
Há mais de uma década - não sei precisar bem quando – fui a um alfarrabista aqui no Porto e trouxe quatro tomos desta colecção Os poemas da minha vida, do Público. No caso, escolha de Diogo Freitas do Amaral. Nos outros três: de Mário Soares, Miguel Veiga e Urbano Tavares Rodrigues.
Comecemos por partes e a dizer aquilo que é de todo desaconselhável a quem quer ser considerado - e se é evidente que todos queremos ser considerados, desenganem-se aqueles que acham que todos queremos e todos fazemos por estar em cima da burra: há gente estranha capaz até de não ser capaz de estar em cima da burra. Foram raras as vezes em que entrei em alfarrabistas, salvo na Feira do Livro ou em ambiente informal de ar livre. Entrei duas ou três vezes em alfarrabistas nas ruas do Porto, apesar de conhecer várias casas e de sempre ficar de olhar preso à passagem. Tenho ideia de ter visitado um em Tomar e quando viajei por vezes lá entrei num ou outro: em Bournemouth, Madrid, Los Angeles; talvez noutros locais mais ou menos remotos.
Admito que não entro por uma razão simples, que passará despercebida a muitos. Sempre conheci fregueses habituais destes espaços. A prosápia, a vontade de se afirmarem como pessoas intelectualmente superiores que gostam de seleccionar o filet mignon da literatura, do ensaio, da poesia provoca-me imediata vontade de pegar em mim e ir ao Continente ou outro supermercado escolher um livro banal.
É possível que o pecado seja meu: espécie de complexo de inferioridade injustificado que me leva a sentir diminuída ao entrar numa casa em que um par de clientes de ar enjoado face à ignorância que grassa no mundo, faz questão de se mostrar íntimo do dono da casa e íntimo de preciosidades inacessíveis ao comum dos mortais. Nada seria de apontar, se fosse o puro prazer da leitura e da escolha criteriosa do que se lê que estivesse em causa, se daí não se passasse para a proa e o desrespeito pelos outros. Face a esta imagem, apetece-me logo ir trocar impressões sobre literatura com uma funcionária do Continente, com quem sinto maior afinidade. Na verdade, oiço mais os livreiros (não gosto de lhes chamar funcionários, quando fazem bem o seu papel de livreiros – e alguns fazem) da Bertrand, onde sempre encontro uma outra pessoa simpática e com genuíno e desemproado gosto pela leitura.
Para além desta aversão à presunção, a verdade é que tal como numa loja de roupa ou sapataria, ou restaurante, o meu feitio proletário é pouco compatível com a presença inquisitiva e opinativa dos funcionários. Gosto de escolher, comprar e vir embora, sem grandes conversas forçadas para agradar ao cliente. A menos que as coisas fluam genuínas e francas, sem meneios e representações a dar o ar de coisa sofisticada. Não entro, salvo raras excepções, em lojas de roupa, calçado ou restaurantes na moda, chiques e caros. Cada um sabe o que quer para si, e esse mundo de artifício nunca será o meu mundo.
E os poemas eleitos por Diogo Freitas do Amaral – professor e político que já não está entre nós e por quem já aqui admiti não ter simpatia desde o dia em que aos 12 anos fui assistir sozinha a um comício – são na quase totalidade por mim conhecidos, que não sou grande leitora nem frequentadora de alfarrabistas. Abre com o If de Kipling e quase fecha com O Captian! My Captain, de What Whitman – de facto termina com o Infante, de Fernando Pessoa. No entremeio o previsível em português: Gil Vicente, Camões, Alexandre Herculano, João de Deus, Guerra Junqueiro, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Manuel Alegre. Por aí.
É muita pretensão catalogar de previsível esta escolha, quando não sei que “poemas da minha vida” escolheria. Nunca me dediquei muito a pensar no assunto. Nem nos romances da minha vida. Talvez por isso não entre em alfarrabistas. Não sei muito bem o que li, nem estruturar as minhas escolhas de leitura, nem aconselhar outros na leitura. E isso não me preocupa nem comove. Tal como desconsidero as críticas de quem por tudo isto me acha ignorante – a mim e aos milhões de portugueses que não lêem, lêem pouco ou não sabem dar o ar de que lêem. Talvez por isso não entre em alfarrabistas.
Para quê escrever o que acabei de escrever se soa a ressentimento? Pela simples razão desta manhã ao chegar à mesa de trabalho ter o livro lido ontem em cima do portátil, e tudo isto me vir à cabeça. Não faço especial esforço em dizer o que sinto nem gosto de esconder o que sinto. E não deixo de temer ser injusta com quem não tem consciência nem intenção de ser ofensivo. Nem me sinto particularmente contente comigo própria por ser tão crua, áspera e crítica – mas a verdade é que prefiro guardar a meiguice para os que não se têm em grande conta e para os próximos.
Admito, apesar de me saber ridícula, há uma espécie de desejo de representar as pessoas banais – se não conseguir, não se perde tudo: represento-me a mim e às minhas misérias. Mas gostava de representar - aqui nas Comezinhas - as pessoas que têm vergonha de dizer que não lêem ou lêem pouco, mas não fazem de conta que lêem. Porque as que fazem de conta, as que todos os anos enchem as Feiras do Livro e as livrarias na véspera de Natal – como quem vai comprar um relógio ou uma pulseira de marca, não precisam ser representadas: são as das modas, as que vão com a maré e até pode ser que entre elas uma ou outra tome o hábito de verdade e comece realmente a ler. São as que enchem a internet de conselhos sobre o que vestir, o que comer, o que ler e de muitos emojis com corações, arco-íris e beijinhos muito fofinhos. São as que debitam clichés sobre os benefícios da leitura. Não são de facto essas as pessoas com quem sinto maior afinidade, mas sim aquelas a quem é difícil ler, aquelas em que tudo na vida afasta do tempo, do espaço mental e predisposição para a leitura, e que apesar disso merecem ler, serem chamadas à leitura sem serem tratadas de cima da burra.
E ao escrever burra lembrei-me do escadote de madeira para vindimar as ramadas de videiras – a burra; tenho saudade da burra e até faria outro postal sobre isso, se tivesse tempo. Está na hora do ponto final.
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