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31/10/2020

Réstia de Luz

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Talvez não seja má ideia nestes tempos de afogadilho, de tentações e provações mesquinhas, de palavras e actos pouco edificantes, procurar dar o sentido correcto a toda essa pequenez, permitindo sentirmo-nos minúsculos grãos na engrenagem. Olhar a Lua Cheia costuma ajudar. Sei que está nublado e a sua magia não se vê senão na ténue claridade que transparece do breu em que parecemos todos embrulhados. Mas sabê-la lá no nascimento e na morte, no antes e depois de um amor, no permanente além humano, que transforma a razão e o sentimento coisa tão pouca e preciosa, é quanto baste para sobrevivermos em união com a natureza e não nos imaginarmos sós.

Paixões

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Aqui está a razão do silêncio nas últimas horas: apaixonei-me. E quando isso acontece fico a navegar no devaneio. Amarelinha, na zona onde há muito assinalei, com o maiúsculo AQUI, o mapa do Roteiro do Porto, edição 2001 da Porto Editora (sim, antes do vício do google maps e do google earth, tinha o dos mapas e roteiros). Até o descuido do mini quintal me agrada. E uma romãzeira com fruto, céus. Tem uns defeitozitos, vá. Mas não há casas perfeitas.

29/10/2020

Parque das Serras do Porto

Lockdown Porto

Sarah Brightman - Scarborough Fair

E a China aqui tão perto

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Sim, não só ouvi de viva voz no Jornal da Noite da SIC, como li hoje no Observador. Eis uma das propostas da Presidente da Câmara de Matosinhos, Luísa Salgueiro: georeferenciar infectados e partilhar essa informação. Acham normal e pacífico?

Dedicatória

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À infelicidade camuflada.

28/10/2020

El Marabino y Seresta - Paquito D'Rivera & Makoto Ozone

Palavra e silêncio

As palavras uma vez ditas ganham força própria. Quando caladas às vezes protegem-nos até de nós mesmos. Esta é uma lição que os homens parecem conhecer desde que o mundo é mundo e as mulheres têm dificuldade em acatar. Sim, é uma generalização e não faço a mais pequena ideia de que lado está o certo ou o bem, mas sei que as mulheres se poupariam a grandes dissabores se tivessem consciência do peso das palavras ditas e do valor dos silêncios. E se aprendessem a dosear umas e outros.

Dizzy Gillespie - Seresta-Samba for Carmen, por Paquito D' Rivera

27/10/2020

Tolices

Uma branca magra não conseguiria este feito. Valha-nos ao menos que as tolices identitárias sirvam para alguma coisa. Parece que o Instagram vai rever as políticas sobre a nudez. O juízo às vezes escreve-se mesmo por linhas tortas. É a tal autocombustão do politicamente correcto.

Farewell Angelina, por Joan Baez


Composição de Bob Dylan.

Eufemismo

Situação do país "é grave e complexa"

Os silêncios cúmplices

Não haverá ninguém que considere que o PSD e o Bloco de Esquerda estiveram bem ao anunciar o voto contra o Orçamento? Confirmo que a opinião pensante, no geral, aprecia criticar e perorar contra as medidas do Governo, mas não tirar conclusões das críticas e julgamentos que faz, muito menos assumir riscos. É o toca e foge do comentariado político. Pura gincana a pretexto de defender o bom senso e a estabilidade política. E os silêncios cúmplices do costume.

26/10/2020

Relatório de contas

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Tirando voltar ao trabalho presencial, nada de novo a Oeste: este é o meu estado normal. Especialmente, às segundas-feiras.


*


Nem era de abusar dos bonequinhos, mas depois de ler esta notícia fiquei preocupada e todos temos uma reputação a manter, digamos assim.

Vácuo

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Será demasiada simplicidade, mas sinto que um dos grandes erros dos debates nos tempos modernos resulta da falsa sofisticação das ideias. Há tantos anos a ouvir e ler gente inteligente, culta e preparada na televisão, nos jornais e nos blogues (sei, a maioria está longe de ter estas qualidades, mas também há quem as tenha), e sobra sempre a mesma sensação: quão perniciosa pode ser a acumulação de gavetas de adquiridos inquestionáveis. Já ninguém se pergunta o essencial, já ninguém quer explicar o princípio e a causa das coisas, transformando discussões de ideias em círculos viciosos. Tantas vezes sobeja apenas a aparência e dela o erro. Camadas e camadas de respostas automáticas, tantas vezes articuladas de forma confusa - intencional e desnecessariamente complexa -, ancoradas no erro, por se ter presumido mal o que está verdadeiramente em causa numa concreta questão, sobretudo, por falta de adequação ao tempo presente e às circunstâncias que o moldam.


Quanta distância da realidade, céus. E o mais caricato é que nalguns casos a razão disto é uma menoridade ou infantilidade: puro medo de se revelarem inocentes, receio do ridículo. Articular em vácuo parece conferir uma sensação de superioridade, de amadurecimento. E é tão engraçado ver gente a perorar apinhada de certezas, umas vezes de modo a espantar os mui fortes tremores face à adversidade ou à surpresa, outras a pôr-se em bicos de pés ou pura e simplesmente a lutar por inconsequente vantagem retórica.


