O Livro dos Três Princípios - Festejo - 36.
Na capital, rapidamente se adaptou à teia de relações que interessam a quem tem pretensões de poder. Tornou-se amiga chegada e pretensa discípula de figura maior do partido, uma mulher inteligente, arrivista e azeda, com preparação académica e percurso de vida que faria adivinhar melhor futuro. Nos últimos dez ou vinte anos, ao entrar na onda de ditames contra a realidade, e do novo e empolgante conceito de história e factualidade errada, fora perdendo o controlo sobre opiniões ou princípios defendidos, e traída pelo próprio azedume e ressentimento fora engolida pelos slogans apregoados. Como previsível o mundo do moderninho consumira-se a si mesmo. Por falta adesão aos factos, o politicamente correcto entrara em autocombustão.
Em pouco tempo, a Ana Paula aproximou-se, percebeu as fraquezas e, estrategicamente, deixou-se ficar como figura de segunda linha, até ter a certeza de ter aprendido a arte de fazer política. Teve de estabelecer as relações necessárias, estreitar os ódios convenientes e aprimorar o discurso de demagoga. Teve de polir todas as arestas de mulher de paixões e opiniões. Aprender a defender as que rendem likes no Facebook e seguidores no Twitter. A moderninha daria lugar à ditadorazita de Espinho. Afinal, a protagonista era uma mulher do seu tempo e tarde ou cedo mostraria ao país a razão de déspota se escrever no feminino.
A Margarida reflectiu sobre a última frase escrita e sentiu aproximar-se o final do livro. Folheou-o. Queria tranquilizar-se. Estar certa do problema não estar na ascensão ao poder por gente vinda da província, mas sim a ascensão ao poder de quem traduz cosmopolitismo pela ideia superioridade da cidade, enquanto núcleo do poder e das relações que interessam. Por espíritos provincianos, oriundos da mais recôndita aldeia do país ou de qualquer avenida lisboeta. Já nos chegava a visão estreita e pacóvia das elites das gerações anteriores, que não diferenciavam ser cosmopolita do bajular de correntes de pensamento estrangeiras e, por isso mesmo, se sentiam envergonhadas do país onde nasceram, como temos as novas gerações de deslumbrados e deseducados, a afiançarem a ideia de que ser cosmopolita, é ser moderno, urbano, abusar das novas tecnologias e defender de forma militante o apagão da história; a tal que explica o nosso estágio de civilização.
Eterna ingénua, ansiava por velhos e novos ascendidos à nata do país cientes de não haver cosmopolismo sem o respeito por quem habita o universo, venha de onde vier. Sabedores do princípio íntimo do começo do universo. Vincava a ideia da necessidade de se ter mundo. Fazer parte do universo e respeitar-se a si e ao outro é mais difícil do que parece, dispensa a sobranceria pacóvia dos velhos privilegiados e impõe o conhecimento e compreensão dos factos da história desprezado pelas novas elites. E feita esta consideração, não sem antes rir da conclusão tirada, como qualquer outra resposta descabida na literatura, foi à pasta dos meus documentos procurar o primeiro início do livro que pretendia escrever, mas ao qual não dera continuidade, por se ter perdido a contar a vida da protagonista e outras personagens. Ainda assim decidiu, tal como tinha anunciado ao Vicente, valer-se do esboço inicial e passá-lo para o epílogo. Copiou e colou o texto. Trocou o título, apagando Ana Paula e escrevendo O Livro dos três Princípios. Simplificou, limpando as considerações inúteis sobre a evolução política dos últimos cinquenta anos, e sorriu ao ver novamente da cena triunfal da Ana Paula, a atravessar o jardim, calçada de revolução. Aí estava o terceiro princípio do livro.