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31/01/2025

Antolhos

Acordei e espreguicei com vontade de ganhar abertura de asa. Ganhar mundo.


Pega


Pega. Imagem de RCKeller.


 


O mundo de cada um pode ser muito pequeno em função de implicâncias e preconceitos. Tomemos o exemplo da embirração com certas palavras, ao acaso: escrevinhar ou passarinhar. Ficarei com a sensibilidade à flor da pele, se por alguma razão implicar com estas palavras por estarem em voga, por serem usadas habitualmente por pessoas em cujo discurso não encontro valia, por terem sido utilizadas no passado por alguém que me fez mal e já nem sequer sei identificar, mas ficou marcado no subconsciente, ou por outro qualquer motivo.


Todos transportamos uma carga de preconceito e o que a psicologia designa por gatilhos, além de estarmos convencidos dos nossos grandes argumentos. Nem tudo é mau, às vezes estas aversões ajudam a não sermos tão deslumbrados ou ocos, assimilando tudo o que é novo embasbacados por mimetismo e quantas vezes desconhecendo melhor cuidado com o português. Porém na maioria das ocasiões estamos apenas a verter implicâncias desnecessárias e pior, as aversões reduzem a nossa amplitude de conhecimento.


Tomemos novamente o exemplo da palavra passarinhar. Imagine que embirro com a palavra – não é o caso – e que é usada na primeira frase de uma crónica que descreve um passeio aos Passadiços do Paiva. Para agravar suponha que o texto faz um elogio rasgado à terceira ponte suspensa pedonal mais longa do mundo e ao número de turistas que a visitam. À moda das competições das maiores árvores de Natal. Está reunido o conjunto de irritantes para não ler mais. Passar à frente.


Erro meu que perderei a oportunidade de conhecer uma perspectiva acerca de um lugar que não conheço, apesar de ficar a setenta quilómetros de casa e certamente com beleza suficiente para me convencer à visita. Se me limitar ao olhar das pessoas que passam no crivo exigente da implicância perderei mundo. Terei menos mundo. O que fará de mim provinciana.


Por isso faço tanto finca-pé nos dois tipos de provincianismo, vivendo num país em que só se percebe um deles. Tão provinciano é aquele que se deslumbra com tudo o que vê de novo como aquele que fechado na sua soberba intelectual se nega a conhecer o mundo por preconceito. É a razão de tanta gente, mesmo tendo viajado ou vivido fora de país onde nasceu, se manter esclerosada no seu mundinho. Numa redoma viciante daquilo que considera certo ou aceitável, desprezando tudo o mais.


Desde criança oiço a expressão crítica: ele tem antolhos. Gosto imenso de usar os termos antigos que toda a vida ouvi, sobretudo, à minha avó e à minha mãe. Este define bem o que quis dizer neste post e mais do que uma crítica alheia, resultou de acordar com a sensação de que o meu mundo estava a ficar pequeno demais por implicância. Acordei e espreguicei com vontade de ganhar abertura de asa. Ganhar mundo.


 


Obrigada por terem lido. Bom fim-de-semana.

30/01/2025

Ponto de situação

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Cheia do sono e a fazer pirraça como as crianças. Não me quero deitar já para aproveitar a noite, depois de ao de jantar ter bebido dois copos do Dão branco Flor de Penalva para acompanhar as entradas fritas japonesas e os hot rolls de salmão. O agridoce picante era melhor do que o costume.


Reparei que não tinha incluído no post anterior o nome do realizador e argumentista britânico da curta-metragem que publiquei - já acrescentei: Anthony Sutcliffe. A ver se não me esqueço nos próximos dias procurar outros filmes: The Anniversary (2012), Traces (2014), The Present (2014), Serial Cheat (2019).


Olha, estão todos e mais alguns nesta página: Anthony Sutcliffe – Writer Director. Ficam aqui para quando tiver disponibilidade.


Tirei o dia de amanhã de férias. Ainda a haver do ano passado.


Se me deitar a esta hora vou acordar no início da madrugada e talvez leia um pouco. Mesmo pouco para não cansar os miolos lerdos.


Em suma: nada de novo. O rame-rame de sempre. Felizmente, ou não. A esta hora e com este sono não sei o que dizer.


 


Nota: falta o meu garfo. Antes de tirar a fotografia estava desfasado do prato e com a distracção guardei-o por achar que tinha tirado um a mais. Como sobreviveria este relevantíssimo testemunho sem um apontamento destes? Pensando bem, podia ter tirado outra fotografia com o garfo, publicando as duas lado a lado e feito o desafio: descubra a diferença. Se descobrir em cinco segundos tem um Q.I. superior a 115. Sono, isto é sono. Até amanhã.


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Cenas dos próximos capítulos.

Cope


 

29/01/2025

Minesweeper

O jogo preferido da mediocridade presumida: minar o campo de préstimo de quem tem valor. Destruir tudo quanto tenha merecimento em jeito de quem exibe superior ilustração.


Tentar desfazer todo o acto são de criação e favorecer a retórica vã. Restringir a liberdade através da opressão da eloquência inquinada.

Parcimónia

Era parcimoniosa. Poupava as ideias e palavras a dizer no dia-a-dia. Guardava-as como o melhor vestido para os dias festivos ou a roupa interior por estrear para a eventualidade de ser hospitalizada.

28/01/2025

Talvez

O comedimento da ambição talvez seja a receita do trabalho bem-sucedido. O deslumbre não é bom conselheiro.

27/01/2025

A conquista

Capturar


Imagem do Google.


É equivocada a ideia da tranquilidade perene trazida pela maturidade. A sensação de segurança e resolução interior faz-se de momentos como quase tudo na vida. Como se subíssemos dois degraus da escada da temperança para logo em seguida descer um ou três e voltar a subir outros tantos. Nos casos felizes fazemos uma tendência ascendente e evoluímos interiormente ainda que aos tropeços.


De qualquer modo é bom o sentimento de paz connosco próprios apesar do desagrado que provocamos ou da incompreensão recebida. Entendemos que ao contrário da ideia feita sentirmo-nos incompreendidos não é uma manifestação de imaturidade ou de inadequação na sociedade, mas tão só a consequência da afirmação de uma personalidade desalinhada e tantas vezes mais exigente que causará sempre estranheza no entorno.


A conquista está em darmos por nós serenos com a rejeição, cientes que não nos demoveu nem demoverá do caminho. Adequado ao que acreditamos teremos sempre o nosso espaço em sociedade por insignificante ou estranho pareça aos olhos da maioria.


Niquices irrelevantes. Boa semana.

26/01/2025

Diário 26 de Janeiro de 2025

Esta semana trouxe para a Reading List quatro histórias lidas. Três acerca de pintura, uma sobre os fogos na Patagónia, na Argentina.


ImageDoGoogle


Imagem do Google.


Na primeira o autor conta-nos a história de Narciso a propósito da tela de Caravaggio. O pintor retrata o castigo dado pela deusa Némesis ao jovem vaidoso da mitologia grega que rejeitava todos os pretendentes. Através do jogo luz e sombra faz o contraste entre a luminosidade do corpo de Narciso debruçado sobre as águas de um lago onde se apaixona pelo seu reflexo, a que o artista dá tonalidades escurecidas segundo a técnica do tenebrismo. Água nas quais acaba por cair, afogando-se. A autoconsciência, a tomada de consciência do eu subconsciente. O autor do texto dá-nos nota do pormenor relevante dos dedos das mãos cuja visão a tela não cobre, isto é, saem da própria pintura, uma forma de Caravaggio criar impacto de proximidade com quem vê a obra.


