rezo três Ave-Marias, um Pai Nosso e a Oração do Anjo da Guarda. Entro e saio da igreja em coisa de dois ou três minutos e muitas vezes sinto este paradoxo. Que raio lá vou fazer se penso como penso? A razão está na paz que encontro comigo pela educação que tive em criança. Sinto-me tranquila e sem ressentimentos face à religião, apesar de questionar tudo quanto é professado pela Igreja Católica. Nunca tive motivos fortes para me sentir mal com Deus ou Universo, apesar dos erros da Instituição que pretende representá-lo e não sou desconhecedora de todo da sua história e causas.


Dizer isto implica para os não crentes falar do que não tem interesse e para muitos intelectuais crentes a ideia que sou uma ignorante teológica. Uma furiosa néscia do movimento woke. E considerarão tudo quanto acabo de afirmar sobre o tema argumento risível de tão ridículo. Marimbo no rótulo. É mesmo assim, apesar de desde criança pequena conhecer os evangelhos por curiosidade própria ainda que não saiba sistematizar os ensinamentos. Não costumo anunciar tudo quanto conheço nem me vangloriar de sabedoria como é tão usual no espaço público. Vivo bem com os rótulos e com a minha tranquilidade apesar do habitual questionamento. Faz parte. Interpreto o Cristianismo como um conjunto de princípios de bondade a praticar em vida. É o que me importa, tudo o resto é moldura que me diz pouco ou nada.


Estou convencida que o dito neste texto não destoará do que muitos pelo mundo fora pensam. Isso transformará este post numa banalidade inútil?

Curiosidades soltas

- Isto hoje vai ser particularmente difícil pela camada de sono com que estou.


Ias falar de electricidade. Comecemos pelo princípio. Pelo básico. O que é a electricidade?


- É a circulação de electrões entre átomos de forma a equilibrar as cargas negativas e positivas.


- Fiquei na mesma.


- O estado natural do átomo é a neutralidade. No entanto, alguns fenómenos externos provocam a circulação dos electrões causando desequilíbrio. Exemplo: fricção dos materiais.


- Não te importas de falar do tanque e da água para que eu perceba.


- Era justamente isso que ia dizer.


Se por fricção ou temperatura ou magnetismo electrões concentram-se num material e faltam noutro dá-se a carga eléctrica, ou seja, um material ou sua parte está carregado electricamente devido ao excesso de electrões e outra parte está com a carga oposta, isto é, com ausência de electrões. O que tem mais electrões está com carga eléctrica negativa e o que está com menos carga positiva.


- Olha a água e o tanque, sff.


- É exactamente o que acabei de dizer. Considera que os electrões são água, o átomo ou o material que tem mais electrões corresponde ao tanque cheio e o átomo que tem menos electrões ao tanque vazio. São a carga negativa e positiva (positiva por ter espaço para receber electrões). Se ligarmos uma mangueira entre o tanque cheio e o vazio e fizermos passar a água dá-se uma corrente. Assim é com a electricidade. A corrente eléctrica é a circulação de electrões entre as partes cheias (negativa) e vazias (positiva).


 


(Conversa com o Nuno na noite de 25 de Julho; um pouco alterada para efeito de publicação no blogue – limpa de implicações mútuas para chegarmos a consenso; num próximo Sábado falaremos das várias formas de gerar electricidade.)

26/07/2024

Jantar

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Última fotografia da série de quatro jantares seguidos entre terça-feira e hoje. Coelho estufado com batata cozida. Enquanto dava uns pedaços pequenos pedinchados pelo Ritz, contava ao Nuno os acontecidos do dia e referia como é confrangedora a falta de inteligência dalguns matarruanos auto-promovidos a intelectuais. Esticam-se, esticam-se muito mas não conseguem perceber nada do que vêem à frente do nariz, sempre a gingar entre o julgamento apressado e a adesão às conclusões mastigadas até ao ponto de chavão. O tipo de gente que só cem anos depois compreende o que se passou no tempo presente. Atirando à cara dos outros a História sem a saber interpretar. Transpondo lições descabidas. Enfim, sempre atrasados, nunca chegam a tempo. Jamais abrem caminho, apesar de sempre sugerirem fazê-lo prestando-se ao ridículo de aconselharem outros, supostos ignorantes. Desejariam muito que todos aderissem à paranóia ruidosa de arremesso de argumentos facciosos que promovem a que chamam realismo. Convencidos que são verdadeiros oráculos. Parece impossível haver gente a não querer aderir. Os pobres diabos metem dó de tão agressivos nos seus juízos ora precipitados ora a tresandar a bafio. Em suma, todos os tempos têm os seus patos.


