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30/06/2021

Barry Hatton - Os Portugueses

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Uma mesa

...um conjunto de cadeiras de praia, t-shirts caveadadas, um baralho de cartas sebento e joga-se a bisca lambida: se a senilidade é um drama, a senilidade em grupinho de amigalhaços de imaginação pífia é ainda mais deprimente.

O drama da amizade

Quero trabalhar, mas estou desconcentrada. Há uma hora que me procuro lembrar do grego (seria pré-Socrático?) que dizia que devíamos prescindir dos amigos para ser virtuosos. Sei que soa a coisa próxima a Sócrates, mas não é ele que procuro. Às tantas não é grego. Talvez algum estóico maluco, como o Séneca? Noutro dia confirmo.


Não vou tão longe quanto isso, mas o bom de não conhecer ninguém - ou muito poucos, digamos assim -,  é que se pode dizer as coisas a direito sem remorsos de estar a ferir algum conhecido. Num país onde todos são amigos de todos, todos estão de mãos atadas. A menos que sejam corajosos, evidente.

Coreia do Norte

Leia-se a mesma notícia no The Guardian: North Korea Covid-19 outbreak fears after Kim Jong-un warns of ‘huge crisis’ in ‘antivirus fight’ e no Público: Kim Jong-un critica “incidente grave” relacionado com a covid-19. Apesar da forte inspiração, os ingleses conseguem sempre dizer o têm a dizer de forma inequívoca, tirando as devidas ilações. Coisa que por cá se teme. Faz toda a diferença.

A explicativa

A razão para recorrer ao The Guardian - conotado com os Trabalhistas - tem uma justificação simples. Fazendo uma consulta parcimoniosa: abrir quatro ou cinco notícias de cada das duas vezes por semana que o consulto permite continuar a ter acesso gratuito. Não me importaria de passar os olhos pelo The Daily Telegraph - próximo dos Conservadores. Sucede que não o posso fazer sem pagar e não estou para aí virada. 


Nas próximas semanas vou investir no The Independent - conotado com os Conservadores e Liberais -, que também tem acesso gratuito.

Joe Berardo

Imagino que ontem com a detenção de Joe Berardo muitos tenham ficado com a mesma sensação. O desconforto de saber que tudo se passou nas nossas barbas - o assalto ao BCP e a forma como aconteceu foi denunciado por muitos à época dos factos e ainda assim foi possível a impunidade temporária e o desplante a que todos assistimos anos depois na Comissão de Inquérito.


É sensação recorrente. A de ter razão antes do tempo e de não ser ouvido a tempo de se por travão na vilanagem a descoberto. Sejamos lúcidos: ninguém acredita que Joe Berardo vá devolver mil milhões - quanto mais não seja por não os ter.


Já o sentimos noutras circunstâncias e com outros protagonistas. A Investigação Criminal e a Justiça – que apesar de tudo melhoraram – a correrem bem irão servir de mero consolo, mas não reverterão os danos provocados.

29/06/2021

Joshua Sinaga - Wish It Was Easy

Coisinhas boas

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Joe Berardo

«O Ministério Público e a Polícia Judiciária avançaram esta terça-feira com a detenção do empresário madeirense Joe Berardo, por suspeitas de crimes como burla qualificada, fraude fiscal e branqueamento de capitais, avançou a TVI e confirmou o Observador. Berardo será um dos alvos de uma mega-operação que está em curso, tendo também terá sido detido o seu advogado, André Luiz Gomes, apurou o Observador.», hoje no Observador.

Homens e mulheres de acção

O olhar entre o vazio e surpreendido que os homens e as mulheres de acção deitam aos melancólicos que rememoram factos da vida passados na infância, na adolescência ou há uma década, espelha a confusão que lhes faz perder tempo com coisas que foram e já não movem. Estão habituados a tomar decisões, a planear o dia de amanhã, a gerir objectivos, o tempo e o espaço, e as pessoas. As pessoas estão no rol de circunstâncias favoráveis ou desfavoráveis aos objectivos que determinam para aquele dia, aquela semana ou mês. Como uma construção de lego, as peças têm que encaixar, seja qual for a sua natureza, em prol do resultado final.


Estamos habituados a admirar os homens e mulheres de acção. Sobressaem na sociedade. São os que constroem ou dirigem empresas, os presidentes de fundações, associações e clubes, os que dirigem escolas e hospitais, os líderes de várias entidades. Em regra, são pessoas extraordinariamente ambiciosas no sentido benigno ou maligno da coisa. Benigno se consigo transportam ideia firme do que é justo, maligno no caso contrário.


São objecto de inveja pelos motivos errados. Muitos consideram que têm vidas fáceis e apontam as suas regalias e privilégios. Esquecem que, grosso modo, é gente com grande capacidade de trabalho e que se empenha e labuta com afinco. Gente organizada, disciplinada, com espírito de sacrifício.


O mal não está no não serem capazes, mas no facto de em muitos casos não serem justos. Por falta de tempo e hábito de perceberem os outros como iguais. Os homens e as mulheres de acção partem do princípio que os outros são ferramentas vulgares e, na maioria dos casos, sem grande préstimo individual, salvo se forem bem orientados. Ferramentas prontas a ser usadas para sucesso da empreitada. E dividem os outros entre os que trazem vantagens e os que prejudicam. Esquecem com frequência que a maioria dessas ferramentas também são homens e mulheres de acção, no sentido em que dia após dia, trabalham e se dedicam, com a diferença fundamental de não se alçarem à categoria de líder por falta de talento ou de oportunidade.


Desde criança reparo nos homens e mulheres de acção: vi-os no auge e na decadência. Fico com a sensação que em muitos casos à medida que envelhecem começam a criar um círculo de vazio em seu torno - de alheamento da realidade. Como se o tempo e espaço viessem pedir contas tarde demais, abandonando-os num mundo desabitado de ferramentas – de pessoas com alma e sentimento.

28/06/2021

Jordan B. Peterson


Obrigada, Pedro. 


Ainda a processar.


*


Levanta questões interessantes, mas as conclusões são forçadas. Há momentos em que se pode equiparar a um Ayatollah ou a uma Madre Superiora. Um obstinado.

Mudança

Na primeira semana de Maio propus-me mudar de empresa. A única condição que impus (e não foi pouco) é que não saísse do Porto, apesar da empresa para onde concorri estar sediada a 330 km. Depois de renhidas negociações, nas quais fico com a vaga sensação de ter sido (talvez felizmente) mais espectadora do que interveniente, tive hoje a confirmação de que passarei no próximo mês a trabalhar em duas empresas: naquela em que já me encontro e na que me propus.


