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31/03/2021

Metáfora

O primeiro sinal de que há inconsistência neste texto é o seu título. Se fosse inteiramente capaz de escrever e transmitir aquilo a que me propus, não teria necessidade de anunciar no título a figura de estilo. Quem viesse a ler não teria dúvida. Seria escusado dizer o evidente e ir mais longe, tal qual fosse uma anedota, explicando-a. Tudo quanto não se deve fazer. O paralelo é então entre uma burlona que engana a fina flor endinheirada de Nova Iorque fazendo-se passar por um dos seus membros e muitos de nós que andamos pelo mundo online a fazer de conta que pertencemos ao leque de pessoas que sabem dos assuntos sobre os quais falam.


E assim – num parágrafo introdutório – se mata o que pela ideia até poderia ser texto com interesse e graça. A ver vamos o que posso fazer agora dos frangalhos. Antes da democratização os que escreviam e falavam, em regra, sabiam. Havia o drama de ter de obedecer à cartilha, estivesse certa ou errada e, claro, reverenciar as sumidades. Com a democracia mudou a cartilha e felizmente acabou o temor reverencial (ainda haverá gente a saber o que é?), mas dele se passou para a bandalhice, na qual todos se acham no direito de ter opinião ainda que nas suas frases a bota nunca bata com a perdigota.


Acresce que a internet é feita de sombras. Se cara a cara já era difícil perceber quem sabe ou não sabe do que está a falar – e são tantos os equívocos gerados pelas diferenças de personalidade e aptidões naturais de cada individuo que expressa as suas ideias –, imagine-se num espaço abstracto e virtual em que não se vê a tromba. Em rigor, vê-se a imagem que os autores colocam e é obviamente a melhor ou a menos horrível (no meu caso). É um sítio propício de ‘dar imagem de’, ao invés de ‘ser o que se é’.


Imagine-se que alguém quisesse passar por botânico. Bastaria recorrer aos muitos lugares acessíveis online – e se um pouco mais ambicioso, comprar uns livritos - para obter a informação necessária a convencer dezenas de papalvos que é um connaisseur. Quantos utilizadores da internet se põem em bicos de pés, peleando indícios e razões como se soubessem realmente do que estão a falar?


Ah, dirão muitos: a mim não me enganam os charlatães. Será? Do que vou vendo quanto mais convencidos os internautas estão da sua superioridade e capacidade de avaliação, mais incorrem em erros de julgamento. Outros dirão: uma conversa no real é suficiente para desfazer o logro. Será? Será que o facto do desenvolto autor na internet se revelar tímido, acanhado e incapaz de se exprimir oralmente com eficiência desfaz o logro? Como distinguir os casos de fraude dos casos de simples personalidade mais reservada ou tímida? Será que o facto do valente detentor de boa retórica exprimir in loco e com desenvoltura meia-dúzia de juízos preparados sobre assuntos previamente determinados confirma não se tratar de logro? Como destrinçar a argumentação válida da simples facilidade de expressão?


Como será que a maioria dos utilizadores da internet – e já agora dos media - se sentem em relação a estas questões? Será exagerado supor que a maioria jamais admitiria diferença entre aquilo que é e a imagem que dá? Cá por mim, sinto-me um pouco como Anna Delvey (Anna Sorokin) a passar cheques carecas, com uma nuance: pressinto que a qualquer o momento a polícia baterá à porta para me pedir identificação e notificar da acusação de passar opiniões carecas.  


Opiniões carecas seria o título deste texto se tivesse conseguido fazer um todo que me satisfizesse, como não – como foi um inconseguimento, nas palavras da antiga Presidente da Assembleia da República -, fico-me pela metáfora. É o que dá idealizar um texto ao acordar e só escrevê-lo à noite depois de um dia de trabalho. Foi o que se pode arranjar.


Boa noite.

Panca das casas

 


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Em 2018 cheguei a fazer proposta por uma destas casinhas em Gaia, só que velhota e por remodelar. Infelizmente, os donos precisavam de meio ano para se mudar.

Cenas do próximo capítulo

Esta história de há dois anos, da jovem russa que se fazia passar por herdeira alemã, enganando bancos, hotéis e outras entidades em Nova Iorque vai dar azo ao próximo postal sobre tanta gente, como eu, que gosta de dar bitaites online. Somos quase todos Anna Delvey. 


Agora, a questão é arranjar uma horita para compor um texto com tudo quanto me vai na telha.

Earl St. Clair




30/03/2021

Agenda

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No final das férias do ano passado, em Setembro, comecei a espanar o planeta de ocidente para oriente. Das Américas, para a Europa e África. Fui adiando a continuação e a primeira razão é porque empanquei na Rússia - e na imolação de jornalista russa - que era, juntamente com a Turquia, o país que viria a seguir. Como vem aí a Páscoa e um fim-de-semana alargado, pode ser que consiga desenguiçar a Rússia e desembestar pelo oriente.


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Para já, recordo os postais de Setembro último:


E.U.A.;


Peru;


Venezuela;


Brasil


Áustria;


Hungria;


Nigéria


Angola


Moçambique.


 

Susana Peralta

A forma como se expressa denota que não consente o pensamento nem aos outros nem a si própria. Ou seja, debita em vez que raciocinar enquanto fala.


Vou abster-me de comentar o conteúdo, já aqui disse o que penso sobre as ideias da economista. Mas a forma também conta e uma vez que surge como pessoa de peso na comunicação social e, por isso, com impacto na opinião pública, não se deve deixar passar em claro o evidente.

Bem-querer

A palavra amiga gira o dia, o gesto gentil muda a noite. A nobreza do acto cria vida, e mesmo que a vida não possa ser vivida, é sentida.

Black Man · Earl St. Clair


Parabéns, mano Nico

29/03/2021

A ver

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Foi hoje às 21h00, na RTP 1. Aqui.


 

28/03/2021

De novo, os equívocos

Para lá da opinião e de visões antagónicas do mundo. Para lá do contraste, do divergente, da crença em valores distintos, estão os equívocos. Já aqui fiz dois ou três postais sobre ambiguidades. Todos nós carregamos sensibilidades, traumas, mágoas, fúrias que a outros podem não dizer rigorosamente nada por pertencerem ao leque de assuntos em que estão absolutamente resolvidos - seja por nunca terem vivido os problemas, seja por os terem superado ou tão simplesmente nunca terem congeminado que a questão existisse. E mesmo quem parece absolutamente seguro da maioria das pequenas ou grandes mágoas de muitos, tem as suas próprias, que aos últimos passam ao lado.


A diferença está, sobretudo, na maior ou menor inteligência e sensatez com que se espelham ou resguardam as menoridades, as fragilidades. E no grau de liberdade com que cada um escolhe abordar estas questões.


Acresce que falar por indirectas, não falar claro, não ser honesto nos propósitos, na medida do possível, declarando aberta e claramente aquilo que vai pensando e sentindo ao longo dos dias ou anos, traz consigo perigos vários para as pessoas que consigo convivem.


Não falo em desonestidades activas, no intuito de prejudicar – em canalhices de quem tem prazer em fazer mal aos outros. Falo tão só na eterna desconfiança nos outros e na defesa permanente do seu espaço à custa de meias palavras, de sugestões e ambiguidades. É verdade que todos temos valores e pessoas a defender. Por vezes não declaramos abertamente o que pensamos ou sentimos pelo facto de tal impor sofrimento noutros. Tal é legítimo. Tal como é legítimo omitir informações que põem em causa realidades de que não estamos absolutamente certos, ou de cuja justiça tenhamos dúvida. Mas para lá disto estão os equívocos por falta da verdade e clareza que pomos nos nossos gestos e palavras.


Medo da franqueza? Medo da exposição? Tanto quanto sei é muito mais perigoso resguardarmo-nos de todos, para confiar apenas nos eleitos. A traição não vem normalmente de todos, mas sim dos que figuraram entre os eleitos.