O Nuno sorriu e disse-me que as batatas cozidas estavam boas. Achei a conclusão brilhante. E logo adiante concordámos na segurança das palavras certeiras de Kamala Harris. Inspira confiança. Foi um bom jantar. O coelho saído da cartola estava óptimo. Puro acaso. Magia. Parece fácil, não é?


A ver se por uns dias não ponho fotografias de jantar ou outros tópicos comezinhos não vá causar um enfarte de fúria por enxofre natural nalgum matarruano incauto arvorado em intelectual.

The Swingle Singers


A minha composição predilecta.

Agenda

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Registo para agenda futura: romancear um ataque em matilha durante 24 anos de uma rede de amizades interesseiras - para defesa e encobrimento de agressores falsários que dissimulam a identidade online ou apenas o discurso ofendendo, enganando e pilhando, ajudando a alçar ao poder oportunistas com quem trocam favores -, contra uma pessoa isolada que percebeu a natureza asquerosa da corja e a denuncia. Eis a que se pode reduzir a vida interessante de muitos inteligentes bem-sucedidos que peroram sobre os destinos do mundo e a ignorância dos indivíduos que nele habitam. A elevação do logro a discurso dominante com ar de ilustração e a tentativa constante de fazer desacreditar a mais singela verdade. Parece pimba ou alucinado? Um filme de clichés norte-americano? Deixo a ideia para um qualquer talentoso/a escritor/a de best sellers


Está uma sexta-feira linda. Excelente fim-de-semana. 

Posfácio-noitário

E pronto. Fiz tudo quanto me propus às seis e meia da tarde no post Prognoitário abreviado, com acrescentos: também levei o lixo para o contentor da rua, fui ao ecoponto (costuma ser à sexta, antecipei-me) e enviei email para o Centro de Saúde uma vez que deixei passar o prazo de uma das receitas.


Que mais de relevante se passou no dia? Apesar do portátil já estar a funcionar, o rato de fio não responde. Já tentei configurar em vão. Passei na Bertrand e não comprei nada. Avisei logo à entrada que só ia ver. Deram-me como é habitual nos últimos tempos a revista da livraria Somos Livros. E à hora de almoço fiz a compra mais importante. Detalho no parágrafo seguinte. O assunto é de suma importância por isso merece a solenidade do anúncio.


Podia falar do Orçamento do Estado português, da visita do Primeiro-Ministro a Angola, da visita de Benjamin Netanyahu aos Estados Unidos, das eleições venezuelanas ou norte-americanas, dos vários conflitos em curso no mundo, na Ucrânia, em Gaza, na Síria, no Sudão, no Iémen, no Burkina Faso, em Mianmar, na Somália, na Etiópia, na Nigéria, ou dos jogos Olímpicos, da pré-época de futebol.


Mas não, vou falar de Herbal Essences – acabei agora de reparar no nome da marca já que comprei o frasco de óleo anti-encrespamento do cabelo sem estudar minuciosamente o rótulo.


Sempre tive cabelo fino e tendencialmente despenteado. Mas nos últimos anos, além de parcialmente branco (começou bastante mais cedo) ficou ralo e encrespado. O que me dá um ar sempre pouco cuidado – sem peias, ar de bruxa.


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Andava há muito tempo para averiguar como resolver este gravíssimo drama que afecta a evolução e sobrevivência da humanidade e eis senão quando na semana passada entrei num elevador com um conjunto de meninas de uma clínica a funcionar no edifício onde trabalho. O que comentavam? O frasco de óleo anti cabelo frisado que uma delas trazia na mão. O que se aprende nos elevadores é um mundo. Já pus hoje e fiquei um nada menos despenteada. Agora só falta voltar a tomar o manipulado de zinco (não tolero senão fizer uma refeição antes da toma) para ver se recupero um pouco de cabelo.