Há quem arranje empregos e há quem arranje trabalho em duplicado.


No fundo, creio que depois de muitos anos de trabalho frenético, este último ano e meio mais sereno estava a confundir-me e a deixar-me tempo para os devaneios das Comezinhas. É possível que volte a ter pouco tempo para respirar e, nesse caso, o blogue fique mais sossegado.


Noutras alturas estaria em polvorosa. Hoje sinto-me serena. Consultei os astros (risos) e dizem-me que vai correr tudo bem. Porque não acreditar?


Este é o tipo de postal que as pessoas normais (sérias, profissionais, ponderadas, plenas de siso, bem-sucedidas) jamais fariam, mas dá tanto gozo. ;)

Fernando Santos

No dia em que os medíocres do costume vão cair em cima do seleccionador, quero agradecer-lhe a vitória do Campeonato da Europa de 2016. 


Possivelmente estará na altura de mudar de seleccionador, mas haja memória e gratidão.

Linguagem

Cresci a contar com os remoques familiares face à pretensão. Tudo quanto na linguagem fosse pires, a armar ao pingarelho era motivo de chacota. Recordo bem a referência antiga aos tiques de professora de liceu. Era uma referência jocosa às pessoas que empregavam termos caros nas conversas banais. Isto ao mesmo tempo que se valorizava o vasto leque de vocabulário em cronistas e escritores.


Volvidas décadas pondero sobre o ponto de equilíbrio nesta matéria. Reparo na pobre linguagem verbal e escrita, onde são aceites todos os termos de maré – e as marés da linguagem hoje podem ser mensais ou semanais – de tal modo que se num qualquer dia nos dedicarmos a ler duas dezenas de crónicas de autores diferentes, topamos com vocábulos repetidos à exaustão, como se decalcados de uns textos para outros.


Não sei se a ideia presente de que se deve estar em cima do acontecimento, o medo de parecer alheado da realidade leva quem escreve a esta necessidade de encosto na maioria. Sinto que é uma coisa inconsciente e isso, para ser franca, ainda é mais assustador. Onde andará a consciência e o cunho de cada um? Não só os temas têm que ser os do momento, como os termos, as expressões, as interjeições. Tudo comove todos por igual. Ou melhor, comove por igual as tribos. As pequenas divergências que existem são de facção, se bem que os termos empregues até são os mesmos, só que devidamente inquinados em função do ponto de vista do bando.


Habituada a ser chamada à atenção por uns por usar termos antigos, e por outros por usar termos aperaltados, pergunto-me se todos temos de escrever como se fossemos um misto de psicólogo e jornalista a redigir a acta do condomínio.

27/06/2021

Apeteceu-me


Serão vídeos com balelas, mas são as balelas que nos mantém em pé.

Ânimo

Isto é só um jogo. 

Fartinha

... do Palhinha. 

A nuvem

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Em Setembro fará dois anos sobre a primeira consulta no Santo António com vista à cirurgia bariátrica, no caso o bypass gástrico.  Seguindo o ritmo dos últimos quinze anos – aliás acelerando – no último ano consegui a proeza de ganhar mais quase dez quilos. Além das razões óbvias que se prendem com o comer em excesso e estar sujeita a medicação que potencia o aumento do peso, creio que o que mais tem contribuído para o descalabro são as minhas ideias geniais para dietas: a cada mês ou trimestre uma nova. A última panca foram os batidos, não os de fruta - essa fase já me passou -, mas estes baratos que se vendem no supermercado – e há bem caros no mercado fashion das dietas.


Admito que às vezes sonho acordada que toca o telefone e é do Santo António. De lá alguém me pergunta se aceito ser já operada face a desistências ocorridas. Depois acordo e caio na real: só nos primeiros meses de 2022 é que tratarei de fazer a cirurgia que me começará a extirpar a irmã gémea que trago acoplada contra vontade. E só aí terei ajuda – a efectiva solução, a motivação externa de que preciso – para recomeçar uma vida com hábitos alimentares saudáveis. Sejamos optimistas: já faltou mais. Na verdade, foi tanto na minha vida o que surgiu com atraso de décadas - e disso resultaram danos irreparáveis. A vida é como é, há-que aceitá-lo. As facilidades e doçuras não gostam de comparecer por estas bandas. Nada que não digamos todos: somos uns mártires. Claro, uns mais do que outros.


Neste compasso de espera – contingências de quem não está habituada a furar filas e aguarda paciente a sua vez - começa o ciclo: hum, se substituísse as refeições por batidos; hum, se comesse sopa sem batata e fruta; hum, se seguisse o sensato programa da nutricionista; hum, se deixasse de comer pão e queijo; hum, se usasse a elíptica regularmente. Pois, já tudo foi pensado, já tudo foi experimentado. Por muita razoabilidade haja nos conselhos que apontam para o equilíbrio e os hábitos saudáveis, o certo é que cada um é como cada qual, e não me recordo de nenhuma vitória significativa minha que não tenha passado por uma atitude radical de entrega, de risco e renúncia.


Espero e desespero pelo dia em que diga: Não! A partir de hoje é à séria. E seja.

Corte de cabelo

Portugal não é de todo o país que conheci em criança. A viver no meio rural por circunstâncias fortuitas, habituada à cidade aos fins-de-semana e acostumada às viagens por todo o território nacional nas férias, não era comum a presença em massa de estrangeiros, salvo turistas nalgumas regiões.  


Razões profissionais levaram-me a passar as últimas duas décadas a falar diariamente não só com nacionais, como com estrangeiros residentes no país. O compliance e a decência (não sei se ainda é possível usar esta palavra sem nos envergonharmos) impede-me de dar eco dessas conversas. Mas há outras cavaqueiras tidas com estrangeiros na vida pessoal corrente que sempre me atraem. Sendo utilizadora da Uber e da Ubereats, de alguns restaurantes e de barbeiros e cabeleireiros, começo a ter alguma ideia da vida, das alegrias e dificuldades quotidianas dos estrangeiros em Portugal.


Na semana passada o (último) barbeiro do Nuno, um jovem brasileiro de origem nordestina a viver em São Paulo, antes de há três anos ter decidido vir para o Porto, contou-nos como estranhou pela positiva os primeiros meses a viver cá. Relatava ele o seu espanto quando à noite se cruzava com raparigas de telemóvel na mão que não ficavam a fitá-lo com medo, nem atravessavam de passeio ou aceleravam o passo. Aqui nem reparam em mim, dizia estarrecido. Por ser homem de pele escura estava habituado a esse comportamento no Brasil. Aliás, contou-nos que na sua cidade, quando miúdo, era habitual haver ordem de recolher nocturna imposta pelas máfias locais.


