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31/08/2024

Portinho

Portinho, sempre. Mais ainda em dia de derrota.


Levantar a cabeça. E o próximo será nosso.

Dois lados

Li há semanas um pequeno apontamento poético de imagem bem conseguida. Não conheço o autor/autora e para o caso é indiferente. Fiquei, como já anunciei, com vontade de me debruçar sobre essas palavras. Ou melhor, sobre o que me inspiraram, apesar de certa de estar longe da intenção de quem as escreveu. Faço um preâmbulo, antes mesmo de me atirar ao que quero dizer ainda por estruturar. Apesar de tentar seguir rumo próprio, afastando-me intencionalmente dos temas do momento e tópicos escaparate, por achar que esses são dos mais empobrecedores tiques impostos pela necessidade de aprovação e popularidade (também sofro desses defeitos, mas de forma diferente), é muito comum aqui nas Comezinhas escrever espicaçada por leituras pontuais sem as nomear. O que pode parecer cobardia e falta de objectividade (admito que possa enfermar desses defeitos) corresponderá antes à vontade de ir à ideia e não à intriga. O facto de nomearmos os autores que lemos, de citarmos os textos concretos, de elencarmos datas, acontecimentos, nomes se nos traz mais informação, a possibilidade de discussão e confrontação e a tão almejada imagem de conhecedor, carrega também uma imensidão de preconceito e de tralha desinteressante. Desossar o pensamento e sentimento expresso por outros dá-nos uma liberdade imensa e aquilo que a olhos alheios parecerá uma abstracção inútil ou até um boato infundado, passe a redundância, é tantas vezes a mais concreta e objectiva observação, simplesmente despida de sujeito e de factos passíveis de identificação. Feito o preliminar a ver se me lembro do que queria dizer na sexta-feira.


Há muitos momentos em que, por razões que não me interessa revelar, face a leituras de trechos nos quais vivem duas personagens que se contrapõem no pensamento ou sentimento, dou por mim a fazer o exercício espontâneo (aliás, começa a ser inelutável) de me colocar nas duas posições, sem chegar a conclusão qual me caberá. Imagine-se a situação se o tema for quadrantes políticos ou até interesses românticos. Para quem está habituado a cada instante a tomadas de posição muito definidas e peremptórias ainda que no momento seguinte desdiga tudo quanto afirmou antes, é difícil perceber alguém que não adere fácil e rapidamente a lados ou interesses.


Lembro quando era criança e brincava com os meus irmãos e primos em jogos nos quais tínhamos de nos dividir em campos opostos sempre acusávamos os que queriam assumir a neutralidade. Era posição de inadmissível cobardia. Nessas ocasiões escolhia (ou escolhiam por mim por ser mais nova) um lado e isso facilitava-me a vida. Pertencer a uma tribo é a mais fácil forma de estar na vida. Noutra circunstância, quando me perguntavam se gostava mais da mãe ou do pai, mentia com todos os dentes, afirmando: dos dois igual. E não é que não conhecesse crianças honestas a dizer o que pensavam. Achava sim que havia verdades que não se diziam, apesar de ter uma absoluta adoração pela minha mãe e só começar a entender-me com o meu pai já perto da adolescência substituindo-o até lá pelos meus tios, de quem em criança pequena sentia muito maior afinidade.


O certo é que como todos em maior ou menor grau comecei a aprender que nem tudo se diz, nem tudo é a preto e branco. Sobretudo a ponderar as razões para a hesitação. Formei carácter na dúvida e não dou significado inteiramente pejorativo à ambiguidade, como é muito usual. Tudo dependerá do grau de indecisão e em última instância do perigo desta nos paralisar por excesso de perspectiva. Tomar consciência de um maior número de dados em jogo numa questão pode conduzir à inacção ou à tal neutralidade, desaconselhável em muitos casos. O caminho do conhecimento não é fácil – fico aterrada com a pretensão expressa nesta afirmação, mas adiante, é exactamente o que quero dizer. Voltando aos exemplos da definição do quadrante político ou de um interesse romântico. Imagine-se quem sempre questiona cada preposição como sendo sua ou de outrem. 


A cada passo identificar-me com argumentos, tomadas de decisão, sentimentos dos dois lados. Serei eu que tenho uma abordagem conservadora na matéria x ou é outro, serei a progressista ou será ele? E não haja a ilusão de que saber definir cada conceito é tiro e queda para resolver a questão. Pelo contrário, quanto mais esclarecidos são os conceitos, mais difícil pode ser identificar-me inteiramente com eles. A vida é bastante mais difícil e interessante do que os lugares-comuns e engodos que dizem ser a ignorância a raiz de todos os males e que nos recomendam o conhecimento como o caminho inevitável para a luz, a tolerância e a bondade. Mais, a via para a verdade.


A cada passo duvidar do ângulo emocional. Serei eu o alvo do desejo ou quem a ele aspira? Qual o meu lugar na relação? Não se sujeite a questão ao simplismo da reciprocidade, a forma como tudo se resolveria nos contos de fadas. Jamais posso aceder inteiramente ao pensamento e sentimento do outro, a menos que confie cegamente, uma impossibilidade em termos de conhecimento. Ora isso aumenta ainda mais a inviabilidade de conhecer os meus. Pensada, a vida complica-se seriamente. O conhecimento não há-de ser caminho único, sequer o principal.

Estabilidade

Conheço várias pessoas, sobretudo mulheres, para quem a entrada dos trinta foi uma marca muito positiva. Por razões de realização profissional ou pessoal. A conquista de estabilidade no campo da formação ou laboral e de constância na relação afectiva, máxime a vinda de filho ou filhos, fez desse período uma marca memorável. É certo que nos dias presentes esses objectivos de vida são cada vez mais postergados.


