Sapiente e auto-suficiente o mundo dominante está inundado de psicologia e ironia sobre os males alheios – padeces de todos -, mas pouco atento às próprias pechas a menos que chamar a atenção para elas seja inócuo e tenha a graça que insufla o ego. O mundo audível não te é favorável. Diria a sabedoria popular: coitado de quem tem uma mazela, todos tocam nela. Claro que a iluminação moderna preponderante dirá que o problema está em ti, na tua cabeça, na falta de auto-estima, na falta de sentido de humor e não te deves comparar.
Sentes-te o patinho feio como, aliás, percentagem significativa da população mundial. Tantos criativos em potência. Tantos artistas em potência. Todos considerando-se incompreendidos. Todos achando-se merecedores de um reconhecimento que nunca virá.
Pois se vês além das aparências, pois se compreendeste muito do que tantos outros são incapazes de perceber. Pois se as tuas palavras reverberam pelo mundo como grandes bandos de aves migratórias. Pois se as vês replicadas ou usadas e adulteradas. As tuas palavras e as de muitos mais. Não, não. Grita a tua vaidade. Ou será a verdade? São as minhas palavras, gritas para dentro e calas para fora, como um soldado dando o peito às balas pela companhia. Alheada, reconsideras. É o melhor para todos. Insistes, e arriscas. Assim será, em silêncio da verdade viverás e assim morrerás. Roída, por vezes. Feliz, muitas mais. Sabendo e calando por todos. Será que um dia te bastarás?
Fizeste-te de uma especial soma de heranças e vivências. O que conheceste e sentiste está fora do alcance de compreensão da maioria. Tal como o que conheceram e sentiram os restantes oito mil milhões. Não há paralelos nem razões que assistam a todos. Oito mil milhões de heranças e vivências únicas que contém mazelas a respeitar. Quantos serão capazes deste respeito? Não de dissertar sobre respeito e tolerância ou acerca da superioridade do humor, mas de os praticar de facto? Haverá um único exemplar capaz dessa proeza?