É naquela

Recordo os tempos de liceu em que se dizia: oh, foi só isso? Isso ‘é naquela’. ‘É naquela’ tinha o sentido de insignificância. Coisa a não valorizar. Vem isto a propósito da confiança e de confiarmos as nossas histórias aos outros. Passei a assumir uma postura de relaxe quase total depois de anos excessivamente cautelosa com muitos e negligente em relação a poucos. Confiar as nossas histórias a outro é da nossa inteira responsabilidade e é evidente que a partir do momento que as deixamos escapar, não mais temos mão nelas. Até aí, é sabido. Para lá disto, está a traição, outra história.


A exposição nas Comezinhas serve para recuperar o espoliado para utilização indevida. Nada como a história regressar à primeira pessoa. Assim tudo volta ao sítio e ‘é naquela’.

27/03/2021

Escolhas

 


Deixa as palmadinhas nas costas para quem gosta de caminhos fáceis. A chacota pode significar tão só que estás no caminho certo. 


 

Futebol

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*


Cresci a ver jogar futebol. Até aos vinte e tal anos seguia regularmente os jogos, sobretudo, os do meu Portinho. Via os jogos à moda dos rapazes que sabem 'da bola', ou seja, a saber o que era uma boa marcação, uma boa recepção, um bom passe, um fora de jogo bem ou mal tirado, uma boa leitura de jogo, um bom pé esquerdo, enfim, essas coisas de quem cresce entre um pai e um irmão - o mais novo chegou a jogar à séria, o primogénito nunca foi grande fã, o do meio começou a ligar mais tarde -, absolutamente apaixonados pelo futebol. Da segunda metade dos anos 70 recordo os pequenos sacos  vermelhos (ou encarnados possidónio) e brancos da TAP em formato cilindro com roupa dos meus três irmãos nos dias em que iam para a ginástica no Futebol Clube do Porto a 50 quilómetros de casa. Levava-os a minha mãe que os trazia no fim das aulas na Faculdade de Filosofia. Eu ficava, por ser ainda muito pequena para essas andanças. Não tenho nem nunca tive paciência para conversa sobre arbitragens, questiúnculas e feiras de vaidades. Cresci entre gente que, mais do que falar sobre, valorizava o desporto: o gosto antigo da minha mãe pela ginástica e a prática do meu pai e irmãos do ténis. O Futebol Clube do Porto era o clube de paixão do meu pai e a casa onde os meus irmãos faziam desporto. É coisa que está no sangue, por assim dizer.


Fui às Antas ver dois jogos. É possível que tenha ido mais alguma vez e não me lembre. Da primeira recordo sobretudo que chovia copiosamente e do medo de malhar e rolar por ali abaixo até ao campo - logo comigo para quem é menos cansativo subir escadas do que descer, não por vertigem mas por o cérebro se esquecer de trabalhar nessas ocasiões e de me avisar atempadamente qual pé devo lançar a seguir. Nos anos 80 assisti ao jogo no estádio com o Covilhã - ainda jogava o Geraldão – e em 87, como qualquer portista, chorei baba e ranho de felicidade. Mas no início dos anos 90, sofri in loco, nas Antas, contra o Bayern - perdemos por dois. Ao longo nos anos admirei jogadores como o Futre (de quem fui vizinha), Fernando Couto, Luís Figo (da concorrência), Jorge Costa, Jorge Andrade e Ricardo Carvalho. Não me ficava pelos brilharetes, fintas e fogo-de-artifício de quem mais do que de futebol, gosta do espavento e do espectáculo envolvente. A discreta e fundamental posição de central sempre me impressionou mais do que o resto. E também jogadores – fosse qual fosse a posição -, cujo perfil fosse mais reservado - bom, o Futre é um caso à parte: na altura que jogou no Porto eu tinha entre 11 e 13 anos e, naturalmente, achava piada à exuberância. Nos anos 90 houve uma fase que acompanhava o campeonato espanhol (torcia pelo Barcelona, coisa que só mudou muito mais tarde por causa do Cristiano Ronaldo), o italiano (mais pelos nossos jogadores) e algum inglês. Gostava muitíssimo do correr de bola em Espanha, alegre, enérgico e resoluto. Houve alturas em que seguia o campeonato espanhol todos os fins-de-semana tal qual o português. Detestava a agressividade e mau-feitio rendilhado das lutas corpo a corpo e faltas sucessivas do futebol italiano. Gostava do atravessar de campo em dois ou três passes longos e decisivos do futebol inglês e, sobretudo, da forma como os jogadores não faziam as fitas infantis como os mediterrâneos, especialmente os portugueses e italianos.


Ao Dragão - lindo de morrer, mas gélido o suficiente para acabar em pneumonia no mais saudável e resistente dos adeptos -, fui três vezes, e é impressionante mas não me lembro quem era a equipa adversária numa delas. Nas outras duas foi o Braga, e uma das ocasiões o melhor jogo da época - imagino que haja quem desminta, mas não quero saber. Foi na época 2010/2011, com o mui senhor André Villas-Boas ao comando do Portinho: jogou-se muito de parte a parte, tendo Porto e Braga oferecido hora e meia de puro prazer àqueles quarenta mil (?) adeptos, que puderam ver o que é trocar bem a bola, jogar limpo, competitivo e muito emotivo, sem manhosice. Eu que vejo muito mal ao longe e acho que se vêem os jogos muito melhor na televisão, adorei lá estar naquela noite em que ganhámos por 3–2, com o mister simpatia Helton na baliza e o afável touro Hulk a marcar um dos golos - os outros dois foram do Varela.


Apesar destas investidas raras nos estádios e de quando em vez assistir a um jogo na televisão, quando me aproximei dos trinta perdi o gosto por este desporto. Transformado em tema principal das televisões, meios de comunicação social e alguns espaços digitais, o excesso de miudezas, mesquinhices, diz-que-disse e apelo ao invólucro deixou-me a léguas do futebol. Além de um ou outro jogo do Porto, acompanho distraída esporádicas exibições das fases de qualificação da Selecção (e por falar em homens discretos, a devida vénia a Fernando Santos) e, claro, muito atenta às fases finais dos europeus e mundiais.


O facto de viver com um sportinguista que não liga peva nem percebe nada de futebol – e que, como eu, se lembra de um tempo onde desporto na televisão não equivalia a futebol, mas a uma infinita variedade de modalidades -, ajuda ainda mais no distanciamento e dou graças por nesta casa não se subscrever em especial nenhum canal cabo dedicado ao dito desporto rei. Tenho, isso sim, saudade de ver os Jogos Olímpicos de fio a pavio. Passar madrugadas a ver basquete, atletismo, ginástica rítmica e artística e tudo mais. O futebol hoje em dia cansa-me. Só apetece tirar o som da televisão, apagar as letras do monitor, e pedir: deixem-nos trabalhar jogar em paz para que nos possam dar prazer e alegria.


Escrevi este postal hoje por uma razão muito simples: sonhei na noite passada com a classificação da Liga. Não faço ideia por que carga de água fui sonhar com isso, mas o facto é que sonhei que este fim-de-semana o Benfica empatava a 1-1, o Sporting perdia por 2-1 e o Porto vencia - neste caso não me apareceu, como nos outros, o painel digital a vermelho com o resultado. No sonho estávamos contentes porque alcançaríamos o Sporting. Apesar de muito alheada do que se passa no futebol, na última vez que vi a classificação estávamos a 10 pontos, pelo que pelas minhas contas é preciso que a quimera se concretize 3 vezes e meia para conseguirmos. Além de mais agora, escrito o postal, fui consultar o calendário da Liga e vi que este fim-de-semana não há jogos. Telefonei ao meu pai que me confirmou a razão: jogam as selecções. Resumindo: como bruxa não valho um chavo. E estamos nisto.