Como já por aqui aflorei casar e ter filhos, um desígnio apesar de tudo ainda muito comum na minha geração, não era um sonho meu de adolescência. Para mal dos meus pecados, Deus fez o favor de me dar na casa dos vinte e início dos trinta a vida que idealizei em miúda em traços muito mal amanhados - é o que dá não definir bem o que se quer, Deus apanha o esboço e despacha o pedido sem grande cuidado, à trouxe-mouxe. A bem da verdade admito que na próxima encarnação vou escolher ser mais "normalzinha". É que parecendo que não o mundo está montado para pessoas standard, não se compadecendo de esquisitices. Além de mais é muito confortável aparecer nas reuniões familiares e de amigos devidamente acompanhada, e de preferência com a mesma pessoa durante longos períodos. Dão-nos muito mais crédito. É tudo muito mais tranquilo e sereno. Muito conveniente. Quando nos apresentamos sós, teremos sempre alguma pecha, especialmente se formos mulheres: encalhadas, vadias ou fufas. Vá estes são os três rótulos mais comuns. Aos catalogadores não passa pela cabeça consultar a astrologia, senão logo dariam conta que há gente com tendência para o celibato ou para amancebar tarde. Gente manienta cujos astros se alinharam de modo a levarem a liberdade muito ao pé da letra, fazendo finca-pé em não abrir mão da sua quota de independência. Ou então e quanto mais não seja por puro mau-feitio. Má-língua por má-língua podiam usar as bruxarias em vez dos anátemas herdeiros da claustrofobia imposta por interpretações estreitas da tradição religiosa. Não andam tão longe assim e os astros apesar de tudo parecem ter mais abertura de espírito.


A chegada aos trinta por muito conturbada não foi particularmente feliz. Até lá nem estabilidade profissional nem emocional. O meu primeiro contrato sem termo foi aos 33 anos e só juntei trapinhos aos 41, depois de quatro anos de namoro com o Nuno em segundo round, já que nos havíamos conhecido e namorado quando tinha 26/27 anos. Até então tudo o resto foi desarrumação de vida e navegação à vista.


Só depois dos 35 serenei e pela primeira vez na vida me senti compreendida e capaz de me dedicar por inteiro a outra pessoa, fazendo-a centro da atenção, preocupação e amor. A entrada nos quarenta foi bela e feliz por essa razão. Vivida intensamente, sem a desordem da entrada nos trinta, sem a inconsequência dos vinte.


A aproximar-me dos cinquenta (falta menos de ano e meio) volto a focar-me mais em mim e na preparação da maturidade - esta só de gozo, dita por uma criançola. Introduzi uma série de pequenas alterações na vida para me sentir melhor. Com esperança, mas nunca a certeza, de seguir pelo caminho certo. Ainda há mais mudanças no encalço, como tanto gosto.


Depois de acabar de escrever este texto voltei à sensação de estar a descrever a vida de muitos, aliás, de muitas outras mulheres. Às tantas é só necessidade de me sentir acompanhada.

O drama

As grandes desgraças da vida tendem a diminuir à medida que a dita avança. Não falo de fatalidades a que estamos todos sujeitos em qualquer momento nem da mais fatal de todas - a que interrompe este doce passeio no parque terrestre. Refiro-me antes àqueles apertos de vida ou morte que nos acometem e sufocam de modo irracional como se não houvesse amanhã luminoso. Creio que as mulheres são mais atreitas a este fenómeno - espero não estar a ser misógina. No meu caso, admito sem peias cada dramalhão da vida, sem necessidade de revelar mais do que a sensação. Quem gosta da parte da intriga, do suminho cheio de pormenor vivo para a maledicência, lamento: terá de procurar noutro poiso.


Recordo o pavor que senti com cada cavalada - gaffe é pouco - que cometi. Desde miúda acontece-me estar num mundo paralelo e ao fazerem-me perguntas banais dar respostas estapafúrdias, às vezes ofensivas, absolutamente sem querer. Simplesmente por estar a falar noutra dimensão ou tão só distraída. Há um episódio que posso usar a título de exemplo (que foi dos que menos envergonhou, apesar de tudo) por não ter por onde resvalar para a má língua. Em criança pequena fui a casa de um piloto de rally com os meus irmãos, apaixonados pelos carros. Antes de irmos disseram-me que ia ver a maior pista de carros do país. Fiz a viagem a pensar que íamos a qualquer coisa da dimensão de um autódromo (chamem-lhe megalomania, pensei que o senhor teria um jardim grande, uma quinta, vá). Cheguei lá e o piloto, cheio de orgulho da sua pista criada com todo o pormenor a ocupar uma divisão grande da casa, perguntou-me: nunca viste uma pista tão grande, pois não? Mal refeita do grande desgosto que me estava a acontecer (caramba eu ia ver uma coisa grande, à séria) respondi triste: já, já vi muito maior. Levei um safanão do meu irmão mais velho que me recordou a dimensão das nossas pistas de carrinhos eléctricos trazendo-me à realidade. E ao longo da vida tiradas deste calibre foram várias, envergonhando-me sempre.


