Essa influência ajuda a arranjar jobs for the boys and girls, cargos políticos, bons empregos de gestão ou direcção em entidades ou empresas públicas ou privadas de relevo, nas universidades, nas colunas de jornais, fretes nas editoras de livros à la carte, espaços em programas de rádio e televisão, enfim, o mundo sórdido do compadrio que em Portugal sempre foi pródigo.

Em matéria de deambulações mentais não andei muito longe do costume. Apesar de enjoativo dei comigo de novo a pensar na falta de sensibilidade face ao mais correcto e às vidas comuns dos que vêem o mundo como ringue de permanente disputa por um lugar de distinção. Por mero capricho de facção ou menoridade. O ridículo espadachim de argumentos fúteis para denegrir adversários ainda que estejam a defender o mesmíssimo interesse ou valor.
Bem sei que seria conveniente desviar o olhar do que tenho focado nos últimos anos. Bem sei que o mundo não é a preto e branco, nem os maus são só maus e os bons só bons. Ao que chegamos para ter de recapitular o básico. Mas na verdade a atenção está naquilo que é muito mau. Erro meu na insistência, é possível. Bem posso tender a dar crédito por qualquer razão bem pensada e dita, mas o corpo inteiro de miséria de carácter acaba por vir ao de cima. E lá teria de falar nos elogios interesseiros, nas trocas de favor, no favorecimento da estupidez e da aparente ilustração, na argumentária facciosa, na permanente irreflexão e busca incessante de estridência e audiência através da vacuidade ou da desconsideração de quem for mais oportuno denegrir. A procura da vitória argumentativa sempre à custa do desprezo e nunca pela positiva desinteressada, pelo valor do trabalho, da dedicação abnegada, do empenho discreto, da razão tranquila sem oportunismo.
O hábito enraizado de tecer loas a quem tem créditos firmados para usufruir das regalias que tais menções civilizadas conferem. O mimetismo das frases educadas, como se pudesse ganhar educação por osmose. Nota-se o quão deseducados são pela forma como desrespeitam e usam quem tem valor e favorecem os debitadores de inutilidades, falsa ilustração e quem esgravata as relações e circunstâncias em busca de lugares, estatuto e prestígio. Do mais sofisticado(a) ao(à) mais rasteiro(a) aparecem, surgem com elogios interesseiros, mostram-se íntimos de quem interessa para impressionar potenciais promotores, dão ao rabo e em pouco tempo estão na ribalta. Farejam-se nas intimidades, encostam-se e crescem juntos em matilha no assalto ao poder. Não só o poder político, mas o poder de influência no mundo da comunicação social, dos livros, do entretenimento, nas redes sociais, plataformas online ou blogs. Essa influência ajuda a arranjar jobs for the boys and girls, cargos políticos, bons empregos de gestão ou direcção em entidades ou empresas públicas ou privadas de relevo, nas universidades, nas colunas em jornais, fretes nas editoras de livros à la carte, espaços em programas de rádio e televisão, enfim, o mundo sórdido do compadrio que em Portugal sempre foi pródigo.
Um mundo cuja natureza suja podemos não topar à primeira vista, iludidos pela aparente educação e conhecimento desta gente rasca que faz as vezes ilustrada e de que é preciso manter distância. Assim que tomamos consciência do logro é de manter a distância e fazê-lo como exercício diário de comportamentos que representam a antítese da postura desta gente. Afastar-nos dos tiques de educação em que fomos criados quando percebemos que facilmente se confundem com o pretensiosismo destes esgravatadores de privilégio e ribalta. Em pormenores simples como caricaturar a nossa própria ignorância e falta de juízo, ou mencionar uma ida a restaurante num dia festivo. Agora que os pirosos ascendidos já sabem que são mais educadas as reuniões festivas em casa referir o restaurante nivela-nos pela plebe e deixamos livre todo o esplendor da educação do aconchego caseiro para os ascendidos — ficam radiantes e vão ensinar como se o soubessem de sempre enquanto lembram saudosos a leitura da Paris Match. Ou usar vocábulos proibidos pelo clã de gente educada. É só reunir as palavras e expressões proibidas em criança por serem pirosas e lançar uma delas no texto como se atira para longe o osso ao cão domesticado, logo vem um ascendido lesto corrigir entregando o osso. São exercícios como outros quaisquer. Entretém. Eles acabam por perceber e irritar-se, atacando-nos pelas costas e em matilha de modo dissimulado, cobardes que são. Passamos a ser odiados e ainda assim usurpam o nosso valor para seu benefício, é o preço que temos a pagar por nos mantermos verticais.