Entre o voluntarioso empolgado com a modernidade, desconhecedor dos princípios básicos que fundam e norteiam a civilização e o cansado conservador a quem sobra apenas o cinismo, a tudo respondendo com chavões seculares, venha o diabo e escolha. É preciso tirar o bafio às gavetas, enchê-las de saquinhos de lavanda: questionar em vez de doutrinar no cansaço. É tempo de refrear as entusiastas teorias de supostos vanguardistas. Mas ouvindo-os, aproveitando o que há de benigno no seu conhecimento – desde logo, reconhecendo que existe -, e educando-os, voltando à raiz de cada problema que se coloca, explicando os equívocos, as imprudências e as consequências nefastas que daí se adivinham. 


Todos ganharíamos se a inteligência bem pensante com audiência fosse um pouco mais arrojada.

Gota de água

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Ora, muito bem. Vamos a isto: este blogue tem andado desfalcado de matéria objectiva e é certo que dormi muito pouco na noite passada, além do que às vezes baralho milhões com milhar de milhões, mas gostava que me explicassem certos factos. Se é correcto dizer que o recurso massivo ao regime de layoff  - a  redução temporária do período normal de trabalho ou suspensão do contrato de trabalho por iniciativa da empresa, por determinado tempo -, e o desemprego têm impacto nas receitas e despesas da Segurança Social, convinha demonstrar com contas certas as conclusões tiradas aqui e aquiEra útil demonstrar como é que o fundo as pensões entrará em ruptura dez anos antes do previsto há um ano, por causa da pandemia.


Talvez por ter vivido onze anos num concelho limítrofe do Minho (região de gente mais desconfiada não há) fico com a pulga atrás da orelha. Estarão a preparar medidas de financiamento alternativo através de mais aumentos de impostos? E uma pergunta muito ingénua: nenhum dos fundos europeus poderia ser canalizado para este efeito? Digo eu, que não percebendo nada disto, estou consciente de se tratar de números astronómicos e de fontes de receita a exigir continuidade no tempo. E depois de consultar números da despesa anual total da Segurança Social, publicados na Pordata e ainda as previsões para o próximo ano (30.743 milhões) fico com a consciência de que um eventual financiamento extraordinário da SS representaria uma gota de água no todo, mas ainda assim tenho vontade de confrontá-los com os tais 26 mil milhões do Fundo de Recuperação da União Europeia, e perguntar se conceber um plano sustentável de recuperação do País (palavras da burocracia europeia) não passará por ajudar a garantir uma SS financeiramente viável? E se não estaria na hora de aproveitar os tais montantes de recuperação provenientes da Europa para reforçar o Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social (aquele que está previsto para o caso de ruptura da SS e que entraria em défice dez anos antes do previsto) em troca de finalmente se fazer a tão falada e adiada reforma da SS, não só impondo limites máximos nas reformas, como também definindo com maior critério a atribuição dos apoios sociais.


Bem sei que estamos quase no pico da tempestade, mas é nestas alturas que se exigem decisões corajosas.

25/10/2020

Alegria

A semana de ronda pelos amigos - confirmei por telefone que cada um e os seus tiques respiram -, acabou ontem em família. A contabilidade dos pintainhos está feita.


Foi um dia cheio cá em casa. Almoço, tarde e jantar em família. Na mesa quatro ao almoço, três ao jantar. Mais duas visitas espontâneas durante a tarde. Poderia parecer nada para quem cresceu em dia-a-dia com números bastante mais generosos. Mas é tudo. Os tempos são outros e é uma alegria juntar seis entes queridos de três gerações em casa numa tarde de Sábado, nesde atípico e feio espírito de Outono. Encheu-se a sala - que estará sempre pronta a receber os nossos -, tal qual a alma.


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 Hoje é dia de retomar a vida normal.

24/10/2020

Mozart Grande Missa em dó menor - Bernstein


Vale a pena abstrair dos quilos de laca.

23/10/2020

A ler

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A necropolítica da conveniência: uma crónica parcial, de Jaime Nogueira Pinto, no Observador.


(...)


«O que fizeram na Rússia, desde Lenine até Estaline e seus sucessores, em grande escala. Os números variam: Robert Conquest, autor de The Great Terror, põe o número de vítimas em 15 milhões; outros autores vão até aos 60 milhões, para todo o período de 1917-1987. De qualquer modo, é muito morto para passar despercebido num inventário necropolítico.»


«Mao Tsé-Tung procedeu também a execuções maciças de “contra-revolucionários”, seres menos clarividentes e de vistas mais curtas, dos quais deve ter executado uns dois milhões, logo no início da tomada de poder. Para realizar a reforma agrária, eliminou mais uns 50 milhões de renitentes agricultores. O Grande Salto em Frente e as fomes que causou – somadas aos horrores da Revolução Cultural, celebrada pelos esquerdistas europeus – devem ter elevado o número total de vítimas do maoismo aos 80 milhões de pessoas. O ensaio sobre a necropolítica também não dá por elas.»


«Outro importante genocídio comunista foi o praticado no Camboja pelos Khmers Vermelhos, apoiados por Mao e pelo Partido Comunista Chinês. Na segunda metade dos anos setenta, inspirados nos princípios igualitários da Revolução Cultural, os Khmers mataram entre milhão e meio e dois milhões de Cambojanos, cerca de ¼ da população, o maior genocídio em ratio mortos/habitantes. Os pormenores dos horrores cambojanos podem rivalizar com as piores narrativas dos campos de morte estalinistas e hitlerianos. Mas a narrativa necropolítica também os esquece.»


(...)

Cecilia Bartoli



Impressionante como consegue fazer parecer fácil. Bom dia.


*


Griselda (Vivaldi). -  Agitata da due venti,/freme l'onda in mar turbato/e 'l nocchiero spaventato/già s'aspetta a naufragar.//Dal dovere da l'amore/combattuto questo core/non resiste e par che ceda/e incominci a desperar.