Porto, sempre.

26/03/2021

A ver e ler

 


Sobre as relações dos E.U.A com a Rússia e a China convém ver a última edição do Leste/Oeste, de Nuno Rogeiro, e ler o artigo EUA vs RPC: os pontos quentes da nova Guerra Fria, de Jaime Nogueira Pinto,  cujos excertos se seguem.


 


O recente encontro entre os responsáveis máximos pela política externa de Washington e de Pequim, em Anchorage, no Alasca.


[...] Blinken começou por falar nos encontros que acabara de ter na Coreia do Sul e no Japão e das “profundas preocupações” que ali tinha partilhado com coreanos e japoneses.  E “as profundas preocupações” então discutidas com os dois aliados –  “dois dos nossos mais próximos aliados” –  incidiam sobre “as acções da China no Sinkiang, em Hong Kong e em Taiwan”, os “ciberataques contra os Estados-Unidos” e a “coerção económica” da China aos “nossos aliados”. Acções que não eram “meros assuntos internos” já que ameaçavam a ordem internacional e as suas regras elementares.


E concluía: The United States relationship with China will be competitive when it should be, collaborative when it can be, adversarial where it must be.  Curiosamente, este “competição quando devida, colaboração quando possível, hostilidade quando necessária” aproxima Blinken do “Contenção, Détente e Roll Back”, a estratégia para combater a União Soviética na Guerra Fria, inspirada no “long telegram” de 1946, de George F. Kennan, então número dois da embaixada americana de Moscovo.


[...]  Sullivan, para continuar ao ataque, referindo a cimeira virtual de Biden com os líderes do chamado grupo “Quad” – Índia, Japão, Austrália –, na sexta-feira, 12 de Março; um “encontro histórico” de uma aliança mais ou menos adormecida, que nunca tinha reunido a tão alto nível e que era claramente uma “aliança de democracias” para conter a China. E sublinhou que a prioridade dos Estados-Unidos era o bem dos Estados-Unidos e a protecção dos interesses dos seus parceiros e aliados.


Em resposta, o Conselheiro Yechi contra-atacou com o longo prazo, dizendo que a China esperava, em 2035, acabar a sua etapa de “modernização básica” e terminar, em 2050, “a modernização total”. Falou depois dos sucessos da China no combate à Covid 19 e à pobreza – apesar de o PNB per capita da China ser 1/5 do dos Estados-Unidos.  E passou à unidade da China, sublinhando que “o povo chinês” estava “todo à volta do Partido Comunista Chinês” e que os seus valores eram “os valores comuns da Humanidade”, a saber, “a paz, o desenvolvimento, a decência, a justiça, a liberdade e a democracia”.


E da unidade da China e dos seus valores democráticos seguiu para as divisões e fragilidades da arrogante democracia americana: era importante que os Estados-Unidos “mudassem a sua imagem” e parassem “de promover a sua própria democracia no resto do mundo”, até porque “muita gente nos Estados-Unidos” tinha “pouca confiança na democracia norte-americana”, enquanto na China, “de acordo com os inquéritos de opinião”, os líderes chineses tinham “o largo apoio do povo chinês”.


E voltou à Guerra Fria: os Estados-Unidos tinham de abandonar “a mentalidade de Guerra Fria”; de resto, um dos problemas pendentes no mundo resultava da hipervalorização, pelos Estados-Unidos, da segurança nacional “através da força e da hegemonia financeira” e “levantando obstáculos às actividades comerciais”; enquanto a China actuava com isenção ideológica nas relações ligadas à importação e exportação, isto é, “de acordo com os padrões científicos e tecnológicos.”


[...] Vinha agora a resposta às “profundas preocupações” americanas. O Sinkiang, o Tibete e Taiwan eram “parte inalienável do território da China” e a China opunha-se firmemente à interferência dos Estados-Unidos nos seus assuntos internos: “exprimimos a nossa firme oposição a tal interferência, e adoptaremos acções firmes como resposta”. Quanto aos “direitos humanos”, que dizer dos Estados Unidos? Havia “muitos problemas de direitos humanos nos Estados-Unidos” e não tinham propriamente “começado com o Black Lives Matter”.  Qualquer tentativa para derrubar os “assim chamados Estados autoritários”, estava “condenada ao fracasso”. E seria lícito que os Estados Unidos, “campeões em ciberataques e nas suas tecnologias”, acusassem os chineses de ciberataque? [...]


 


[...] Nós, os mercados terceiros


Mas, antes que seja tarde, convém que não nos esqueçamos pelo menos de uma das dúvidas e das perguntas decisivas: preferimos viver num mundo dominado pela América ou pela China?


 

Boa disposição

De onde vem a boa disposição? Resumo: escrever nas Comezinhas é apenas como ligar o amplificador das desde sempre e eternas conversas de mim para comigo. Não estranhem, eu própria estranho e por isso quase sempre tive o amplificador desligado para não perturbar o normal funcionamento do mundo. Mas, que querem? Às vezes distraio-me, perco a vergonha e vai disto. Desligar as próprias infindas conversas é que, dizem: não há remédio, senão a morte. E essa espero que venha o mais tarde possível, pois tudo isto sempre me divertiu mais do que causou embaraço.

Madrid

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El Rastro - Madrid, Novembro de 2005.

Palermices

Escrever meia-dúzia de linhas quase à toa só para fazer de separador entre Elton John e o madrileno El Rastro: não condizem. Hoje é sexta-feira, yupi. Hum, não tenho nada para dizer. E muito para fazer antes de entrar em fim-de-semana. Cada vez mais criança. Eheheh. Ainda só vai em três linhas no word e em 58 palavras. Palavras gastas assim em palermice. 64. O sol está a forçar as nuvens, a tentar rompê-las, mas elas estão a dar luta. 81. Nada, mais nada de inútil a dizer. Hum, quase 6 linhas. Acho que consegui. Vitória. 97.

25/03/2021

Elton John




A dita

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Fiz de novo o teste: vai na 51ª referência ao termo mais vezes usado no mundo no último ano. Estaria tanto mais orgulhosa de mim quantas menos entradas nas Comezinhas da palavra Covid (52). Porquê? Por isto e sobretudo por pensar 'para quê?'. Se é o tema recorrente do mundo inteiro, acrescentar o quê? Se quase tudo quanto se diz é chover no molhado. 


Deixo só a conclusão de que nem eu nem o motorista da Uber acertámos. Nem uma semana, nem duas. Já vamos em três e não há aumento dos casos, apesar de haver aumento do índice de contágio. Será que é à quarta ou quinta? De qualquer modo, não tínhamos razão e ainda bem.


Dou ideia de alheada do mundo? Olha que bom, tanto mais contente estou.

Vidas incontáveis

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Sempre fico contente ao ver na televisão ou internet ideia de negócio ou de carolice para reparação e troca de objectos usados e electrodomésticos. Não consigo perceber como num mundo em que as bandeirinhas da ecologia se agitam excitadíssimas seguras pela mão esquerda, ao mesmo tempo que na mão direita se exibe a última geração de Iphone ou o 5G, o mercado da segunda-mão da tecnologia não se imponha em força. Só há uma explicação: as pessoas não estão interessadas em proteger o ambiente mas em guinchar qualquer coisa que pareça tão in quanto os novos ténis de marca ou smartphones com funções de que nem sequer imaginam a utilidade, tantas vezes usando o aparelho pouco mais do que para telefonar, trocar mensagens nas múltiplas redes sociais, aceder a outras aplicações que expõem toda a sua vida e fazer jogos - nada contra, o caricato é apenas o facto de precisarem de uma máquina topo de gama para o efeito. É como comprar 'porsches' e 'ferraris' para andar em carreiros.