A autora do segundo post lido, uma guia turística em França, explica a razão de não incluir Pablo Picasso e Paul Gauguin nas visitas guiadas. Picasso pela misoginia e forma oportunista como se aproveitou do talento de Dora Maar, fotógrafa surrealista, menosprezando-a. Gauguin por ser pedófilo e ter romantizado o exotismo do Oriente fabricando uma visão fantasiosa para agradar aos europeus. Face às políticas de cancelamento a minha posição não é radical, mas de nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Se considero que não se deve deixar de mostrar a obra de qualquer artista por razões éticas ou politicamente correcto, também sou de opinião que somos livres e não devemos deixar de sublinhar as deficiências de carácter e os crimes praticados pelos génios ou criaturas que de uma forma ou outra se destacaram no plano das artes. Isso desejariam os fãs da lei da selva que tanto se insurgem contra as políticas de cancelamento, ao mesmo tempo que cancelam a possibilidade de buscar ou revelar verdades incómodas sob o manto diáfano do “temos de contextualizar na época” — argumento que usei durante trinta anos até aprender a ser mais criteriosa. Há traços intemporais da natureza humana que não cabem neste chapéu atenuante por mais jeito isso dê à retórica dos agressores.


A terceira entrada trata da perseverança criativa de Claude Monet, que apesar da rejeição, das dúvidas e dívidas, da tentativa de suicídio e das críticas devastadoras, manteve-se fiel à sua visão e estilo artístico, o impressionismo. Um hino à liberdade artística.


Na história sobre a Argentina o autor, que vive na Patagónia, descreve a visão do fogo aproximando-se da sua cidade e o impacto dos incêndios na região. Crítico do presidente argentino Javier Milei, faz paralelo do seu pensamento e políticas com o movimento MAGA (Make América Great Again) por negar as alterações climáticas. Denuncia as políticas de desmantelamento da protecção florestal para a extracção de petróleo e gás em benefício de investidores internacionais, face a uma população que tem preocupações económicas pessoais e não ambientais, no momento em que as florestas da Patagónia ardem. Resultado da conjugação de três factores: seca e calor extremos e má gestão ambiental.


E que dizer do dia-a-dia? Nos últimos meses, ou anos, tenho dado por maior irritabilidade à hora do almoço. Talvez resulte do tempo contado, da pressa em passar no supermercado, aquecer o almoço e sair. Ou em rigor, daqueles minutos de quebra ou relaxe que são cortados pela imposição de regressar à empresa. O certo é que nessa altura do dia fico mais impaciente e irritadiça, salvo quando almoço junto do local de trabalho, quebrando a rotina da semana.


Na semana que passou preparei os jantares evitando trazer comida do take-away ou Bolt. Nem todas as refeições correram bem. Na quinta-feira ia fazer caldeirada de lulas, quando percebi tê-las deixado estragar. À falta de outro peixe em casa, fiz caldeirada de salmão. Um desperdício, já que prefiro grelhado ou assado. O Nuno comeu bem a caldeirada depois de me pedir que pusesse piri-piri. Brinco com ele e digo que traga tudo desde que tenha picante.


Hoje saímos de Bolt para ir à casa de acolhimento de adolescentes. Para lá fomos conduzidos por um bangladeshiano falador que simpatizou com o Nuno. Em conversa inteiramente em inglês queixou-se que desde as últimas eleições em Portugal nota que passou a ser habitual os clientes cancelarem as viagens depois de perceberem quem é o condutor. Contou um episódio passado em frente ao Norteshopping: junto ao carro dois clientes pediram três vezes uma viagem, que aceitou as três vezes para as ver canceladas. Para cá viemos com um portuense e portista pacato que ouvia o relato do Porto-Santa Clara. Enquanto decorreu a viagem o Porto estava a perder. A propósito do penalti perguntei se seria mesmo e ele riu — expliquei que temo sempre não seja falta. Bem-disposto disse que agora o que mais o diverte nos jogos é o árbitro explicar ao público a razão de puxar de vermelho. Sugeri que qualquer dia põem o público a votar na falta ou cor do cartão.


E assim vendo bem não há nada mais de relevante a contar esta semana. Mais tarde de certeza que vou pensar: esqueci disto e daquilo e daqueloutro. Mas estou cansada, tenho sono e ficamos por aqui.


 


Obrigada por terem lido. Boa semana.

Ponto de situação

Lá fora vento e chuva forte. Mais tarde um compromisso na casa de acolhimento de adolescentes. Um lanche. Tomaremos um Bolt e se é sabido que aos Domingos os tempos de espera são maiores, com o mau tempo será pior.


Cá dentro uma manhã inteira de sorna, gazeta da natação e o diário habitual deste fim-de-semana por fazer – o de ontem saiu do formato usual. Terei de reler as histórias do Medium e se fizer sentido, recordar alguma coisa do dia-a-dia para contar.


Niquices sem importância.

25/01/2025

Diário de 25 de Janeiro de 2025

Essa influência ajuda a arranjar jobs for the boys and girls, cargos políticos, bons empregos de gestão ou direcção em entidades ou empresas públicas ou privadas de relevo, nas universidades, nas colunas de jornais, fretes nas editoras de livros à la carte, espaços em programas de rádio e televisão, enfim, o mundo sórdido do compadrio que em Portugal sempre foi pródigo.


 


Capturar


 


Em matéria de deambulações mentais não andei muito longe do costume. Apesar de enjoativo dei comigo de novo a pensar na falta de sensibilidade face ao mais correcto e às vidas comuns dos que vêem o mundo como ringue de permanente disputa por um lugar de distinção. Por mero capricho de facção ou menoridade. O ridículo espadachim de argumentos fúteis para denegrir adversários ainda que estejam a defender o mesmíssimo interesse ou valor.


Bem sei que seria conveniente desviar o olhar do que tenho focado nos últimos anos. Bem sei que o mundo não é a preto e branco, nem os maus são só maus e os bons só bons. Ao que chegamos para ter de recapitular o básico. Mas na verdade a atenção está naquilo que é muito mau. Erro meu na insistência, é possível. Bem posso tender a dar crédito por qualquer razão bem pensada e dita, mas o corpo inteiro de miséria de carácter acaba por vir ao de cima. E lá teria de falar nos elogios interesseiros, nas trocas de favor, no favorecimento da estupidez e da aparente ilustração, na argumentária facciosa, na permanente irreflexão e busca incessante de estridência e audiência através da vacuidade ou da desconsideração de quem for mais oportuno denegrir. A procura da vitória argumentativa sempre à custa do desprezo e nunca pela positiva desinteressada, pelo valor do trabalho, da dedicação abnegada, do empenho discreto, da razão tranquila sem oportunismo.


O hábito enraizado de tecer loas a quem tem créditos firmados para usufruir das regalias que tais menções civilizadas conferem. O mimetismo das frases educadas, como se pudesse ganhar educação por osmose. Nota-se o quão deseducados são pela forma como desrespeitam e usam quem tem valor e favorecem os debitadores de inutilidades, falsa ilustração e quem esgravata as relações e circunstâncias em busca de lugares, estatuto e prestígio. Do mais sofisticado(a) ao(à) mais rasteiro(a) aparecem, surgem com elogios interesseiros, mostram-se íntimos de quem interessa para impressionar potenciais promotores, dão ao rabo e em pouco tempo estão na ribalta. Farejam-se nas intimidades, encostam-se e crescem juntos em matilha no assalto ao poder. Não só o poder político, mas o poder de influência no mundo da comunicação social, dos livros, do entretenimento, nas redes sociais, plataformas online ou blogs. Essa influência ajuda a arranjar jobs for the boys and girls, cargos políticos, bons empregos de gestão ou direcção em entidades ou empresas públicas ou privadas de relevo, nas universidades, nas colunas em jornais, fretes nas editoras de livros à la carte, espaços em programas de rádio e televisão, enfim, o mundo sórdido do compadrio que em Portugal sempre foi pródigo.