*


Exsultate, jubilate (Exult, rejoice), K. 165, is a 1773 motet by Wolfgang Amadeus Mozart.

Doçura na voz

Estou a ver o debate. Não posso deixar de reparar que a táctica do amansar a voz - muito usada cá por Catarina Martins e Ana Gomes -, cruzou o Atlântico e atingiu em cheio o Presidente dos Estados Unidos.


*


Nota: não imaginaria, mas está a ser uma madrugada muito bem passada; óptimo debate.

22/10/2020

O eterno retorno

- Eu sou mais experto do que tu.


- Porquê?


- Porque mostro coisas que não mostras.


- Ora, deixa aí ver a tua língua.



- É essa a figura de palhaço que fazes sempre que exibes o quer que seja no intuito de te valorizares à custa da menorização de alguém.


- E como sabes que é nesse intuito? 


- Na tua infelicidade. Percebo-a. Fica exposta.


 


(escrito já há algum tempo; não é dirigido a quem quer que seja singularmente, apenas uma ideia abstracta.)


 

21/10/2020

Brahms: Symphony No.4 in E minor - Bernstein

Miudezas

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Uma pessoa educada não fala de miudezas. Assim me ensinaram. Mas tresmalhei, não há o que fazer. Por isso conto o que se tem passado comigo no encantador reino do serviço nacional de saúde. Não me levem a mal o tom ligeiro com que falo destas coisas, que naturalmente se deve ao facto de não ter sofrido consequências graves pelo mau funcionamento do mesmo. Noutros tempos, zangar-me-ia muito. Creio até ter escrito há quinze anos, num blogue entretanto apagado, um episódio passado num hospital do interior. A visão do inferno, onde grassava a desorganização e a incompetência nos serviços administrativos e médicos e onde os mais velhos e frágeis só não morreriam ao abandono, caso a divina providência assim o entendesse. Entretanto, até por a vida me ter feito precisar de cuidados médicos e estar muito agradecida ao nosso serviço nacional de saúde e à competência dos médicos e enfermeiros que encontrei aqui no Porto, moderei o meu espírito crítico.


Mas além desta boa experiência, em Setembro do ano passado engrenei no processo com vista à cirurgia bariátrica. Nada de grave, portanto. Aliás, oiço amiúde – às vezes de médicos patologistas, dirigindo-se a mim directamente – que são cirurgias absolutamente desnecessárias, por competir ao doente conter-se. Fechar a boquinha, digamos assim. Claro que estas observações abstraem sempre do histórico do doente e das reais razões; isso daria muito trabalho ao processo de raciocínio de catalogadores de gatilho rápido. Adiante.


Depois da primeira consulta há um ano e um mês, foram pedidos exames em Janeiro de 2020. Meteu-se o corona e passei a ter todas as consultas por telefone – o que me agrada tanto quanto aos médicos, sejam os deste processo no Santo António, sejam os de outra valência noutro hospital. Naturalmente os exames também foram comprometidos. As normais análises foram feitas em Maio e para o efeito recebi quatro chamadas. Quatro. Cada vez que tocava o número do Santo António, pensava: vai ser para desmarcar, mas não. Era para confirmar a data e a hora. Meninas diferentes de umas vezes para as outras. A grande vantagem além de eu não ter qualquer hipótese de me esquecer da data e hora, é a do aumento do emprego no sector da saúde. Também me ligaram mais do que uma vez para desmarcar uma das consultas médicas, que afinal acabei por ter, via telefónica. Aliás, conseguiram a proeza de me telefonar depois da dita a tentar anulá-la uma vez mais. Respondi da forma mais doce que consegui, porque garanto que, neste momento, tudo isto me dá mais dó do que qualquer outra coisa.


Talvez por isso, quando me ligaram hoje de tarde – depois de ter estado lá de manhã para fazer endoscopia e biópsia – a marcar uma ecografia gástrica, já com algum calo nestas coisas, recordei: olhe que essa já fiz em Maio. Ah pois, realmente aqui diz segunda via, dizem de lá. Hum, mas então preciso fazer novamente ou é para dar sem efeito a chamada de marcação? Pergunto eu. Resposta: não, não venha. Esta marcação era de Janeiro. Pois eu percebo, se trabalhasse num sítio cujos ritmos fossem estes, também ficaria baralhada, pensei sem o dizer em voz alta.


Até percebo a razão de tantas baixas médicas na função pública. Estas coisas enlouquecem as pessoas. Só pode. E digo isto com toda a consideração pelo enorme grupo de batas brancas saído em bando do salão nobre – ali ao lado da capela - com quem hoje me cruzei na primeira escadaria à esquerda do edifício neoclássico. Enganada por indicação do porteiro que me disse para subir as primeiras escadas à esquerda. Eram as segundas, amigo. Sei, não li as placas. Mas eram as segundas à esquerda. Eu sei, está cansado. Estamos todos, mas façamos um esforço para pensar antes de dizer o que quer que seja a outrem. Pensei, apenas, sem o dizer em voz alta.