Outra natureza de dramas são os segredos. Odeio segredos. Trazem muito sofrimento. Houve momentos que achei que não lhes sobrevivia. Há quem aprecie o mistério, o considere muito sedutor, tentador. Diz-me a vida que se há coisa que comportam quase sempre é a mentira. Pergunto-me muitas vezes a razão da mentira nunca ter sido considerada pecado capital. Devia ler sobre isso. Afinal ela acaba por encobrir todos os maiores defeitos dos homens. Admito que a aversão à falsidade é tal - não me estou a fazer de pura, para isso falta-me tudo - que terei de fazer um aprendizado para a compreender. Burrifico face à mentira. A dos outros irrita-me ao ponto de às vezes não perdoar. A minha mortifica-me. Consome-me inteira esvaziando toda a paz da alma. Guardar segredo meu foi um desses dramalhões de novita, cuja evocação sempre a solo (por nunca ter revelado a vivalma) e à distância desvanece num sorriso compreensivo: afinal, não prejudiquei ninguém, e aí reside a diferença. Ter guardado segredos que envolvem outros e o embuste traz a sensação de sujeira, da tal falsidade de que quero distância. Mas mesmo estes segredos volvidos muitos anos perdem densidade. Lá diz a velha máxima que o tempo cura tudo.


Depois há os draminhas. Nestes confesso que me viciei um pouco nos últimos anos - creio que são fruto da tranquilidade emocional. São uma espécie de luxo de gente mais velha, mas ainda não madura por inteiro. Mais nova quando a afectividade ebulia ferozmente sabia bem a peça que faltava. Não tinha dúvida do que era importante, logo os dramas tinham a dimensão dessa peça fundamental - uma grandeza definida e fundamentada. Atingindo a estabilidade emocional percebi que tendo o essencial, sinto necessidade de uma série de pecinhas adjacentes que começo a inventar numa espécie de jogo de lego intrincado - às vezes basta apenas lembrar que existem para serem idealizadas (parece uma contradição de princípio, mas não é). Assim vou criando os draminhas, para justificar todas as pequenas frustrações das quais ninguém se livra. Há pobres de espírito que ridicularizam as mulheres por isto, revelando pouco saber da vida além dos catálogos de preconceito sobre os quais gostam de dissertar.


Não é um mau percurso: das grandes tragédias da meninice às pequenas calamidades da meia idade. Nesta perspectiva, afinal o saldo é positivo.

Aparte

Há talvez dois meses as Comezinhas tiveram várias visitas em dias seguidos da China, nas últimas semanas têm sido da Rússia. Não sei que diga. Fico na dúvida se são VPN ou visitas efectivas de alguém que esteja nesses países.

Mãos abertas

Pode parecer desconexo, mas o facto de começar a semana no melhor quarto da Pousada de Beja e terminá-la num exíguo bungalow no Parque de Campismo de Angeiras sem enquadramento padrão que não seja o comezinho apetecer é a razão de provocar alguma coceira alheia - afinal são pequenos mundos diversos. É estranho. Não bate certo. Causa aparente indiferença ou desagrado a gregos e troianos.


Todavia é também uma amostra do efeito poeira de vento sem nome que deixa rasto incógnito, apesar da identidade assumida na íntegra. A estranheza que conduz àquela rejeição está aqui: não disfarçar o prazer com falsa humildade ou encapotada prelecção convencional e saber abrir caminho alheio assumindo o desagradável da eterna repulsa que provoco. Primeiro estranha-se, depois entranha-se - diria Fernando Pessoa. E assim sigo feita caminho sem nome. Petulante, sem remissão.

30/08/2024

Nota realista e belicosa

Como último (será?) registo da série de postais acerca da curta estadia de duas noites no parque de campismo convém informar que a saída na auto-estrada A28 anterior à do parque de Angeiras é a do aeroporto Francisco Sá Carneiro.


Deixo a informação à cautela pelas perplexidades provocadas com a minha invocação do sossego e silêncio do recinto onde estive instalada. Sim, ouvem-se os aviões de quando a quando, mas não perturba o descanso.


É uma opinião.


Imagino que para os tão excitados devotos da pluralidade de opinião seja válida e por isso defensável em Democracia.

Diário

Não sei se vou cumprir a imposição de ontem: não publicar mais um texto pessoal, sem ter preparado outro sobre o mundo lá fora. Não vou no bom caminho ao abrir mais um diário, não parece bom prenúncio. Mas que fazer? Pequena me confesso. Quando há quinze anos comecei a pensar que deveria voltar a escrever, tendo estado parada durante mais sete após tais pensamentos, debatia-me sempre com a mesma questão: enquanto não saíres de ti, não vale a pena. Não é o teu mundinho que interessa, mas o dos outros, lá fora. Sucede que nunca consigo, revelando-me pequena narcisa. Acrescia então como hoje a recriminação pela exibição de intimidades (quem diria face ao que deixo aberto à leitura de todos) muito fruto da educação. Filha e neta de quem vi chegar à idade - entre os sessenta e setenta - na qual quase todos os papéis foram destruídos para que o seu não fosse deixado à curiosidade e desinteresse de terceiros, logo aos trinta e três dei cabo dos meus, mas por razões um pouco diferentes: queria eliminar a exibição não só da intimidade como da mediocridade. E também libertar-me. Continuo a achar que poucas coisas dão tanto prazer na vida como destruir amaras, mesmo as que me ligam ao que criei. Pouco é tão sublime como a frugalidade. Às vezes - tantas vezes - olho para o que escrevi e penso que foi e é quase tudo a mais. Nada seria mais poderoso do que a ideia de passar pela vida sem deixar rasto. Essa sim seria a lição.