Um mundo cuja natureza suja podemos não topar à primeira vista, iludidos pela aparente educação e conhecimento desta gente rasca que faz as vezes ilustrada e de que é preciso manter distância. Assim que tomamos consciência do logro é de manter a distância e fazê-lo como exercício diário de comportamentos que representam a antítese da postura desta gente. Afastar-nos dos tiques de educação em que fomos criados quando percebemos que facilmente se confundem com o pretensiosismo destes esgravatadores de privilégio e ribalta. Em pormenores simples como caricaturar a nossa própria ignorância e falta de juízo, ou mencionar uma ida a restaurante num dia festivo. Agora que os pirosos ascendidos já sabem que são mais educadas as reuniões festivas em casa referir o restaurante nivela-nos pela plebe e deixamos livre todo o esplendor da educação do aconchego caseiro para os ascendidos — ficam radiantes e vão ensinar como se o soubessem de sempre enquanto lembram saudosos a leitura da Paris Match. Ou usar vocábulos proibidos pelo clã de gente educada. É só reunir as palavras e expressões proibidas em criança por serem pirosas e lançar uma delas no texto como se atira para longe o osso ao cão domesticado, logo vem um ascendido lesto corrigir entregando o osso. São exercícios como outros quaisquer. Entretém. Eles acabam por perceber e irritar-se, atacando-nos pelas costas e em matilha de modo dissimulado, cobardes que são. Passamos a ser odiados e ainda assim usurpam o nosso valor para seu benefício, é o preço que temos a pagar por nos mantermos verticais.


Estes presumidos veneram e mimetizam snobes sem carácter e têm o seu próprio público indefectível de ambiciosos(as) desprovidos de qualquer talento e frustrados por viverem incompreendidos neste país segundo eles povoado de néscios. Impressionam as meninas que em quatro linhas citam cinco livros de um autor que amam muito e leram no intervalo da ida com as três melhores amigas das unhas de gel ao curso de escrita criativa. Cativam para o seu ringue agressivos homens de meia-idade que nunca se resolveram e dissertam sobre a necessidade de tempo de ócio e o horror das rotinas com que justificam as permanentes ofensas a tudo e todos. E velhos requebrados à nascença cheios de memórias dos imaginários tempos idos em que se lia muito e falava e escrevia bom português. Às vezes temos de dar um chega para lá aos possidónios cheios de certezas ou de sentenças ofensivas. Por uma razão ou outra, e com certeza distraídos já que é patente não fazerem a mais pequena noção do que é educação, tomam-nos por gente civilizada e pensada e tentam interesseiramente ser simpáticos não conseguindo evitar a pretensão. Um único chega para lá costuma ser o suficiente para ficarem a odiar-nos e tomar-nos por gente rude, ignorante e sem juízo. Passamos a alvos a abater.


Mais sofisticados ou mais rasteiros ascendem e passam a contar historinhas fetiche de músicos, actrizes e actores, estadistas e primeiras-damas, reis e rainhas com muita intriga palpitante à moda das séries televisivas. Ou enveredam na geopolítica, no caso dos mais ambiciosos e desfasados da realidade, achando-se habilitados a replicar o que dizem os gurus de cada gueto por citarem um punhado de publicações internacionais. Ou tentam intelectualizar a vacuidade patinando como disco riscado em palavras e conceitos mal compreendidos das passagens dos livros que dizem ter lido sobre dilemas da identidade e autoconhecimento, gastando frases arrevessadas e cheias de presunção acerca de patavina. Futilidade pura. Fazem da História, do conhecimento e da Arte enredo pífio de telenovelas de quinta categoria tomando personalidades históricas, figuras públicas do presente ou a si próprias por artistas de variedades para gáudio das audiências das casas dos segredos de que desdenham, mas com as quais concorrem.


Devia mudar o foco e regressar aos defeitos próprios. Esmiuçar as próprias misérias dá um bom romance, quem sabe até meia-dúzia de contos. Envolvê-las no mundo sórdido acima descrito numa massa bem articulada. E sabê-lo? E fazê-lo com arte? É sempre o mais difícil criar valor. É sempre mais fácil desembuchar a nossa visão crítica crua sem o dom de criar beleza imaculada. Talvez já tenha dado o disparo inicial, todavia encontro-me ajoelhada na linha de partida da pista, ainda a remoer enquanto aperto os atacadores. Padeço de má memória, mas lembro-me de aos quatro ou cinco anos (erro sempre por um, já sabem) a Eca ensinar-me a apertar os atacadores dos sapatos no vão da janela do quarto, junto às bonecas. Senti-me importantíssima por saber fazer um laço nos pés.


Hei-de sentir-me importantíssima por fechar a colectânea de contos que resultar deste desembuchar com ou sem arte e do espanador como pano de fundo. Uma vez mais isolada, só comigo própria, sem as trocas de favor próprias de quem precisa impingir a falta de talento nem os fretes de quem aceita vergar a espinha. Valho por mim e não pelas boas relações.


É o que se chama alardear trabalho antes de executado e ser poupada, reciclar planos e cosê-los num só propósito. Mas na realidade parecendo que não o trabalho vai-se fazendo por ele, como neste preciso momento. Os contos irão para uma espiral de argolas que comprarei na loja de cópias depois de rever o texto integral meia-dúzia de vezes. Serão lidos nesse formato pelas mais do que suficientes três ou quatro pessoas e de resto: ficará disponível e livre no blog ou nalguma plataforma online. Onde os contos serão lidos por uma mais do que bastante vintena de pessoas.


Li há dias: não escrevo por dois centavos, sou escritor. Ridículo como se levam tão a sério e se têm em tão boa conta. Gente que se acha importante e tenta convencer os outros do seu valor impingindo vulgaridade. E convencem. Essa é que é essa. O logro vende melhor do que o merecimento. O trabalho de valor serve sim para ser pilhado por vigaristas. É assim o mundo real.


Obrigada por terem lido. Bom fim-de-semana.

24/01/2025

Economia da tolice

Se não quiserem perder tempo com diatribes, passem directos para o terceiro período do terceiro parágrafo deste postal. Não se cansem.


Capturar


Imagem do Google.


Lá ia gastar o meu latim com artolas e a forma como debocham, achando-se mais espertos e impunes nas sacanices e ofensas dissimuladas, mas deixá-lo. Serão sempre os das grandes audiências à semelhança da imprensa sensacionalista ou das casas dos segredos. Buscam o seu target pindérico e têm-no no mercado dos grandes vencedores das aparências e da vulgaridade borrado de verniz que estala fácil. Fazendo-se passar por gente sábia seguem triunfantes na sua pequenez.


Deixá-lo e falar do que me move. Deixá-los impressionar a plateia com assuntos de sumo interesse, estratégias de pilhagem e desaforo de veludo e falar das minhas banalidades. Há dias estava a abrir um dos pequenos frascos do suplemento de ferro que tomo por causa da anemia e pensei no absurdo das embalagens com vinte frascos de vidro com tampa de plástico. Pensava: há quarenta anos teríamos um frasco único com a indicação para a toma diária numa colher de sopa, quando muito traria uma medida para o efeito e não doses individuais. Em caso de necessidade de preservar as propriedades do remédio por vinte dias teria um doseador que evitasse o contacto como o ar do conteúdo do frasco. Tão só. As imposições legais e as práticas seja na produção de medicamentos, seja em químicos como detergentes ou produtos de higiene pessoal é absurda em termos ecológicos. Sem necessidade nenhuma, senão a monomania do consumismo desenfreado e das modas de modernidade e falsa praticidade. Os produtos são fabricados em função das modas da publicidade e não segundo razões científicas. É a economia do desperdício em funcionamento; cada vez mais florescente.