À saída, cá fora na base da escadaria e nas minhas costas, um homem cai desamparado no chão por não ter visto um pilarete. Parece-me um homem novo, capaz de se levantar. Hesito, até por estar acompanhado por quem o pode ajudar. Afinal é preciso, juntamo-nos quatro ou cinco pessoas, enfio-lhe os meus braços por baixo das axilas como aprendi que se fazia e levantamo-lo. Olho para a sua cara e percebo que é uma pessoa com muito mais idade do que presumi. Entreolhamo-nos. Está tudo bem, diz ele. Pressinto que pelo espírito das quatro ou cinco pessoas que ali estavam, todas coladas umas às outras, passasse a mesma ideia: se um de nós tem covid estamos todos tramados. Bah, que importa isso? Dispersamos.   


À ideia vem-me a imagem da senhora caída no chão nas escadas, numa noite (há oito anos, talvez) na área de serviço de Antuã. E do peso de consciência que tive tanto tempo - se é que já passou -, por não me ter apercebido da gravidade e ter ajudado a filha aninhada junto à mãe na base das escadas. Tentei sempre confortar-me, pensando: outras pessoas ajudaram. Mas não chega. Isso não chega.

Nicolas Baldeyrou



Vá, toca a procurar este senhor no Youtube e a ver quem é na Wikipédia. O mesmo vale para os outros vídeos já publicados.

20/10/2020

SIC - 15/25

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Excelente reportagem de Conceição Lino: a perspectiva dos jovens sobre o mundo e a vivência na religião. Um momento oásis na televisão generalista.

Ponto de situação

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Bom fim de tarde chuvosa.

Gustav Holst - Jupiter Die Planeten



Não. Não é aniversário de nascimento (30/11/1874) nem de morte (24/01/1965). Mas hoje - mais do que nunca -, faz falta.


Ao ver tanta indignidade e miséria dos nossos governantes, políticos e governados nos jornais e redes sociais só resta lembrar que houve estadistas respeitáveis, silêncios cúmplices e agradecidos de gente que tirava o chapéu à passagem da história. Quem dera fossem inspiradores para quem tem aspirações políticas.

19/10/2020

Verdes

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Valinhas, o meu paraíso da infância.


 


(mais uma vez fotografias de fotografias, o que piora ainda mais a qualidade da imagem; já sabem que, em regra, sou má fotógrafa e não me preocupo muito com o assunto.)

Jean Sibelius, Valse Triste

18/10/2020

Apontamento

Tema de conversa de fim da tarde: Cabinda 1964-66. Mais matéria para a Quinta.

A caminho do Jardim Botânico

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Hoje foi dia de voltar a Ocidente e ir para as bandas da minha influência durante quinze anos. Enquanto vivi perto procurei ir regularmente ao Jardim Botânico – alturas houve em que ia todos os fins-de-semana. É pequeno e contíguo à VCI, o que prejudica bastante a serenidade que lá se procura alcançar. Mas enfim, o mundo não é perfeito. Além do mais, nem sempre é cuidado com o esmero que merecia e nos últimos meses tem estado com zonas interditas em permanência. Agora colocaram mais placas nas árvores – nota positiva. Terei que voltar com mais tempo para fotografar de perto folha, ramos e tronco e fazer jogar com as tabuletas.


De casa ao Jardim Botânico levo cerca de trinta e cinco minutos. Hoje, fiz o percurso de ida e volta todo a pé, e resolvi deambular pelo bairro de Guerra Junqueiro para esticar ainda mais a coisa. Duas horas de caminhada, com paragens para ver alguns pormenores ou tirar fotografias. Quando cheguei a casa o telelé anunciou-me que tinha atingido a meta aconselhada – 10.000 passos. Note-se que nunca instalei aplicação nenhuma para o efeito. No Huawei que tenho, a coisa vem por defeito. Fiz a conversão em função da altura e verifiquei que andei seis quilómetros. Nada mau. Estou de volta às grandes caminhadas. A ver se mantenho a regularidade.


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O livro da fotografia abaixo conta-nos a história da casa. Um mimo que dei à minha mãe, com quem tantas vezes calcorreei e hei-de continuar a calcorrear os caminhos que nos levam às japoneiras. Saber o ponto em que estão as camélias (e as hidranjas) do botânico é assunto fulcral à medida que os anos passam.


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17/10/2020

A despropósito de Hemingway

Ao final de tarde dos derradeiros dias de Setembro, estava sentada no escritório e lembrei-me que teria de comprar um livro para o meu pai. Abri a página online de uma livraria e fui ver contos. Nada me inspirou. Queria qualquer coisa de viagens. Saí da empresa, atravessei a rua e entrei no centro comercial para me dirigir à mesma Bertrand onde vou há vinte anos. Encontrei um dos livreiros da casa. Em Agosto aconselhou-me em simpática e entusiasta descrição um livro fantasioso quanto baste para eu oferecer a uma adolescente de quinze anos – ainda estou à espera da reacção da presenteada mas temo que, apesar de leitora regular e por ser muito pragmática, não alinhe em grandes delírios literários. A ver vamos. Mas no mês passado duas ideias contavam: queria coisa leve sobre viagens. Lá fomos funcionário e eu até à prateleira da literatura de viagem.* Não continha mais do que vinte e cinco tomos. Estive cerca de meia hora a folhear estuchas intelectualizadas. Devem ser excelentes, todos. Mas para outro momento da vida – do pai e da filha. Ou mesmo para outra encarnação; nesta não há pachorra.


Lá no meio, a minha salvação: À Aventura com Hemingway, de Michael Palin. Como quase sempre faço quando compro um livro para oferecer, li-o parcialmente. Já costumo pedir na livraria que deixem um dos lados sem fita-cola para o efeito. Uma viagem pela vida aventurosa, lugares, destinos e paixões de Hemingway a pretexto de um programa para a BBC. O autor – um Monty Python apaixonado pelo nobel -, tem uma escrita limpa e fina ironia. Acertei em cheio. O meu pai adorou e trouxe-o uma semana depois, já lido, ciente de também eu o querer ler. Claro que, como usual, confessei já ter dado uma boa passagem de olhos. Fui intimada: devolve-me as letras que comeste.