 


No próximo fim-de-semana tentarei ver o que se passa no mundo (o que nos chega através dos jornais) para me redimir de tamanho egoísmo e insensibilidade. Todavia ainda assim e com desplante vou relaxar no Sábado indo à Aguda conhecer um espaço junto à praia. Depois contarei, como é costume.

25/07/2024

Jantar

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Prognoitário abreviado

Mais daqui a pouco vou levantar o portátil à loja de informática do centro comercial próximo onde o deixei a arranjar de manhã. Depois de jantar o franguito com arroz de cenoura que comprei à hora do almoço (com um pouco de falta de originalidade e correndo o risco de ficarmos de olhos em bico estamos em maré da arroz por estes dias; três jantares seguidos: anteontem arroz de tomate e esparregado de espinafres com panados de concentrado de peixe, vulgo, iglos, ontem arroz branco com ervilhas e cenoura e língua de vaca estufada e hoje arroz de cenoura com frango assado), tenciono fazer compras de supermercado online (começa a haver falhas, ainda há pouco ligou o Nuno a dizer que não esquecesse os snacks do gato), desafiar o pianista para uma conversa acerca do que ele quiser e reduzi-la a escrito para a rubrica de Sábado, ir à farmácia (deixo para hora tardia da noite na tentativa de não ter filas), ler no máximo duas páginas (a última vez que abri um livro foi na segunda, ou terá sido terça?, já não sei, mas na realidade não o abri só, li-o integralmente, tratava-se de poesia; quanto ao livro Duracell no activo está pousado desde o fim-de-semana) e se sobrar genica, escrever mais um postal. Pronto, noitário pronosticado.

Saltitões

Não me lembro do nome, mas em novita via os meus primos mais novos brincar com um jogo de tabuleiro a que vou chamar Saltitão. Consistia em dar marteladas rápidas nos bonecos que saltavam enfiando-os no tabuleiro.


É o que me traz à memória a Actualidade. Numa semana há uma manifestação anti turismo de massas em Barcelona, na semana seguinte saltam umas tias empolgadas em Sintra e Cascais possessas com o desassossego no seu quintal. O Presidente da Câmara de Lisboa, então, vai a todas saltitando de excite em excite. E reparem, tem todo o ar de ser boa pessoa.


Note-se que não julgo a bondade das causas. Às vezes o que os move é benigno. É boa vontade. Mas não deixam de ser curiosas as qualidades que se exigem para riscar no espaço público no presente. Rapidez de reflexos, mais do que consistência. E claro que ponderei o outro prato da balança. O imobilismo atávico que deseja conservar tudo num passado idílico imaginário. Convenhamos, duas modalidades de unicórnio.


O palco do espaço público assemelha-se a um velho Liceu dicotómico onde leccionam provectos professores já esclerosados, mas cuja gestão pedagógica está entregue aos caprichos da Associação de Estudantes pejada de ambiciosos excitadinhos da Silva dos 8 aos 80.


E pergunta quem passa: mas que raio este postal contribui para minha felicidade? Pergunto-me o mesmo. Estou solidária com o leitor. Não sei se patrocine uma Manif para fechar a cadeado as Comezinhas - este antro de balelas. Afinal hoje vale tudo para chamar a atenção.


Boa noite.

24/07/2024

Jantar

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Já repararam?

Já reparam como na grande maioria dos casos o louco é o do lado? Acontece muito nos hospícios. O insano é sempre o outro. Curioso, não? Este mundo cheio de gente tão conhecedora, esplendidamente sábia e de mente sadia em absoluto, pronta a aconselhar, a incitar e, claro, a julgar... o outro - seja ele indivíduo, facção ou nação. A troco de quê? Já pensaram?


Quais serão as grandes causas do segunda década do século XXI? Resistirá alguma à chacota inteligente e cínica?


Sobrará mundo para amanhã? Ou não?, está tudo nas mãos da sapiência que tudo devora e destrói? Hei! Viva a glória destrutiva das sumidades. Sóis grandes. Curvo-me perante tanta inteligência e conhecimento. Os cacos do mundo são vossos.

The Swingle Singers


Sugestão do Vicente, companheiro da Margarida, que passou mais uma madrugada nas suas buscas.


