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29/06/2021

Homens e mulheres de acção

O olhar entre o vazio e surpreendido que os homens e as mulheres de acção deitam aos melancólicos que rememoram factos da vida passados na infância, na adolescência ou há uma década, espelha a confusão que lhes faz perder tempo com coisas que foram e já não movem. Estão habituados a tomar decisões, a planear o dia de amanhã, a gerir objectivos, o tempo e o espaço, e as pessoas. As pessoas estão no rol de circunstâncias favoráveis ou desfavoráveis aos objectivos que determinam para aquele dia, aquela semana ou mês. Como uma construção de lego, as peças têm que encaixar, seja qual for a sua natureza, em prol do resultado final.


Estamos habituados a admirar os homens e mulheres de acção. Sobressaem na sociedade. São os que constroem ou dirigem empresas, os presidentes de fundações, associações e clubes, os que dirigem escolas e hospitais, os líderes de várias entidades. Em regra, são pessoas extraordinariamente ambiciosas no sentido benigno ou maligno da coisa. Benigno se consigo transportam ideia firme do que é justo, maligno no caso contrário.


São objecto de inveja pelos motivos errados. Muitos consideram que têm vidas fáceis e apontam as suas regalias e privilégios. Esquecem que, grosso modo, é gente com grande capacidade de trabalho e que se empenha e labuta com afinco. Gente organizada, disciplinada, com espírito de sacrifício.


O mal não está no não serem capazes, mas no facto de em muitos casos não serem justos. Por falta de tempo e hábito de perceberem os outros como iguais. Os homens e as mulheres de acção partem do princípio que os outros são ferramentas vulgares e, na maioria dos casos, sem grande préstimo individual, salvo se forem bem orientados. Ferramentas prontas a ser usadas para sucesso da empreitada. E dividem os outros entre os que trazem vantagens e os que prejudicam. Esquecem com frequência que a maioria dessas ferramentas também são homens e mulheres de acção, no sentido em que dia após dia, trabalham e se dedicam, com a diferença fundamental de não se alçarem à categoria de líder por falta de talento ou de oportunidade.


Desde criança reparo nos homens e mulheres de acção: vi-os no auge e na decadência. Fico com a sensação que em muitos casos à medida que envelhecem começam a criar um círculo de vazio em seu torno - de alheamento da realidade. Como se o tempo e espaço viessem pedir contas tarde demais, abandonando-os num mundo desabitado de ferramentas – de pessoas com alma e sentimento.