Estes ires-e-vires dos livros – que faço em permanência com pai, e sobretudo, mãe -, fazem-me recuar ao final da infância e adolescência, quando trocava o mesmíssimo pacote de amêndoas com a minha tia e madrinha. Durante anos, no dia de ramos eu dava-lhe o pacote das amêndoas brancas e rosa do ano anterior, que me era devolvido como presente no Domingo de Páscoa seguinte. E assim sucessivamente, tornando-se o alegre vaivém numa anedota anual e poupança em escudos e glicose, devida tão simplesmente ao facto de madrinha e afilhada odiarem aqueles aglomerados de açúcar às cores. Se ainda fosse um ovo de chocolate ou umas boas amêndoas torradas caseiras, mas agora é tarde - passaram mais de trinta anos.


Sucede que a troca e leitura prévia dos livros oferecidos não resultam de não gostar dos ditos. Antes pelo contrário; a regra é dar o que gosto e acho que o brindado vai apreciar. Nem sempre acerto, contudo faço os possíveis. Ofereço à média de um a dois livros por ano a cada uma das cinco ou seis pessoas que sei gostarem de ler. Na maior parte dos casos, tento lê-los ou passar os olhos. Às vezes consigo arranjar tempo e gosto suficiente para os devorar na íntegra. Pode não ser uma coisa muito bonita de se fazer - será, aliás, considerado coisa feia e falta de educação -, mas é absolutamente às escâncaras e a forma de economizar. Apesar de não ser grande leitora, por mim, as livrarias não morrerão.


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* Antes dessa prateleira, estivemos no escaparate dos usuais destaques e novidades; tive que dizer ao simpático funcionário que esses não ia levar. 

16/10/2020

Janela

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*


Nos últimos dias, além do sol morno de Outono, a suave brisa - uma aragem noroeste -, vem à janela amenizar os dias de trabalho. Tudo fica mais leve e gracioso. E eis que, sentada na secretária frente à luz, levo com o sol na tromba -, qual lagarta parda que esverdeia na pedra quente. E, ao acabar de escrever isto, o quase absoluto silêncio - estorvado por pouco mais do que murmúrios do lavar de loiça do almoço noutro prédio, da impaciente buzina, do ronco a motor dos carros na rua ou esparso avião no céu e, lá longe, da serra de metal - é quebrado, logo aqui perto, pelo latido forte e agudo do cão que mora debaixo da estranha espécie de eucalipto que vejo da janela. Sinto-lhe as patas nas folhas secas sobre a tijoleira, e invejo-o. Os pássaros, que aqui habitaram a Primavera, foram. Mas voltarão. Assim, com a cadência dos anos que passam.

Empresas

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Ao cuidado do PSD.


Interrompi o trabalho por uns minutos e abri a página da SAPO. Despertou-me a atenção esta notícia: Do hidrogénio à escola digital, até ao SNS. Estes são os 64 projetos financiados pelos milhões da Europa.


Fiz o seguinte fácil e prático exercício: passei o texto para uma página word e procurei a palavra ‘empresa’ – na qualidade de trabalhadora, o móbil da criação de riqueza e do desenvolvimento do País. Usei o ‘localizar’ – aqueles binóculos no canto superior direito do friso de tarefas do word -, e encontrei a palavra ‘empresa’ uma única vez.


Podem verificar, sff, junto do Governo que medidas estão a ser pensadas para aproveitar os fundos europeus para aquilo que mais dá paz, pão e liberdade aos portugueses? Muito agradecida.

Internet

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Passas tanto tempo na internet e a falar com gente desconhecida? Para quê? Para aprender qualquer coisa. Ando aqui para aprender. Aprenderias muito mais fora do espaço virtual. Não, não aprenderia. Estás redondamente enganado.

Martin Fröst - Copland: Clarinet Concerto


Voando um pouquinho aos 4'20'' e, divertindo, por exemplo, a partir dos 12'12''.


Bom dia. Boa sexta-feira.

15/10/2020

Perguntar não ofende.

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Só uma pergunta inocente: as multas por não ter a aplicação do caça ao pikachuOIP.jpgsão aplicáveis aos milhares de cidadãos que não têm smartphone nem bluetooth? Cá em casa um de nós é cego e usa telemóvel do tempo da Maria Cachucha, mas gostaria muito de aproveitar esta medida para pedir ao Governo o financiamento para, sei lá, um Samsung Galaxy S20 Ultra 5G ou a mesma versão em Huawei, que não somos racistas. Arranja-se, Sr. Costa? Com acessibilidades, sff. Muito agradecida.

Fora do tempo

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Viver fora do tempo teve a enorme vantagem de te ensinar a comover mais com aquilo que és e valorizas – especialmente a liberdade, as pessoas queridas e as que trazendo o tempo em si enriquecem a humanidade -, do que com as exigências do mundo. Se o planeta e o rectângulo feito casa parecem esboroar na ideia de urgência e de manicómio, manténs-te fiel ao caminho sem te deixares abalar por decisões atabalhoadas e excitadas de quem governa.