E passo então ao rame-rame. Esta semana fiz duas saídas para compras. Uma com o Nuno ao NorteShopping, sendo de referir que ele ainda odeia mais do que eu centros comerciais, pelo que se contam pelos dedos de uma mão - talvez sobrem - o número anual de vezes que saímos juntos para nos enfiarmos nesses antros de ruído e confusão. Mas tivemos sorte, na noite de terça-feira não estava muito chinfrim. Ele comprou o enésimo teclado para o computador - nesta casa há quase linha de montagem de teclados e auscultadores, atentos os que se vão estragando. Eu trouxe os jeans, o fato de banho e duas toalhas de praia. A pressa em vir embora levou-me a esquecer que um dos motivos que ali nos levara era a compra da carteira. Pelo que no dia seguinte no fim da jornada de trabalho, além de adquirir umas sandálias confortáveis - estou novamente na fase tonta de achar que tropeço se tiverem tacão, pelo que os pares que tenho em casa vão continuar à espera de melhores dias -, fui ao Cidade do Porto comprar a dita mala, bem bonita por sinal. E claro, não há vez que lá vá que não entre na Bertrand. Meia hora foi o tempo para deitar os olhos pelas várias estantes e mesas, e chegar à conclusão de sempre: não vou comprar romances enquanto não desbastar parte substancial da Colecção Mil Folhas, que por preguiça continua quieta demais. Sempre que entro naquela livraria, fico a pensar como seria mais fácil para clientes do meu género se houvesse uma secção de contos. Assim bem procuro, até na página online, mas parece-me sempre haver pouca escolha além do óbvio ou pontualmente das recomendações da temporada de que fujo a sete pés. Onde acabo sempre? Na parcamente fornecida estante de poesia. Desta vez tive sorte, alguma mão anterior à minha tinha por ali passado e relegado ao esquecimento o livro de Louise Glück. Foi a descoberta da semana. Chegada a casa, li-o de um só fôlego após jantar e pude sentir aquilo que é cada vez mais raro ao conhecer um novo autor. Dar por mim com a velha sensação de descoberta da adolescência. Quando a alma apesar da aparência exterior de passividade dá pinotes interiores de alegria e diz: é isto, é mesmo isto. Foi assim que Fernando Pessoa me deixou durante a meninice. É bom voltar a sentir. Descrevem-na como tendo uma escrita austera. É. Num tempo da corda bamba entre as baboseiras da psicologia da empatia e do fofinho e a alegada glosa crítica que tantas vezes vai pouco além da frivolidade ou da vulgar maledicência, é bom perceber a seriedade do génio - a austeridade redime a vulgaridade do tempo presente. Voltando ao livro Averno, a sensação de heureca deu-se por exemplo nos últimos versos do poema Telescópio (Só depois percebes/que não é falsa a imagem/mas a relação.//Vês de novo como cada coisa/fica tão longe de todas as outras.). É sempre espantoso perceber como ideias tão precisas se podem descobrir em linhas simples.


Esta foi também a semana em que me recordei, a propósito de uma leitura noutro blogue, como ri e chorei ao ler um mesmo romance de Saramago, o tal autor que continua proscrito por tantos por vício ideológico. Por preguiça de dar o passo sobre as barreiras do preconceito. Faz-me sempre lembrar a forma como em miúda - anos oitenta - embirrava com os professores comunistas (alguns dos melhores e mais dedicados) e era incapaz de ler este autor por pura tonteria. Lembrei-me também do gozo que fui alvo quando, há dezasseis anos num espaço de conversa online, disse que tanto lia com gosto Saramago como Lobo Antunes. Apareceram logo daqueles sábios que agindo sob anonimato gostam de catálogos e de viver, pensar e atacar em matilha chamar-me imbecil. Enfim, os tempos mudam. Ou não.


Adenda. Não cumpri a imposição de ontem. Publiquei este post antes de ter preparado outro lá fora.

De que é feita a opinião?

Não me afastando muito de uma das teclas de sempre hoje matutei na matéria de que é feita a opinião crítica que emitimos. Descobrir nela a pepita de acerto é uma epopeia. Todos, ao abrir a boca ou dedilhar para soltar crítica a comportamento alheio, espelhámos - aos olhos ou ouvidos atentos - massa recôndita do subconsciente traduzida em preconceitos, mágoas, frustrações, ímpetos de afirmação e de imposição da vontade. E quanto mais afirmativos formos e mais convencidos estejamos da nossa total correcção e legitimidade na crítica à opinião alheia, mais tendemos à excitação e a saídas obtusas, ainda que muito atraentes possam parecer a um grupo mais ou menos alargado de pessoas. A isso conduz a afinidade pela mágoa, preconceito ou mostra de força.


Romper os grilhões e procurar o arranjo justo de opinião despoluído desta subjectividade negativa é um desafio e tanto. E não, não vai lá com fact check nem com tonta ilusão do rigor (científico?) no elencar de ocorrências e circunstâncias nem no uso aparente de retórica coerente.


O acerto só lá vai com bondade, essa palavra desusada. Creio que foi mais ou menos isto que tentei dizer num postal de há dezasseis anos (dezassete?, não sei). Sem nenhum resultado útil salvo encher no momento o olho dos que tomaram a afirmação como esoterismo atraente até se entreterem com outra palavra mais excitante.


Não será fácil pois enredar-me em elogios gratuitos ao pluralismo de opinião, como se toda estivesse no mesmo patamar. Apreciarei sempre ideias diferentes, se partirem de sujeitos ancorados na bondade – e não estou a falar de pureza, mas apenas na busca do justo. Não sou obrigada a apreciar opiniões de quem não faz esforço nenhum para se desenlaçar da tal subjectividade negativa. Se é verdade que todos dela padecemos, alguns há que disso têm consciência. Já é um princípio.

Natureza

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Um espanto como a natureza pode ser perfeita. Esta teia de aranha num ácer falso plátano junto ao alpendre do bungalow é um prodígio de paciência e resistência. Uma obra-prima.

