O primeiro sinal de que há inconsistência neste texto é o seu título. Se fosse inteiramente capaz de escrever e transmitir aquilo a que me propus, não teria necessidade de anunciar no título a figura de estilo. Quem viesse a ler não teria dúvida. Seria escusado dizer o evidente e ir mais longe, tal qual fosse uma anedota, explicando-a. Tudo quanto não se deve fazer. O paralelo é então entre uma burlona que engana a fina flor endinheirada de Nova Iorque fazendo-se passar por um dos seus membros e muitos de nós que andamos pelo mundo online a fazer de conta que pertencemos ao leque de pessoas que sabem dos assuntos sobre os quais falam.
E assim – num parágrafo introdutório – se mata o que pela ideia até poderia ser texto com interesse e graça. A ver vamos o que posso fazer agora dos frangalhos. Antes da democratização os que escreviam e falavam, em regra, sabiam. Havia o drama de ter de obedecer à cartilha, estivesse certa ou errada e, claro, reverenciar as sumidades. Com a democracia mudou a cartilha e felizmente acabou o temor reverencial (ainda haverá gente a saber o que é?), mas dele se passou para a bandalhice, na qual todos se acham no direito de ter opinião ainda que nas suas frases a bota nunca bata com a perdigota.
Acresce que a internet é feita de sombras. Se cara a cara já era difícil perceber quem sabe ou não sabe do que está a falar – e são tantos os equívocos gerados pelas diferenças de personalidade e aptidões naturais de cada individuo que expressa as suas ideias –, imagine-se num espaço abstracto e virtual em que não se vê a tromba. Em rigor, vê-se a imagem que os autores colocam e é obviamente a melhor ou a menos horrível (no meu caso). É um sítio propício de ‘dar imagem de’, ao invés de ‘ser o que se é’.
Imagine-se que alguém quisesse passar por botânico. Bastaria recorrer aos muitos lugares acessíveis online – e se um pouco mais ambicioso, comprar uns livritos - para obter a informação necessária a convencer dezenas de papalvos que é um connaisseur. Quantos utilizadores da internet se põem em bicos de pés, peleando indícios e razões como se soubessem realmente do que estão a falar?
Ah, dirão muitos: a mim não me enganam os charlatães. Será? Do que vou vendo quanto mais convencidos os internautas estão da sua superioridade e capacidade de avaliação, mais incorrem em erros de julgamento. Outros dirão: uma conversa no real é suficiente para desfazer o logro. Será? Será que o facto do desenvolto autor na internet se revelar tímido, acanhado e incapaz de se exprimir oralmente com eficiência desfaz o logro? Como distinguir os casos de fraude dos casos de simples personalidade mais reservada ou tímida? Será que o facto do valente detentor de boa retórica exprimir in loco e com desenvoltura meia-dúzia de juízos preparados sobre assuntos previamente determinados confirma não se tratar de logro? Como destrinçar a argumentação válida da simples facilidade de expressão?
Como será que a maioria dos utilizadores da internet – e já agora dos media - se sentem em relação a estas questões? Será exagerado supor que a maioria jamais admitiria diferença entre aquilo que é e a imagem que dá? Cá por mim, sinto-me um pouco como Anna Delvey (Anna Sorokin) a passar cheques carecas, com uma nuance: pressinto que a qualquer o momento a polícia baterá à porta para me pedir identificação e notificar da acusação de passar opiniões carecas.
Opiniões carecas seria o título deste texto se tivesse conseguido fazer um todo que me satisfizesse, como não – como foi um inconseguimento, nas palavras da antiga Presidente da Assembleia da República -, fico-me pela metáfora. É o que dá idealizar um texto ao acordar e só escrevê-lo à noite depois de um dia de trabalho. Foi o que se pode arranjar.
Boa noite.







































