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05/07/2024

A casa: mais uma

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Ontem foi dia de feliz desencanto. Ao fim da tarde visitámos de novo o andar-moradia da rua Senhora do Porto. Enquanto descia as escadas exteriores um detalhe fez-me ver a casa com olhos mais realistas, menos encantados. E foi o que de melhor podia ter acontecido. Pouco depois faria ao proprietário a pergunta sacramental: o valor pedido é negociável? A resposta negativa pôs o selo na decisão de desistir de fazer uma proposta.


Tudo estava pensado antes. Em caso de nos decidirmos pela compra na próxima segunda-feira chamaria a agente imobiliária que me pareceu mais competente, meticulosa e séria (e genuinamente educada e simpática, diga-se; a delicadeza marca toda a diferença). Poria o nosso apartamento à venda, esperando receber uma proposta no valor mínimo de X. Havia também calculado os valores do IMT e do Imposto de Selo, além da comissão da imobiliária.


Para que os negócios se fizessem seria preciso que o preço da casa a comprar pudesse descer 7% ou 8%. E, claro, que a venda da nossa correspondesse à expectativa. Caso contrário, para avançarmos ficaríamos quase descalços e não estamos em idade de aventuras. Ficou decidido.


A vida não se faz só de conquistas e concretizações. Faz-se, aliás, de muitos contratempos, reveses ou simples irrealizações (é péssima a palavra, mas não encontro melhor a esta hora da madrugada). As contrariedades são o grosso da vida e integrá-las no percurso, assumindo-as, não as escondendo, não vivendo da aparência - não se refugiando no elogio fácil do inefável esforço, empenho ou outras qualidades -, é um passo certeiro para a felicidade. Não tenho isto calculado, mas diria que por cada dez não concretizações, um sonho realiza-se. E quão mais saboroso é estarmos conscientes com autenticidade do caminho não exibindo apenas o lado luminoso da vida – o flanco conquistador, o lado dos supostos predicados e vitórias. O lado sombra existe e é o que nos dá calo.


Pode ser maçador repetir assuntos como este das casas, das contrariedades. Pode parecer pequeno. Sem brilho. Sem intriga e interesse. A vida é repetitiva. E feita de detalhes. É feita disto mesmo. Tenho muitas dúvidas que se viva bem consigo próprio de fogo-de-vista, de audiências, de sapiência vitoriosa. Quem esconde a sombra acaba engolido por ela, oco e amagurado.  É o que sobra do disfarce do sucesso.


Resta esperar que os proprietários, com quem simpatizei bastante, façam um bom negócio e quem vá viver para aquela casa seja feliz e a sinta e faça encantada como da primeira vez que lá entrei.