Bom dia

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Mais íntimo é impossível

A vida é pequena, mais pequena se dividida em pedaços de espaços temporais.  Se regressar à primeira metade dos anos 90, vejo-me no rame-rame de adormecer às quatro ou cinco da manhã, acordar tarde e ir para faculdade. De vez em quando lá assistir a uma aula sem quer, a menos que fosse uma cadeira que me interessasse. A conversa com os colegas que ficaram lá atrás perdidos no tempo, por não ter mantido essas ligações. A biblioteca onde passava horas e ler sobretudo o que não era recomendado para fazer as cadeiras, com os auriculares do leitor de cassetes a rodar música clássica. Todas as noites, o café e a treta com os amigos de Gaia que se prolongava por horas e se convertia em saídas aos bares às sextas ou sábados – o Aniki bóbó, na Ribeira, o Labirinto, na N. S. Fátima, o bar do Rivoli, o 31, no Passeio Alegre, o Quando Quando, na Avenida Brasil, mais tarde o Bonaparte, também na Avenida Brasil e o Triplex, na Av. da Boavista - revisitei quase todos já no início deste milénio com o Nuno, ou um pouco mais tarde novamente com grupos de amigos, até que em 2007 acabaram-se as saídas à noite. Voltando aos anos 90, ia a outros com menos frequência. As discotecas depois das duas da manhã: Industria, Swing, Estado Novo. E os périplos pelos bares gay, que quem é ou quem tem amigos homossexuais sempre conhecem: a começar no Café da Praça, e passar pelo Moinho de Vento ou Boys ’r’ us. Ocasionalmente ida a Lisboa, ao Bairro Alto, Frágil, Docas, até uma ida única ao Trumps. E, claro, o aconchego familiar que permita tudo rolasse dentro dos parâmetros desejáveis – há uns meses um amigo dessa altura dizia-me: sim, mas tu ias para casa e tinhas uma família. Só há relativamente poucos anos tive a perspectiva de que os amigos mais chegados me achavam bafejada pela sorte, claro que eu me considerava um Calimero e a eles os donos do mundo, cheios de vida. Sempre invejamos – no bom sentido, porque estou a falar de gente de quem gosto muito e sei que gosta de mim – a vida dos outros. Dessa época mantenho contacto regular com uma amiga (sem interrupções) e um amigo (com hiatos) que, juntamente, com um primo-amigo e três aquisições mais recentes (vá, uma delas já com cerca de 15 anos) constituem o núcleo duro de amigos que me fazem manter alguma normalidade na vida. Um punhado de gente que me é vital.


Reparo agora que ia escrever sobre as pequenas deslocações de Uber e desatei a falar sobre amigos. A ideia era apenas percorrer fases da vida para mostrar como os interesses e as vivências são diferentes ao longo dela. Se recuar há 12/13 anos era um vazio total, cujo momento que costumo recordar com mais intensidade, apesar de na altura passar o dia a trabalhar como uma camela, é dos interessantes serões deitada no sofá a ver novelas (as últimas que vi) e a devorar batatas fritas – grande programa de vida: casa trabalho, trabalho casa. Se recuar 11 anos vejo-me a começar a reconstruir uma vida a dois, a paz e a cumplicidade dos anos que se seguiram. Se retroceder quarenta anos, vejo-me de kilt ou calças de jardineiro à volta dos bichos em Valinhas ou a moer o juízo dos meus irmãos (e eles a moerem o meu), nos baloiços da escola primária ou de castigo a fazer cópias e composições. Retrocedendo trinta e poucos anos vejo-me a contestar qualquer coisa que fosse dita nas aulas, a ler crónicas e poesia, a rir com amigos no café Glass, na biblioteca a ler jornais e livros de astrologia ou sobre pintura, quando era suposto estudar para os testes, distraída com os devaneios e as paixonetas. Se recuar 14 anos até tremo – na verdade já não tremo, mas foi mau, mesmo mau. Se retroceder 25/20 anos dou por mim a testar com empolgação os limites do que um coração e um cérebro podem dar de si. O desacerto total entre fim da faculdade e início da vida profissional – desde a simultaneidade do estágio com os primeiros trabalhos em bancos (é antiga esta mania de arranjar dois trabalhos – coisa de tuga que tem de se desenrascar para chegar a ter vida), a precariedade e a confrontação entre a fantasia e a realidade, a frustração ainda revoltada (depois habituámo-nos) - e o desajuste das escolhas sentimentais – desde o namorico inconsequente à sequência de paixões nada recomendáveis. O pot pourri decepção profissional/emocional que arrasaria aquilo que fora antes – um esteio de gente, torto vá, mas esteio – para me transformar num ser frágil, titubeante e susceptível a qualquer pequeno abanão da vida. Valeram-me as viagens. Se recuar 15/17 anos vejo-me desligada, a viver os dias, a profissão e as relações com frieza e indiferença. Frieza na vida pessoal e profissional enquanto escrevia rompantes em blogues. Descrente. Valeram-me as viagens. Se recuar três/dois anos vejo-me satisfeita por ter concretizado qualquer coisa na vida ao escrever - temo que volvidos estes três anos volte a sensação de que não vale a pena. Independentemente do valor que tenha, terminar qualquer coisa deu-me um gozo especial. Há quem diga que teve uma enorme sensação de triunfo ao terminar o curso. Nem me lembro bem como foi, fico sempre com a ideia que fiz o curso ao acaso e não tenho ponta de orgulho nele – não é desdém, é franqueza. Há quem sonhe com o dia de casamento e essa seja uma grande conquista. Nunca foi um sonho meu, tinha outros ao lado que a vida tratou de concretizar e mostrar que experimentamos muitas vezes o que sonhámos, mas não da forma como sonhámos. A coisa sai sempre um pouco ao lado. Há quem diga que o grande dia das suas vidas foi o nascimento do filho ou dos filhos e aí, naturalmente, calo-me. Nada pode ser mais importante. É simplesmente a razão de tudo. Sucede que, mais do que uma escolha – gosto sempre quando me atiram à cara que há escolhas na vida, como se me quisessem castigar -, há vidas mais afortunadas do que outras, há gente mais talhada para a felicidade do que outra. De facto nunca fiz por ter filhos – eu que não me levo a sério, nem me tenho em grande conta e já perdi a vergonha, jamais seria irresponsável ao pôr um filho no mundo tendo tantas reservas sobre a capacidade de ser uma boa mãe e de um filho meu poder vir a ser saudável e feliz. Além do que se algum dia essas reservas tivessem sido superadas, a vida emocional e profissional (onde pesa a componente financeira) nunca se conjugaram no sentido de favorecer a decisão de ter filhos – no fundo também por viver num país onde ter filhos é um luxo só acessível a gente rica ou pobre, e pouco recomendada a gente remediada. Por todas estas razões nunca pus um filho no mundo, ou sequer me deixei engravidar. Não me levo a sério, mas não gosto de brincar com o fogo quando se trata do mais importante na vida. Em miúda achava que ia adoptar um filho, mas pelo ritmo que levo, a adoptar agora, só um neto. De qualquer modo, falava de concretizações. Escrever é a minha concretização, e também consolo, era a ideia deste último trecho que acabou por se estender além da minha intenção, como sempre.


