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13/10/2020

Recapitulando


Somos mesquinhos


por Isabel Paulos, em 10.06.20


 


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Não sei se escreva um poema que descreva o que agora sinto, se uma prosa a tentar descobrir as causas do nosso permanente estado de mesquinhez. Confusa com o que sinto sobre mim e tão só sobre o que sinto, procuro perceber o que nos derrota eternamente como Nação. Quero crer que é a mesquinhez que nos impede de sermos melhores. Em vez de poupanças financeiras, que nos permitiriam futuro mais desafogado, poupamos na crença de bondade dos propósitos do outro. Pequenos como somos, medimos o outro como a aluna pouco dotada da faculdade que, ao olhar de alto a baixo a colega, a enforma numa das poucas categorias de gente que preconcebe. Quantas vezes estremeci de indignação ao ver gente julgar e condenar outros por opiniões, expressões, modos de vestir, penteados, etc. Sei, todos o fazemos. Também o faço, é certo. Mas ao menos tenhamos consciência da nossa estupidez e não a façamos corresponder a uma verdade, muito menos ofendamos outros por causa dos nossos preconceitos.


A estupidez ignorante chateia. Incomoda e ganha lastro, contaminado todo o mundo moderno, através da comunicação social e das redes sociais. Mas muito mais grave e o que não augura nada de bom é que quem podia fazer a diferença, quem tinha a obrigação de o fazer - por ter tido acesso a maior rendimento, melhor instrução, melhores leituras, melhores oportunidades profissionais, maior contacto com estrangeiro através das viagens -, dá, em muitos casos, mostras a todo o momento de ser mais mesquinho do que quem está longe de ter tido todas essas benesses. Não raro, começa logo por considerar que foi à custa do trabalho e dedicação que conseguiu o lugar ao sol e que a ralé se quer ser alguém tem que se esforçar, estudar, trabalhar. Como se a maior parte da ralé não se esforçasse e trabalhasse a vida inteira a troco de nenhum reconhecimento. Os favorecidos poucas vezes assumem a sorte que tiveram. E há sortes de vários tipos: a família e o país onde nasceram, as pessoas e as oportunidades com que se cruzaram ao longo da vida e, sim, a condição física e as capacidades intelectuais e emocionais. Nenhum destes factores se deve à partida a esforço de espécie alguma de quem se considera superior. Pode vir a ser trabalhado, mas no essencial ou se é bafejado ou não. Pelo que, a primeira coisa que uma pessoa favorecida deveria fazer era estar grata e reconhecida pela sua condição. E a segunda seria retribuir o que recebeu.


Mais ainda do que a estupidez ignorante, tenho visto muita estupidez letrada. Sobranceira e desdenhosa. Quem podia fazer a diferença não sabe ou não quer fazer. Não sabe porque isso implicaria esforço honesto e todo o empenho que tem ao valorizar-se não é em prol de algo maior, mas sim da pequena vanglória ou tão só vantagem económica. Não quer porque teme perder a pose de superioridade, a vaidade. A pequenez valoriza mais a forma do que a substância, valoriza mais aparência do que é íntimo e verdadeiro. E nada de nobre se constrói de floreados e disfarces. Nem uma ideia válida, muito menos uma Nação.


Se temos alguns ou muitos trabalhadores trapaceiros a fazerem de conta que produzem, também temos empresários que pagam miseravelmente e medem o que trabalhador gasta nas férias ou noutro qualquer item, com inveja de que este tenha vida. Se temos alunos da faculdade cada vez mais preguiçosos, com pouca capacidade de concentração e disciplina, temos alguns professores ressentidos, raivosos e sem um pingo de respeito pelos alunos e pelas pessoas em geral. Reflexo de uma sociedade ela própria invejosa. Uma sociedade que perde menos tempo a tratar de si própria, do que a reparar no que outro está a comer e quanto pagará na mesa do lado do restaurante, ou que carro é que o vizinho comprou no mês passado, ou a opinião divergente que alguém emite e cujo preconceito nos faz enclausurar a sete chaves um significado único.


9 de Junho de 2020.



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