Ontem um colega comprou uma empada na Padaria Portuguesa. Vinha embrulhada em papel colado com farta fita-cola, metida dentro de um saco de papel, enfiado dentro de um saco de plástico. E estamos nisto. Posso imaginar: o funcionário que embrulhou assim a empada e os muitos que acham normal consumir produtos embalados desta forma são capazes de participar ou aplaudir manifestações contra as alterações climáticas. Absolutas tolices.

23/01/2025

Moralidades à Quinta-Feira

A falta de carácter, numa família, empresa, plataforma online ou num país, é uma das razões para não se construírem relações saudáveis nem nações respeitáveis. 


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Um comportamento típico de quem é desonesto: desdenhar ou desprezar o argumento pertinente de alguém que desconsidera por despeito ou oportunismo e alimentar o ego dos que quase nada de útil trazem ao mundo. À primeira oportunidade usar esse argumento em benefício próprio vangloriando-se da inteligência. Se apanhado fazer crer que se usa o raciocínio em prol de objectivo maior abafando a origem.


A falta de carácter, numa família, empresa, plataforma online ou no país, é uma das razões para não se construírem relações saudáveis nem nações respeitáveis. A dignidade não é compatível com a confusão entre notáveis e larápios ou oportunistas.


Pelo contrário e pela positiva talvez não fosse má ideia ser parcimonioso na exibição de sapiência, criatividade e inteligência própria ou alheia e reflectir mais em cada argumento pesando as consequências. Nem tudo o que sabemos é útil para o espadachim argumentativo e as empolgações do espírito. Ser prudente na exibição de sapiência evita o infantilismo sendo uma demonstração de sensibilidade e bom senso.


Bom dia.

22/01/2025

Nespereira

O mundo lá fora, em especial o das notícias e da opinião, no ímpeto de demonstrar argumento - sapiência e credibilidade -, continua a fazer o jogo do lixo dando crédito aos Trumps e Musks desta vida. [...] A única via para a necessária reciclagem deste lodo que passou a governar os E.U.A. e a desestabilizar o mundo é desacreditá-lo junto do seu eleitorado e não de quem já está ciente do logro que representa. Com a força que for precisa. Ridicularizá-lo pelas razões que levaram os seus eleitores a escolhê-lo serve apenas para regozijo dos críticos; não é inteligente nem eficaz.


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No Sábado prevendo dias ventosos trouxe a Nespereira para o aconchego do quarto. E não é que a espevitada animou e desatou a desenvolver as folhas a despontar. Parece feliz.


Pensando bem: será que preciso de uma casa com pequeno jardim? Não me bastaria um apartamento com varanda interior a fazer as vezes dos chiques jardins de Inverno?


O mundo lá fora, em especial o das notícias e da opinião, no ímpeto de demonstrar argumento - sapiência e credibilidade -, continua a fazer o jogo do lixo dando crédito aos Trumps e Musks desta vida. É bem sabido que não podemos contar com a intelectualidade e a opinião oportunista - sempre do lado da força e do vil metal. 


Vão tentar fazer-nos acreditar na normalização do absurdo num quadro democrático. Vão tentar convencer-nos que Putin está assustadíssimo com tão forte presidência norte-americana. Vão tentar pôr-nos entre a espada e a parede, como se tivéssemos de escolher entre um labrego insano eleito democraticamente e um facínora ditador. Quando devemos rejeitar ambos.


A única via para a necessária reciclagem deste lodo que passou a governar os E.U.A. e a desestabilizar o mundo é desacreditá-lo junto do seu eleitorado e não de quem já está ciente do logro que representa. Com a força que for precisa. Ridicularizá-lo pelas razões que levaram os seus eleitores a escolhê-lo serve apenas para regozijo dos críticos; não é inteligente nem eficaz. Se estes vermes não brincam em serviço, não podemos ser ingénuos e continuar a estender-lhes a passadeira vermelha.

21/01/2025

Burlas e afins

Esta manhã precisei solicitar online uma certidão permanente de registo predial ao Instituto dos Registos e do Notariado.


Verifiquei que existe um site fraudulento (o www.registos.com) no qual pedem o dobro do preço pela certidão e segundo reclamações que li através de pesquisa do Google não prestam o serviço após pagamento com o subterfúgio de não possuírem os elementos necessários.


A minha pergunta é: como é que esta página está acessível? Porque não é encerrada por quem tem competência para tal? Estarei enganada e a dita página estará autorizada a funcionar?


 


Adenda. Na página do Registo Predial Online obtive a certidão em hora e meia.

19/01/2025

Afonso Cruz

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Diário de 19 de Janeiro de 2025

Para cada absurdo haverá sempre uma resma de especialistas e intelectuais prontos a ecoar e ampliar o seu discurso e acções dando-lhes credibilidade — vejam como a comunicação social, as redes sociais e demais plataformas online se dedicam a escalpelizar a História da Gronelândia, da Dinamarca e do Panamá. Se Trump disser que vai comprar uma fábrica de cuecas, vamos poder sempre contar com os especialistas e intelectuais da televisão e dos blogs a dissertar e dar lições sobre o processo de fiação do algodão e o corte e costura das ditas. Haverá sempre gente a dar eco e o mundo das audiências e da publicidade rolará imparável em prejuízo da Democracia. É a vitória da lábia.


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Uma imensa preguiça apoderou-se de mim esta noite. Depois de dias acelerados. Há pouco estava ali na sala — agora estou no +1 — deitada no sofá debaixo da manta a ouvir a Smooth fm e a devanear com possíveis mas pouco prováveis e impossíveis. A maioria acha uma perda de tempo sonhar com impossíveis — não crêem na arte dos idiotas felizes. Acredito, continuo a imaginar e satisfazer-me com o plano dos sonhos, ciente da impossibilidade de se tornarem realidade. Para os homens e mulheres de acção, e para aqueles que não o são mas tentam seguir-lhes as pisadas em vão, só interessa o exequível e o plano viável para a concretização. Não comungo da mesma visão pragmática, apesar de ter concretizado algumas aspirações. Planeio bastante mais do que concretizo, e em abono da verdade não seria possível tal proeza tantas são as idealizações. O que não é de todo habitual é admitir isto. Em regra, quem fala deste tema dá conselhos, evitando confessar fragilidades. Não disse nada até agora que não tenha feito várias vezes no blog Comezinhas.


A preguiça é mesmo de escrever e não o que me vem à cabeça, como o parágrafo acima e como boa parte do que virá neste post, mas da menção às histórias lidas aqui no Medium. Obrigo-me propositadamente a ler algumas histórias e todas as semanas falar delas ainda que muito sucintamente para me forçar a ler em inglês. Esta semana puxei para a ligação Lists apenas três textos entre os lidos. Vamos a isto para depois voltar ao diário comezinho.


