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05/01/2025

Diário 5 de Janeiro de 2025




Banho2



Foz do Douro, Porto, 1 de Janeiro 2025



Começo o diário — não preciso voltar a informar que é um semanário — deste fim-de-semana com as leituras aqui no Medium. A primeira história, um elogio à ambivalência tida como um estado de graça. Escuso-me às referências contidas no texto — já sabem, se quiserem ler a história está na Lists. Interessa-me mais o pensamento do que os nomes. A ideia é a recusa da equiparação de indecisão ou ambivalência a fraqueza de carácter. Vistos tradicionalmente como um traço de personalidade que levaria a areias movediças destrutivas por contraste da elogiada coragem das convicções de pessoas moralmente correctas capazes de acções decisivas que conduzam o mundo a bom porto. Para a autora e a pensadora que cita a ambivalência pode ser criativa e benigna, ao fugir da tentação de definir, rotular e julgar mas, ao invés, estar atenta e aberta como um caleidoscópio mutante.


A propósito de Ambivalência podem ler o meu post do blog Comezinhas de dia 18 de Julho de 2022: Dois lados — Comezinhas - republicarei aqui mais tarde.


Li também uma entrada preocupante com a informação de que no norte da Nigéria os grupos terroristas jihadistas Boko Haram e ISWAP usam a rede social TikTok para divulgar propaganda, apelar à violência e recrutar seguidores, através da desinformação, desacreditação das autoridades locais e promessas de vantagens económicas. Fazem-no usando o algoritmo daquela rede social e explorando as fragilidades da IA, uma vez que a moderação não reconhece os dialectos usados pela propaganda, o que impede a rápida e eficaz retirada dos vídeos de circulação.


Em matéria de pintura dois postais lidos aqui no Medium a revelar. O primeiro acerca de Joanna Hiffernan, A Bela Irlandesa, da tela de 1866 de Gustave Courbet. Conta o autor do post que a ruiva foi modelo e musa inspiradora tanto deste pintor quanto de James Whistler. O segundo sobre o quadro São Jerónimo a Escrever, de Caravaggio, um velho magro e despojado de confortos concentrado sobre uma mesa onde repousa um crânio, simbolizando a morte, e a Bíblia - Velho Testamento (Hebreu) e Novo Testamento (Grego) — que está a traduzir para Latim de modo a torná-la conhecida dos seus contemporâneos. O autor explica o simbolismo como o propósito divino da vida efémera: a morte não deve ser temida, mas compreendida como parte de um plano de fé.


E só esta última leitura diria tanto do papel discreto de alguns no mundo. Dos que se dedicam a tornar inteligível aos contemporâneos a importância do passado e o sentido ou valor da vida, incluindo o futuro. Alguns — possivelmente os mais eficazes — fazem-no nas formas menos evidentes, sem recurso aos tradicionais elencos, catálogos e referências. Fixando-se nas ideias e não apenas no conhecido e nas oportunidades de aparente sucesso.


Cá por casa o frio tem feito com que recolhamos mais cedo ao quarto, o que contribui para a melhoria da boa-disposição. Ontem quando demos por nós ríamos às gargalhadas à moda antiga com a atitude do Ritz muito enfunado connosco por estarmos a cantar alto e em dueto o Hino da Alegria, na versão de Ana Faria — o nosso reportório é de uma maturidade a toda a prova. O gato, aos pés da cama onde tentava dormir, levantou-se, olhou para nós com desprezo snob e saiu do quarto indo procurar na sala sossego para dormir.


Pouco depois ligámos a televisão, mas adormeci assim que o Nuno começou a ouvir o Governo Sombra — o TV Rural da actualidade, com o mesmo grau de frescura. Acordei assim que acabou para continuar a gozar a noite. Pior do que esta enfadonha tentativa ou versão engraçadinha-pseudo-sofisticada da Quadratura do Círculo ou do Eixo do Mal só mesmo os comentadores chamados para os jornais televisivos — vêm do mundo académico, do meio jornalístico, dos livros para debitar as mesmas vacuidades de uns programas para outros.


Nos últimos tempos descobriram o sucesso do Oriente e a mediocridade das elites ocidentais, da qual todos se querem demarcar. Referem-se às elites fajutas que já tresandam a mofo no blog Comezinhas tantas foram as referências às ditas no tempo em que teria alguma utilidade chamar a atenção para o logro. Nessa altura não se lembraram da dita, apesar de ser pura e simplesmente a fina flor deste país à beira-mar plantado de que fazem parte ou aspiram. A elite fajuta, que dizem cansar as populações coitadinhas agora viradas para os populistas, é precisamente a que define o objectivo de vida destes comentadores da comunicação social, das redes sociais e dos blogs.


Não são elites que contrastem com a populaça de que almejam demarcar-se, antes pelo contrário, são impreparadíssimas apesar da aparência de muita sabedoria e erudição e são elas próprias que produzem o populismo e a adesão às ondas das modas de pensamento.