Durante dois ou três anos as minhas visitas ao Custo Justo ocupavam tanto tempo como hoje as andanças pelos blogues. Lá fiz - estou a contar pelos dedos, mas pode-me escapar alguma -, meia-dúzia de compras que vão da guitarra à Colecção Mil Folhas do Público. Cada compra tem uma história: de encontros à porta de Centros Comerciais a visitas às casas de origem para ir levantar os objectos a comprar. Lembro-me vagamente da figura e conversa de cada um dos vendedores e, nalguns casos, de familiares. Há quem venda quadros por ter mudado a cor predominante da decoração da sala, outros por os terem trazido das Antilhas e logo deles se cansado, há quem venda a guitarra por ter desistido de aprender ao fim de dois meses, há quem venda o serviço completo de loiça Vista Alegre por ter casa pequena para o muito acumulado pelos pais entretanto desaparecidos e há quem venda livros por falta de espaço.


E há pessoas como eu sem vergonha de dizer que fizeram estas compras em segunda-mão e as juntem ao que compraram de novo ou ao que têm transmitido de geração em geração. Assim, ao gosto da tradição – de conservar o que é legado –, junta-se o prazer da pechincha.


A palavra pechincha remete-me para a infância. Quando criança havia uma loja no Centro Comercial Brasília chamada Pechincha, dedicada à venda de objectos para casa. Neste caso, de objectos novos, frágeis e delicados, especialmente de loiça, cristal e vidro. Era um dos espaços que mais frequentava com a minha mãe antes do Natal ou por ocasião dos muitos aniversários que precisavam ser assinalados com uma lembrança. O que mais recordo era da minha mãe a fazer-me sinal ou dizer para ter cuidado, pois tudo ali era frágil e estava apoiado em mesas muito baixas sem protecção. Imagino que com a educação em voga entrar hoje na companhia de uma criança num espaço assim seria a morte do artista.


Mas voltando às compras de objectos usados, a minha melhor compra no Custo Justo foi o serviço de loiça Ema do grupo Vista Alegre, com cerca de 120 peças. Nem queria acreditar no preço quando vi o anúncio. Uma verdadeira pechincha num serviço com desenho e motivo que me agradava. Não podia escapar e não escapou. A razão de venda? Desaparecimento de uma mãe minhota com duas filhas a viver em apartamentos normais para os tempos modernos, ou seja, pequenos. Sem espaço para albergar os quatro serviços completos da antiga casa e, entre eles, a última aquisição da progenitora. O único trabalho que tive foi o de tirar as etiquetas das 120 peças.


É evidente que quem faz compras no Custo Justo corre riscos: o de ser enganado ou, pior, de estar a comprar produto fruto de roubo ou furto. Mas com as devidas reservas e cautelas podem fazer-se boas aquisições nestas páginas de venda online. E descansem os desconfiados, não dou presentes em segunda-mão. A única presenteada com estas boas compras – tantas vezes as melhores –, sou eu mesma e a minha casa. E considero este tipo de compras - tão usuais por esse mundo fora -, um indicador de sensatez num mundo de consumo frenético onde o ter mais e mais e novo e de marca e caro é a regra. Para deitar fora e logo substituir por mais e mais e novo e de marca e caro. Um sufoco. Não faço compras no Custo Justo há anos, e ainda não deitei nada fora do que lá comprei em segunda-mão.

24/03/2021

Um imenso favor - Javier Marías

Em meados de Janeiro recebi a encomenda de três livros de Javier Marías: o segundo e terceiro volume de O Teu Rosto Amanhã e o que reúne os seus contos, Não Mais Amores. Os dois primeiros eram para mim, para juntar ao primeiro tomo que está em repouso na estante há mais de um ano (dois ou três talvez). Apesar da escrita limpa, cativante, do assombro do pensamento esmiuçado e da certeza de que vou gostar muito, a obra mais ambiciosa deste autor aguarda que os astros se alinhem numa conjugação perfeita entre desejo de ler e ocasião propícia. O outro – o dos contos –, foi para oferecer a aniversariante que o anda a ler neste momento. Trouxe-me hoje cópia de um dos contos. Oh, heresia: ler em fotocópias. Este Um imenso favor parece uma excelente apresentação ao pensador.


A forma ingénua como tapei as notas feitas a lápis por quem o leu antes de mim fizeram-me lembrar a tira da Mafalda na qual o pai coloca uma planta de folhas caídas sobre o ecrã de modo a desincentivar a filha de ver televisão.


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O ciclo da opinião amigável

Como ganhar corpo e peso no meio em que interessa ganhar corpo e peso? Dizer piadolas ou investir em maledicências que façam rir o punhado de amigos convenientes que, nas redes sociais ou comunicação social, aumentam a projecção das piadolas e maledicências de modo a transformarem-nas em opinião unânime.

José James — No Beginning No End 2

E no fim

Ouves dizer que não se deve estar preso ao passado. O que isso seja é uma variável altamente subjectiva. Podes viver tanto o presente estando amarrada ao passado ou ao futuro, como se mui ciente estivesses de aproveitar o dia presente. E nem vale a pena entrares no plano da física para desconstruir tudo isto: um dia saberás harmonizar o sentimento ao desencontro entre o tempo da física e o que reza a história e a psicologia.


Olhando para trás quanta admiração pelo que viveste achando que apenas projectavas. A permanente idealização, o tal arqueiro em busca eterna pelo devir que a simbologia astrológica ocidental te escolheu, terá feito de ti menos gente do que se pragmática e persistente teimasses em ser fiel ao que és à luz da imagem do oriental búfalo?


Em sonhos voaste e voas alto. Desististe há muito de piar fino. Sonhas com as estrelas, como se usa dizer. Como recompensa sentes e crês na companhia das estrelas. Na outra mão sofres da estranheza e desconfiança alheia. Do caminho inconsciente encetado em criança e das múltiplas angústias geradas no descalabro abissal entre sonho e realidade total – a que te compreende a ti e aos outros – tomas consciência que o trilho se fez vontade e escolha.


Se os sensatos conselhos te puxam - como criança irrequieta desejosa para brincar ao joguinho em voga -, pela manga da camisola da adequação, o corpo inteiro parte em viagem arrastado pela cabeça para o mundo de recreio que criaste e escolheste.


Há angústia esporádica e medo, pois com certeza. O desajuste tem preço. Mas saberias agora viver de outra maneira? Terias sabido viver no passado de outra maneira? Hoje, depois de um acordar em paz com o que te costuma causar conflito e fúria seguido de um momento de desânimo, deste por ti consciente das marretadas que a vida te deu, independentemente de saberes que te puseste a jeito.


Houve momentos em que tudo soou a fiasco. Fiasco total. Houve momentos em que tudo soou a ciclo perfeito de alegria e harmonia completa contigo, os outros e o universo. E há momentos em que buscas o passado para perceber o que sentiste e já não consegues sentir.


Dos amores passados sobra uma ténue memória feita de curtas imagens, palavras, toques e também da ausência de imagens, palavras e toques. Já não ouves as vozes que te envolviam e por meses ou anos eram as mais importantes da tua vida. E das que não eram importantes. Já não vês as expressões do olhar que por meses ou anos eram tudo. E das que não eram tudo. Já não vês corpos e sombras a quem te entregaste. E a quem não te deste. Não sobra nada, nem as convencionais fotografias e lembranças, porque a tua vida teve pouco de convencional. Nada, ou quase nada. O tempo é implacável. Será que sobra alguma coisa de real? Do que efectivamente foi? Ou só as posteriores considerações que fizeste sobre o vivido?


Do chamado mundo concreto então o hiato entre o sonho e a realidade apresentou-se quase sempre como um despenhadeiro pelo qual caías rolando eternamente. Até ao momento em que a imagem que de ti fazem começou a ser menos importante daquilo que és. Até assentares na ideia que nada fará seres mais nem menos do que és.