Estes presumidos veneram e mimetizam snobes sem carácter e têm o seu próprio público indefectível de ambiciosos(as) desprovidos de qualquer talento e frustrados por viverem incompreendidos neste país segundo eles povoado de néscios. Impressionam as meninas que em quatro linhas citam cinco livros de um autor que amam muito e leram no intervalo da ida com as três melhores amigas das unhas de gel ao curso de escrita criativa. Cativam para o seu ringue agressivos homens de meia-idade que nunca se resolveram e dissertam sobre a necessidade de tempo de ócio e o horror das rotinas com que justificam as permanentes ofensas a tudo e todos. E velhos requebrados à nascença cheios de memórias dos imaginários tempos idos em que se lia muito e falava e escrevia bom português. Às vezes temos de dar um chega para lá aos possidónios cheios de certezas ou de sentenças ofensivas. Por uma razão ou outra, e com certeza distraídos já que é patente não fazerem a mais pequena noção do que é educação, tomam-nos por gente civilizada e pensada e tentam interesseiramente ser simpáticos não conseguindo evitar a pretensão. Um único chega para lá costuma ser o suficiente para ficarem a odiar-nos e tomar-nos por gente rude, ignorante e sem juízo. Passamos a alvos a abater.
Mais sofisticados ou mais rasteiros ascendem e passam a contar historinhas fetiche de músicos, actrizes e actores, estadistas e primeiras-damas, reis e rainhas com muita intriga palpitante à moda das séries televisivas. Ou enveredam na geopolítica, no caso dos mais ambiciosos e desfasados da realidade, achando-se habilitados a replicar o que dizem os gurus de cada gueto por citarem um punhado de publicações internacionais. Ou tentam intelectualizar a vacuidade patinando como disco riscado em palavras e conceitos mal compreendidos das passagens dos livros que dizem ter lido sobre dilemas da identidade e autoconhecimento, gastando frases arrevessadas e cheias de presunção acerca de patavina. Futilidade pura. Fazem da História, do conhecimento e da Arte enredo pífio de telenovelas de quinta categoria tomando personalidades históricas, figuras públicas do presente ou a si próprias por artistas de variedades para gáudio das audiências das casas dos segredos de que desdenham, mas com as quais concorrem.
Devia mudar o foco e regressar aos defeitos próprios. Esmiuçar as próprias misérias dá um bom romance, quem sabe até meia-dúzia de contos. Envolvê-las no mundo sórdido acima descrito numa massa bem articulada. E sabê-lo? E fazê-lo com arte? É sempre o mais difícil criar valor. É sempre mais fácil desembuchar a nossa visão crítica crua sem o dom de criar beleza imaculada. Talvez já tenha dado o disparo inicial, todavia encontro-me ajoelhada na linha de partida da pista, ainda a remoer enquanto aperto os atacadores. Padeço de má memória, mas lembro-me de aos quatro ou cinco anos (erro sempre por um, já sabem) a Eca ensinar-me a apertar os atacadores dos sapatos no vão da janela do quarto, junto às bonecas. Senti-me importantíssima por saber fazer um laço nos pés.
Hei-de sentir-me importantíssima por fechar a colectânea de contos que resultar deste desembuchar com ou sem arte e do espanador como pano de fundo. Uma vez mais isolada, só comigo própria, sem as trocas de favor próprias de quem precisa impingir a falta de talento nem os fretes de quem aceita vergar a espinha. Valho por mim e não pelas boas relações.
É o que se chama alardear trabalho antes de executado e ser poupada, reciclar planos e cosê-los num só propósito. Mas na realidade parecendo que não o trabalho vai-se fazendo por ele, como neste preciso momento. Os contos irão para uma espiral de argolas que comprarei na loja de cópias depois de rever o texto integral meia-dúzia de vezes. Serão lidos nesse formato pelas mais do que suficientes três ou quatro pessoas e de resto: ficará disponível e livre no blog ou nalguma plataforma online. Onde os contos serão lidos por uma mais do que bastante vintena de pessoas.
Li há dias: não escrevo por dois centavos, sou escritor. Ridículo como se levam tão a sério e se têm em tão boa conta. Gente que se acha importante e tenta convencer os outros do seu valor impingindo vulgaridade. E convencem. Essa é que é essa. O logro vende melhor do que o merecimento. O trabalho de valor serve sim para ser pilhado por vigaristas. É assim o mundo real.
Obrigada por terem lido. Bom fim-de-semana.