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18/03/2021

A gémea

Não sei se deva admitir isto, por me parecer um pouco perverso. Sempre ouvi dizer que as crianças tinham amigos imaginários para brincar, já eu sonhava acordada em criança com a possibilidade de ter uma irmã gémea.


Ah, que bonito e explicável: afinal era a única rapariga entre três irmãos rapazes. Não, não era isso. Não era uma incompreendida, nem queria uma mana que me entendesse, queria perfidamente uma gémea que me substituísse naquilo que não gostava ou não tinha paciência para fazer ou, então, para ficar a disfarçar a minha ausência. Possivelmente até é uma coisa normal em crianças. Nunca me dediquei a estudar o assunto.


A imaginação passava por isto: ter uma igualzinha a mim que fosse à escola nos dias em que não me apetecia ou ficasse em casa enquanto eu partia em viagem a passear e fazer o que me desse na real gana sem que ninguém desse pela minha falta. A ideia essencial era que não reparassem em mim ou na minha ausência para me dedicar ao meu mundo.


Vista à distância a desgraçada da gémea seria uma espécie de clone escrava para me livrar das obrigações. Sou pérfida.