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19/01/2025

Diário de 19 de Janeiro de 2025

Para cada absurdo haverá sempre uma resma de especialistas e intelectuais prontos a ecoar e ampliar o seu discurso e acções dando-lhes credibilidade — vejam como a comunicação social, as redes sociais e demais plataformas online se dedicam a escalpelizar a História da Gronelândia, da Dinamarca e do Panamá. Se Trump disser que vai comprar uma fábrica de cuecas, vamos poder sempre contar com os especialistas e intelectuais da televisão e dos blogs a dissertar e dar lições sobre o processo de fiação do algodão e o corte e costura das ditas. Haverá sempre gente a dar eco e o mundo das audiências e da publicidade rolará imparável em prejuízo da Democracia. É a vitória da lábia.


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Uma imensa preguiça apoderou-se de mim esta noite. Depois de dias acelerados. Há pouco estava ali na sala — agora estou no +1 — deitada no sofá debaixo da manta a ouvir a Smooth fm e a devanear com possíveis mas pouco prováveis e impossíveis. A maioria acha uma perda de tempo sonhar com impossíveis — não crêem na arte dos idiotas felizes. Acredito, continuo a imaginar e satisfazer-me com o plano dos sonhos, ciente da impossibilidade de se tornarem realidade. Para os homens e mulheres de acção, e para aqueles que não o são mas tentam seguir-lhes as pisadas em vão, só interessa o exequível e o plano viável para a concretização. Não comungo da mesma visão pragmática, apesar de ter concretizado algumas aspirações. Planeio bastante mais do que concretizo, e em abono da verdade não seria possível tal proeza tantas são as idealizações. O que não é de todo habitual é admitir isto. Em regra, quem fala deste tema dá conselhos, evitando confessar fragilidades. Não disse nada até agora que não tenha feito várias vezes no blog Comezinhas.


A preguiça é mesmo de escrever e não o que me vem à cabeça, como o parágrafo acima e como boa parte do que virá neste post, mas da menção às histórias lidas aqui no Medium. Obrigo-me propositadamente a ler algumas histórias e todas as semanas falar delas ainda que muito sucintamente para me forçar a ler em inglês. Esta semana puxei para a ligação Lists apenas três textos entre os lidos. Vamos a isto para depois voltar ao diário comezinho.


A primeira história lida é acerca da Paisagem de Inverno com Patinadores no Gelo, de Hendrick Avercamp. Pintado em 1608 num inverno muito rigoroso devido ao frio na Europa, que provocou centenas de mortes em Paris segundo nos conta o autor com base em relatos da época, congelou o Reno até Colónia, o Tamisa em Londres e o golfo de Zuiderzee na Holanda. O autor mostra-nos os pormenores chamando a atenção para a dicotomia luz e sombra da obra. Se à primeira vista nos parece um cenário sociável e festivo com um rio congelado repleto de patinadores que jogam, bebem e conversam alegremente, um olhar mais atento nota apontamentos como o homem que cai com cara no chão, o velho andrajoso que pede esmola e o grupo de aristocratas indiferentes, o barco de pesca encalhado no gelo que não pode sair para a faina, a criança faminta e a armadilha para caçar pássaros. A cena pejada de pessoas é inspirada nas obras de Pieter Bruegel, o Velho, já mencionado diversas vezes no blog Comezinhas.


O segundo post é de curiosidades. Relata alguns eventos da História tidos por verdadeiros que não passam de ficções. Entre eles a de que o imperador Nero tocava lira enquanto Roma ardia, uma liberdade artística de Shakespeare. Também a frase atribuída a Maria Antonieta “se não há pão que comam brioches” deve-se aos excessos revolucionários, já aparecia numa história escrita quando a rainha era apenas uma criança. E a catadupa de suicídios no crash da Bolsa de Wall Street em 1929 não se verificou, a taxa de suicídio em Outubro desse ano foi menor do que as dos meses anteriores. O autor não conta, mas a lenda do “São rosas, Senhor” da nossa Rainha Santa Isabel é apenas uma das versões contadas acerca das monarcas das coroas europeias.


Por fim li uma história virulenta acerca de Trump e os MAGA (Make America Great Again). Retive uma ideia central de que é impossível discordar. O homem que toma posse amanhã como Presidente dos E.U.A, pela segunda vez, segue desaustinado de absurdo em absurdo porque isso rende milhões em audiência e publicidade (e votos). A receita de tantos na política e no mundo online. O curioso — e agora digo eu, não o autor do post -, é que para cada absurdo haverá sempre uma resma de especialistas e intelectuais prontos a ecoar e ampliar o seu discurso e acções dando-lhes credibilidade — vejam como a comunicação social, as redes sociais e demais plataformas online se dedicam a escalpelizar a História da Gronelândia, da Dinamarca e do Panamá. Se Trump disser que vai comprar uma fábrica de cuecas vamos poder sempre contar com os especialistas e intelectuais da televisão e dos blogs a dissertar e dar lições sobre o processo de fiação do algodão e o corte e costura das ditas. Haverá sempre gente a dar eco e o mundo das audiências e da publicidade rolará imparável em prejuízo da Democracia. É a vitória da lábia.


E agora o comezinho. A registar os três eventos da semana no dia-a-dia. Na quinta-feira a minha mãe fez 81 anos, almoçamos os quatro filhos com a aniversariante na Fundação Cupertino de Miranda, onde ao longo dos anos fomos tendo alguns tranquilos encontros. Reparámos que noventa por cento dos clientes da casa aparentavam ter mais de setenta anos. Ontem de manhã cá esteve o M. para a lição de piano. Fico no +1 a ouvir à distância o entendimento entre o paciente Nuno e o irrequieto M. O Nuno lá vai levando a água ao moinho. Ao fim da manhã fomos visitar a tal casa que estivemos para conhecer no dia 3 de Dezembro.


Ao longo dos últimos anos falei de cerca de uma dúzia de casas, tendo visitado talvez metade delas. O bom senso ordenaria que não mencionasse estas visitas e entusiasmos. Ditaria que me resguardasse. Contudo duas razões levam-me a não ligar à sensatez. Por um lado, faço o que me apetece, por outro dada a impossibilidade de comprar uma casa de cada vez que falo dela, ao descrever a empolgação partilho a alegria que vai na alma, ainda que ciente da pouco provável concretização. Voltamos à ideia do truque dos idiotas felizes que falei acima — e no blog Comezinhas em Março de 2020 no post Dissonância e em Abril de 2021 no post Truques.


O certo é que fiquei encantada com a moradia, apesar dos quartos muito acanhados. Gostei sobretudo do pequenino jardim. Tem o deck de 10m2 e o jardinzinho de 20m2 onde vivem várias japoneiras, um limoeiro, uma borracheira, um filodendro e uma outra árvore de folha miúda que não identifiquei. Como imaginam é uma concentração de jovens árvores em pouco espaço junto aos muros. Nem sei bem onde conseguiria encaixar mais uma japoneira, a oliveira e a nespereira. Tive sorte de visitar a casa em dia de sol. Tudo melhora.


Obrigada por terem lido. Bom Domingo.