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28/06/2021

Linguagem

Cresci a contar com os remoques familiares face à pretensão. Tudo quanto na linguagem fosse pires, a armar ao pingarelho era motivo de chacota. Recordo bem a referência antiga aos tiques de professora de liceu. Era uma referência jocosa às pessoas que empregavam termos caros nas conversas banais. Isto ao mesmo tempo que se valorizava o vasto leque de vocabulário em cronistas e escritores.


Volvidas décadas pondero sobre o ponto de equilíbrio nesta matéria. Reparo na pobre linguagem verbal e escrita, onde são aceites todos os termos de maré – e as marés da linguagem hoje podem ser mensais ou semanais – de tal modo que se num qualquer dia nos dedicarmos a ler duas dezenas de crónicas de autores diferentes, topamos com vocábulos repetidos à exaustão, como se decalcados de uns textos para outros.


Não sei se a ideia presente de que se deve estar em cima do acontecimento, o medo de parecer alheado da realidade leva quem escreve a esta necessidade de encosto na maioria. Sinto que é uma coisa inconsciente e isso, para ser franca, ainda é mais assustador. Onde andará a consciência e o cunho de cada um? Não só os temas têm que ser os do momento, como os termos, as expressões, as interjeições. Tudo comove todos por igual. Ou melhor, comove por igual as tribos. As pequenas divergências que existem são de facção, se bem que os termos empregues até são os mesmos, só que devidamente inquinados em função do ponto de vista do bando.


Habituada a ser chamada à atenção por uns por usar termos antigos, e por outros por usar termos aperaltados, pergunto-me se todos temos de escrever como se fossemos um misto de psicólogo e jornalista a redigir a acta do condomínio.