A primeira história lida é acerca da Paisagem de Inverno com Patinadores no Gelo, de Hendrick Avercamp. Pintado em 1608 num inverno muito rigoroso devido ao frio na Europa, que provocou centenas de mortes em Paris segundo nos conta o autor com base em relatos da época, congelou o Reno até Colónia, o Tamisa em Londres e o golfo de Zuiderzee na Holanda. O autor mostra-nos os pormenores chamando a atenção para a dicotomia luz e sombra da obra. Se à primeira vista nos parece um cenário sociável e festivo com um rio congelado repleto de patinadores que jogam, bebem e conversam alegremente, um olhar mais atento nota apontamentos como o homem que cai com cara no chão, o velho andrajoso que pede esmola e o grupo de aristocratas indiferentes, o barco de pesca encalhado no gelo que não pode sair para a faina, a criança faminta e a armadilha para caçar pássaros. A cena pejada de pessoas é inspirada nas obras de Pieter Bruegel, o Velho, já mencionado diversas vezes no blog Comezinhas.


O segundo post é de curiosidades. Relata alguns eventos da História tidos por verdadeiros que não passam de ficções. Entre eles a de que o imperador Nero tocava lira enquanto Roma ardia, uma liberdade artística de Shakespeare. Também a frase atribuída a Maria Antonieta “se não há pão que comam brioches” deve-se aos excessos revolucionários, já aparecia numa história escrita quando a rainha era apenas uma criança. E a catadupa de suicídios no crash da Bolsa de Wall Street em 1929 não se verificou, a taxa de suicídio em Outubro desse ano foi menor do que as dos meses anteriores. O autor não conta, mas a lenda do “São rosas, Senhor” da nossa Rainha Santa Isabel é apenas uma das versões contadas acerca das monarcas das coroas europeias.


Por fim li uma história virulenta acerca de Trump e os MAGA (Make America Great Again). Retive uma ideia central de que é impossível discordar. O homem que toma posse amanhã como Presidente dos E.U.A, pela segunda vez, segue desaustinado de absurdo em absurdo porque isso rende milhões em audiência e publicidade (e votos). A receita de tantos na política e no mundo online. O curioso — e agora digo eu, não o autor do post -, é que para cada absurdo haverá sempre uma resma de especialistas e intelectuais prontos a ecoar e ampliar o seu discurso e acções dando-lhes credibilidade — vejam como a comunicação social, as redes sociais e demais plataformas online se dedicam a escalpelizar a História da Gronelândia, da Dinamarca e do Panamá. Se Trump disser que vai comprar uma fábrica de cuecas vamos poder sempre contar com os especialistas e intelectuais da televisão e dos blogs a dissertar e dar lições sobre o processo de fiação do algodão e o corte e costura das ditas. Haverá sempre gente a dar eco e o mundo das audiências e da publicidade rolará imparável em prejuízo da Democracia. É a vitória da lábia.


E agora o comezinho. A registar os três eventos da semana no dia-a-dia. Na quinta-feira a minha mãe fez 81 anos, almoçamos os quatro filhos com a aniversariante na Fundação Cupertino de Miranda, onde ao longo dos anos fomos tendo alguns tranquilos encontros. Reparámos que noventa por cento dos clientes da casa aparentavam ter mais de setenta anos. Ontem de manhã cá esteve o M. para a lição de piano. Fico no +1 a ouvir à distância o entendimento entre o paciente Nuno e o irrequieto M. O Nuno lá vai levando a água ao moinho. Ao fim da manhã fomos visitar a tal casa que estivemos para conhecer no dia 3 de Dezembro.


Ao longo dos últimos anos falei de cerca de uma dúzia de casas, tendo visitado talvez metade delas. O bom senso ordenaria que não mencionasse estas visitas e entusiasmos. Ditaria que me resguardasse. Contudo duas razões levam-me a não ligar à sensatez. Por um lado, faço o que me apetece, por outro dada a impossibilidade de comprar uma casa de cada vez que falo dela, ao descrever a empolgação partilho a alegria que vai na alma, ainda que ciente da pouco provável concretização. Voltamos à ideia do truque dos idiotas felizes que falei acima — e no blog Comezinhas em Março de 2020 no post Dissonância e em Abril de 2021 no post Truques.


O certo é que fiquei encantada com a moradia, apesar dos quartos muito acanhados. Gostei sobretudo do pequenino jardim. Tem o deck de 10m2 e o jardinzinho de 20m2 onde vivem várias japoneiras, um limoeiro, uma borracheira, um filodendro e uma outra árvore de folha miúda que não identifiquei. Como imaginam é uma concentração de jovens árvores em pouco espaço junto aos muros. Nem sei bem onde conseguiria encaixar mais uma japoneira, a oliveira e a nespereira. Tive sorte de visitar a casa em dia de sol. Tudo melhora.


Obrigada por terem lido. Bom Domingo.

18/01/2025

Castigo

Profeta, profeta, profeta... cem vezes.


E não profecta.


Às vezes gostava de saber onde tenho a cabeça.

17/01/2025

Depois veio o coelhinho

O Governo garante que a nova lei dos solos fará baixar em 20% o preço das novas casas nas áreas metropolitanas e capitais de distrito.


"Depois veio o coelhinho... não, não! O coelhinho foi com o pai Natal e o palhaço no comboio ao circo."


É impressionante o que se diz para justificar políticas duvidosas. E como se faz de conta desconhecer a realidade da distribuição dos (tipos de) solos, os factos sobre habitação no país, as leis do mercado e a real evolução da especulação.


Trata-se simplesmente de dar lastro aos negócios da construção e imobiliário. Libertar espaço a preço mais baixo para construção. E estabelecer tectos de valor - em casos que na realidade serão residuais - para criar a percepção de justiça. A economia agradece, os portugueses com baixos rendimentos nem tanto. O fosso da desigualdade aumentará. O ambiente e o urbanismo também dispensariam tanta benevolência.


Mas, o que fazer? Os políticos promotores das medidas estão na mó de cima. Em estado de graça. Todas as mentiras que digam terão cobertura de boa parte da imprensa e da elite fajuta - sempre à espera que pingue. E juntos farão a cabeça da população.


Não liguem. É má vontade. Além de mais não percebo nada do assunto. Escrevi isto sem ler as dezenas de estudos e livros acerca da matéria que os artistas dizem ter lido. É mais uma boca sem fundamento. Isto é tema a ser tratado por consultores aos quais se encomendam estudos da treta bem pagos e para ser gerido por empresas de imagem, marketing e percepções. Tuga ignorante devia estar calada ou a abanar a cauda e ficar à espera de fazer um belo negócio para o ano. Claro que os preços da casas vão baixar dentro em breve. Desculpem qualquer coisinha.


 


Adenda. A coceira que esta frase dá nos sábios: a economia agradece, os portugueses com baixos rendimentos nem tanto. Na lógica de iluminado há aqui uma contradição própria de ignorante. Então, uma economia mais robusta não favorece todos? - professam. Não, não necessariamente. É preciso mais qualquer coisinha, mas a isso os iluminados chamam intervencionismo e perigosa deriva esquerdista - coisa própria de radicais aos olhos destes moderados profetas da lei da selva. E estamos nisto.

Nós e os outros

Viveu pelo mundo fora quase toda a vida. Residiu em África, nas Américas, em diferentes países da Europa. O Porto é o seu refúgio. Desde há anos quando nos juntávamos sabia que o compreendia bem ao contar-me: de cada vez que gente de fora faz perguntas sobre os melhores lugares para viver em Portugal sugiro Lisboa (onde também já viveu). Presumo que tenha dito sempre que o Porto não tinha interesse nenhum. É a tentativa naïf e quimérica de preservar o nosso cantinho da invasão.


Será possível dizer isto, ou é moralmente incorrecto?


Há duas formas de provincianismo. A de quem fica embasbacado com tudo quanto é “istrangeiro” e a de quem vá viver para Paris e continue a insistir que não há melhor pão do que o da nossa Coelheira de Cima ou que viu primeiro a verdade do mundo por ser português.

