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13/03/2021

Trigo e Joio - Serra da Estrela

Nascida na segunda década do século XX era filha de pai incógnito, facto que a marcaria para a vida. Apartada da mãe solteira – viste-a por ela chamar suplicante em referência única na tua vida e de olhos desfeitos em lágrimas já depois dos oitenta anos -, com filhos de pais diferentes, passou a infância aos cuidados austeros e sem amor da avó. Toda a vida serviu outros, mantendo intacta a dignidade de alma independente e injustiçada.


Teria muito por onde ser admirada, mas lembras a forma discreta com que adivinhava os mais ínfimos desejos dos outros e procurava supri-los. Se faltava um brinquedo para uma qualquer ideia de criança engenhosa, toca de fazê-lo com as suas próprias mãos ou comprá-lo e oferecê-lo no Natal seguinte, nem que faltassem onze meses. Não esquecia nada nem ninguém. Se o adulto mostrava algum desconforto por qualquer coisa não ser tal qual desejaria, tudo fazia para resolver a situação. Circunspecta, sem que muitas vezes se desse por ela, nem sequer pelas suas múltiplas atenções.


Apesar do metro e meio de altura e no fim de vida um pouco curvada, caminhava livre na rua e em casa falava com recurso a adágios como se tivesse metro e oitenta e o mundo lhe devesse obediência. Respeito devia com certeza, por tudo o que deu aos outros, sem nada pedir em troca. E pela atitude quase sempre apaziguadora, de quem era incapaz de fazer intriga ou maldizer por prazer.


Um dia disseram-te que ela não era uma pessoa terna, pelo contrário era severa. Soubessem perceber quanta amizade e afeição demonstrou toda a vida pelos que a rodeavam, sem lamechices nem condescendências às modas da psicologia lifestyle. Eterna saudade.