A referência ao Vicente, ao pianista, isto é, ao Nuno, é uma reminiscência dos primeiros meses de postais das Comezinhas. Em cinco anos muito muda, mas a essência, o que é mais importante, mantém-se. Cá estamos. Cá estou depois de 24 anos atribulados. E de meio século de caminhada. O mundo vai mudando. Uns catalogam, outros vivem. Temos de nos desviar do insalubre e continuar a caminhada em paz. Aprender com os próprios erros, corrigi-los e não permitir que nos destruam a tranquilidade alcançada e os sonhos por conquistar.


Está-se bem, apesar de mais uma avaria, agora no meu portátil e de contrariedades menores.

23/07/2024

Espécie de Mazagrã

Por inspiração da Mafalda, que deu a ideia de preparar para este dia quente uma bebida de café, água, limão e gelo, resolvi fazer depois do jantar uma espécie de Mazagrã. 


Bebida com o nome da cidade argelina, popularizada pela Legião Estrangeira e comum em Portugal no século passado.


Comecei por batota na água. Em vez de água lisa, resolvi apurar que garrafas havia em casa. Escolhi água das pedras simples, sem sabor. Juntei um limão, um café expresso, gelo e só tinha hortelã já seca (o que me acontece muito). Et Voilà, bebida pronta.


Desde o tempo da faculdade não preparava refresco de café. Está-me a saber bem. Obrigada pela ideia, Mafalda.


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Jantar

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Cirque du Soleil

Mais pulseiras

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Malaquita, jaspe vermelho e jade amarelo. Vivam as cores.

Aviso: lacraus à vista

No Domingo à tarde sonhaste com um lacrau num jardim. Em verdade não o tomas por mau sinal, mas indo às menoridades: diz o pimba ser sinónimo de falsidades. Ora aproveitas para deixar um aviso às macacas e macacos de imitação. Há muitos anos deste um coice e calcaste com pé pesado um lacrau experimentado e passaste a conhecer-lhes a peçonha. Ficaste imune ao ferrão dos mansos agressores. Aproximam-se dissimulados de gente e mesmo de identidade falsa, demonstrando grande admiração e intimidades. Desleais traem a confiança e roubam. Embrulham o produto do furto em papel vistoso reles e regozijam em vão do sucesso das suas vendas. Grande vitória. Na sua enorme pequenez sentem-se grandes criadores - triunfantes. Estão habituados à mimetização e é ela que lhes dá sustento, a pretexto de tudo no mundo parecer coincidência.


A lacrauzita do sonho era pequenita e anda para aí a roçar-se de aprendiz a ver se continua a ganhar a atenção dos promotores. Como tantas e tantos outros fizeram antes com grande sucesso. Deles e delas se cerca e alimenta quem agride. Não percebeu que nem precisa de esforçar-se. É papel-químico em bicos dos pés: falsidade da mais pura. Já chamou a atenção e encantou os olheiros. Tem tudo quanto os atrai e a vida feita como mais uma trafulhazita de matilha.


Só não te esqueças nunca de não cair na mesma armadilha. O alerta também serve para ti. Olha a carapuça. Nunca te ponhas de fora do nojo. Da tentação da facilidade. A sujidade toca a todos. Tens de estar sempre alerta para a contaminação. É sempre mais fácil enganar. Mantém-te a dar coices nos interesses, mesmo que uma vez por outra possas ser injusta ou dura demais como dano colateral.


Quanto ao que te importa verdadeiramente. O lacrau branco do sonho veio só avisar-te do poder da união dos muitos que se querem bem de uma vida inteira. Dos laços fortes e sólidos que não se desfazem. Eternos. Dos muitos que povoam a tua vida e os teus sonhos e continuarão a povoar. As tuas telas vivas do quotidiano de Bruegel. Laços indestrutíveis e imunes à peçonha de grupelhos de interesse que vivem das imitações, dos falsos elogios, da proa, das referências, das citações, dos logros e das traições. Ah, gente fútil e asqueorosa. Vómito. Só ao coice.


E lá passas tu a imagem de mau feitio, tolice, conflituosidade e até falta de inteligência e ausência de educação perante um admirável mundo de tão “fofas” e aparentes amizades, de falsa civilidade, de convívios tolerantes e cordatos, de vidas lindas e vaporosas. 