A SIC descobriu as empresas de sucesso unicórnio, agora que a emigração profissional na área tecnológica para os EUA vende como pãezinhos quentes em modo propaganda de destinos de sucesso fora de portas. Como sempre as elites fajutas portuguesas cavalgam a onda quando ela já está a desfazer-se, sempre anunciando a descoberta da pólvora. De resto entretém-se com a politiquice rasteira nacional. Um dos casos de estudo é a figura de Carlos Moedas, Presidente da Câmara de Lisboa. Tem sempre duas facções de excitados a defender ou atacar. Para uma certa direita ridícula qualquer asneira ou idiotice que faça ou diga é louvável, a esquerda imediatista está sempre à espera de um deslize do homem para lhe saltar em cima em defesa dos mais nobres valores humanistas.


Mas que interessa tudo isto? Se a senha para aceder ao mundo esplendoroso do comentariado com visibilidade está nas trocas de favor entre oportunistas. Cada referência a um suposto amigo ou amiga neste tipo de gente representa uma mão estendida a pedir um favor ou o pagamento de outro favor. E se contabilizarmos cada amigo referido veremos que são às dezenas senão às centenas. Compreendemos logo o carácter genuíno e desinteressado de tais afinidades e quão acertado é mantermo-nos afastados de tal ninho de víboras. Mas não interessa nada. Alguns deles ao lerem isto aproveitarão sem o admitir o que acharem útil em tempo oportuno, todavia sempre com azia e ressabiamento pela crueza da descrição que faço, pelo que farão de conta que foi noutras paragens que leram o aqui escrito aproveitando para pagar mais uns favores aos contactos oportunistas, nunca reconhecendo esta dádiva — oh supremo convencimento desta fulana que não presta vassalagem às nossas queridas matilhas de trocas de favor, perdão, amigos do peito, pensam cheios de si.


O ano abriu na semana que passou e o meu registo aqui no Medium continua muito parecido com o dos anos anteriores do blog Comezinhas — nada popular. Passemos para o dia-a-dia.


No primeiro do ano acordámos cedo e ao fim da manhã fomos de Bolt até à Foz, com paragem na minha mãe. Por lá andámos os três hora e meia a pé na converseta boa. Gosto de ver o mar em dias especiais, e também nos corriqueiros. A última casa das pancas tem uma linha de autocarros que vai até à Foz, o que é um ponto a favor. Hoje fomos até lá — Covelo -, voltámos a pé pela zona de Antero de Quental e Constituição que sempre é mais desafogada do que os passeios de Vale Formoso e Campo Lindo por onde tínhamos vindo da última vez. Brinco com o Nuno e digo que essa casa é como a nossa zona actual: como os apartamentos antigos tem uma entrada social e outra de serviço. Hoje estava mais bem-disposta e a encarar melhor a possibilidade daquela moradia cuja fotografia do pequeno jardim publiquei aqui no dia 1 de Dezembro.


No dia 2 descobri na consulta com o cirurgião que se o ano passado por esta altura estava quase com anemia, este ano estou ainda pior. Asneiras: não como suficiente carne, peixe e ovos e não tomo de forma continuada o suplemento de ferro. Está explicado o cansaço extremo que às vezes me ataca. Ainda assim, sei que parece vaidade, mas dei por mim a pensar: se com anemia sou capaz de trabalhar para duas empresas, tratar da vida doméstica, manter dois poisos de escrita, levar uma vida familiar tranquila e seguir um quotidiano financeiro remediado, o que não seria capaz de fazer com saúde e dinheiro? Enfim, se tivesse uma vida afortunada.


Havia pensado em relatar os dois sonhos que tive nos últimos dias do ano por serem impactantes e para dar continuidade ao hábito do blog Comezinhas de relatar uma vez por outra os sonhos, mas creio ter esquecido. Vou fazer um esforço para lembrar. Recordo apenas isto: a preocupação com os meus irmãos e o Nuno com frio por estarem pouco agasalhados enquanto dormiam e de uma empresa que se situava numa casa comercial nas imediações de Valinhas. Inquietava-me a guerra e um ataque da Coreia - o sonho não distinguia Norte e Sul. Já o sonho de hoje lembro bem. Foi bom, porém atento o conteúdo abstenho-me de relatar.


Por falar nisso, acho imensa piada à constante acusação de puritanismo feita pelos leitores ávidos de sacanices e malícia. E acho graça por dar conta que quanto mais quadrados se revelam na vida real, mais necessidade têm de acusar os outros de puritanismo e de procurar pimenta na ficção. É tiro e queda: quanto mais retrógrados e limitados de experiência na vida real e fascinados pela aparência de liberdade — sempre a vislumbram noutros(as) indivíduos tão quadrados quanto eles porém desbocados -, mais malícia buscam no cinema, literatura, música etc. É a lei das compensações.


Hoje foi dia de cortar cabelo. Fomos os dois, em horas diferentes. Conseguimos vaga — agora só com marcação, os barbeiros e cabeleireiros são todos chiquérrimos e só atendem com marcação. É bom arrancar o ano com menos desalinho capilar.


 


Obrigada por terem lido. Bom Domingo.