Nos últimos meses aderi ao auricular na orelha direita enquanto trabalho, ficando a outra disponível para toda a comunicação telefónica. Apesar de tudo se a comunicação for presencial tiro a música da orelha por uma questão de boa educação - se bem que nem sempre o faço noutros locais como o supermercado, e isto em nada abona a favor de quem repara nas conversas paralelas dos funcionários enquanto atendem. Na rua ao andar a pé, no autocarro ou a trabalhar, em casa ou presencialmente, cada vez mais recorro a este pacificador de ânimo: música ao ouvido. Esta manhã as tarefas administrativas exigiam concentração moderada pelo que tive a Enya a tempo inteiro no ouvido e foi fácil partir em viagem. Devanear enquanto trabalhava.
A forma com a nossa concentração funciona ao longo da vida é muito variável. Nos últimos anos sinto necessidade de ocupar a atenção com várias fontes de interesse ao mesmo tempo. Sou quase incapaz de ver televisão sem estar a fazer outra coisa em simultâneo - de referir que acendo a televisão quase exclusivamente para ver jornais ou ouvir duas ou três pessoas cuja opinião considero. É usual ter de puxar atrás a gravação da box para voltar a ouvir uma notícia por me ter distraído mesmo em assuntos que me interessam.
Nos últimos anos custa-me ver um filme ou ler um livro de um fôlego só, salvo se mexer de tal forma com o que sinto e penso que me desperte da letargia ou se me surpreender de tal forma que fique agarrada pela estranheza e curiosidade. Perdi a maior parte do interesse pelo conhecido e pelo lugar-comum - ou por aquilo que me parece lugar-comum e que nos últimos anos se assemelha a um imenso pântano todos os dias a ganhar terreno ao que interessa. Coisas da idade, presumo.
Tendo passado por um período longo em que li poucos livros e vi pouco cinema, procuro não me massacrar com calhamaços e maratonas cinéfilas. Regressar aos interesses de antigamente exige que respeite os meus tempos e as minhas aptidões actuais. Dou por mim a escolher romances pelo tamanho, quanto mais pequenos melhor. Duzentas páginas é o ideal. E se forem contos ou novelas tanto melhor. Reparo que ao assistir a um filme tenho de fazer intervalo. Canso-me. Sinto o cérebro esgotado. Admito-o sem vergonha e não tenho pachorra para os dedos acusatórios sobre a falta de capacidade de concentração dos supostos energúmenos dos tempos modernos. Acusações que muitas vezes não servem senão para enaltecer egos vaidosos de gente que nasceu ou julga ter nascido entre dois foles.
Não desconheço as razões. O cérebro trabalha-se. Os hábitos trabalham-se. Além da menor disponibilidade por razões profissionais e pessoais, os tempos e os ritmos de hoje são os impostos pelas tecnologias e as novas formas de comunicação pouco dadas à paciência, ao desenvolvimento, ao aprofundamento. Mas não alinho nas recriminações, que pouco ajudam a resolver o problema comum a tantos, antes a aprofundá-lo com sentimentos de culpa.
Entre 2000 e 2007 tive momentos de extrema dependência das redes de sociais. E sobretudo de alheamento por falta de articulação entre a vida pessoal e profissional que decorria naturalmente e o vício da internet, como se esta fosse uma realidade estanque e autónoma. Depois desses 7 anos de uso intenso das redes sociais – e, ao contrário de muitos, nelas incluo os blogues - fiz um corte absoluto de mais de 10 anos e lamento informar, mas não se fez luz. Estar longe das fontes de distracção e alegada estupidificação não confere qualquer garantia de uma vida mais produtiva em termos mentais. O cérebro é uma máquina que precisa ser alimentada e processa o que lhe é dado. Seja onde for: até no conteúdo das redes sociais podemos encontrar fonte de criatividade. Desde que não percamos a capacidade de questionar e reflectir. E desde que saibamos harmonizar a nossa vida num mundo uno sem compartimentos estanques.
Há uma semana, por uma questão de necessidade de descanso, coloquei-me o desafio de desligar a internet por um dia. Não consegui ainda. Por razões evidentes não posso fazê-lo em dia de trabalho, mas tenciono tentar num fim-de-semana: 48 horas - ou vá, 24h para começar - sem entrar nas Comezinhas ou em qualquer outro blogue, não ler jornais online, não ouvir músicas e não ver animações no YouTube, não ver conteúdos didácticos na Wikipédia ou no Youtube (amigos deixem-se de tretas preconceituosas: é claro que se aprende nestes e noutros sítios da internet, escusam de disfarçar e fazer de conta que não os consultam), desligar os dados e o Wi-Fi no telemóvel para deixar de ter acesso ao e-mail e WhatsApp. Isto ser difícil parece ridículo tanto mais que não sou daquelas pessoas que recebe quinhentos e-mails pessoais e milhentas fosquices pelo WhatsApp. Muito pelo contrário, sou bastante frugal na utilização e nem faço esforço nisso: não tenho vários grupos, não tenho dezenas de amigos e conhecidos com quem trocar mensagens.
Fico a pensar: se é assim para quem tem poucos estímulos vindos de multidões de conhecidos, o que será das vidas e dos cérebros dos outros?