Agora vives mais serena do que nalgum momento passado. Compreendida por quem é importante compreenda. Menos compreensiva do que devias com quem devias, aresta a limar. E a dar menos crédito e empenho àquilo e àqueles que não merecem.


Medo do fim? Sim, mas não em qualquer circunstância. Só no caso de o fim te soprar baixinho que as estrelas não existem.

23/03/2021

Happiness


Será desta felicidade suspensa há um ano que o mundo sente falta?

Bilheteira

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Nas antigas casas civilizadas havia o uso de ter uma Bilheteira. Uma salva de prata de pé alto onde as visitas deixavam os seus cartões-de-visita. Foram algumas as casas onde poderia ter deixado um bilhete de gratidão. Hoje apetecia-me tão só deixar o cartão-de-visita - que não tenho -, a dizer: muito obrigada pelo muito que aprendi, não voltarei para não desaprender o que sei.

22/03/2021

Arve Henriksen




(Shakuhachi, a flauta de bambu japonesa.)

Amálgama

Dou por mim a cogitar de que resulta o pensamento e como os outros influem nele. No fim-de-semana passado ao deambular por aí ouvi entrevista a quem referia as virtudes do pensamento liberal. Dizia estranhar, coisa que há muito verifico e disso falei na Ana Paula, a forma como o termo liberal é tomado como insulto em Portugal, quando os anglo-saxónicos são estimulados a ‘praticá-lo’, sendo livres e opinativos. São educados a darem-se ao trabalho e risco de serem críticos. Até aqui tudo bem, o problema começa quando se parte para considerações económicas e se diz que em Portugal não há estímulo ao risco e que não há mal nenhum em falir uma, duas, três vezes porque o erro faz parte do percurso e não há necessidade de ficar com o estigma. Esta coisa de importarmos conceitos para realidades diferentes tem sempre o risco de esquecer factos importantes. No caso, a real e efectiva tendência dos portugueses para o incumprimento das regras. É que uma coisa é a falência por o negócio ter corrido mal pela própria natureza e circunstâncias, outra porque se quer enganar os credores, trabalhadores ou o Estado. Convém pois definir o que se chama risco e quem é que arca com as consequências: o falido ou os credores, trabalhadores e contribuintes.


Vi nascer um blogue que me pareceu dedicado ao excel. É curioso que já me tinha passado pela cabeça que este era um bom meio para ensinar as funções da excelente ferramenta que temos ao dispôr. Uso o excel há mais de duas décadas, tive formação na utilização, mas tantas vezes acabo por perder tempos infindos em tarefas que sei poderem ser resolvidas em segundos, se soubesse usá-lo devidamente. Excelente projecto. Espero que seja para continuar. Noutra banda li uma boa frase – de um autor cuja obra mais ambiciosa tenho na estante à espera de ganhar fôlego - sobre pensar demais ou complicar o que pode ser simples. Como todos fazemos – uns mais do que outros, eu muitíssimo – individualizei e lá expus o umbigo à ideia. Dois verbos vieram logo à cabeça: enredar e emaranhar - a forma como se consegue enguiçar a vida sob alguns aspectos por anos ou décadas. No meu caso, a carta de condução e o peso são protótipos do emaranhar. Coisas de simples resolução, que por estarem sistematicamente enredadas em planos inconsequentes e falta de força de vontade e disciplina, são adiadas ad aeternum. Não me martirizo; tantas outras foram conseguidas: as mudanças de casa, o regresso à escrita e o impensável regresso à escrita em público, o deixar de fumar, o gato, enfim, estes e outros enguiços superados.


À meia-noite tenho o hábito de ver as estatísticas sobre as visitas do blogue. Para lá do acaso das pesquisas do google e sem querer estar a expôr quem quer que seja - até por ninguém ter a obrigação de se identificar -, há coisas que me deixam contentes, como o regresso de uma visita de Angola. Desde início de Fevereiro tenho visitas regulares de um país nórdico (dois países nórdicos nos últimos dias). Um cumprimento à visita dessas terras frias. Há meses tenho visita diária de Brasil, que julgo saber a identidade e prezo a companhia. E também tenho – há mais tempo – visita regular dos Estados Unidos. Como imaginam fico a conjecturar quem sejam os leitores. Fico com o feeling que serão emigrantes portugueses, coisa que logo me dá a sensação de boa companhia. E mais, com alguma vaidade: o sentimento de que as Comezinhas servem para alguma coisa. Vou tendo visitas do território nacional, continental e ilhas: a tal dúzia de visitantes mais ou menos habituais (digo-o não por saber quem são na maioria, apesar de num o outro caso já ir sabendo pela repetição do concelho), que tal como os anteriores me vão dando alento para continuar a escrever nas Comezinhas. Muito obrigada.


Entretanto hoje de manhã em conversa com alguém - que comigo concordava -, dizia que a leitura de livros é apenas um dos muitos e válidos interesses na vida. Vem isto a propósito daquele postal de há três semanas sobre o conhecer pessoas com interesses variados e a vastidão do mundo. Sobre a excessiva valorização de um interesse único ou, na outra mão, na desconsideração de quem não faz da leitura de livros o centro da sua vida. E para terminar, a propósito de críticas genéricas que já vi serem feitas, deixo sublinhado que não referi a origem da entrevista ou dos textos que li e que estiverem na base deste postal e não considero ter cometido erro crasso ou sequer erro, pelo que não me sinto diminuída. Isto para dizer, que podemos estar no mundo digital sem a pretensão de achar que se tem de justificar bê-á-bá tudo quanto se diz como se estivesse a apresentar trabalho académico ou jornalístico - até porque nalguns casos daí decorre discutir-se mais 'pessoas' do que 'ideias'. A liberdade também é isto. Há espaço para todos.

Identitários, cínicos e superação

A ideia não é nem rebuscada nem difícil e é, aliás, recorrente em escritos prévios: todos estes ressentimentos que desembocam nas bandeiras identitárias e o movimento tendencialmente associado à esquerda adolescente, que se impõe ao mundo através do discurso dominante nos meios de comunicação de massas, podem ser considerados ímpetos e apesar de tantas vezes ridículos é possível que tenham razão válida implícita. Mescla-se a luta de poder numa espécie da procura da virtude que obviamente esbarra no (oposto) cinismo ou indiferença: na falta de crença na existência da honestidade. É desta argamassa de dois radicais indesejáveis e da busca de um denominador comum que esteja além dela – e não de uma ambiguidade que não teria qualquer valor – que há-de resultar a superação.


É verdade que nos andam a tentar evangelizar ou doutrinar, impondo regras de virtude – à semelhança da religião - que apesar de terem base numa ou outra injustiça concreta são absolutamente arbitrárias ou estapafúrdias e de impossível aplicação geral e abstracta por corresponderem: a) a micro interesses individuais ou de tribo, b) a ressentimentos inconsistentes, c) a logros e mentiras. Mas não é menos verdade que no manto da dita normalidade em que vivemos, todos os papéis estão predefinidos e tantas vezes sem justiça. Além do que compactuamos com o cinismo – na acepção filosófica original: o abandono da civilização em prol da natureza. Mas por uma via diferente: pela sofisticada indiferença ou relativismo - terreno fértil à desonestidade. Se não actuarmos sobre a nossa miséria ou a do mundo, escudando-nos em etéreos eufemismos sobre a nossa própria desonestidade ou os vícios dos outros, desacreditamos num módico de justiça e tornamos a vida civilizada impossível.

21/03/2021

Actualização

Postal Sem rede actualizado.

Batotas

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20/03/2021

Andar a pé

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Provérbios e expressões idiomáticas

 


À primeira quem quer cai, à segunda cai quem quer, à terceira só quem é tolo.


 


(das sucessivas revelações de mau gosto.)