Assim não vais longe. A lorpa das franquezas e até dos esoterismos, imagine-se. És incorrigível. Mas fica registado: só para que não te comam por parva. Afinal incham cada vez mais à custa da trafulhice. A abominável verdade deste lamaçal.

Simplicidade

Como dizer o indizível? Como se faz a ponte sem desmerecer e expor as fragilidades das margens? Do modesto ao sumptuoso. O caminho mais difícil. Arcar com o odioso de se fazer passadiço das batalhas e desentendimentos entre o orgulho de dois mundos. Vergar a coluna e fazer das costas estrada e elo de mundos díspares ouvindo os mais jactantes dissertar acerca da falta de espinha.


A simplicidade que dá nova esperança e vida ao mundo. E cora de vaidade por saber suportar a incompreensão por boa causa. Num tempo em que vinga a glória do sarcasmo sobre a procura da bondade e felicidade, essas primas beatas e deselegantes que envergonham a inteligência e o cinismo triunfantes.

22/07/2024

Cirque du Soleil

Chá & Conversa

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O Chá & Conversa de hoje limita-se a reproduzir a notícia sobre as eleições presidenciais norte-americanas e a recordar um trecho do post Madrugada, aqui publicado a 16 de Junho de 2024. Neste momento não tenho nada a acrescentar.


Kamala Harris é candidata à nomeação democrata: "Juntos vamos vencer", no Jornal de Notícias, ontem, 21 de Julho de 2024.



A atual vice-presidente dos Estado Unidos agradeceu o apoio expresso por Joe Biden - que hoje desistiu da corrida à Casa Branca - e anunciou a candidatura à nomeação democrata para as eleições presidenciais de novembro.


*


Segundo assunto. As mulheres que falam do comezinho e o paternalismo dos homens conservadores. Há uns tempos, já depois de ter este blogue há pelo menos dois ou três anos, ouvi um homem conservador elogiar uma obra de ficção de uma mulher que falava do seu dia-a-dia e dos aspectos mais comezinhos da vida, transformando-os em arte. Vi esse mesmo homem há menos tempo referir-se a uma política dizendo que havia ali muito trabalho de preparação a fazer porque era inexperiente. Estamos a falar de política internacional e de uma mulher de sessenta anos, que se estreou a trabalhar no mundo político aos 26 anos, começou a exercer um cargo público para o qual foi eleita pela primeira vez aos quarenta e desde aí tem cargos políticos. Porque me lembrei disto agora? Por ser recorrente este tipo de reparo às mulheres. Nunca estão preparadas senão para o comezinho. Ah, tão engraçadinhas que elas são, tão femininas e apetecíveis a tratar da casa. Ou a fazer de rainhas e princesas – um dos papéis mais duros, diga-se. Ou o papel de heroínas. Mas atenção: de acólitas. Essa é a condição. Em matéria de ajuda humanitária, então, é uma questão de vocação inata. Ah, aí é o seu habitat natural, agora política e liderança é para homens experimentados – mesmo quando não tenham experiência nem ponta talento ou valor. E andamos nisto há séculos. Repare-se que não falo de um burro, pelo contrário, considero a pessoa em causa. Mas é o tal costumeiro pezito a fugir para o machismo. Sempre muito disfarçado, muito caridoso, de quem gosta e aposta muito nas mulheres inofensivas.


Deixo só uma nota final para explicar a razão para não nomear figuras acerca de quem falo. Creio já ter tentado antes, a ver se desta explico cabalmente. Vivemos num mundo onde todos sabem tudo, todos têm opinião sobre o mais ínfimo pormenor da vida alheia. Quase todos desenrolam novelos de factos sobre cada situação analisada, acumulando camadas sucessivas de julgamentos prévios acerca de cada detalhe de vida das pessoas e das circunstâncias. Cada pormenor é um factor de adesão a uma falange de argumentos. Ao não identificar as pessoas trato das ideias em vez de me debruçar sobre as pessoas. Recusando-me entrar nesse jogo absurdo de sapiência e de argumentação desenfreada sobre o sexo dos anjos. Curiosamente, a esta fuga consciente da intriga há quem chame conversa de café, privilegiando e enaltecendo a questiúncula minuciosa – a que chama rigor dos factos. Eis uma das mais comuns distorções da realidade do nosso tempo



Escrito e publicado aqui nas Comezinhas, a 16 de Junho de 2024.