Bom, se calhar as conversas tidas nas deslocações de Uber e no Intercidades ficam para outro dia. Ia dizer apenas que agora o meu rame-rame são as conversas com os motoristas da Uber, os blogues, as idas e vindas de Almada, a vida profissional e familiar e as tropelias do Ritz. O que interessa é que o Nuno está de coração mais sossegado depois do susto que apanhou na sexta-feira e nos fez ir a Almada este fim-de-semana.


Dando assim uma olhadela à posteriori ao texto parece-me uma vida parecida com a de muitos portugueses da minha geração. Curiosamente, não são estas vidas que usualmente vejo retratadas. 

29/08/2024

Bónus

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Daqui vêem-se as estrelas. :)


Maravilha.


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O estorvo da paixão

A paixão desvairada pousou-a em relativo sossego. Ainda mexia, mais ténue. Haveria de morrer, desejava-o - ao sucumbir do sentimento; não ao homem, mentia. Em tudo errado, não sabia se em si mesmo, mas certamente na relação consigo. De resto, tudo era inadequado, como costuma ser o furor. Haveria de desvanecer lenta mas completamente. Esperava sentada nos intervalos dos devaneios, nos entremeios do rame-rame diário ponteado de rápidos delírios involuntários. Já fora pior. Houve momentos em que a ânsia a corroía horas a fio, perturbando o normal correr do dia. Já fora pior. Haveria de voltar a conhecer a alegria de amar sem estorvo tão inconveniente.

Boa vida

Depois de passada a primeira noite no parque a decisão está tomada. Não compraremos o bungalow mas faremos aqui uma estadia por mês. O contrato com o parque sairia mais dispendioso do que a estadia de um fim-de-semana mensal, com a vantagem de neste caso ter o espaço limpo e arrumado pelo serviço de alojamento não tendo de pensar por exemplo na lavagem de roupa de casa. Qualidade de vida implica não me meter em alhadas trabalhosas, sobretudo, podendo gozar dos mesmos benefícios sem esforço.


O que perderia em sentido de propriedade e gozo de dispor da casinha ao meu gosto será compensado pela liberdade de vir quando e se apetecer, variar de poiso, e sem compromissos nem encargos extras de manutenção poder usufruir do belo espaço verde que tanta falta me tem feito. Respirar profundamente por estas bandas faz bem até à alma.


Hoje acordei antes das sete da manhã, como vem sendo hábito. Contudo aqui pude abrir a porta, a janela e as narinas ao cheiro a pinheiro, algas e demais odores naturais. Nessa companhia tomámos o nescafé que preparei na cafeteira de levar ao disco eléctrico.


Agora aqui deitada depois da caminhada matinal, de gozar o descanso dos olhos junto ao mar e de subirmos ao parque, agora, dizia, estou na espreguiçadeira no alpendre rodeada de árvores, hidranjas e bungalows vizinhos. Admiro-me com o sossego. Temi algum alvoroço entre os campistas na época alta, mas tudo quanto oiço são vozes dos rapazes a jogar futebol ao longe, bater de bolas nas raquetas ali mais abaixo no court de ténis. Ou a vozita de uma ou outra criança a brincar. Felizmente, nem rádios, nem televisões são audíveis. Sobressai sim o chilrear da passarada.


Deliciada. Tirando andar a fugir das abelhas. Ou vespas. Como vejo mal, não as distingo e faço figura de citadina parvalhona cheia de medo dos bicharocos voadores. Ao menos as formigas que se passeiam pela cadeira e corpo não chateiam ninguém.


Bom, agora alguém decidiu pôr música. A ver vamos. Foi só um par de minutos.


Depois desta manhã extenuante e de tantos dilemas graves a resolver vou aquecer o almoço. Uma maçada. Sofro tanto.


À tarde conto nadar e ler jornais online para saber do mundo. Ontem antes de dormir o livro esgotou-se em menos de uma hora. É o que dá o critério minimalista na escolha. Devia ter trazido mais um livrito. Pode ser que arranje qualquer coisa no telemóvel.


E aqui fica a memória de tudo tintim por tintim. Afinal para quê mudar de registo se este é natural e só incomoda tontos? Nada como seguir caminho sendo quem se é.


