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Que se passou durante os quatro dias em que não escrevi? Muito do que imaginei reduzir a escrito sem concretizar. Divido este planar sobre os últimos dias em três tópicos. Notícias, livro e quotidiano.
Lendo o Jornal de Notícias, a minha aposta para esta temporada, fiquei a saber que o Tribunal Administrativo de Lisboa condenou, obviamente sem apreciar a questão de mérito, a AIMA a decidir no prazo de 30 dias um pedido de autorização de residência apresentado por um cidadão paquistanês. Refere o artigo que os tribunais estão inundados de pedidos semelhantes. Quais as deambulações mentais que esta leitura me provocou? A mais imediata: a compreensão e acerto da decisão. Os serviços públicos devem funcionar nos prazos estipulados. Daí recordei uma frase que me é familiar há muitos anos: a protelar também se resolve. Aplicada a este caso seria perversa e significaria que a inépcia da Agência de Integração para as Migrações e Asilo serviria ela própria como um filtro. Péssimo princípio, mas tantas vezes ditado pela realidade do mundo concreto português.
Derivei depois para matéria de política internacional e recordei a frase de Rishi Sunak, primeiro-ministro do Reino Unido. Há um mês declarou, a propósito da aprovação pelo Parlamento britânico da proposta de lei que permite o início dos vôos de deportação para o Ruanda dos requerentes de asilo que entrem ilegalmente no Reino Unido, que "Nenhum tribunal estrangeiro nos vai parar", prometendo as deportações dos migrantes para o Ruanda "aconteça o que acontecer". Li também que o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, afirmou ontem que "nunca" aceitará a autoridade do Tribunal Penal Internacional perante a possibilidade deste ordenar a detenção de militares e ministros israelitas. Na sua perspectiva, já desde pelo menos 2015, as decisões do TPI dão legitimidade ao terrorismo internacional. E recordei os diversos episódios de Trump face aos tribunais norte-americanos e a forma leviana como encara as acções judiciais que aliás considera (com razão) beneficiá-lo.
Não se precipitem achando que vou sair numa deriva anti conservadora. O facto de ter pensado nestes casos não se prende com o acerto ou desacerto das declarações dos três estadistas, mas antes noutra questão. São manifestações de fragilidade dos alicerces democráticos e a constatação de que nos tribunais também se faz política - ao mais alto nível. Uma evidência antiga. Ao vermos as decisões judiciais questionadas ou rejeitadas pelos representes máximos do Estado (não vou entrar na questão dos estados em causa terem ratificado os tratados de constituição dos tribunais) percebemos a debilidade das instituições que garantem o respeito pelos direitos fundamentais, ao mesmo tempo que nos deparamos com a tomada de posição política dos juízes que as presidem.
Li também o artigo relativo aos concertos da Taylor Swift e ao longo dos últimos dias tenho lido esparsamente bitaites acerca da cantora/compositora. Nunca negando que todos têm o direito a opinião, fico sempre curiosa sobre os profundíssimos conhecimentos de música dos delatores, daqueles que enxameiam o espaço público a desmerecer esta artista de massas. Parece que muitos miúdos gostam e que o mundo ainda é mundo e isso chateia os maledicentes. Percebo, é mais fácil andar vinte ou cinquenta anos a ouvir os mesmos registos, quando não as mesmas músicas entediantes e balelas de alegada superioridade técnica ou artística para justificar cérebros pouco treinados para o gosto ecléctico.
Em matéria de livros estes quatro dias quase passaram em branco. Li apenas um capítulo sobre o Venerável Beda - deixou-me a pensar quando farei as pazes com a erudição, em tão maus lençóis e tão mal representada nos tempos actuais - e outro sobre Carlos Magno. Um cheirinho apenas. Para não variar ando na preguiça, por alguma razão o papel rende sempre muito.

Quanto ao dia-a-dia, revelo que na quinta-feira fui ao Arrábida Shopping. Não é engraçado verificar como existindo tantos milhares de pessoas a deslocarem-se a centros comerciais, os intelectuais ao debruçarem-se sobre o mundo se dediquem apenas de falar dos mesmos roteiros: teatro, cinema, viagens, política, gastronomia, futebol, museus, concertos, livros, encontros literários ou de índole cultural mais abrangente? É como pilotar karting a vida inteira, ficam a vida toda a dar voltinhas ao circuito escondendo o mundo da generalidade dos concidadãos, que aliás é também o seu, pondo-se em bicos de pés para darem o ar daquilo que não são, desprezando a vida comum, invocando falsa sofisticação e seriedade. Ficam a brincar aos meninos pequenos, excitadinhos com a velocidade a que chega o prestígio fácil assim obtido, não compreendendo que o melhor objecto do interesse intelectual é o mundo concreto; e mesmo o mais vulgar. Fomos lá à noite comprar um par de sapatos para o Nuno – é curioso, numa semana estragaram-se dois pares com oito e nove anos. Não é curioso que sapatos já como muito uso resolvam dar a alma ao criador na mesma semana? Comprei também um par de sandálias confortáveis para as minhas andanças diárias. E trouxemos um teclado para computador que tem feito as delícias do Nuno. Da última vez tínhamos encomendado um mais simples. Erro. Para quem é cego, os teclados melhores fazem toda a diferença em termos de acessibilidade aos menus das páginas online ou mesmo à “navegação” pelas pastas do computador.
No Sábado de manhã fomos à nossa conhecida loja de instrumentos musicais Lamiré comprar uma nova Workstation da Yamaha. O Nuno teve oportunidade de tocar num piano de cauda acústico, num Bösendorfer. Uma delícia ouvi-lo. Em Novembro de 2014 escolhi o piano digital do Nuno atraída pelo som Bösendorfer, uma das vozes reproduzida pelo piano.
E no Domingo de manhã apostei nas investidas das casas. Não direi mais para não azarar. Já disse isto da última vez, bem sei. Mas um dia será. Fomos andar a pé na zona envolvente de uma delas. Muito arborizada. Seduz-me. Pena não ser rica, era logo casa e Bösendorfer. Na próxima encarnação vou escolher ser rica. Está decidido.
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Ao fim da tarde de Domingo para terminar em beleza sentei-me à chinesa na poltrona amarela a ver a Final da Taça de Portugal de Futebol. Como não gosto de ouvir os comentários tirei o som e aproveitei para escutar o segundo debate das eleições europeias. O meu Portinho ganhou, o iraniano Taremi marcou na despedida e o treinador Sérgio Conceição deverá despedir-se - a imperfeição deste homem transparece uma humanidade nunca compreendida por regateiros que se fazem passar por senhores nas televisões, blogues e outras redes sociais - adoram achincalhá-lo. Sairá em grande, como merece.
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