Disse ser um homem feliz por ter encontrado paz e segurança no Porto. Contou-nos que sempre se sentiu desajustado na terra onde nasceu e aqui se parece ter encontrado – fez uma série alusões espirituais que me vou escusar relatar por pudor. Recordo apenas por graça, a referência à mãe – que alertou nada saber sobre Portugal – a quem só contou estar cá, depois cá estar. Muito renitente com a mudança de vida do filho para tão longe, perguntou-lhe porque tinha vindo para essa terra de terramotos. Só sossegou depois do filho lhe contar que as pessoas são muito bem-educadas e se pode andar na rua – até à noite – com telemóvel e relógio no pulso.


Com relação aos tempos de pandemia e às dificuldades provocadas pelo fecho do estabelecimento por tanto tempo, brincamos apenas com o destino que daria aos 50 euros que a Segurança Social lhe atribuiu como compensação.


E não posso deixar de referir o carinho pelos Açores. Estando cá há tão pouco tempo já foi visitar São Miguel três vezes e está absolutamente encantado com a ilha. Aliás, tem aproveitado para conhecer Portugal enquanto espera a legalização como cidadão estrangeiro residente no nosso país, para depois ir conhecer o resto da Europa.


Quanto ao cabelo do Nuno, à segunda já ficou melhor. Digamos que o primeiro corte foi um pouco arrojado. Só o bom feitio do cliente nos levou de regresso àquela casa. Em boa hora.

26/06/2021

Ponto de situação

Uma camadona de sono, que não vos digo nem vos conto. Mas isso em mim é normal. Digamos que toda a vida tive uma relação muito íntima, profunda e duradoura com Morfeu. O tal que resolve quase todos os males.


Por agora não há sintomas a registar além do sono e da incapacidade para fazer um postal que jeito tenha - bom, este parece-me um sintoma já com lastro.

Já está (quase) 😉

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25/06/2021

Convicção

A frase da divertida crónica de José Eduardo Agualusa que aqui colei há dias traduz a ideia que há anos me repica na mioleira como um sino: «O fundamental não é a condição: é a convicção.»


Aproprio-me abusivamente da frase para voltar a bater na mesma tecla: se é useira e vezeira a noção de que a condição determina os acontecimentos ou a caminhada de um indivíduo (e daqui nasce um rol imenso de clichés boas intenções), a verdade é que é a convicção - a opinião firme sem necessária adesão à realidade, representada apenas por crença íntima ou nem isso -, é determinante no desenrolar dos acontecimentos ou no percurso de vida de cada indivíduo.


Em sociedades onde existe liberdade de expressão é importante ter noção disto. Se todos têm direito a opinião e a maioria traduz (mal) convicção por verdade, o pandemónio tem tendência a instalar-se.


Mais uma vez não estou a esconjurar a Democracia.


Apenas a confrontar-me com a realidade de dia após dia ouvir e ler gente que está absolutamente convencida da veracidade de factos que são falsos (em rigor, não são factos). Ou de gente que faz de conta estar convencida de algo para persuadir outros da sua opinião. Por facciosismo, por interesse, por ignorância ou até por simples birra: os motivos são vastos. E jamais nos devemos iludir com os que alertam para as falsidades, os rumores, as habilidades. A arte da retórica é uma arma poderosa. Não raro, quem aponta amiúde falsidades e demais pechas, esconde muito maiores fraudes no próprio discurso e acção.


É claro que qualquer pessoa que esteja de boa-fé depois de perceber que no reino da argumentação (por exemplo, sobre política e futebol) vale usar a mentira, a falácia, instigar a irracionalidade – enfim, vale tudo - terá tendência a partir em viagem ou pelo menos procurar espaços e pessoas que sejam mais desprendidos de interesses, facciosismos e tribalismos.


Voltando aos percursos de vida e à convicção, mantenho o que tenho vindo a escrever nas Comezinhas: o mundo actual está para quem tem certezas e não para quem está certo. Vender convicção e vender-se a si e às suas opiniões sem qualquer critério - sem ponderar se o que diz é correcto ou falso e se beneficia o todo ou apenas o interesse próprio ou de uma tribo -, é mato. E o mato floresce dia após dia em gente sem um pingo de escrúpulos. Dá sustento a gente bem instalada nas certezas e nas finanças. É aproveitado em grande escala por interesses económicos orientados por algoritmos gananciosos que usam a disseminação desta vozearia destemperada para se fortalecer mais ainda. Mais: em regra, sob a égide de bandeirinhas adoráveis.

Praga

Vontade de lançar uma boa praga a todas as senhoras mulheres que aparecem na televisão a dizer: “é por causa dos que não cumprem que isto está como está… e as festas e os jovens e tal”. É a versão feminina da mui masculina: “era metê-los todos no Campo Pequeno e bombardear aquilo.”

James Hype - Afraid

Ai credo, e ela a dar-lhe

[...] «She opens it, to find it packed full of World War II-era papers— more than one thousand official-looking documents.»


[...] «these papers are a window into an extraordinary rescue mission from the Holocaust era.»


*


«24-year-old Louise* travelled to Ghana in October using a fake negative Covid-19 test certificate – the documentation some countries require to prove you don't have the virus and are fit to fly before you leave.»

24/06/2021

Mais um 24 de Junho

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O cúmulo da sinceridade

Foi um dos piores insultos que troquei em criança e à época sem grande consciência: cabeça grande. À conta dele levei o maior estalo da minha vida. Pior do que as mágoas próprias, são os traumas dos outros e a minha eterna falta de tacto. E vem isto a propósito exactamente de traumas. Se quando era criança não tinha consciência de que habitualmente as cabeças nessa fase da vida são desproporcionais ao tamanho do corpo, em adolescente comecei a sentir algum incómodo com isso. De tal forma que me sentia desconfortável com uma pequena fotografia minha em criança na praia pespegada na estante da sala, na qual se notava a dita desproporção, talvez com efeito aumentado pela perspectiva da lente. O certo é que a fotografia lá estava e todos a pareciam achar engraçadinha, tirando eu: hum, cabeça grande.


Na faculdade não usei a palermice do traje nem fui praxada - bastou-me olhar fixamente por uns segundos para uns meninos que vinham com ideias, para tirarem o cavalinho da chuva. Mas no último ano a Eca deu-me a bengala e a cartola, e usei-as na Queima das Fitas. Já tinha idade para ter juízo, porém como não tinha invejava as cabeças pequeninas de várias colegas. Achava muito feminino, o arzito de fragilidade. E irritava-me a medida ampla da minha cartola, que enfiada em duas das colegas vinha-lhes até ao nariz. Comentário: ah, Isabel a tua cartola é como a dos rapazes. Não, não, é maior do que a minha, dizia um traste. Aquilo moía-me, tudo me soava a insulto.