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Ponto de situação

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Depois da caminhada de hora e um quarto o tímido lá se descobriu.


O telemóvel diz: mais um par de horas e o sol destapa-se também.

O que pode definir a cobardia?

Apoiar-se num grupo de compinchas e na maledicência para destratar quem segue caminho dizendo pouco mais do que o evidente. Usar a tribo para de costas quentes insultar e tripudiar de quem mal ou bem segue sozinho com as suas razões, sem a protecção de uma qualquer trupe de interesses.

Bom dia

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Acordámos cedo para vir ver o mar aqui em Angeiras, mas o diacho do temperamental escondeu-se.


Vamos aproveitar para uma caminhada ao som das ondas invisíveis.


Bom dia.

Estridência

Há fogueiras onde arde tudo: amor, beleza, delicadeza, franqueza, honradez, bons propósitos. Há fogos que os consomem como quaisquer pedaços de madeira que nada sintam, nada dêem, nada se entreguem. Vai tudo a eito. Qualquer bom sentimento é carne para canhão. Aos olhos de quem ateia fogos, o importante é a cena, o brilho momentâneo. Hão-de vir outras achas apetecíveis à queima, prontas a produzir o fulgor que alimenta os incendiários.


Tudo o que é belo sucumbe nos propósitos menores.

28/08/2024

Gonçalo M. Tavares

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O que nos temos divertido é uma coisa.

Férias e uma cabana

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E tinha eu achado pequenino o bungalow T2. Exíguo é este T0. Não sei se ponha a perna de fora para dormir ou se saio para abrir o frigorífico.


Deliciada. Estou a adorar o lugar e o cheirinho a vegetação.

Ânimo

Cogitei começar a escrever este post e fui adiando, ora absorta pelos pensamentos, ora com sono. Finalmente, agora à noite, depois de jantar e falar ao telefone com amigos e família, espevitei de uma tarde de sorna. Se pensar bem, necessária a descansar das actividades não só lúdicas como de essência de vida. Mais adiante falarei de tudo. Este promete ser um texto comprido, daquelas mexerufadas intragáveis para a maioria, senão a quase totalidade dos que se dão a trabalho de passar pelas Comezinhas. Se quiser fazer um roteiro acerca do que tratarei, adianto: Beja, casa de acolhimento de crianças, bungalow em parque de campismo, lanche com amigos, desânimo passageiro, seguir caminho com determinação.


No início do ano tinha-me proposto começar a viajar de comboio pelo país. A ideia seria fazer três passeios de fim-de-semana anuais para me obrigar a retomar o hábito antigo das andanças de carro pelo país, perdidas no tempo pelo facto de não conduzir. Um dos destinos desejados: Beja. Afinal não fomos de comboio, mas com o meu irmão N. e a minha mãe e foi um fim-de-semana tranquilo e alegre, apesar das constantes picardias entre irmãos. Ainda haveremos de estar juntos sem implicar. Por enquanto continuámos a comportar-nos como miúdos que de vez em quando lá se apercebem estar na casa dos cinquenta. Para dizer a verdade admito já ser tempo de se saber ouvir sem partir do princípio que se está a convencer o outro, impondo a própria vontade. E nesse particular o defeito pior não é meu.


Ficámos na Pousada de S. Francisco e por um engano do hotel o Nuno e eu acabamos no melhor quarto da casa, disse-nos a simpática menina que fez o check in. De facto o quarto era excelente e confirmei uma vez mais que há momentos na vida em que pareço nascida de rabo virado para a lua. No dia da chegada estava calor suportável. Aliás, os dias e noites pareceram-me agradáveis de temperatura e "espessura" do ar. Aproveitamos para jantar num restaurante modesto com óptima cozinha: o Tem Avondo. A dona primou por nos tratar com atenção e delicadeza naquele modo cantado e doce de falar alentejano que tanto me encanta. Agora a despropósito lembrei-me também do empregado que nos atendeu na Meta dos Leitões, na Mealhada, e da forma como nos agradeceu sabermos esperar. De facto, o rapaz novo não tinha mãos a medir para tantos pedidos de vincada pressão vindos das várias mesas. Devo admitir: aí foi o meu irmão N. que emprestou a serenidade desejável a aguardarmos com paciência.


Na manhã seguinte calcorreámos as ruas de Beja, em especial a zona da mouraria, trocámos algumas palavras com bejenses para obter informações. Tudo na maior das tranquilidades. O castelo foi o único ponto de interesse com alguns – não muitos - turistas, tudo o resto estava deserto das massas habituais de devoradores de entretenimento dito cultural. Excepcionalmente não procurámos museus. De qualquer modo e a bem da verdade os do núcleo museológico pareceram-me encerrados. Começamos a manhã no Jardim Público, um espaço ainda à moda antiga com coreto, patos mudos e gansos. Eu não fui, mas a cidade tem também um parque moderno à disposição dos habitantes. Reparei nos grafites do comboio parado na Estação ferroviária, onde tenciono voltar chegada de viagem, e nalgumas paredes politizadas da cidade. Tal como notei nos cartazes de apoio à Palestina e de muitos dizeres anti-fascistas.  


Ao fim da tarde gozei o jardim e piscina na Pousada – jardim desenhado por Gonçalo Ribeiro Telles - e de madrugada já acordada senti o sismo às 5h11. Fiz a nota no minuto seguinte no blogue, dando conta do tremor e do ruído metálico que ouvi, creio que seriam os ferrolhos das portas e janelas. Ao fim da manhã regressámos ao Porto com paragem em Almeirim. Vale sempre a pena o bom melão. E viagens de muita conversa posta em dia acompanhadas de paisagem bonita, especialmente, no Alentejo, com os velhos sobreiros, azinheiras, pinheiros bravos e mansos a entremear com as novas plantações não só de oliveiras, como de amendoeiras. Muitas amendoeiras.