 


E termino o post por aqui, até porque tenho de me levantar cedo. Depois do electroencefalograma do mês passado e da consulta de rotina no início do mês vou acompanhar o Nuno à ressonância magnética encefálica. Exame marcado para as 8:30 horas no Hospital para preparar a consulta da especialidade em Agosto. Às 8:30 horas, antes de ir trabalhar. O que vale é que dormi bastante neste fim-de-semana. Retemperada para a semana que começa.


Boa semana.

Lido

"Acredito que se nos mantivermos unidos e seguirmos, por exemplo, o formato da Cimeira da Paz, podemos acabar com a fase quente da guerra. Podemos tentar fazê-lo no final deste ano", disse Zelensky, em entrevista à BBC, durante uma visita ao Reino Unido.



O chefe de Estado ucraniano acrescentou que, se o antigo Presidente dos Estados Unidos e candidato republicano, Donald Trump, quiser tentar resolver a guerra em 24 horas, como disse que faria, poderá tentá-lo, mas a questão é a que custo.


"Porque está claro como fazê-lo - significa apenas parar, dar e esquecer. Sem sanções, Putin tomará o território, criará uma vitória para a sua sociedade e para o mundo. Ninguém irá para a cadeia. Sem responsabilização, sem tribunal. Sim, é um caminho muito fácil, mas nunca o seguiremos", declarou.


21/07/2024

Semanário

Foi uma semana atípica. Ainda que distraída vi um pouco de televisão. E não me arrependo - não perdi tempo com comentários acerca da actualidade. Aí está a diferença de qualidade nos períodos gastos a olhar para o ecrã, apesar de entretida com outros interesses. Vi alguma televisão nestes dias em que repararam os tectos e paredes do segundo quarto e da cozinha cá de casa – finalmente tenho tudo no sítio -, com muitos telefonemas do responsável pelos trabalhos, resolvido a dar-me conta de todos os passos também nas obras exteriores, logo a mim que fujo a meter-me e saber demais do que só indirectamente me diz respeito.


Já conhecem a minha predilecção pelo programa Comboios do Mundo. Nos últimos dias passei os olhos em três episódios. Na Austrália, saindo da Brisbane onde estive dois meses no início do século, conheci agora na televisão uma enfermeira empenhada e apaixonada pelo seu trabalho de assistência médica a bordo nas ambulâncias aéreas, e fui até à Grande Barreira de Corais. Agora só na televisão, mas na verdade em 2002 tive a oportunidade e enorme prazer de viajar de Brisbane até Sidney de comboio, uma das viagens mais bonitas da minha vida. À época fiz o sentido inverso da viagem de comboio do programa, no sentido Norte. Há 22 anos fui para Sul. Ainda neste refrigério que passa na televisão em horário nobre, um oásis no meio da programação habitual no final dos jornais da noite da SIC, passei muito distraída pela Andaluzia, em Espanha, reparando numa família que mantém contrariada a tradição do flamenco – ou estariam em mau dia. Em Itália, passeei pela região da Ligúria e antes de chegar a Génova bebi em metáfora Limoncello - licor de casca de limões doces.


Saindo dos programas Comboios do Mundo, no Sábado no programa Vida Selvagem, voltei à Grande Barreira de Corais australiana e aos seus mangais. Vi um elegante cavalo-marinho macho dar à luz depois da fêmea ter depositado os ovos na sua bolsa no momento do acasalamento. O macho cavalo-marinho expele mais de 1500 crias que ficam à sua mercê. Milhar e meio de muito vulneráveis belas e mini criaturas das quais só sobrevive 1%. Desde criança tenho fascínio pelos cavalos-marinhos, não me perguntem porquê. Vi também o peixe-arqueiro com a sua espécie de pistola de água natural. Disparou contra um gafanhoto que se passeava na vegetação sobre a água. O incauto insecto atingido caiu desamparado para ser de imediato devorado pelo predador que havia calculado todas as distâncias ao lançar o jacto de água. A Natureza é um prodígio.