Foste dizendo nos últimos anos o que havia para dizer. Desadequada, sossegas a mente dizendo o que há para dizer com a antecedência devida. Não te pesa nem um pouco não estares em cima do acontecimento. Isso compete a quem está dentro do tempo e precisa de nele vingar. Sabes que despontaste fora do tempo, assim fizeste a aprendizagem e amadureceste. Gozas o teu trajecto, grata por ainda conheceres os carreiros discretos do discernimento. E por ainda haver caminho a palmilhar.


*


Chegou o momento de fazer um sudoku por semana, para começar a tratar da conservação de ferramenta essencial.

David Fray


Coloquei o vídeo acima para que conheçam (se não conhecem já) David Fray. Mas o que queria mostrar – e me deram a conhecer ontem -, é o vídeo de ensaios - Swing, Sing & Think: David Fray – Bach’s Keyboard Concertos. Se puderem vejam a partir do minuto 43’.


Um rapaz pleno de génio, que nos demonstra em poucos minutos a diferença entre técnica e arte. E nos deixa extasiados. Talvez – extrapolação minha -, fosse boa ideia sairmos das nossas velhas certezas formais e regras rígidas para conseguirmos perceber onde anda a beleza – e a verdade -, da vida. Se conseguirem, oiçam-no dizer onde está o virtuosismo (1:22').


(muito obrigada a quem me apresentou esta preciosidade.)

14/10/2020

Momento cuchi cuchi

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Na meia-idade o balanço é feito neste estado de espírito: o limbo. Entre o conservadorismo cansado e pousado, de quem já viu tudo quanto havia para ver, nada o espanta e sabe que nada muda. E o contestatário que trepa pelas paredes e força as grades repressoras, levando tudo por diante para alterar o que está mal.


Diziam-me há poucos dias que fora a questão da corrupção e do nepotismo – e mesmo aqui se assemelham, variando apenas o grau -, o Governo está a fazer aquilo que um governo do PSD faria, com a vantagem não negligenciável de não ter ruído ou contestação. Concordamos que um governo PSD jamais poderia restringir liberdades como sucede agora, sob pena de grande contestação social. Pudera, nenhum de nós tem dúvidas que a rédea solta sob a conivência da comunicação social e da população é privilégio de quem está no poder neste momento. Divergimos talvez num ponto: para mim a corrupção e o nepotismo não são uma inevitabilidade. Ou, melhor, assente a existência destas pechas e de que são um traço enraizado na nossa cultura, valerá a pena bradar e vexar – até porque o grau de desfaçatez é tal que não podemos ir lá com pruridos -, fazendo vergar corruptos, sejam cúpula sejam cidadão comum.


Falámos depois no papel do Presidente da República. Diziam-me: vou votar nele. Está a fazer tudo bem, dentro da medida do possível. Como assim? Por saber que deve sustentar um Governo imune aos ataques jornalísticos e políticos e à contestação popular - o Governo ideal para estar num momento difícil como este? Não. Está a fazer zero, zero de melhor. Não marca a diferença pela positiva. O que vejo é Governo e Presidente da República – e já agora os portugueses -, à espera que chovam fundos da UE para lhes resolverem a vida e para permitir – sob o pretexto da estabilidade e da paz social; pasme-se agora até se invoca o patriotismo -, que tudo continue com os vícios de sempre. Fundos que irão ser destinados – se nada for feito -, a subsidiar cidadãos (em muitos casos bem), mas não a incentivar a criação de emprego e riqueza, através de criteriosa definição de benefícios e incentivos para as empresas – sob a condição de não serem desbaratados na infestação de empresas sugadoras fantasma. Aliás, restos de fundos. Porque o grosso, como vem sendo habitual, vai cair no saco roto de bancos falidos por mão criminosa e empresas públicas ingovernáveis por mãos delapidadoras.


A Banca insalubre receberá injecções de capital, que alguém explicará - para sossego de consciências ilustres e o amaciar da goela do povo -, que não é dinheiro dos contribuintes, mas sim emprestado por outros bancos – que hão-de receber o quinhão para o efeito –, e pelo fundo de resolução; logo, dirão, verba reembolsável. Este argumento faz-me sempre lembrar os serviços gratuitos das operadoras de comunicação e da dificuldade que tive há uns anos em explicar a adolescentes - obviamente desconfiados da minha inteligência e adequação à realidade moderna -, que nada é gratuito nos serviços dessas empresas.


O aceno com o bicho papão da crise política impede que haja discussão sã sobre o Orçamento de Estado para 2021 – ah céus, fosse o malandro do professor Cavaco Silva a colocar a espada sobre a cabeça dos partidos e seria gozado à exaustão (ainda estou para descobrir alguém que assuma ter sido cavaquista além do jornalista José António Saraiva e, já agora, da tonta que escreve estas linhas). Mas como é o professor Marcelo, é cuchi cuchi. Já sabíamos por Rui Rio que não havia oposição, mas agora ficou assente que a proibição vem de Belém – com o pretexto de que neste período não há poder de dissolução do parlamento. Estamos assim a modos que em assembleia nacional, e até já temos conversas em família sobre logística natalícia da parentela para compôr o ramalhete.


E como são ternurentos, o nosso Primeiro-ministro e o nosso Presidente da República (inverto a ordem do protocolo propositadamente e para fazer notar as prevalências reais), promoveram arbitrariedades nas medidas de contenção da pandemia, impondo restrições em função de quão seriam ou não populares. Pelo que tivemos enterros com lotação limitada e os nossos mais velhos fechados nos lares ou em casa sem visitas dos familiares, lado a lado com o despejo de vários autocarros na Alameda, junto à Fonte Luminosa para os festejos do 1º de Maio – já agora, moeda de troca para miminhos orçamentais -, e o espectáculo de humorista no Campo Pequeno, com a presença do regime, como convém aos artistas apaniguados.