José James




É o que dá ligar ali na Dose recomendada (na barra lateral direita) a Accuradio.


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Extra: Bill Withers


19/03/2021

Pensamentos curtos e soltos

Fico com a certeza de estar face a uma pessoa presunçosa quando vejo uma alma convencida da sua sofisticação cair na tentação de dar lições sobre respeito pela sexualidade, livre escolha e homossexualidade, cheia de medo de melindrar homossexuais e bissexuais (que tendo mais dois neurónios riem divertidos da paródia), numa penúria de argumentação confrangedora, mas felicíssima consigo própria e a boa acção.


Um bocejo. Arranjem uma vida.


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Entretanto continuo a afeiçoar o pescoço à guilhotina. Atenta a palermice que aí anda, é bom estar preparada. 

Sem rede

Eis o fim do dia de sexta-feira e quase fechadas as hostes laborais qual é a ideia que me assalta a mente? As agendas, esta e esta, bússolas pelas quais me oriento enquanto houver Comezinhas. Já dei por mim a pensar zarpar não tanto por tédio, mas por me encanitar a ideia de estar dependente disto, afinal de contas o hábito faz o monge e o meu nestas vidas digitais não costumava ser sedentário. Será que com a idade passará a ser? 


Mais uma vez este postal é escrito sem rede no sentido de não saber a vogal ou consoante que vai sair a seguir. Nem as ideias ou pixéis a desenhar. Despreendimento ou exibicionismo? Pretensão ou tolice? Com certeza pouco mais do que confidências inúteis. Indo e vendo, logo se verá. O que importa é que estou contente: são três dias seguidos sem trabalhar, com a última féria do ano passado a ser gozada na próxima segunda-feira.


Planos, além da descontraída vida caseira? Tempo suficiente para desbastar a escrita nalguns dos itens agendados (no fim-de-semana passado não correu mal) e dar uns giros para apanhar na tromba do ar e do sol que haja no meio do enevoado. Adiantar e desbravar A Selva. Ah, fixasse eu um décimo das palavras caídas em desuso ou que simplesmente desconhecia o significado - da leitura de ontem recordo o 'glauco' -, entre umas e outras em cada vinte páginas pelo menos dúzia delas. Entremeada na Filosofia para Pessoas com Pressa, começada anteontem. E logo apanhada em falta por falha grave: nos pré-socráticos não consta Demócrito. Mas foi bom rever aquela primeira 'verdade' à qual todos fomos introduzidos nos liceus: mitologia vesus filosofia - a lousa preta com um risco ao meio para mostrar por itens a superioridade do pensamento pré-socrático sobre o mito. Sô professora, não se importa de pôr a tracejado essa linha contínua separadora? É que o que é verdade num momento passa a mito depois. Creio que não me fez a vontade, já não me lembro bem. Mas sei que não implicou comigo e até terá achado piada. Graça acho agora ao facto de trinta e três anos depois não haver grande mudança no que penso. Lá está, como me disseram há muitos anos: a nossa personalidade forma-se na adolescência (o nervo central, digo eu).


Há uns bons anos tenho a ideia de voltar a estudar matemática. Houve alturas em que estive para comprar num qualquer Custo Justo (há tanto tempo que não deambulo desses espaços) os livros de exercícios dos doze anos (da primária ao 12º) e atirar-me de cabeça. Mais tarde verifiquei que há sites com acesso aos exercícios. Por isso, é só uma questão de começar. Tempo e disponibilidade. Razão? Embrutecimento da parte lógica do cérebro. Noto-a há anos. Já esteve pior: o regresso à leitura e à escrita ajudaram um pouco, mas não são de maneira nenhuma suficientes. E talvez seja cedo para me encostar no sudoku. Primeiro a matemática que ficou lá atrás: a bem feita e a que ficou por fazer. Em criança era boa aluna a matemática, depois na fase parva da rebeldia perdi completamente o pé e só não tinha 1 na pauta porque os professores deviam ter vergonha ou não estavam autorizados. Logo a seguir, e muito cedo, deixei de ter a disciplina. Como posso não ter o cérebro embaçado? Ainda há tempo. Se não for neste ou no próximo ano, voltarei a estudar matemática um dia: o plano ambicioso é reduzir a coisa ao essencial e fazer doze anos em seis meses. Planos e intenções tenho suficientes para preencher umas tantas reencarnações.


*


Adenda de 21/03/21: afinal na Filosofia para Pessoas com Pressa, de Lesley Levene, há uma referência a Demócrito. Não tem tratamento autónomo, sendo-lhe dedicado apenas um parágrafo a propósito de Epicuro. Diz-se pouco mais de que o antecedeu e que este lhe adoptou a teoria de que todo o Universo é formado por minúsculas partículas que se movem num espaço vazio.


Aproveito para fazer uma alusão a Heráclito  (já aqui havia dito ter vontade de fazer um postal) com base nas palavras que lhe são dedicadas neste livro. É autor da afirmação de que tudo existe num estado de fluxo permanente. O mundo pode aparentar um todo estável e unificado, mas na verdade deve ser entendido como a luta contínua entre pares de opostos (ex: cima/baixo; quente/frio) que não podem existir um sem o outro por partilharem o que lhes dá razão (logos), num equilíbrio como forma de justiça cósmica eterna. Pensamento que me faz recordar a forma como durante os primeiros anos que usei lentes de contacto (comecei a usar aos 12 e só deixei de usar regularmente depois os 40) olhava para a pequena caixa que as albergava em dois compartimentos, um deles identificado com a letra E, de esquerda. Se não é esquerda é direita, pensava e logo me vinha ideia que isso seria uma descoberta importante. Se não é uma coisa é a outra. Sempre achei que ali estava o segredo do mundo. Só agora descobri porquê: a chave está na harmonização dos opostos e parte do conhecimento de um deles e da consciência de que há outro.

Pensamentos curtos e soltos

Hobbies do amiguismo: romancear a pulhice dando à dita argumento justificativo ao mesmo tempo que se passa atestado de estupidez ao principal prejudicado. Fantasiar enredos, razões e desculpas sem qualquer adesão à realidade (termo muito usado nos dias que correm).

Associações discretas

Qual a reacção imediata de um democrata ao ler a notícia de que o líder do principal partido da oposição defende a obrigatoriedade para os deputados e detentores de cargos públicos de declarar a pertença a organizações ‘discretas’ como a Maçonaria e a Opus Dei?


Obviamente, negativa. Em atenção à fundamental liberdade de associação e à basilar liberdade de consciência, de religião e de culto. Assunto resolvido. Será? Pela realidade representada por essas associações, mas valia ir pela via da lei do lobbing. Seria mais esclarecedor.


É que a imediata rejeição da ideia estaria muito bem se não soasse ao lavar de mãos de Pilatos. Em Portugal o drama parece ser sempre o mesmo. A perversão da lei pela realidade faz com que as fundamentais liberdades enunciadas sirvam de escudo defensor de práticas lesivas dos interesses do país.


A desfaçatez, a cara de pau (como dizem os brasileiros) é de tal ordem que podemos ouvir ou ler membros da Maçonaria e da Opus Dei denunciar a endogamia na sociedade portuguesa. Nada a fazer senão rir da paródia. É como se juiz e carrasco se juntassem no momento da decapitação para declaração conjunta: desculpe qualquer coisinha, somos até contra a pena de morte. Rir muito do ridículo e aproveitar para reparar como se escarnece com cobiça dos velhos conservadores e dos seus anacrónicos ódios aos maçons, esquecendo que a velha reaccionária portuguesa é tão velha quanto a velha e falsa ressabiada que trepa e tenta usurpar o trono. Nada de novo: guerra pelo poder.


