- No Inverno sentir vento frio bater na cara enquanto caminho na rua ou no parque.
- No Verão numa noite de calor sentir a brisa fresca do mar.
- Deixar-me apanhar pela chuva num dia quente.
- Vento e trovoada nos dias sim.
- Ver o sorriso de felicidade no rosto do Nuno.
- Observar alegria no olhar, na voz, na postura dos meus.
- Conversar individualmente com amigos e familiares em presença física.
- Receber chamada ou mensagem de amigo ou familiar a perguntar se estou bem ou se estamos bem, ou a contar novidades.
- Ser avisada por familiares ou amigos que vão passar cá por casa.
- Perceber no olhar e postura de quem estimo que gostou genuinamente da palavra que lhe disse ou da lembrança que lhe dei.
- Um par de vezes ao ano fazer uma jantarada familiar.
- Uma vez ao ano fazer uma jantarada com amigos.
- Assistir a gestos de atenção e delicadeza especialmente com pessoas de quem gosto.
- Andar de carro conduzida por alguém perdida na paisagem e nos pensamentos.
- Andar a pé na rua perdida nos devaneios.
- Estar sozinha com as minhas fantasias, sem que me interrompam: em casa, no autocarro, no comboio.
- Nadar em água tépida nos dias quentes.
- Passear na areia molhada da praia junto à rebentação.
- Dar e receber mimo.
- Coçarem-me as costas.
- Ler tudo quanto não me mace.
- Ler poesia.
- Descobrir novos livros e autores.
- Descobrir escritas cristalinas.
- Abrir livros, ler passagens ao acaso e decifrar enigmas imaginados.
- Ver na janela do escritório os aviões passarem em direcção ao aeroporto (dezenas, diariamente).
- Estar atenta às fases da lua.
- Noites de lua cheia.
- Ver subir no ar um balão de São João entre risos e alegria.
- Ouvir boa música.
- Ir a museus ou galerias apreciar pintura.
- Ouvir e dizer patetices que dispõem bem.
- Adormecer apaixonada.
- Acordar bem disposta e com vontade de rir.
- Regar as plantas da varanda e vê-las bonitas.
- Conjecturar remodelações do apartamento (raramente concretizadas).
- Percorrer lojas de artigos para o lar.
- Presenciar o apanhar de vigaristas, corruptos e criminosos.
- Ver reconhecido valor a quem o tem.
- Antever o desmascarar da aparência e da mentira.
- Ver pardais e boeirinhas a saltitar.
- Apreciar nos relvados melros de pena negra luzidia e bico laranja.
- Dar mimo e brincar com o Ritz.
- Escutar ou ler palavras delicadas.
- Sentir-me amada ou estimada.
- Devanear com momentos felizes e impossíveis.
- Sonhar, acordar e procurar a interpretação dos sonhos.
- Manter a casa limpa e arrumada.
- O cheiro a pão quente acabadinho de sair do forno.
- O sabor de pêssego, meloa, maracujá, cerejas e da fruta em geral.
- A memória do paladar da mousse de maracujá em Luanda.
- Café e água sem gás fresca numa esplanada.
- Tempo e disposição para de manhã pôr o creme hidratante na cara.
- Dormir de janela aberta.
- Dormir meia destapada.
- Acordar de manhã com o chilrear da passarada.
- Andar descalça em casa.
- De vez em quando gozar um dia inteiro (Domingo) de pijama.
- Árvores, arbustos, plantas e erva.
- Odor a relva cortada.
- Cheiro a terra molhada.
- Perfume a eucalipto e a resina dos pinheiros.
- O vôo errante das borboletas, especialmente coloridas.
- Chuveiro de água (quase) fria nos dias muito quentes.
- Dormir em lençóis lavados de cama bem feita.
- Sentir o aconchego do édredon macio e quentinho nos primeiros dias de frio do Outono.
- Demorar-me no chuveiro do hotel.
- O paladar de cogumelos frescos salteados.
- Ver o meu Portinho jogar bem e ganhar.
- Ser recebida por um sorriso na caixa do supermercado ou qualquer outro estabelecimento.
- Sumo de laranja natural e tosta mista ao almoço (raramente).
- Compal de pêssego e meia torrada ao pequeno-almoço (raramente).
- Ouvir ao acaso conversas alheias na rua ou no autocarro e sentir nelas cumplicidade e entreajuda ou simples surpresa.
- No Inverno ao fim-de-semana fazer chá preto com torradas para o lanche (raramente).
- Saber (boas) notícias da família alargada.
- Estar na treta com gente nova.
- Tagarelar com gente menos nova.
- Cavaquear com os mais velhos.
- Conversar com desconhecidos.
- Contemplar o céu laranja a poente e regressar à infância: amanhã estará bom tempo.
- Reviver Valinhas.
- Recordar Lagos.
- Lembrar viagens.
- Retroceder aos momentos felizes do passado.
- Fazer ronha de manhã ao fim-de-semana.
- Demonstrar afeição pelas pessoas que gosto.
- Planear mudanças e sonhar com o futuro.
- Visitar casas nos sites imobiliários.
- No Outono calcar com restolho folhas secas.
- Ouvir a zerichia e burburinho das crianças a brincar.
- Refastelar-me no sofá e tirar uma soneca com a smooth de fundo.
- Deslumbrar-me com os recantos de beleza “postal” da minha cidade.
- Pessoas e coisas despretensiosas.
- Pessoas e coisas com ar lavado.
- Reparar nos traços fisionómicos particulares entre aglomerados de gente.
- Esplanadas alegres à beira mar e navios na linha do horizonte.
- Férias, feriados e fins-de-semana.
- A ideia de viajar (temo que se escrevesse tão só “viajar” mentisse, de tal forma me comecei a embaraçar na logística).
- Escrever nos dias em que me sinto bem comigo e com o mundo.
- Meu Deus, só ao fim de 85 entradas (entretanto acrescentei mais algumas) me lembrei do cigarro: saborear a ideia de voltar a ter o prazer de fumar um cigarro quando fizer 82 anos.
E por aí fora. Esta lista não teria fim se continuasse a dizer tudo quando me anima.
Depois deste elenco não posso senão concluir tender mais para o feliz do que para o infeliz. Não foi com essa intenção de terapia que comecei a escrevê-lo, mas ainda bem que teve esse efeito útil. Não sei se faça um postal com o que não gosto e outro com o que me deixa indiferente. Ficarão para um dia lá mais adiante.
Se este postal tivesse pretensões, no lugar de boa música estariam três referências a obras e compositores célebres, em vez de pintura figuraria o nome de um par de mestres e seus quadros, tal como mencionaria a forma como me teriam tocado quatro poetas e dois romancistas. Desapareceriam as banais torradas para dar lugar a um requintado prato confeccionado por chef de renome. E por aí adiante. Sucede que não há em mim intenção de exibir uma vitrine de conhecimento em leque, mas tão só revelar o que penso e sinto. O que na verdade me alegra.
Link para o post de 18-06-2022 aqui.