Foi preciso passarem alguns anos, estabilidade emocional e o sempre bom tempo do Nuno para me dizer: tu és parva? Já paraste dois segundos para pensar porque tens o crânio maior?


Claro que a ilação não é tiro e queda e o assunto daria pano para mangas. Mas certo, certo é que as raparigas (e os rapazes) arranjam sempre maneira de sofrer por palermices absolutamente escusadas.

23/06/2021

São João

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Só para dizer que está Lua Cheia e os céus do Porto pejados de Balões de São João.


Mil desejos. Dois, vá.


Já sabem que, em regra, sou péssima fotógrafa. Imaginem os balões, são muitos.

Chiu

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... o engenheiro dá cá uma soneca.

Uff

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Nem quero ver mais... Viva a Hungria.

O Ritz atento

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... às substituições.

Infantilidades

ACHO bem que caso o Governo decida alargar a regressão do desconfinamento ao país, não se lembre de impôr restrições concelho a concelho e se recorde da existência da Área Metropolitana do Porto, à semelhança do que fez em Lisboa.


Já que isto é desfaçatez e balbúrdia completa, valha a infantilidade: se os lisboetas podem veranear até Sesimbra, espero que no Porto se possa veranear até à Póvoa do Varzim.

Lábia

Há dias pasmados nos quais não sei o que diga. A deambular no ócio perde-se-me a ideia. Há dias, como hoje, de azáfama. Com mil tarefas para fazer e tantas ideias por escrever. E o tempo, ai o tempo. Pensava há pouco na condição de quem investe tudo quando tem em papéis. Esbanjar a criação na representação de razões e emoções que não se sentem. Para quê? Como? Fazer de conta que se vivem momentos, paixões, relações. Inventar amores fraternais. Fingir corroer-se em paixões carnais. Apelar ao erotismo.


Criar por criar (será criar?) quando há tanto por viver. E tanto de vivido a criar.


E voltando ao início, ao tempo: será que ainda se pode comentar que Salazar costumava dizer que era sempre preferível atribuir tarefas a gente muito ocupada - que sempre trataria de resolver -, do que a desocupados - que sempre protelariam. Bom, Salazar não dizia isto nestes termos, mas a ideia era esta. Será que fazer uma referência inócua a Salazar será possível sem se ser acusado do fascista ou falsificador da História?


Erotismo e Salazar num postal só é muita lábia. Quantos nós dados em cérebros pequeninos. Rio-me e volto a atirar-me ao trabalho.


Ai perde-se-me, ai perde-se-me.

Trabalho

Esta última semana está brava: uma carga de trabalhos. 


Inspira, expira e atira-te a eles.


Pouco falta para as férias e logo mais já é outra vez São João.

Buraco negro

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*


A vida corre impiedosa. Mata o que foi e o que não chegou a ser. Esvazia a beleza e a verdade dos sentimentos. Irrompidos do nada, ao nada eterno voltam. Mergulham no imenso vazio que consome tudo quanto foi e não chegou a ser. Poderia sobrar a dor, mas nem essa foi poupada – de tanto gastar esvai-se agarrada ao amor. É abuso da matéria.


Mais uma vez. Uma vez mais. Outra vez. Virada nova página.

Recapitulando

Afinal não faltou esfregarem as mãos. António Costa fez o papel do Glutão na perfeição.  Ser advinho neste país não é difícil. O difícil é perceber a razão para não surgir dia sim dia não um profeta.


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Cirque du Soleil


22/06/2021

Covid

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Total de mortes por milhão de habitantes e em termos absolutos no Worldmeters, 25ª e 31ª posição em 222 países.

Fenómenos Aéreos Não Identificados

Através do angolano Novo Jornal fico a saber que o Pentágono se prepara para apresentar relatório sobre a existência de UAPs - Fenómenos Aéreos Não Identificados. Confirmo no The Guardian que as agências governamentais norte-americanas começam a desclassificar alguns dados sobre UAPs. E que no próximo dia 25 o relatório do Pentágono vai ser divulgado. Depois de no mês passado ter assistido no 60 Minutos (vídeo infra) ao testemunho de vários pilotos militares que afirmam ter avistado objectos voadores (ou anfíbios) com comportamento e velocidades inexplicáveis e ao registo pelo Pentágono dessas imagens, fico expectante. De que estamos a falar? De vida extraterrestre? De ameaças à segurança? De programas militares secretos. Serão norte-americanos ou de outras nações?


Será chegado o momento em que o assunto OVNI deixa de ser matéria apenas para malucos e engraçadinhos?


21/06/2021

Agenda

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Dois meses depois retomei o tópico China. Esteve parado até hoje e é de facto um atrevimento tentar escrever sobre a China quando se sabe tão pouco. Mais uma razão para demorar tempo extra antes de sair postal. Isto não quer dizer que não resulte num qualquer enunciado muito simples e sintéctico. Para já vale pelo gosto de estar a explorar a História da China - por enquanto pouco mais do que a cronologia.

José Eduardo Agualusa

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The Doors

20/06/2021

Certificado Digital COVID

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Ainda sou do tempo (isto agora sem memória colectiva quaisquer três anos parecem uma eternidade como no universo orwelliano) em que os europeus pasmavam de sobressalto com o topete das autoridades chinesas na criação de mecanismos de diferenciação e hierarquização de cidadãos.


Recordo esta notícia do Público«Pequim está a desenvolver um sistema de classificação e hierarquização social a partir dos dados pessoais que os cidadãos entregaram às aplicações móveis. E essa pontuação pode determinar o acesso ao emprego, o lugar num comboio ou até a descoberta de um parceiro sexual.» Lembro o alvoroço português perante tal desplante dos orientais.


E reparo com surpresa que a burocracia europeia criou sem comoção de espécie alguma nos políticos e comentadores nacionais - antes pelo contrário, parecem excitadíssimos com a novidade - o Certificado Digital COVID.  


Dir-me-ão: sem comparação possível, está a misturar alhos com bugalhos.


Será? Se o dito certificado confere liberdade de circulação e acesso a locais públicos e espectáculos, isto não faz soar nenhum alarme?

Luís Represas e Ricardo Ribeiro

Luís Represas

Ponto de situação

Pois, ficou uma série de postais em atraso. Vão ficando as promessas por cumprir ou a cumprir tardiamente - as de ontem, dos últimos meses e do último ano. Não me esqueci delas. Sucede que cada vez que penso nos temas agendados, o cérebro pede-me descanso e manda-me ir ver casas. Desta vez T0, quando muito T1 junto ao mar para impôr a actual mobília e fazer uma revolução nesta casa.