15/01/2025

Ponto de situação

Momento de satisfação por ter concluído que o próximo passo no processo de escrita fora de antena reduz-se a desembuchar, reduzir ao essencial e contextualizar com desajuste.


A dificuldade consiste na falta de pachorra para enredos como leitora e autora.

13/01/2025

Porto

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Ao meio dia.


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Ao fim da tarde.

12/01/2025

Diário de 11 de Janeiro de 2025

Além do diário pedi ao ChatGPT que fizesse um soneto com o mesmo enunciado. Aqui está o resultado. […] Há quem diga que a vida levada a enganar os outros é muito mais fácil. Chamem-me ingénua, mas não sou da mesma opinião.


Hoje não me debruço sobre histórias publicadas aqui no Medium acerca de pintura, mas refiro apenas a que nos enumera vantagens de colorir fotografias históricas, pelo ganho de realismo e expressividade, desde a imagem de 1898 da tripulação de pesca nas Ilhas Faroé, até à tradicional ida para a igreja de um grupo de mulheres norueguesas em modernas bicicletas ou a tradição milenar japonesa da tatuagem masculina, passando pelo curandeiro Sioux. Tudo em fotografias de um século a século e meio.


Um dos temas que mais me prendeu a atenção foi o uso da Inteligência Artificial e quase impossibilidade de a detectar na “literatura” e no “jornalismo”. Num post lido a autora demonstra como a maioria dos detectores de IA nos conteúdos publicados não funcionam tomando por humana a escrita gerada artificialmente. Dá exemplos de contos ou poesia gerada artificialmente com grande eficiência. É uma alegria, e não se convençam os experientes profissionais que o olho humano experimentado consegue ver a diferença, porque não é tiro e queda. Fico hesitante no que pensar das escolhas para publicação nas plataformas online, editoras e dos promotores de (novos) talentos da escrita: será que sabem que estão a publicar cópia ou conteúdo gerado por IA e estão em enganar-nos com vista ao lucro ou são mais ingénuos do que querem fazer querer batendo no peito em defesa da sua tarimba profissional? A avaliar pela natureza das antigas técnicas de obter material de inspiração para escrever livros — nunca impediram que toda a historieta forjada de modo medíocre fosse editada e elogiada pelos amigos de circunstância -, posso imaginar que para lá dos novos talentos há muito velho trapaceiro a esfregar as mãos de contente com a nova ajuda no acto de “criação”.


Para terminar as leituras da semana aqui no Medium refiro uma tese de defesa da luta contra as alterações climáticas. A autora, uma professora universitária de esquerda, acredita que o drama foi criado por conspiradores neoliberais insensíveis ao desenvolvimento igualitário e às causas sociais e climáticas. A tese assenta na crítica à promoção de um sistema antidemocrático que impõe desigualdades favorecendo a centralização do poder e liberdade na mão de poucos com base em políticas económicas que ajudam a acumulação de riqueza pelos mais ricos e responsáveis pela emissão de CO2 — os que beneficiam da indústria das energias fósseis.


Há uns dias tinha referido uma história que apontava a Natureza como principal causa do fenómeno desmontando o argumento de um filme norte-americano, esta semana temos os neoliberais como culpados. Não se diga que este diário não é abrangente.


Não vou mencionar a leitura de livros. É como o sushi: enquanto esteve na moda desdenhar de outros alimentos e cultivar o repentino gosto por comida japonesa abstive-me de elogiar, apesar do apreço. Nos últimos anos, quando já era saloio falar em sushi, pude fazê-lo e desfrutar da riqueza nipónica de paladar em sossego, sem abanar o rabo para me destacar entre a multidão. É sabido que ao contrário dos presumidos regozijo-me quando bons hábitos se democratizam, não tenho necessidade de espezinhar para me sentir alguém. Não sou adepta de ondas superficiais anti cliché.


Além de mais, no blog Comezinhas e aqui no Medium não vendo sapiência mas futilidades. Banalidades sem qualquer interesse, passe o pleonasmo. Num momento em que as alterações climáticas, o mau tempo, os incêndios, as manifestações e contramanifestações estão em destaque é exasperante para a maioria ler diários em me interessam temas como as diferenças de paladar e reacção ao longo da vida ao provar canela — desde o forte enjoo ao agrado -, ou do horário biológico a que o corpo decide responder e acordar. Parecem futilidades e narcisismo por me dizerem respeito. Venderia muito melhor se elogiasse ou criticasse outros à conta destes temas. É preciso a capinha de disfarce de empatia ou distância para dar credibilidade aos textos. Testemunhos crus soam mal — há demasiada autenticidade neles. Esmiuçar razões e sentimentos à volta das catástrofes naturais, da política, da actualidade, empolar clivagens de opinião entre defensores das causas sociais, identitárias e climáticas e ultraconservadores ou neoliberais, reagir freneticamente a cada notícia do escaparate diário cativa o coração e as cabeças em larga escala. Ao escalpelizar factos e factinhos e dividir os temas em duas facções venderia muito melhor e daria imagem de pessoa respeitável.


Pois, deixo isso para as vedetas da informação e da opinião. Por aqui só produzo banalidades. O que fazer? Se ao arranjar um assunto de interesse público, mais do que a cibersegurança preferiria qualquer coisa como a importância da manutenção e segurança dos depósitos de água municipais e faria uma ligação estapafúrdia aos olhos da lógica dos tempos modernos: se tenho o cuidado em pagar por débito directo a água e electricidade para não correr o risco de ficar desprevenida por atraso no pagamento, porque não faço o mesmo raciocínio para as comunicações, pagando-as por referência? Talvez seja por escalonar prioridades, de onde retiro as ilações para as políticas públicas em matéria de segurança dos cidadãos. Será que o Estado faz o mesmo?


Adiante. Tal como a história que referi lá acima acerca de IA, vou fazer aqui o teste que já fiz nos últimos meses para a poesia. Mas vou fazê-lo primeiro aplicando aos meus diários comezinhos habituais. Vou pedir ao ChatGPT que crie um diário com enunciado meu, para dar o condimento apreciado pelos promotores de talentos amadores. Peço à máquina que crie um diário de meia página A4 em tom literário sobre os últimos dias com base nisto: esta semana choveu todos os dias. É como se sentisse musgo nos ossos. Foi uma semana rotineira de muito trabalho. Em momento de despedidas tirei os enfeites de Natal no dia 8, quarta-feira. No jantar desse dia comi ensopado de javali. Na quarta levantei na costureira as calças de bombazina azul acinzentado escuro do Nuno, da cor da atmosfera desta época do ano. Foi ela que me chamou na rua quando me viu a caminho de casa. Vinda do supermercado, depois de sair do autocarro que apanhei à saída do local de trabalho. Aqui está o resultado.


DiárioChatGPT



Gerado artificialmente pelo ChatGPT



Além do diário pedi ao ChatGPT que fizesse um soneto com o mesmo enunciado. Aqui está o resultado.




SonetoChatGPT


Gerado artificialmente pelo ChatGPT


 




Quer o diário quer o soneto criados artificialmente estão em português do Brasil, como é apanágio do ChatGPT. Mas seria possível dar uns retoques, aportuguesar e sofisticar, isto é, adaptar até obter um produto mais personalizado e melhor para ludribiar o próximo.


Há quem diga que a vida levada a enganar os outros é muito mais fácil. Chamem-me ingénua, mas não sou da mesma opinião. Poderão ir mais longe e mais rapidamente, todavia os nós que dão ao cérebro e dignidade e o carácter falso das relações que criam não pode dar vida facilitada a ninguém. Ser aldrabão também dá trabalho, quanto mais não seja a convencer quem rodeia da própria competência e talento.