O fulgurante consenso cuchi cuchi prevalece no topo de hierarquia do Estado. Estamos nisto. Nada de contrariar quem tenha peso na opinião pública, logo efeito eleitoral. Agora que não há beijinhos e abraços, nada como fazer do medo colectivo e do patriotismo armas políticas. Mas para quê? O grande intuito parece ser manter a pequenez de sempre, já que aos olhos do poder – e da generalidade dos portugueses -, toda esta miséria parece normal e aconchegante. Resta saber se devemos abstrair, relevar ou irritar. Será que serão precisos mais 10 anos para concluir?


*


A imagem da Candy Candy, uma animação que via em criança (no início dos anos 80), foi a coisa mais cuchi cuchi que me ocorreu. De referir que já na altura - apesar de criança -, tinha alguma vergonha de ver coisa tão florida e inverosímil. É, por isso, caricato que seja a imagem que me ocorre para definir o momento político actual.

Glenn Gould



Descoberta de ontem. Bom dia.

Provérbios e expressões idiomáticas

À noite todos os gatos são pardos.

13/10/2020

Perpetuum Jazzile - True Colors

Impulsos

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Registo: ontem ao final da tarde comprei uma lata de leite condensado e comi umas colheradas ao chegar a casa. Facto que não acontecia há anos. Isto está bravo.

Recapitulando


Somos mesquinhos


por Isabel Paulos, em 10.06.20


 


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Não sei se escreva um poema que descreva o que agora sinto, se uma prosa a tentar descobrir as causas do nosso permanente estado de mesquinhez. Confusa com o que sinto sobre mim e tão só sobre o que sinto, procuro perceber o que nos derrota eternamente como Nação. Quero crer que é a mesquinhez que nos impede de sermos melhores. Em vez de poupanças financeiras, que nos permitiriam futuro mais desafogado, poupamos na crença de bondade dos propósitos do outro. Pequenos como somos, medimos o outro como a aluna pouco dotada da faculdade que, ao olhar de alto a baixo a colega, a enforma numa das poucas categorias de gente que preconcebe. Quantas vezes estremeci de indignação ao ver gente julgar e condenar outros por opiniões, expressões, modos de vestir, penteados, etc. Sei, todos o fazemos. Também o faço, é certo. Mas ao menos tenhamos consciência da nossa estupidez e não a façamos corresponder a uma verdade, muito menos ofendamos outros por causa dos nossos preconceitos.


A estupidez ignorante chateia. Incomoda e ganha lastro, contaminado todo o mundo moderno, através da comunicação social e das redes sociais. Mas muito mais grave e o que não augura nada de bom é que quem podia fazer a diferença, quem tinha a obrigação de o fazer - por ter tido acesso a maior rendimento, melhor instrução, melhores leituras, melhores oportunidades profissionais, maior contacto com estrangeiro através das viagens -, dá, em muitos casos, mostras a todo o momento de ser mais mesquinho do que quem está longe de ter tido todas essas benesses. Não raro, começa logo por considerar que foi à custa do trabalho e dedicação que conseguiu o lugar ao sol e que a ralé se quer ser alguém tem que se esforçar, estudar, trabalhar. Como se a maior parte da ralé não se esforçasse e trabalhasse a vida inteira a troco de nenhum reconhecimento. Os favorecidos poucas vezes assumem a sorte que tiveram. E há sortes de vários tipos: a família e o país onde nasceram, as pessoas e as oportunidades com que se cruzaram ao longo da vida e, sim, a condição física e as capacidades intelectuais e emocionais. Nenhum destes factores se deve à partida a esforço de espécie alguma de quem se considera superior. Pode vir a ser trabalhado, mas no essencial ou se é bafejado ou não. Pelo que, a primeira coisa que uma pessoa favorecida deveria fazer era estar grata e reconhecida pela sua condição. E a segunda seria retribuir o que recebeu.


Mais ainda do que a estupidez ignorante, tenho visto muita estupidez letrada. Sobranceira e desdenhosa. Quem podia fazer a diferença não sabe ou não quer fazer. Não sabe porque isso implicaria esforço honesto e todo o empenho que tem ao valorizar-se não é em prol de algo maior, mas sim da pequena vanglória ou tão só vantagem económica. Não quer porque teme perder a pose de superioridade, a vaidade. A pequenez valoriza mais a forma do que a substância, valoriza mais aparência do que é íntimo e verdadeiro. E nada de nobre se constrói de floreados e disfarces. Nem uma ideia válida, muito menos uma Nação.


Se temos alguns ou muitos trabalhadores trapaceiros a fazerem de conta que produzem, também temos empresários que pagam miseravelmente e medem o que trabalhador gasta nas férias ou noutro qualquer item, com inveja de que este tenha vida. Se temos alunos da faculdade cada vez mais preguiçosos, com pouca capacidade de concentração e disciplina, temos alguns professores ressentidos, raivosos e sem um pingo de respeito pelos alunos e pelas pessoas em geral. Reflexo de uma sociedade ela própria invejosa. Uma sociedade que perde menos tempo a tratar de si própria, do que a reparar no que outro está a comer e quanto pagará na mesa do lado do restaurante, ou que carro é que o vizinho comprou no mês passado, ou a opinião divergente que alguém emite e cujo preconceito nos faz enclausurar a sete chaves um significado único.


9 de Junho de 2020.