Uma amiga aconselha-me o Feng Shui. É recomendação sensata. 

19/06/2021

Cigarros

Abreviando variações dentro das marcas, e passando por cima de cigarros que fumei ocasionalmente, estas foram as marcas de tabaco que fumei com regularidade entre 1987 e 2015 (com duas interrupções de menos de um ano), por ordem cronológica - não estou totalmente segura dadas as falhas de memória, mas não deve andar longe disto. Vem isto a propósito de hoje me ter apetecido um cigarrito e não, não foi a ver o Portugal 2 - Alemanha 4.


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... e não doeu.

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Primeiro comentário ao intervalo

Tirem os comentadores desportivos da televisão e deixem os jogadores sozinhos a comentar. Na TVI só conta o que o Dani está a dizer.


Quanto ao jogo... é sossegar e logo mais vamos ver.

Ora, "vamo" lá ver

São 15h30 e o jogo Portugal-Alemanha é às 17h00.


Como acordei às 8h30 e tratei de quase tudo de manhã - mini arrumo na casa, supermercado, barbeiro (isto de há anos acompanhar o Nuno aos barbeiros foi todo um mundo novo que se abriu para mim), farmácia -, não tenho nada de inadiável para fazer esta tarde senão lavar a caixa da areia do gato, estender a roupa, acabar um livro (mentira, não vou, nem ver a série do fim-de-semana; não estou para aí virada), ir comprar pão à padaria e dormir meia-hora extra para à noite estar tragável. Ah, falta claro tomar decisões e resoluções a longo prazo que se esvaem em dois ou três dias. Mas como também quero escrever um postal é certo e sabido que alguns dos inadiáveis ficam pelo caminho. O que vale é  que trouxe o almoço feito da rua (oh preguiçosa, oh Satanás) e a arrumação da cozinha compete ao Nuno (há anos que não sei o que é lavar loiça - oh mulher fútil armada em moderninha). Nada disto interessa muito: as notícias a nível profissional esta semana parecem (a lucidez impõe prudência) moderadamente simpáticas, com cada pequeno passo a implicar negociações difíceis e vantagens parcas. Portanto, a vida "flói" serena como de costume para a proletária desinteressante e pouco capaz. Há-de ser assim até à reforma que isso de singrar pelo próprio valor é para gente superior. E textos pertinentes e brilhantes, bem articulados e em bom português não estão ao alcance do proletariado mas de gente de boas relações, risonha e com boa imagem. Enfim, gente com glamour e bem sucedida.


Hoje para redigir o postal em vez de ler um punhado de notícias na íntegra, vou ver se leio capas dos jornais das últimas semanas. Talvez arranje ingredientes. Deve ser quanto baste. A ver vamos. Agora vou mesmo estender a roupa. Volto depois do jogo: o primeiro que vou ver deste Europeu.


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Pronto, já está.

Sei lá, um título

- Ando há dois dias a pensar que tenho de arranjar tempo para pensar em...


- Riso.That's my girl.

Ed Sheeran - Afterglow

18/06/2021

Punho

Li isto a amigo: "falta-lhe [ao país] o romantismo cívico da agressão". A frase não pode ser mais feliz.


Há semanas entre as imagens dos adeptos ingleses que emborcavam cervejas na Ribeira do Porto, reparei que alguns usavam os punhos para se agredir. A coisa pareceu-me caricata, não consegui levar a sério. Pudera, sou portuguesa, já não estou habituada. Na altura pensei: se fosse uma rixa nossa, já teriam saltado pedras, navalhas e cutelos e chamada a polícia, a comunicação social já teria feito reportagem sobre o abuso de autoridade com mãezinhas, mulherzinhas e irmãzinhas - todas cidadãs exemplares e cumpridoras - a chorar o destino trágico dos seus entes queridos.


Os peléns nacionais que têm voz e são ouvidos na comunicação social ou redes sociais ficaram todos muito ofendidos com os hooligans e a subserviência gananciosa dos empregados de mesa, mas não reparam que o país inteiro está de bandeja a servir à trupe clientelista e irresponsável socialista e a preparar-se para daqui a um par de anos servir de bandeja à trupe de liberais passistas - da qual o menos mau é mesmo o indivíduo que dá nome ao grupelho, de tal forma que nos dias de piores vergonhas socialistas acredito seria melhor que regressasse.


Quem estiver atento vê que se começaram a abrir alas ao velho futuro com nova temporada de aproveitamento de casos judiciais e virulento jornalismo de tribo. Os mesmos que se mantiveram em banho-maria, fazendo de conta nada ter a ver com essas fugas de informação e virulência, não criando demasiadas ondas à governação socialista ao longo dos últimos anos, preferindo salvaguardar-se e minar, isso sim, a oposição possível, começam a sentir o cheiro do poder e começam a ficar excitados. É o ânimo da avidez que os mobiliza e não o sentido do dever. Tudo é feito com cinismo, sempre em nome da verdade e da democracia, mesmo que com a maior desfaçatez se passe como caterpiller - num mundo de certezas -, por cima delas. Vale o discurso afirmativo tenha ou não adesão à realidade e a insegurança dos protagonistas é de tal ordem que são incapazes de questionar as suas certezas e assumir dúvidas, erros e enganos.


Já vi este filme. E até já fiz a digestão da ceia após última sessão. Não vou comprar de novo o bilhete. À primeira qualquer um cai, à segunda cai quem quer.


É política, estúpido! É sórdida. Cabe-nos apenas evitar morrer da doença socialista - da irresponsabilidade - e da cura liberal - da acção dos ambiciosos adeptos à cata do lugarzito ao sol e das excitadas adeptas das convicções convenientes e vidas fáceis. Estamos entregues aos bichos. Vale a lei da selva e é preciso saber viver entre esta gente.


Por tudo, cumpre perguntar: por onde andará o civismo do punho?  Possivelmente, à falta de bengala, usar o punho seria a nossa salvação. 

17/06/2021

Lisboa

Se a proibição de circular para Lisboa se prolongar por vários fins-de-semana, lá terei que sair em Vila Franca de Xira e ir de Uber até à Margem Sul. Fica-me cara a brincadeira.


Adenda. Bom, afinal trata-se da Área Metropolitana de Lisboa. Azar. Lá foram as férias em Sesimbra para o brejo. Além do que a ida a Almada terá de ser à semana. 

Jornais

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Tencionava subscrever o Público. Mas a escolha afinal foi 'ao melhor preço'. 


Hoje já posso saber o que se passou na Cimeira Biden/Putin, no Observador.

