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10/10/2020

Agressividade

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Noto nos últimos anos, aos finais de tarde de sexta-feira, particular agressividade dos condutores de automóveis e passageiros de autocarros. O ambiente hostil não existe sempre, mas é frequente. O que me deixa curiosa e com particular cuidado, por saber que, como qualquer doença contagiosa, a violência verbal é uma praga que se dissemina e com facilidade se apanha. Já dei por mim, junto de próximos, a reagir intempestivamente a bagatelas.


Ontem ao entrar no autocarro, deixando-me para o fim da fila, como sempre fiz, senti de imediato aquele rasgar de raiva no tom de voz de alguns passageiros. Pensei que o motivo era o do costume: tempo excessivo de espera, como lembrou uma das utentes num grito logo à entrada na paragem seguinte. Mas ao entrar e procurar onde me sentar, vi uma senhora mais velha (que conheço de vista destas andanças) fazer-me sinal de que tinha lugar ao seu lado. Agradeci com um sorriso e sentei-me noutro lugar, por não me apetecer conversar. A viagem dura cerca de 10 minutos, se tanto. Pois tive oportunidade de assistir a três discussões em voz alta. No primeiro lugar da frente uma jovem mãe de cabelo comprido, amarelo e ondulado pelo qual ia correndo a mão numa tentativa de gesto feminino a roçar o grosseiro, acompanhada da filha e do marido. Berrou ao telefone, com quem suponho ser professora ou ter alguma responsabilidade na escolha da forma de avaliação da filha. Baliu ao telefone para resolver o problema, por qualquer coisa não estar bem com a criança – que se escondia envergonhada – na escola. Quando desligou berrou com a miúda, atirando com agressividade imensa vários: mais alguma coisa? Está resolvido o problema? É preciso mais alguma coisa. Terminada a investida sobre a filha, virou-se para o marido, levantando a questão sobre a hora em que iam jantar e aproveitando em poucos minutos para destratar os pais do marido e desculpar o sua própria família, contabilizando quem paga o quê nos jantares familiares. A meio do autocarro ia a dita senhora mais velha que me acenou com um lugar. Preocupada com a circulação de ar naquele espaço, que ia bastante preenchido de gente mascarada, pediu a duas mulheres um pouco mais novas que abrissem a janela. Facto que originou outra discussão, por aquelas não terem acedido ao pedido, antes sim decidido zombar da mais velha pelo excesso de zelo e lembrar-lhe que devia estar em casa. Enquanto esta bradava pela calamidade. Era uma zoeira infernal lá dentro, vinda dos vários focos de tensão. Só me apetecia fugir.


É curioso que estas situações aconteçam mais ao final de tarde de sexta-feira. Será que o descomprimir eleva demasiado as expectativas? Tal como se diz que há mais divórcios nas férias. Ou será que as oito horas diárias de trabalho servem como couraça que distrai da realidade? Que impede o tornar patente a falta de afecto ou, ao menos, de empatia?