
Noto no entorno a onda desenfreada de busca do pretenso sentido da vida. Reparo que a insatisfação de muitos assenta numa suposta falta de viver a vida com paixão. Tomando a paixão como significado último da existência. Não deixa de ser verdade que é saudável ter interesses, investir naquilo de que se gosta. Mas em simultâneo noto que não é uma busca independente e íntima, mas de correspondência aos sinais exteriores para que se seja aceite. Ou então de mero alheamento por puro entretenimento. Vale tudo para fugir da própria solidão. Vale tudo para fazer de conta que se está acompanhado ou é especial.
Apreciar séries televisivas é um gosto como outro qualquer. Vê-las em catadupa e abstrair dos afectos dos que nos rodeiam passa a ser qualquer coisa que roça o vício alienante. Quem fala em séries, fala de futebol, cinema, livros, redes sociais, o que seja. Alhearmo-nos dos próximos e dos outros em geral criando relações superficiais com base em suposta comunhão de interesses por mimetismo pode ser um logro. Consumir os mesmos produtos de entretenimento ou intelectuais e criar uma bolha de imagem de opinião sábia com aparência de despique de ideias que se reduzem afinal ao pensamento único disfarçado de liberdade de expressão diminui drasticamente a nossa capacidade de independência — além de criar lastro para os radicalismos, mas essa é outra história que não vou abordar neste texto. Este caldo discrimina negativamente a autonomia de pensamento e capacidade transformadora e de evolução da sociedade. O potencial com que viemos ao mundo.
Tal como a dedicação desaforida a um desporto radical ou à escrita no intuito de superar marcas ou ter mais audiência. Reparo numa tentativa desesperada de fugir de si próprio para criar uma imagem de superioridade. A competição desenfreada depôs a paz interior do indivíduo. Viver em afogadilho a tentar competir consigo e com os outros: a consumir sempre o mesmo desporto, mais séries iguais, os livros do clã ou que corroborem a mentalidade de gueto, a escrever conselhos para descrever a forma como se teve sucesso depois de tanta competição para esconder a solidão disfarçada nas múltiplas relações e interesses superficiais. O sucesso do vazio.
Tudo quanto é de facto importante para cada um revelando as suas forças e fragilidades é escondido, e não se iludam: não se trata de reservar o essencial para ser vivido com os mais íntimos como advogam os que assim sobrevivem. As relações íntimas são minadas e esgotadas por não sobrar tempo e disponibilidade, gastos nos interesses e relações superficiais de quem julga encontrar aí o significado último da vida. A paixão está deslocada.
E dizer o que acabei de escrever na presente história gera escárnio; é visto com sarcasmo por quem tem entranhado em si sinais exteriores de riqueza, intelectualidade e superficialidade das relações. Nunca entenderão. Estão convencidíssimos da sua razão. Sempre. Não gostam de dúvidas nem distinguem paixão de ilusão.
Obrigada por lerem. Boa quarta-feira.
Publicado inicialmente na plataforma Medium no dia 11 de Dezembro de 2024.