É madrugada e sentada na mesa do computador oiço Beth Hart no Royal Albert Hall. Recordo a forma ocasional como me foi apresentada há menos de dez anos. A vida é feita de muitos acasos, de encontros e desencontros. Na maior parte dos casos parecem-nos inócuos, nem nos apercebemos no instante da reverberação futura e quase nos esquecemos deles. Assemelham-se a ventos que sopram sem outra intenção que não seja a de serem ventos distraídos a suflar desde a criação do mundo. Só mais tarde compreendemos a causa das coisas. E os quase esquecidos em que tropeçamos surgem-nos no espírito como anjos caídos do céu feitos delicadas aranhas a tecerem o sentido da vida. Anjos de carne e osso por aí espalhados a formar a grande rede de lógica do Universo – obrigada, amigo desconhecido Kyosho.
A força, a energia vem da dor, da superação, do talento. Oiço-a como aos treze anos ouvia Tina Turner. Só com ela faço paralelo e justifico a admiração que me inspira. Haverá quem torça o nariz vociferando que gritam demais. É muito pouco o que gritam para o que têm a dizer. Só não me peçam que me lembre delas nos dias das efemérides e dos obituários. Respeito-as demais para as trair com admiração superficial e aproveitar com oportunismo datas para exibicionismo e protagonismo. Prefiro abrir caminhos a pôr-me à coca para colher os frutos do trabalho e talento alheio. Só assim faz sentido esta teia universal de respeito mútuo, com tantas chaves quantas portas.