O excesso de informação e a intensa utilização dos recursos cerebrais para processá-la podem ser paralisantes. Uma pessoa capaz, conhecedora e razoavelmente inteligente pode aparentar ser incapaz ou estúpida por dificuldade em ter um discurso linear face ao amontoado de informação captada e ao intenso processamento. Menos às vezes aparenta ser mais.
Há quem fale em ter as gavetas cerebrais arrumadas e só abrir as necessárias a cada ocasião. Isso pressuporia a dependência da vontade na utilização do cérebro - tal qual uma pescadinha de rabo na boca -, e que se pudesse educar a máquina. Parece ideia válida, salvo se cair no engodo habitual da catalogação em função de preconceitos e sectarismos baseados em palpites de gosto e conveniência. A compreensão pode ser educada e treinada, mas há falta de consciência da natureza da máquina: ela não dá de si o quanto os apetites educacionais desejariam. Felizmente, caso contrário todos seriam amestrados. Além do que convinha perceber que caso o cérebro seja do tipo dominante (e tantas vezes dominador) isso não faz do seu possuidor oráculo da sabedoria e legítimo evangelizador de regra única civilizacional. Nem faz dos replicadores do pensamento e tiques do tipo denominador os ungidos e eleitos do reino da sapiência.
Houvesse um momento esclarecedor e definitivo – à semelhança do Juízo Final – não com base na moral mas na biologia e a suprema ironia deixaria a nu quanta da vaidade pelas capacidades intelectuais e feitos terrenos resultam tão simplesmente do factor sorte na composição da massa cinzenta sem correspondência ao mérito. Quantos heróis nasceram heróis.
Nada disto seria dramático não fosse a tendência de alguns cérebros de tipo dominador para exigir a outros que executem a sua vida nos exactos termos em que conhecem e tomam como cânone, não consentindo a cérebros tidos por menores papel próprio no mundo. É certo um papel menos fulgurante do que o dos heróis, mas um papel: ver além das evidências e do contar e cantar vitórias.
13/03/21