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12/10/2020

Yann Tiersen


Voltando ao teletrabalho e à boa companhia de ouvido.

Provérbios e expressões idiomáticas

 


Ficar verde de inveja.


 

Mar

20170719_164439.jpgJulho de 2017.

11/10/2020

Recapitulando

O Livro dos Três Princípios - Festejo - 36.


      Na capital, rapidamente se adaptou à teia de relações que interessam a quem tem pretensões de poder. Tornou-se amiga chegada e pretensa discípula de figura maior do partido, uma mulher inteligente, arrivista e azeda, com preparação académica e percurso de vida que faria adivinhar melhor futuro. Nos últimos dez ou vinte anos, ao entrar na onda de ditames contra a realidade, e do novo e empolgante conceito de história e factualidade errada, fora perdendo o controlo sobre opiniões ou princípios defendidos, e traída pelo próprio azedume e ressentimento fora engolida pelos slogans apregoados. Como previsível o mundo do moderninho consumira-se a si mesmo. Por falta adesão aos factos, o politicamente correcto entrara em autocombustão.


        Em pouco tempo, a Ana Paula aproximou-se, percebeu as fraquezas e, estrategicamente, deixou-se ficar como figura de segunda linha, até ter a certeza de ter aprendido a arte de fazer política. Teve de estabelecer as relações necessárias, estreitar os ódios convenientes e aprimorar o discurso de demagoga. Teve de polir todas as arestas de mulher de paixões e opiniões. Aprender a defender as que rendem likes no Facebook e seguidores no Twitter. A moderninha daria lugar à ditadorazita de Espinho. Afinal, a protagonista era uma mulher do seu tempo e tarde ou cedo mostraria ao país a razão de déspota se escrever no feminino.


        A Margarida reflectiu sobre a última frase escrita e sentiu aproximar-se o final do livro. Folheou-o. Queria tranquilizar-se. Estar certa do problema não estar na ascensão ao poder por gente vinda da província, mas sim a ascensão ao poder de quem traduz cosmopolitismo pela ideia superioridade da cidade, enquanto núcleo do poder e das relações que interessam. Por espíritos provincianos, oriundos da mais recôndita aldeia do país ou de qualquer avenida lisboeta. Já nos chegava a visão estreita e pacóvia das elites das gerações anteriores, que não diferenciavam ser cosmopolita do bajular de correntes de pensamento estrangeiras e, por isso mesmo, se sentiam envergonhadas do país onde nasceram, como temos as novas gerações de deslumbrados e deseducados, a afiançarem a ideia de que ser cosmopolita, é ser moderno, urbano, abusar das novas tecnologias e defender de forma militante o apagão da história; a tal que explica o nosso estágio de civilização.


       Eterna ingénua, ansiava por velhos e novos ascendidos à nata do país cientes de não haver cosmopolismo sem o respeito por quem habita o universo, venha de onde vier. Sabedores do princípio íntimo do começo do universo. Vincava a ideia da necessidade de se ter mundo. Fazer parte do universo e respeitar-se a si e ao outro é mais difícil do que parece, dispensa a sobranceria pacóvia dos velhos privilegiados e impõe o conhecimento e compreensão dos factos da história desprezado pelas novas elites. E feita esta consideração, não sem antes rir da conclusão tirada, como qualquer outra resposta descabida na literatura, foi à pasta dos meus documentos procurar o primeiro início do livro que pretendia escrever, mas ao qual não dera continuidade, por se ter perdido a contar a vida da protagonista e outras personagens. Ainda assim decidiu, tal como tinha anunciado ao Vicente, valer-se do esboço inicial e passá-lo para o epílogo. Copiou e colou o texto. Trocou o título, apagando Ana Paula e escrevendo O Livro dos três Princípios. Simplificou, limpando as considerações inúteis sobre a evolução política dos últimos cinquenta anos, e sorriu ao ver novamente da cena triunfal da Ana Paula, a atravessar o jardim, calçada de revolução. Aí estava o terceiro princípio do livro.

Mimos

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Michel Camilo trio - NSJ - And Sammy walked in

Michel Camilo - Caribe

10/10/2020

Tempo: voltas à casa.

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Se os tempos estão negativos ou virados para agressividades, nada como espairecer e libertar as energias acumuladas. E treinar a paciência, que é qualidade fundamental para os tempos que correm. Ora, para quem se habituou em criança, nos meses mais quentes, a dar voltas à grande mesa da cozinha à espera que a torneira da água da mina acabasse de encher o copo, e a contabilizar o tempo em voltas à casa - sim, por exemplo, quando me diziam que faltava x tempo para o almoço, perguntava: isso são quantas voltas à casa? – fazer uma caminhada é a grande solução para muitos dilemas. E mais: é um gosto.


Tudo isto para dizer que voltei aos passeios semanais que fiz entre Março e Junho. Desta vez mudei de rota, em vez de ir para Ocidente, virei a Oriente. E fui dar uns giros pela pequena e ruidosa Quinta do Covelo.


Há 11/13 anos fazia um périplo quase diariamente após o jantar. Mas a zona era mais plana e arborizada, e por isso tentadora. Além do que, até há dois anos e meio, vinha regularmente do trabalho a pé. Agora nem árvores pelo caminho nem facilidades. Esta zona íngreme levou-me a desistir – mal – de continuar a ir e vir do trabalho a butes. Fraqueza a rever.


Em suma: hoje foi dia de dar voltas à casa. De regar a paciência. E de cheiro a madeira cortada: a serrim.


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