Culpa inculcada e eterna suspeita põe-te amiúde na condição de passar de cavalo a burro. Pelo silêncio vestes a carapuça como se fosse feita à tua medida, apesar de ser bem provável que tragas os cascos limpos. A andança paciente e abandonada do burro serve-te bem.
Moldaste-te ao andamento fazendo caminho sem olhar para trás. Ou revendo passos dados entre o abanar de ombros e a mágoa. Para quê contestar? Se tudo é tão certo e decidido. Para quê mostrar a evidência se para vê-la basta sentir. Não é sentida, não é vista. É nada.
Há momentos em que a acusação resulta de imaginares o que se supõe não exista. Resta-te sorrir, aconchegar com ironia a carapuça da culpa, reviver indiferente os factos palpáveis que se diz não existirem. E em paz, do lado certo da guilhotina, desejar boa sorte ao carrasco antes de pôr a cabeça no cepo à espera que cega e arbitrária a lâmina caia e cumpra a sentença dos embusteiros.
Sem acreditar, que diferença existe entre tudo e nada? Tudo é nada. E dás por ti no nada pessoano, que tanto te bulia a ideia pouco mais do que criança. É destino e desilusão.