Hoje o M. fez 11 anos. Esteve cá em casa para a lição de piano com o Nuno. Conheceu o Hino da Alegria e lá conseguiu esboçar umas notas e acordes do quarto movimento da 9ª sinfonia de Beethoven. Daqui a uns anos quem sabe, saberá qualquer coisa de música e tocar piano, sem ficar limitado aos samples ou aos geradores de música artificial mais modernos.


Escrito a 11 de Janeiro de 2025.


 


Obrigada por terem lido. Bom Domingo.

11/01/2025

Os meus genes

Resultado do teste genético: 59,9% Ibérico, 18,0% Europeu do Norte e Europeu Ocidental, 13,7% Italiano, 6,1% Balcânico, 2,3% Judeu Asquenaze.


Bom dia. Bom fim-de-semana.

10/01/2025

Diário de 15 de Dezembro de 2024

Todo o bom senso me aconselha que não seja espalha-brasas, ou melhor, não seja bem-disposta demais revelando as minhas alegrias e planos ou transparente demais nos desgostos. Creio que foi o que toda a vida impediu muitos de me levarem a sério. Acredito que só vêem a superfície e não o muito que fica por dizer. Quem sabe um dia seja mais fácil?


 




Pega no jardim dos vizinhos.



Esta semana as minhas leituras aqui no Medium foram diferentes do habitual. Li uma entrada sobre o caso do assassinato do CEO da United Healthcare, Brian Thompson, e o impacto do caso nas redes sociais com a ligeireza que as ditas nos costumam habituar. De qualquer modo, o autor demarcava-se e condenava o regozijo com a morte de Thompson, mas não deixava de alertar para os abusos na procura do lucro e defender que há negócios que não podem estar na esfera privada por questões éticas, dando como exemplo os seguros de saúde, a educação e as prisões. Em suma minha, a ganância superará sempre o moralmente aceite e há domínios que devem estar salvaguardados.


Li outra história sobre a iminência de catástrofe ecológica. A propósito o autor debruçava-se sobre o filme Don’t Look Up, de 2021, de Adam McKay, cuja mensagem será esta (não vi o filme): face às evidências demonstradas pelos cientistas da iminência de catástrofe climática a mesma é escondida pela ganância do poder político. O autor não se deixa ficar por este simplismo, afirmando que mesmo que fosse retirada a tal corrupção política, o problema subsistia já que é a de ordem natural. Isto é, “a ameaça da natureza é a própria natureza”. Fala-nos depois da dificuldade de compreender a natureza fragmentada e incompleta que continua a ser abordada por quem trata das questões climáticas como uma unidade homogénea. Enfim, coisas difíceis de compreender.


A semana passada foi mesmo fora do comum nas leituras, li até uma história com umas pinceladas de química. Nada que não saibamos quase todos, há químicos venenosos que são usados e consumidos em doses mínimas. O autor deu como exemplo o cloreto de cálcio, o sal para descongelar estradas ou até usado em alimentos, o bicarbonato de sódio para tratar da azia, o sulfato de magnésio nas anestesias e fertilizantes, o flúor em pequenas doses na água. Ensina também que independentemente da dose há condições genéticas que proíbem a alguns a ingestão de determinados alimentos como as favas. Os genes têm peso nesta matéria.


Por fim, li uma comovente história de um miúdo que gostava de jogar futebol mas tinha vários handicaps sendo filho de um cego que sempre o acompanhava nos treinos e a partir do banco incentivava. Só quando o pai morreu pôde brilhar em campo por saber que pela primeira vez o pai poderia vê-lo jogar. Desculpem o spoiler, seria muito melhor lerem a história contada pelo autor que a publicou aqui no Medium. Resumida por mim perdeu beleza e emoção.


Como já referi antes as histórias lidas no Medium que menciono nestes diários podem todas ser acompanhadas na ligação ListsEstão lá prontas a ser lidas.


Esta semana extraordinariamente não li vários postais sobre telas e pintores. Acompanhei apenas um que ensina a desenhar e pintar um pássaro. Passei anos da minha meninice a tentar desenhar um pássaro. E não deixa de ser um sinal que aos 51 possa aprender — é provável que agora nem tente, mas é curioso. E não deixa de ser irónico que esta manhã ao abrir a janela da varanda do quarto tenha sido brindada com o enérgico canto e visão de uma pega. Além de me visitarem na janela onde trabalho, também em casa as posso ver. Há momentos em que fico na dúvida se estão zangadas comigo por ter tirado a pega como talismã anual do blog Comezinhas e posto o pisco. Mas vou acreditar que não. Que a sabedoria e têmpera da pega se harmonize com a ternura e alegria do pequeno pisco.


E agora o dia-a-dia. Desde quinta-feira estou com dores de dentes e achei-me capaz de automedicar e resolver a questão, mas é possível que amanhã tenha de voltar ao dentista. Uma chatice, até porque estive lá na segunda-feira passada para ver o andamento dos alinhadores e a dentista não detectou qualquer problema, cárie ou de outro tipo. O facto é que tenho guinadas muito fortes e o Brufen não está a resolver.


Ao contrário do que é habitual vou fazer caixinha do aspecto mais importante da semana. Todo o bom senso me aconselha que não seja espalha-brasas, ou melhor, não seja bem-disposta demais revelando as minhas alegrias e planos ou transparente demais nos desgostos. Creio que foi o que toda a vida impediu muitos de me levarem a sério. Acredito que só vêem a superfície e não o muito que fica por dizer. Quem sabe um dia seja mais fácil? Enfim, teorias como lhes chama a minha mãe. As bruxas fartam-se de recomendar que mantenha o bico calado, mas é certo que sou uma língua-de-pescada. Conto só isto: ontem tivemos cá em casa com terceira pessoa uma importante reunião de duas horas. No fim quando ficámos a sós perguntei ao Nuno se tinha sido muito chata, disse-me sorrindo: muito mesmo. Pois, tem de ser, quando os assuntos são negócios importantes tudo deve ser esclarecido ao pormenor para evitar problemas. Não podemos confiar na sorte.


Ontem foi dia também de tratar de decidir a logística do Natal. Vamos buscar a minha sogra a Lisboa no Domingo anterior e passará connosco uma semana. Será um Natal a três e comigo a trabalhar todos os dias, salvo 25. Do dia 24 ainda não sei se terei de trabalhar de manhã. Mexe com a minha rotina, mas tudo se fará.


Há dois dias dei continuidade ao blog Comezinhas. Vou republicar lá as poucas histórias novas que aqui tenho publicado e vou mantendo os dois espaços no activo. Pelo menos essa é a intenção. Logo se verá o que o futuro ditará. O regresso foi tranquilo como aprecio. Gostei de “rever” algumas pessoas. Admito que tinha saudades.


Obrigada por terem lido. Boa semana.


*


Publicado incialmente na plataforma Medium a 15 de Dezembro de 2024.


E assim acabam as reposições dos posts escritos no Medium entre Outubro e Dezembro. A partir do Natal comecei a publicar em simultâneo. Lá ainda terei material das Comezinhas para recordar, mas a inversa terminou.


Bom fim-de-semana.

09/01/2025

A festa cognitiva e a autoridade de escolha

Devemos voltar a ser donos da nossa massa encefálica e vontade. Temos direito a repouso. Não temos de estar sempre em festa cognitiva para agradar à sociedade competitiva e consumista. A isso chamo autoridade de escolha sobre o que nos é impingido pelos criadores e divulgadores de conteúdos.