O que espanta é que não se fale com seriedade - seja no jornalismo seja entre bem pensantes -, do peso do nepotismo e da corrupção por acção da Maçonaria no sector político, cultural e também económico e da Opus Dei no sector económico e financeiro - designadamente na banca. As abordagens ao tema Opus Dei e Maçonaria são sempre de uma pobreza franciscana. Os poucos que se interessam por essas matérias têm uma espécie de deslumbramento rasca e ávido por intriga policial. Tratam a coisa com o espírito de quem acabou de ler um livro de Dan Brown e se prepara para comentar a notícia do Correio da Manhã sobre o homicídio de uma mulher de duas cabeças e três pernas. Fala-se da faca e do alguidar e às vezes dos lugaritos, sem nunca perceber que se está a tratar de uma das principais causas da podridão e atraso sistémico do país.


Em Portugal falta independência e coragem e vozes libertas das redes de interesse impostas pela pertença aos guetos, sejam eles discretos ou às escâncaras. Os que supostamente pensam estão na maioria dos casos encostados nas conveniências. Vivem em tribo ou grupelho pelo que é natural que entre os da sua tribo exista algum membro destas associações ditas discretas ou mesmo que não haja, têm com elas uma atitude complacente. Até por se sentirem identificados. Aliás, com verdade, nem vêem nada de mal no nepotismo e corrupção. Acham absolutamente normal. É assim que estão habituados a viver.


Tão mal vai quem propõe que se obrigue os políticos a declarar a pertença a uma associação, como quem é conivente por acção ou omissão com o nepotismo e a corrupção.


17/03/21

18/03/2021

A gémea

Não sei se deva admitir isto, por me parecer um pouco perverso. Sempre ouvi dizer que as crianças tinham amigos imaginários para brincar, já eu sonhava acordada em criança com a possibilidade de ter uma irmã gémea.


Ah, que bonito e explicável: afinal era a única rapariga entre três irmãos rapazes. Não, não era isso. Não era uma incompreendida, nem queria uma mana que me entendesse, queria perfidamente uma gémea que me substituísse naquilo que não gostava ou não tinha paciência para fazer ou, então, para ficar a disfarçar a minha ausência. Possivelmente até é uma coisa normal em crianças. Nunca me dediquei a estudar o assunto.


A imaginação passava por isto: ter uma igualzinha a mim que fosse à escola nos dias em que não me apetecia ou ficasse em casa enquanto eu partia em viagem a passear e fazer o que me desse na real gana sem que ninguém desse pela minha falta. A ideia essencial era que não reparassem em mim ou na minha ausência para me dedicar ao meu mundo.


Vista à distância a desgraçada da gémea seria uma espécie de clone escrava para me livrar das obrigações. Sou pérfida.

A ideia

O excesso de informação e a intensa utilização dos recursos cerebrais para processá-la podem ser paralisantes. Uma pessoa capaz, conhecedora e razoavelmente inteligente pode aparentar ser incapaz ou estúpida por dificuldade em ter um discurso linear face ao amontoado de informação captada e ao intenso processamento. Menos às vezes aparenta ser mais.


Há quem fale em ter as gavetas cerebrais arrumadas e só abrir as necessárias a cada ocasião. Isso pressuporia a dependência da vontade na utilização do cérebro - tal qual uma pescadinha de rabo na boca -, e que se pudesse educar a máquina. Parece ideia válida, salvo se cair no engodo habitual da catalogação em função de preconceitos e sectarismos baseados em palpites de gosto e conveniência. A compreensão pode ser educada e treinada, mas há falta de consciência da natureza da máquina: ela não dá de si o quanto os apetites educacionais desejariam. Felizmente, caso contrário todos seriam amestrados. Além do que convinha perceber que caso o cérebro seja do tipo dominante (e tantas vezes dominador) isso não faz do seu possuidor oráculo da sabedoria e legítimo evangelizador de regra única civilizacional. Nem faz dos replicadores do pensamento e tiques do tipo denominador os ungidos e eleitos do reino da sapiência.


Houvesse um momento esclarecedor e definitivo – à semelhança do Juízo Final – não com base na moral mas na biologia e a suprema ironia deixaria a nu quanta da vaidade pelas capacidades intelectuais e feitos terrenos resultam tão simplesmente do factor sorte na composição da massa cinzenta sem correspondência ao mérito. Quantos heróis nasceram heróis.


Nada disto seria dramático não fosse a tendência de alguns cérebros de tipo dominador para exigir a outros que executem a sua vida nos exactos termos em que conhecem e tomam como cânone, não consentindo a cérebros tidos por menores papel próprio no mundo. É certo um papel menos fulgurante do que o dos heróis, mas um papel: ver além das evidências e do contar e cantar vitórias.


13/03/21

17/03/2021

Andrea Motis


Os beijinhos do Chega de Saudade em português do Brasil com sotaque desta talentosa catalã são no mínimo divertidos. Estou cada vez mais fã.



 Recuando, que tal ouvi-la há sete anos?



Já agora há dez anos entre os trompetistas e com um solo ao minuto 3.40. 

16/03/2021

Destino

Culpa inculcada e eterna suspeita põe-te amiúde na condição de passar de cavalo a burro. Pelo silêncio vestes a carapuça como se fosse feita à tua medida, apesar de ser bem provável que tragas os cascos limpos. A andança paciente e abandonada do burro serve-te bem.


Moldaste-te ao andamento fazendo caminho sem olhar para trás. Ou revendo passos dados entre o abanar de ombros e a mágoa. Para quê contestar? Se tudo é tão certo e decidido. Para quê mostrar a evidência se para vê-la basta sentir. Não é sentida, não é vista. É nada.


Há momentos em que a acusação resulta de imaginares o que se supõe não exista. Resta-te sorrir, aconchegar com ironia a carapuça da culpa, reviver indiferente os factos palpáveis que se diz não existirem. E em paz, do lado certo da guilhotina, desejar boa sorte ao carrasco antes de pôr a cabeça no cepo à espera que cega e arbitrária a lâmina caia e cumpra a sentença dos embusteiros.


Sem acreditar, que diferença existe entre tudo e nada? Tudo é nada. E dás por ti no nada pessoano, que tanto te bulia a ideia pouco mais do que criança. É destino e desilusão.

Sol e sombra

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Nas horas de sol alto a bela fachada do prédio em frente além das penumbras saídas das próprias saliências só é sombreada pelo espectro parado do candeeiro e aqui e acolá pela silhueta em vôo de uma gaivota. Na varanda o vizinho saboreia de pé a leitura diária ora do jornal ora de um livro, que gostava de saber qual é. Do lado de cá, acabámos de almoçar e ao café o Nuno mostra o resultado da edição ainda fresca de uma valsa tocada pela Orquestra do Titanic. 


Olhando a imagem captada por detrás da tela e da janela, pressinto um pouco de Hopper sem os tons fortes e definidos que o timbram. Será que do lado de lá das janelas e telas de Hopper uma vizinha observava semblantes solitários?


Neste princípio de tarde de 16 de Março de 2021 é mais difícil não apreciar as vantagens do teletrabalho. Cada vez gosto mais da minha rua. Acostumava-me a isto: sol e sombra, como na tourada.

Andrea Motis


Bichano

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De manhã e à noite faz estragos, brinca e escolhe outros poisos, mas de tarde é aqui que gosta de estar. Enrosca-se atrás dos livros, deita-se e dorme e tarde toda, enquanto trabalho. Nos primeiros dias, para se acomodar melhor ou por brincadeira empurrava um ou outro livro para fora, deitando-o ao chão. Já aprendeu que não o deve fazer. O pior vai ser quando crescer: o espaço é exíguo. E continua a ser o refúgio mal entra um 'estranho' nesta casa. Enquanto o invasor ataca ou permanece por perto, os livros são as muralhas defensivas do Ritz.