Deixando para trás a televisão um dos pontos altos da semana deu-se na sexta à noite. Havia esquecido que tinha marcado uma Leitura das Mãos, mas recordada por uma chamada telefónica lá fui ao fundo da rua saber do meu fado. Pela primeira vez na vida consultei uma bruxa in loco. Na verdade, nem na internet as consulto directamente. Limito-me a aceder aos conteúdos genéricos disponíveis gratuitamente para todos. O epíteto bruxa não é ofensivo, antes pelo contrário, é carinho de quem gosta destas coisas do esoterismo. Além de mais simpatizei bastante com a quiromante. Acertou em datas importantes da minha vida e na visão sobre a personalidade. Além de me dar conselhos que caberiam perfeitamente numa consulta de psicologia. Ou seja, atestei a imagem que já tinha desde mundo. Claro que sem o romantismo de uma leitura de mãos à imperatriz da Áustria e da Hungria Sissi no meio do bosque, como li ainda em criança no primeiro livro que comprei com o meu dinheiro numa feira do livro do ciclo preparatório. O modo de conto de fadas como soube que as ciganas liam a sina. Há dez anos em Belém uma cigana veio largos metros atrás de mim insistindo querer ler-me a sina, mas fugi-lhe, vá-se lá saber porquê.


A bruxinha da noite de sexta-feira chamou-me atenção para aquilo que designou como Forquilha do Escritor - a forma como termina a minha linha da cabeça. Já tinha lido sobre essa vincada e grande bifurcação final da linha da cabeça, mas as revistas e a internet davam-lhe outros nomes e explicações. Forquilha do Escritor como marca do talento para a escrita é muito significativo. Como imaginam fiquei radiante e mais do que lisonjeada. Radiante é pouco. Só faltou dar pinotes. A bruxa ganhou uma fã.


Alertou-me para a duplicidade entre coração e cabeça - quem diria, não tinha dado por nada. Disse-me que as linhas do coração e da cabeça muito vincadas avisam que vivo muito uma e outra, sem me decidir. Ao passo que uma linha da vida muito leve e desvanecida (além de cortada ou desencontrada, digo eu) indicam que o hesitar constante entre coração e razão esgota a energia da acção. Possuo muito pouca energia. Disse-me: não é que não seja activa, mas faz tudo com mais esforço por não lhe sobrar energia dessa duplicidade. Traduzi o conselho por: pense menos, sinta menos e decida, aja, faça e viva mais. Até porque me alertou para o facto de deixar muito pelo meio, começar e não acabar. Falta-lhe a empolgamento da acção, disse. Enfim, a história da minha vida. Se bem que a doutrina divide-se: afinal, se fizesse mais do que faço, aguentaria?


Tudo isto, e muito mais que não revelo, foi-me dito pela leitura da mão direita. Já a leitura da mão esquerda posso resumir a: aprenda a fazer também por si o que faz pelos outros. Só bons e sensatos conselhos, como se pode constatar. Politicamente correctos. E ainda dizem tão mal das bruxas. Lá não falei sobre o assunto, mas creio ser essencial a palavra 'também', já que vivemos num tempo de aparentes boas-vontades e altruísmos e de real incentivo ao egoísmo. O termo 'também' faz toda a diferença: é justo e equilibrado.


Como última nota refiro apenas que ao sentar-me e ao aproximar-me da mesa a pedido da quiromante, quase atirei a bola de cristal ao chão para susto dela e meu. Desastrada até ao limite. Só faço vergonhas. Uma vida nisto. E conto. Agora com a agravante de contar tudo.


Para os curiosos, revelo que o espaço na penumbra tinha muitas velas acesas a elevar a temperatura do ar e intenso cheiro a incenso sendo a leitura feita com o apontar de uma pequena lanterna. Mas já sabem, tudo isto daria pano para mangas num escritor que seguisse os cânones, ora aqui quem vos escreve limita-se a descrever sem criar estilo literário.


Por fim, a chave de ouro. Ontem, Sábado, fomos a casa do primo e amigo J.A. Uma tarde muito bem passada numa casa e jardins lindos, tão antigos e sóbrios como a conversa solta e descontraída com o gentil anfitrião. Amparados numa bela varanda. Pura generosidade de uma alma sensível a que vamos tendo a sorte de ter acesso através da escrita luminosa com que nos presenteia. O Nuno veio encantado e tudo quanto fizemos de relevante ao chegar a casa foi dormir sobre um dia cheio. Das conversas manda o pudor da amizade que reserve tudo o mais, afinal há que preservar o que importa.