Fotografia de Paulo Santos, Funchal Notícias.


Fotografia de Paulo Santos, Funchal Notícias.


Nos últimos anos tenho vindo a chamar a atenção para o enxamear de informação e entretenimento. Vivemos soterrados em “conteúdos” e ao que parece parte substancial dele já é criado por Inteligência Artificial. Mesmo antes de estar disponível a IA, há muito os meios de comunicação social e de difusão de entretenimento nos atolavam de informação e recreações mimetizadas. Os difusores e criadores de factos jornalísticos e de diversão repetem à exaustão as mesmas ideias e esmiúçam todos os dados com uma minúcia doentia no intuito de gerar a aparência de rigor e pertinência.


Constato chegar-se finalmente à conclusão que se consome demasiados conteúdos de má qualidade e que isso origina deterioração mental, porém não vejo o reconhecimento da realidade acima descrita por aqueles que se têm por autores e divulgadores de material fidedigno e mais não fazem senão afogar os cérebros da população em excesso informativo, opinativo e recreativo.


Hoje anulei duas subscrições, uma com alguns anos e outra com meses. A primeira do jornal Observador – já tinha cancelado a subscrição anual, mas continuava a receber as constantes notificações das notícias do dia -, a segunda do meio académico exclusiva de teses acerca de Hannah Arendt. Aderi ao último há três meses e durante este período todos os dias recebi um estudo académico sobre a filósofa. Li os primeiros e parei. Se algum dia vier a ter tempo, seriarei os artigos que me interessam ler, mas não certamente as dezenas que tenho em arquivo. E são só exemplos, sabendo que não há mal nenhum em ler este jornal e muito menos estas publicações académicas havendo tempo e vontade. Todavia se ampliarmos o leque de casos vemos que estamos sempre a ser assediados com propostas informativas, de lazer e cultura. É de loucos. Há quem ache isto perfeitamente normal e até desejável num furor de competição desaustinada de “quem é mais lido”, “quem se mostra mais iluminado”. Em regra, gente que quer vender o que cria, propaga ou anuncia. Mas convinha ter juízo e começar também a dizer não a alguns conteúdos de qualidade. Os nossos cérebros precisam descanso e de autoridade de escolha, não podem ser massacrados pelo ímpeto produtivo ou replicativo da academia, do meio jornalístico ou humorístico, etc.  


Devemos voltar a ser donos da nossa massa encefálica e vontade. Temos direito a repouso. Não temos de estar sempre em festa cognitiva para agradar à sociedade competitiva e consumista. A isso chamo autoridade de escolha sobre o que nos é impingido pelos criadores e divulgadores de conteúdos seja a academia, sejam os jornais, programas humorísticos, editoras, plataformas online, etc. Devemos compreender que isto é um negócio de exploração até ao tutano das nossas melhores qualidades. Quem vende jornais, séries, livros ou posts em plataformas digitais quer rentabilizar e vai convencer-nos de que tem o melhor produto seja ele bom, mau ou péssimo. Para sobrevivermos é preciso mais critério pessoal e independência e menos adesão por mimetismo para cumprir as leis do mercado, da competitividade, do consumismo – do lucro de poucos em prejuízo da alienação de muitos. Mais do que nunca, é preciso juízo crítico. E respeito por nós próprios e pela nossa saúde mental e emocional.


Se era assim antes da IA, procure compreender-se o perigo que vivemos com a utilização da tecnologia a soterrar as populações de produto rentável fabricado em molde de má qualidade, vendido com aparência benigna de informação, entretenimento e cultura. Pelo menos enquanto perdurar esta realidade de indistinção entre original e copiado ou criado artificialmente. 


Escrever isto vai contra todos os lugares-comuns das elites fajutas e replicadores acerca dos benefícios de cidadãos e populações mais informados, mais lidos, mais consumidores de cultura. Não aceitam a realidade e o carácter nocivo destas frases feitas a apelar à compra e fruição desenfreadas de informação, entretenimento, saber e cultura, seja em que suporte for, usando tecnologia recente ou não. Em suma: mais um post impopular. Uma maçada. Sofro tanto.


 


Obrigada por terem lido. Boa quinta-feira.

08/01/2025

O sucesso vazio — paixão deslocada

Consumir os mesmos produtos de entretenimento ou intelectuais e criar uma bolha de imagem de opinião sábia com aparência de despique de ideias que se reduzem afinal ao pensamento único disfarçado de liberdade de expressão diminui drasticamente a nossa capacidade de independência. […] Este caldo discrimina negativamente a autonomia de pensamento e capacidade transformadora e de evolução da sociedade. O potencial com que viemos ao mundo.


 




Imagem do Google



Noto no entorno a onda desenfreada de busca do pretenso sentido da vida. Reparo que a insatisfação de muitos assenta numa suposta falta de viver a vida com paixão. Tomando a paixão como significado último da existência. Não deixa de ser verdade que é saudável ter interesses, investir naquilo de que se gosta. Mas em simultâneo noto que não é uma busca independente e íntima, mas de correspondência aos sinais exteriores para que se seja aceite. Ou então de mero alheamento por puro entretenimento. Vale tudo para fugir da própria solidão. Vale tudo para fazer de conta que se está acompanhado ou é especial.


Apreciar séries televisivas é um gosto como outro qualquer. Vê-las em catadupa e abstrair dos afectos dos que nos rodeiam passa a ser qualquer coisa que roça o vício alienante. Quem fala em séries, fala de futebol, cinema, livros, redes sociais, o que seja. Alhearmo-nos dos próximos e dos outros em geral criando relações superficiais com base em suposta comunhão de interesses por mimetismo pode ser um logro. Consumir os mesmos produtos de entretenimento ou intelectuais e criar uma bolha de imagem de opinião sábia com aparência de despique de ideias que se reduzem afinal ao pensamento único disfarçado de liberdade de expressão diminui drasticamente a nossa capacidade de independência — além de criar lastro para os radicalismos, mas essa é outra história que não vou abordar neste texto. Este caldo discrimina negativamente a autonomia de pensamento e capacidade transformadora e de evolução da sociedade. O potencial com que viemos ao mundo.


Tal como a dedicação desaforida a um desporto radical ou à escrita no intuito de superar marcas ou ter mais audiência. Reparo numa tentativa desesperada de fugir de si próprio para criar uma imagem de superioridade. A competição desenfreada depôs a paz interior do indivíduo. Viver em afogadilho a tentar competir consigo e com os outros: a consumir sempre o mesmo desporto, mais séries iguais, os livros do clã ou que corroborem a mentalidade de gueto, a escrever conselhos para descrever a forma como se teve sucesso depois de tanta competição para esconder a solidão disfarçada nas múltiplas relações e interesses superficiais. O sucesso do vazio.


Tudo quanto é de facto importante para cada um revelando as suas forças e fragilidades é escondido, e não se iludam: não se trata de reservar o essencial para ser vivido com os mais íntimos como advogam os que assim sobrevivem. As relações íntimas são minadas e esgotadas por não sobrar tempo e disponibilidade, gastos nos interesses e relações superficiais de quem julga encontrar aí o significado último da vida. A paixão está deslocada.


E dizer o que acabei de escrever na presente história gera escárnio; é visto com sarcasmo por quem tem entranhado em si sinais exteriores de riqueza, intelectualidade e superficialidade das relações. Nunca entenderão. Estão convencidíssimos da sua razão. Sempre. Não gostam de dúvidas nem distinguem paixão de ilusão.


Obrigada por lerem. Boa quarta-feira.


 


Publicado inicialmente na plataforma Medium no dia 11 de Dezembro de 2024.