Entretanto lá fora o cão triste geme e late a guardar a 'espécie de eucalipto que não é eucalipto' (ainda um dia toco à campainha dos vizinhos para perguntar o nome da árvore) e já abriga a passarada alegre e melodiosa que anuncia a Primavera.

Provérbios e expressões idiomáticas

 


Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és.


 


 

15/03/2021

Mulheres convencionais

Nunca te imaginaste escrever um texto a defender a mulher convencional. Tu que trepas pelas paredes quando vês moralistas dissimulados a dividir o mundo entre as puras e castas destinadas a ser mães exemplares e as pês que envergonham a sociedade. Tu que sabes como as mulheres que marcam pela diferença são penalizadas. Mas também sabes que há uma injustiça prévia e mais genérica que é aquela que culpa as mulheres, em geral, pelo simples facto de terem nascido mulheres. E é ridículo fazer de conta que actualmente a desigualdade não existe. Existe e é patente.


Por que razão muitos homens dos círculos intelectuais não gostam de mulheres e autoras com vida familiar, sexual, intelectual e profissional convencional? Por lhes fazerem lembrar as mães e irmãs que se acostumaram a ver como pessoas desinteressantes, cafonas, chatas, complicadas e, no fundo, de inteligência menor. Sobretudo se elas tiverem uma vida interior rica e forem absolutamente extraordinárias do ponto de vista intelectual. Também por lhes fazerem sombra - ainda há muitos homens que não admitem ser ofuscados por uma mulher. Ah e tal, não sei que raio de experiência de vida tens para caíres numa ideia dessas. Nada disso. O que pensas é fruto do que observas na sociedade, mais do que no que viveste pessoalmente, passe o pleonasmo.


Vês que entre os meios intelectuais se apreciam com facilidade autoras com um perfil fora da caixa seja na vida familiar, sexual, intelectual e profissional. Ou de linguagem desbragada. Ou excêntricas. Entre tudo, é curioso o imenso fascínio dos intelectuais homens por mulheres e autoras lésbicas. Bem sabes que, em geral, autores e personagens são considerados mais interessantes se tiverem traços de personalidade ou vidas fora dos padrões tidos por mais aceites na sociedade. É o apelo da diferença. O que estranhas é que tantos fantasiem com isso.


Extrapolando, deve haver explicação para lá da panca que sempre te surpreendeu em muitos homens de fantasiarem relações sexuais com duas lésbicas ou bissexuais e para lá da verdadeira e atendível razão de dar voz a quem injustamente é abafado pela diferença. Nada contra, pelo contrário, conheces bem os dramas dos homossexuais e a forma estúpida como são desconsiderados por pessoas de pouco rasgo e sensibilidade. E quanto às fantasias dos homens ditos heterossexuais, cada um é como cada qual. Estranhas apenas que não gostem de ser desejados. As mulheres heterossexuais nisso costumam ser mais pragmáticas e fantasiar com dois homens heterossexuais que lhe dêem a atenção que merecem. Manias.


O facto é que, ao contrário de muitos autores homens enfadonhos, quadrados, caretas e, enfim, desinteressantes, que têm muitas vezes uma corte de aduladores masculinos e femininos, às mulheres não é permitido ser convencional. Se há tanto interesse e compreensão – e bem - por essa marca identitária da homossexualidade, por que custará tanto aos homens renderem-se à superioridade intelectual de uma mulher convencional? Seria fácil demais dizer que não a compreendem. A resposta é mais esta: estão habituados a desconsiderá-la e a fantasiar com a outra, a tal que não tem por eles qualquer interesse, muito menos os deseja. O mundo revela-se muito mais perfeito do que se possa imaginar.

Ligeirezas

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Trigo e Joio - Herói da fava-rica

Tudo muito azul e alegre quando a vida corre bem a quase todos. Figura simpática, sempre pronta para confraternizações e boas farras. Homem de acção. Com boa conversa e interesses próprios. Alegre e simpático, desabafa as eventuais tristezas que tenha com o amigo. Sempre o viste como amigo do seu amigo.


A tragédia abate-se sobre o tal camarada. Ele expedito envolve-se no drama enquanto está quente. Enquanto há matéria palpitante a tratar. Faz de fonte de informação para outros amigos, pondo-os a par dos acontecimentos. Muita agitação e ele o centro das atenções. O camarada está frágil. A debilidade é exposta numa jantarada sem consideração pela sua dignidade. O homem das confraternizações está presente, impante.


A vida do amigo torna-se monótona e desinteressante, a tragédia já não faz borbulhas nem comove ninguém. Desinteressa-se. Perguntas-lhe por notícias do amigo. Dá-te uma boa razão para se ter afastado. Compreendes.


Volvidos anos comunicas com ele. Mostra boa disposição. Faz-te grande festa: então como estás? A minha vida isto e aquilo e a tua? Respondes que estás óptima e tens novidades sobre o vosso amigo comum: está bem e recomenda-se. Sem palavra, cala-se para todo o sempre.


Fim.

Trigo e Joio - Veni, vidi, vici

Excessivo e excêntrico, punk na adolescência, faltou ao festejo do próprio aniversário para o qual fez inúmeros convites. Percebes trinta anos depois que talvez tenha sido porque tu e outros não sabiam que ele tinha mais quatro anos do que deixava entender. Fora destas maluqueiras que não se explicam, são como são, homem de uma franqueza demolidora. Capaz de te dizer (e aos outros ou de si próprio) tudo quanto não se imagina que se diga a alguém. Sem medo de magoar. Talvez por saber que não magoa, por conheceres bem a bondade daquele coração.


Amigo inteligente e com mundo, de gosto exuberante e vida ousada que te fez perceber como a comédia pode estar muito próxima da tragédia. Ditador e vaidoso, apanha no ar a natureza dos demais e sabe dobrá-los. De riso vigoroso e sonoro é a alma de qualquer festa e verdadeiro amigo do seu amigo.


De natureza especial, as difíceis escolhas de vida contracorrente provam ser homem de extraordinária coragem. Infelizmente a vida nem sempre recompensa com a felicidade os mais audazes.

14/03/2021

Trigo e Joio - Imagem de marca

Traz no tom de voz a certeza e a convicção de que é uma pessoa superior. Não percebe ou evita entender que isso pode ferir sensibilidades de terceiros. A ambição e o materialismo são o maior marco da sua vida e a imagem de marca. Podes dizer que fez a pulso a empresa na área tecnológica, mas se quiseres começar pelo início, terás que dizer que isso significou, como é muito usual, dar golpe desonesto na empresa-mãe, onde era funcionário. Uma história como tantas outras: para dar o primeiro passo e constituir a empresa defraudou a empresa onde trabalhou enganando o ex-patrão, roubando-lhe a representação e importante cliente num negócio avultado.


Não percebe rigorosamente nada dos produtos que representa e negoceia. Nem sequer imagina com funcionam. Pelo que tem de confiar nos técnicos que emprega, a quem trata com toda a cortesia e até estima. Salvo se qualquer coisa comprometer o que mais valoriza: o lucro e, em segundo plano, o regular funcionamento da empresa. Numa casa com dois funcionários, considera normal ligar a um deles, que sabe estar à porta do quarto do hospital onde a mulher está pronta a iniciar o trabalho de parto - e perguntar com a maior desfaçatez se vai chegar atrasado de tarde à empresa. Sem que nada de muito relevante haja a fazer nesse dia no trabalho. Enfim, prioridades. Tal como considera normal sugerir aumentos e benesses futuras como contrapartidas de determinados serviços - regalias que nunca chegam a ver a luz do dia.


Como as coisas não costumam andar dissociadas, enredou-se numa vida afectiva dúbia e vive amargurado por ter prole distante e sem correspondência às suas expectativas. Não lhe seguiram as pisadas, não mostraram os resultados académicos que sonhava e, ainda por cima, entretêm-se profissionalmente com futilidades como moda e esoterismos.