Bob Seger - Against The Wind

Freedom in Thought

16/06/2021

Consciência

Isto de andar macambúzia a matutar nos dramas do país tem de acabar. Vi uma senhora nas Ilhas – no 10 Junho, creio - a dizer que não precisávamos de mais críticos, mas sim de gente que trouxesse soluções e resolvi dar o meu modesto contributo. Inicialmente considerei a hipótese de me armar em António Costa Silva e desenhar um plano nacional 2020/2030 para a recuperação económica e social do país, mas depressa descobri que não estou habilitada, nem sou capaz. E, afinal, para quê? A Divina Providência já encomendou taxas de crescimento futuras próximas dos 5%.


Além do que, no fundo, julgava que contribuir de forma pela positiva para o bem da Nação passava por tentar respeitar os meus compatriotas nos múltiplos momentos do dia-a-dia: não passar à frente em filas, dar prioridade a quem vem da direita, desviar-me na rua de quem vem distraído, sorrir ao caixa do supermercado e desejar bom dia ou à noite bom descanso, cumprir com cuidado as tarefas de que estou incumbida na empresa, não mentir no intuito de enganar, pagar os impostos devidos, separar o lixo no ecoponto apesar de saber que é todo queimado, não ser imbecil e não discriminar pessoas em função do sexo, cor da pele, deficiências ou origem social, pagar as contas, usar por regra a boa educação no trato, não roubar, estar agradecida a quem me trata bem e quem trata bem os meus (e os outros), estudar, procurar saber por vontade de conhecer mais, preocupar-me com os que me rodeiam, manter-me vigilante aos perigos, dar atenção aos que me rodeiam, votar, não maltratar os outros a troco de nada, não sacanear, sei lá… este tipo de coisas.


Mas vejo que isto é considerado ridículo pelas mentes mais iluminadas. Aliás, é considerado ridículo, infantil e hipócrita. Coisa a fazer lembrar os escuteiros.


Os iluminados devem ter razão, porque apesar de todas as acções acima enunciadas por mim realizadas, o certo é que quando consulto a lista dos pecados capitais, verifico que não falho ou não falhei nenhum deles. Pratico-os ou pratiquei-os a todos. Faço o pleno da imperfeição neste mundo de impolutos iluminados. E se consultar os 10 Mandamentos também faço quase o pleno. Por isso me sinto uma pária. Sempre que oiço uma reivindicação ou acusação sobre alguém – e reparo que a grande maioria das pessoas se coloca apenas no lugar da vítima ou lesado -, tendo a colocar-me também na posição do autor da injúria. Imaginem o que é ouvir num jornal na televisão que um político é acusado de corrupção e haver alguém que em casa pensa: eu receberia aquele dinheiro em troco do lugar? Ouvir a notícia de uma mulher que enlouquecida matou os filhos e haver quem pense: ainda bem que não tive filhos, poderia ter sido eu? Imaginem isto triplicado em número de crimes e falhas por dias e dias. Anos e anos. Para uns é normal - também o fazem - para outros é loucura. Chamo-lhe apenas consciência. Claro que o habitual é voltar à tona para produzir comentários ditos normais - aceitáveis pelas pessoas de bom senso – em que critico o político corrupto ou a homicida tresloucada, mas cá dentro mói a consciência. A humanidade, a imperfeição rumina dia após dia.


Deve ser por isso, por esta consciência permanente da imperfeição, que não consigo arranjar soluções salvíficas para o país. Se não me salvei a mim, como salvaria o país?


E sabem o que é mais curioso de tudo isto? É que quando comecei a escrever este postal a ideia que tinha em mente era de fazer um texto leve e bem disposto a gozar com estado a que chegámos e uma fuga airosa pela leviandade. Era coisa para ter alguma piada se tivesse ido por aí, mas os dedos, o cérebro (e talvez o coração) têm caminhos insondáveis. Saiu este postal naïf e anacrónico. Foi o que se pôde arranjar. A alegria e leveza do outro texto ainda por nascer virá noutro dia, mais iluminado.

Testes à Covid-19 nas festas

Ainda bem que decidi antes dos 30  não voltar a aceitar convites para festas de casamento e outras que tais - não que tenha tido rodos deles, mas quebrei a regra uma única vez por se tratar do casório do meu mais velho amigo e porque faltar seria indelidadeza imperdoável; de resto depois de muitos festejos em miúda, a partir dos vinte e muitos esquivei-me aos casamentos sempre, fosse em que circunstância fosse - aliás não abri excepção para mim própria, em absoluta coerência com o mau génio e pouca queda para nós e laços apertados.


Fico a imaginar: se esta regra dos testes nos casamentos tivesse valido em novita, no tempo em que tinha vida familiar e social dita normal, ter-me-ia sujeitado à ditadura?


Aquilo a que as pessoas se sujeitam continua um mistério para mim. Cada vez me sinto melhor sendo bicho do buraco. 


Pensando bem - e utilizando o mui habitual raciocínio no burgo, bem inquinado com os próprios apetites e sem atender aos interesses de todos - acho muito bem: estou com as autoridades. Há que vigiar essas reuniões de gente esquisita que gosta de confraternizar em grupos de mais de 10. Gente estranha, só pode. Se puder ajustar o regulamento abro apenas uma excepção: em vez do conceito de agregado familiar, uso o de família apenas, atendendo ao facto de haver umas maiores do que outras. Mas só preciso da excepção para Dezembro, para já pode ficar a valer a lei do bicho de buraco - por falar nisso, anti-sociais uni-vos: é a hora da nossa vingança. 

15/06/2021

Hungria 0 - Portugal 3

 


Resumindo e mais ou menos de acordo com o que oiço dizer aos jornalistas/comentadores televisivos da bola: ganhámos apesar do conservadorismo de Fernando Santos por estarmos imbuídos da dinâmica vencedora e da verticalidade incutidas pelo mesmo Fernando Santos, esse seleccionador pragmático.


 

Concentração

Nos últimos meses aderi ao auricular na orelha direita enquanto trabalho, ficando a outra disponível para toda a comunicação telefónica. Apesar de tudo se a comunicação for presencial tiro a música da orelha por uma questão de boa educação - se bem que nem sempre o faço noutros locais como o supermercado, e isto em nada abona a favor de quem repara nas conversas paralelas dos funcionários enquanto atendem. Na rua ao andar a pé, no autocarro ou a trabalhar, em casa ou presencialmente, cada vez mais recorro a este pacificador de ânimo: música ao ouvido. Esta manhã as tarefas administrativas exigiam concentração moderada pelo que tive a Enya a tempo inteiro no ouvido e foi fácil partir em viagem. Devanear enquanto trabalhava.


