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21/10/2020

Miudezas

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Uma pessoa educada não fala de miudezas. Assim me ensinaram. Mas tresmalhei, não há o que fazer. Por isso conto o que se tem passado comigo no encantador reino do serviço nacional de saúde. Não me levem a mal o tom ligeiro com que falo destas coisas, que naturalmente se deve ao facto de não ter sofrido consequências graves pelo mau funcionamento do mesmo. Noutros tempos, zangar-me-ia muito. Creio até ter escrito há quinze anos, num blogue entretanto apagado, um episódio passado num hospital do interior. A visão do inferno, onde grassava a desorganização e a incompetência nos serviços administrativos e médicos e onde os mais velhos e frágeis só não morreriam ao abandono, caso a divina providência assim o entendesse. Entretanto, até por a vida me ter feito precisar de cuidados médicos e estar muito agradecida ao nosso serviço nacional de saúde e à competência dos médicos e enfermeiros que encontrei aqui no Porto, moderei o meu espírito crítico.


Mas além desta boa experiência, em Setembro do ano passado engrenei no processo com vista à cirurgia bariátrica. Nada de grave, portanto. Aliás, oiço amiúde – às vezes de médicos patologistas, dirigindo-se a mim directamente – que são cirurgias absolutamente desnecessárias, por competir ao doente conter-se. Fechar a boquinha, digamos assim. Claro que estas observações abstraem sempre do histórico do doente e das reais razões; isso daria muito trabalho ao processo de raciocínio de catalogadores de gatilho rápido. Adiante.


Depois da primeira consulta há um ano e um mês, foram pedidos exames em Janeiro de 2020. Meteu-se o corona e passei a ter todas as consultas por telefone – o que me agrada tanto quanto aos médicos, sejam os deste processo no Santo António, sejam os de outra valência noutro hospital. Naturalmente os exames também foram comprometidos. As normais análises foram feitas em Maio e para o efeito recebi quatro chamadas. Quatro. Cada vez que tocava o número do Santo António, pensava: vai ser para desmarcar, mas não. Era para confirmar a data e a hora. Meninas diferentes de umas vezes para as outras. A grande vantagem além de eu não ter qualquer hipótese de me esquecer da data e hora, é a do aumento do emprego no sector da saúde. Também me ligaram mais do que uma vez para desmarcar uma das consultas médicas, que afinal acabei por ter, via telefónica. Aliás, conseguiram a proeza de me telefonar depois da dita a tentar anulá-la uma vez mais. Respondi da forma mais doce que consegui, porque garanto que, neste momento, tudo isto me dá mais dó do que qualquer outra coisa.


Talvez por isso, quando me ligaram hoje de tarde – depois de ter estado lá de manhã para fazer endoscopia e biópsia – a marcar uma ecografia gástrica, já com algum calo nestas coisas, recordei: olhe que essa já fiz em Maio. Ah pois, realmente aqui diz segunda via, dizem de lá. Hum, mas então preciso fazer novamente ou é para dar sem efeito a chamada de marcação? Pergunto eu. Resposta: não, não venha. Esta marcação era de Janeiro. Pois eu percebo, se trabalhasse num sítio cujos ritmos fossem estes, também ficaria baralhada, pensei sem o dizer em voz alta.


Até percebo a razão de tantas baixas médicas na função pública. Estas coisas enlouquecem as pessoas. Só pode. E digo isto com toda a consideração pelo enorme grupo de batas brancas saído em bando do salão nobre – ali ao lado da capela - com quem hoje me cruzei na primeira escadaria à esquerda do edifício neoclássico. Enganada por indicação do porteiro que me disse para subir as primeiras escadas à esquerda. Eram as segundas, amigo. Sei, não li as placas. Mas eram as segundas à esquerda. Eu sei, está cansado. Estamos todos, mas façamos um esforço para pensar antes de dizer o que quer que seja a outrem. Pensei, apenas, sem o dizer em voz alta.


À saída, cá fora na base da escadaria e nas minhas costas, um homem cai desamparado no chão por não ter visto um pilarete. Parece-me um homem novo, capaz de se levantar. Hesito, até por estar acompanhado por quem o pode ajudar. Afinal é preciso, juntamo-nos quatro ou cinco pessoas, enfio-lhe os meus braços por baixo das axilas como aprendi que se fazia e levantamo-lo. Olho para a sua cara e percebo que é uma pessoa com muito mais idade do que presumi. Entreolhamo-nos. Está tudo bem, diz ele. Pressinto que pelo espírito das quatro ou cinco pessoas que ali estavam, todas coladas umas às outras, passasse a mesma ideia: se um de nós tem covid estamos todos tramados. Bah, que importa isso? Dispersamos.   


À ideia vem-me a imagem da senhora caída no chão nas escadas, numa noite (há oito anos, talvez) na área de serviço de Antuã. E do peso de consciência que tive tanto tempo - se é que já passou -, por não me ter apercebido da gravidade e ter ajudado a filha aninhada junto à mãe na base das escadas. Tentei sempre confortar-me, pensando: outras pessoas ajudaram. Mas não chega. Isso não chega.