A forma com a nossa concentração funciona ao longo da vida é muito variável. Nos últimos anos sinto necessidade de ocupar a atenção com várias fontes de interesse ao mesmo tempo. Sou quase incapaz de ver televisão sem estar a fazer outra coisa em simultâneo - de referir que acendo a televisão quase exclusivamente para ver jornais ou ouvir duas ou três pessoas cuja opinião considero. É usual ter de puxar atrás a gravação da box para voltar a ouvir uma notícia por me ter distraído mesmo em assuntos que me interessam.


Nos últimos anos custa-me ver um filme ou ler um livro de um fôlego só, salvo se mexer de tal forma com o que sinto e penso que me desperte da letargia ou se me surpreender de tal forma que fique agarrada pela estranheza e curiosidade. Perdi a maior parte do interesse pelo conhecido e pelo lugar-comum - ou por aquilo que me parece lugar-comum e que nos últimos anos se assemelha a um imenso pântano todos os dias a ganhar terreno ao que interessa. Coisas da idade, presumo.


Tendo passado por um período longo em que li poucos livros e vi pouco cinema, procuro não me massacrar com calhamaços e maratonas cinéfilas. Regressar aos interesses de antigamente exige que respeite os meus tempos e as minhas aptidões actuais. Dou por mim a escolher romances pelo tamanho, quanto mais pequenos melhor. Duzentas páginas é o ideal. E se forem contos ou novelas tanto melhor. Reparo que ao assistir a um filme tenho de fazer intervalo. Canso-me. Sinto o cérebro esgotado. Admito-o sem vergonha e não tenho pachorra para os dedos acusatórios sobre a falta de capacidade de concentração dos supostos energúmenos dos tempos modernos. Acusações que muitas vezes não servem senão para enaltecer egos vaidosos de gente que nasceu ou julga ter nascido entre dois foles.


Não desconheço as razões. O cérebro trabalha-se. Os hábitos trabalham-se. Além da menor disponibilidade por razões profissionais e pessoais, os tempos e os ritmos de hoje são os impostos pelas tecnologias e as novas formas de comunicação pouco dadas à paciência, ao desenvolvimento, ao aprofundamento. Mas não alinho nas recriminações, que pouco ajudam a resolver o problema comum a tantos, antes a aprofundá-lo com sentimentos de culpa.


Entre 2000 e 2007 tive momentos de extrema dependência das redes de sociais. E sobretudo de alheamento por falta de articulação entre a vida pessoal e profissional que decorria naturalmente e o vício da internet, como se esta fosse uma realidade estanque e autónoma. Depois desses 7 anos de uso intenso das redes sociais – e, ao contrário de muitos, nelas incluo os blogues - fiz um corte absoluto de mais de 10 anos e lamento informar, mas não se fez luz. Estar longe das fontes de distracção e alegada estupidificação não confere qualquer garantia de uma vida mais produtiva em termos mentais. O cérebro é uma máquina que precisa ser alimentada e processa o que lhe é dado. Seja onde for: até no conteúdo das redes sociais podemos encontrar fonte de criatividade. Desde que não percamos a capacidade de questionar e reflectir. E desde que saibamos harmonizar a nossa vida num mundo uno sem compartimentos estanques.


Há uma semana, por uma questão de necessidade de descanso, coloquei-me o desafio de desligar a internet por um dia. Não consegui ainda. Por razões evidentes não posso fazê-lo em dia de trabalho, mas tenciono tentar num fim-de-semana: 48 horas - ou vá, 24h para começar - sem entrar nas Comezinhas ou em qualquer outro blogue, não ler jornais online, não ouvir músicas e não ver animações no YouTube, não ver conteúdos didácticos na Wikipédia ou no Youtube (amigos deixem-se de tretas preconceituosas: é claro que se aprende nestes e noutros sítios da internet, escusam de disfarçar e fazer de conta que não os consultam), desligar os dados e o Wi-Fi no telemóvel para deixar de ter acesso ao e-mail e WhatsApp. Isto ser difícil parece ridículo tanto mais que não sou daquelas pessoas que recebe quinhentos e-mails pessoais e milhentas fosquices pelo WhatsApp. Muito pelo contrário, sou bastante frugal na utilização e nem faço esforço nisso: não tenho vários grupos, não tenho dezenas de amigos e conhecidos com quem trocar mensagens.


Fico a pensar: se é assim para quem tem poucos estímulos vindos de multidões de conhecidos, o que será das vidas e dos cérebros dos outros?

Pequeníssimas alegrias

Ontem esqueci de me fazer acompanhar de uma password essencial que utilizo nos últimos quinze dias. Os caracteres além de sensíveis às maiúsculas e minúsculas, contém algarismos, pontuações e outros símbolos.


Sentei-me, liguei o computador e não fazendo a menor ideia que a tinha fixado nem feito qualquer esforço nesse sentido - nestes quinze dias sempre recorri à cábula -, acertei à primeira.


Recuo no tempo e lembro que em miúda - sem intenção especial - fixava dezenas de datas de aniversário e números de telefone. Achei que tinha perdido essa aptidão para memorizar. Talvez a esteja a recuperar, apesar da péssima memória em muitas outras áreas.

Freedom in Thought


How to 10x Your Focus.

14/06/2021

Freedom in Thought

What I Wish I Knew at 20.

Verdes – Japoneiras

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Aqui,


se o mundo fosse um lugar aprazível, estaria o mais recente trecho dos Verdes. Nada de extraordinário: só mais um texto ainda inacabado agora sobre árvores híbridas e toda a envolvente que, como todos os outros pedaços dos Verdes, de ora em diante será resguardado.

Enya




13/06/2021

Última panca

Quero uma casa com quintal para ter um estendal à australiana: estilo guarda-chuva.

Vento

Toda a vida lidaste com a insegurança. Forma dura de enrijecer. Percorrer a vida lutando contigo própria e desacreditando a todo o instante tornou a caminhada árdua muito cedo. Há quem creia que todos têm nas mãos a possibilidade de moldar a realidade à sua vontade e até adaptar a própria natureza. Trata-se normalmente de pessoas a quem o vento sopra favorável e disso nunca tomaram consciência, habituados que estão a catalogar as dificuldades da vida com lugares-comuns. Acreditam que as vitórias se devem ao sacrifício, à disciplina, à dedicação, considerando-se grandes atletas dessas virtudes e mais, capazes de superar quase todas as adversidades. Muito raramente percebem como foram fadados com características propícias ao chamado sucesso ou tão simplesmente bafejados pela pura da sorte. Dizer isto vai totalmente contra a voz corrente que dita a verdade única de todo o sucesso nascer do trabalho árduo.


Aos olhos do lugar-comum e longe de possuíres tais virtudes coube-te desbaratar uma vida de benefício e doçura. A insegurança deve ter nascido de nada. Pois foram tantas as facilidades que recebeste de mão beijada que não podes senão sentir-te responsável pelo fracasso. Pesa-te, como sempre pesou. Devias aproveitar o tempo que perdes a cobiçar essa permanente convicção e certeza nas palavras e acções que reconheces nos vencedores, a trabalhar duro e a aprender a ser gente de valor. Sim, porque é preciso grandeza para ser grande e nesse mundo de fábula tudo é merecimento.


Resta saber se queres viver – e saberias fazê-lo – no mundo da fantasia. Apesar de muito devaneares, sempre sentiste a vida desenrolar-se bem crua e realista, pouco dada a prémios e recompensas.

O melhor do futebol

Do muito que lembro dos anos em que acompanhava o futebol realço o sorriso generoso, as cantorias, as partidas e a forma como o Neno ajustava a bola com malandrice a preparar-se para o grande momento. Era com certeza um homem bom e só pode deixar saudade.


Não consegui deixar de me arrepiar ao ouvir as bancadas de adeptos dinamarqueses e finlandeses entoar o nome Christian Eriksen, caído inanimado no relvado por paragem cardíaca e pronta e sagazmente acudido por companheiros e equipa médica.


Salvou-se.


São momentos como este que salvam o futebol e o mundo.


Sem o mesmo drama e intensidade, recordo um jogo de 97 entre o Barcelona e creio que o Desportivo da Corunha – sei que era uma equipa galega e o jogo se realizava na Galiza – no qual o Ronaldo (o Fenómeno) fez uma jogada incrível fintando vários jogadores adversários para terminar marcando golo. Lembro de como os adeptos galegos ovacionaram de pé o brilho do adversário.


Tal como me lembro do golaço de bicicleta que o Cristiano Ronaldo marcou há 3 anos pelo Real Madrid à Juventus e de ver adeptos italianos a aplaudi-lo. Outro grande momento do futebol. É pena que não sejam estas as imagens que prevaleçam na memória de todos e se perca tempo com marquises.

Coyote Oldman · Time Travelers

Fogaça

Cautela é palavra que soa aos que foram e já não são senão na memória. É ela que a avisa e serena: não precisa de se apoquentar – palavra mais antiga ainda – com paixões. Sabe que como vêm, se vão embora deixando apenas a lembrança de sensações que já não vibram como no tempo em que são vividas. Por mais de uma vez conheceu a derrota no amor e sabe ter ganho de modo instintivo a couraça da razão: não a impede de se apaixonar, mas defende-a da crença ingénua nas ligeirezas e belezas amorosas. Dá por si a congeminar se aquela verdade resultado de estudo científico da cátedra lifestyle não terá cabimento: se o estado de paixão dura em média três anos, a sua última fogaça já terá percorrido quase metade do caminho e não tendo sido vivida pode ser que esmoreça em definitivo mais cedo.


Tem esperança nisso. Sente falta do tempo em que tudo estava em harmonia. Paixão e amor condicentes com o tempo experimentado. Quer regressar aos anos de caminho certo numa vida de errante.

12/06/2021

Alfred Hitchcock Apresenta


Recordo começar a ver o Alfred Hitchcock Apresenta ainda em Valinhas. Tinha 12 anos e encarava a figura do realizador como uma personagem de animação - a icónica silhueta e o tema do genérico ajudava. Permeável ao que os mais velhos diziam - diziam-no genial - lembro de me instalar confortavelmente no chão com a cabeça levantada para seguir os episódios do homem que fazia cinema de suspense e crime e com ironia nele figurava discretamente, ou nem tanto assim. A saga começava comigo a tentar entender a deixa bem humorada do cineasta. Além dos episódios das séries, que estou a começar a rever - é-me bastante mais fácil do que aderir as séries do século XXI, adiadas mais uma vez para as Calendas Gregas -, entre os filmes eleitos, sempre escolhi Os Pássaros. Hoje vou rever a Janela Indiscreta.

11/06/2021

Diário da Varanda

A varanda andava ao abandono.


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Lá está a Nespereira espevitada. Nascida de dois caroços de nêsperas que deitei à terra há talvez 9 anos. Em Bessa Leite estava num vaso pequeno pelo que não cresceu. Ao vir para aqui mudei-a e lá começou a respingar.


Há dois cactos, aliás, suculentas. A maior já com cerca de 10 anos. Nos primeiros tempos também não quis vingar. Para minha surpresa começou a brotar do nada – de um vaso com terra que trouxe e julgava não ter nada senão erva. Agora está numa fase mais tristonha porque acabou de dar flor, entretanto seca. A mais novinha em forma de flor tem pouco mais de um ano – veio da feira do Passeio Alegre.


 


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Hoje trouxe uma Japoneira rosa forte, chamada Camélia Galega na etiqueta. Escolhi uma já bem formada, para ver se sobrevive. Na próxima semana, quando tiver terra decente, vou passá-la para um vaso um pouco maior. À falta de Tílias, a ver se é desta que faço vingar o paraíso juntando camélias e nêsperas – ainda que seja uma imitação tosca, será sempre uma tentativa de tocar o céu com as pontas dos dedos. Claro que faltam os Junquilhos, os Malmequeres a despontar entre a erva no chão com vista para as ramadas e a Eira. Mas pode ser que estas Japoneira e Nespereira ainda acabem num quintal.


 


 


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Para encantar trouxe uma Alegria: além de ter flores garridas e chamativas, a folha da planta tem nervuras lindas.


E uma Sardinheira em memória das escadas de pedra a Sul e da varanda a Norte da minha infância. Há lá flor mais resistente?


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Agora já tem alguma graça. Só falta limpar as paredes da varanda para tirar o negro da humidade, e mais um ou outro arranjo. Com jeitinho a coisa vai ao sítio.


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De dentro não parece mal.


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E continuo a achar piada à vista para a selva dos vizinhos.


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Plantas

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Momentos passados em hortos são sempre momentos bem passados, quanto mais não seja pela alegria dos olhos e narinas.


 


As fotografia foram tiradas hoje no Horto da Boavista, que não sendo grande é muito bem cuidado e organizado.


Na zona do Grande Porto há escolha variada para os apreciadores de plantas. Por serem os que conheço, recomendo aos amantes dos verdes além do Horto da Boavista, visita à Flor do Norte, em Arcozelo - Vila Nova de Gaia e à Jardinland, na Maia.

Coisinhas boas

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