Hoje acordámos cedo por termos marcação com a directora de uma casa de acolhimento de crianças. No final do ano passado visitámos um par de vezes um centro de acolhimento de rapazes adolescentes e temos mantido a ligação com a instituição. Hoje fomos à casa da mesma entidade, mas para crianças desde bebés até aos 12 ou 13 anos. A decisão do Verão do ano passado de pôr uma pedra sobre a hipótese adopção, uma vontade que me acompanhava desde a adolescência e que por motivos vários nunca se concretizou, levou-me a propor ao Nuno dispormos do nosso tempo e tranquilidade para o voluntariado com crianças. Tanto mais que o Nuno não trabalhando tem mais tempo para dispor e jeito especial. Desta vez estivemos lá cerca de duas horas a conversar e a ideia basilar de quem nos recebeu (bem) foi a mesma da outra casa. Devemos ter consciência que os miúdos estão lá por passarem por problemas graves. Ao longo dos anos fui-me sempre informando das regras de adopção e lendo acerca dos assuntos ligados à institucionalização de crianças, estando alerta por exemplo para as dificuldades de aprendizagem, mas há todo um mundo de informações de dia-a-dia que só se compreendem conhecendo os estabelecimentos. No caso duas casas geridas numa tentativa de semelhança a ambiente familiar. Ali a ideia é tentar reorganizar a vida das crianças no seio da família biológica nuclear ou alargada, pelo que há um papel de reeducação da família. Como previsível, impossível nalguns casos. Como curiosidade, não de menor importância, recebi o testemunho de em mais de vinte anos de funcionamento a casa de acolhimento nunca ter recebido a visita dos advogados defensores das crianças em processos judiciais. Uma mágoa de quem está a frente casa, com toda a razão. Articulados, relatórios e perícias não substituem um olhar de atenção e presença física junto de quem mais interessa: as crianças.


Na nossa parte trataremos nos próximos dias de pedir os registos criminais para entregar e se a instituição entender que podemos ser úteis preencher os formulários do voluntariado. Uma hipótese será aos fins-de-semana o Nuno receber em casa um miúdo, acompanhado da voluntária já com relação de confiança estabelecida com a casa, para aprender a tocar piano. Gostava que se concretizasse e que pudéssemos ser úteis. Mesmo sabendo e explicando, como explicámos, que o Nuno não tem formação académica para dar aulas oficiais. O certo é que o rapaz em questão já tentou aprender violino em ambiente mais académico e acabou por desistir. Quem sabe se um ambiente menos formal, não é um início de qualquer coisa a evoluir depois para um estudo mais académico? Nunca se sabe, se não se tentar. A ver vamos qual a vontade do pequenino e de todos os factores envolvidos. A ver vamos. Devagarinho e com toda a responsabilidade. Há matérias em que não vou pelos empolgamentos para os quais tenho tendência. Nisto todas as cautelas são desejáveis. E falar aqui abertamente no blogue destes assuntos, antecipando cenários futuros, não os menoriza nem representa leviandade, como alguns considerarão, antes pelo contrário, exponho simples interesse.


Já como assunto mais leve conto que amanhã vamos para o parque de campismo de Angeiras. Uma estadia de duas noites. A minha primeira vez de campismo em Portugal. Admito que ainda estou de olho no bungalow que lá está à venda – uma ideia peregrina, como tantas outras. Sempre a inventar. Veremos como nos damos em ambiente de campistas. Para já, um aspecto desagrada-me. Como quase sempre no litoral da zona norte, as estradas, ruas e ruelas estão pejadas de construções feias. É horrível chegar a Angeiras. Talvez por isso goste tanto de Alentejo e aprecie tanto distrair e espraiar os olhos nas casas caiadas e vistas desafogadas para fugir da fealdade de muitas zonas do norte em termos de ruelas, quelhos e construções.


Agora à noite falei com a T. e também como o C., regressado há três semanas da temporada no Brasil. Já ri um pedaço ao telefone com as muitas peripécias que o C. sempre relata. E ficou combinado lanche cá em casa no Domingo. A T. hoje estava em baixo mas, em princípio, também virá. Férias começam a não ser férias senão reunir com os amigos.


No último ano padeci de alguns momentos de desânimo com motivos objectivos. É difícil conviver física e virtualmente com realidades e gente destrutiva, que avança como caterpílar sobre o que tem valia no intuito de se impor pela lei da força, em desrespeito claro pelos outros e o direito de respirarem o mesmo ar se não cederem a uma mundividência mesquinha ou pouco clarividente. Mais difícil ainda é compreender que esse mundo tende a prevalecer se não se fizer contrapeso. Sei que não sou uma pessoa fácil, mas cada vez estou mais certa de incomodar de facto gente que vale muito pouco e faz muito ruído, uns pretensiosos pelo julgamento soberbo declarado ou intriga dissimulada outros pela falsa simpatia a esconder maus propósitos, impondo-se aos demais com oportunismo. Não é fácil ter as antenas muito ligadas e ser desagradável com quem pisa os demais. É sempre pessoalmente mais fácil e lucrativo afagar e bajular o lado vencedor ou mais popular ou fofinho em detrimento do justo e razoável. Todavia, não é uma vida fácil que me envergonhe que procuro. Já me bastam os muitos defeitos dos quais não terei consciência, bem posso recusar caminhos que sei podres. Não nego que dói, porém sei que sigo no caminho certo. Por mais que alguns se esforcem pela calada e insidiosamente por destruí-lo, o ânimo superará o desânimo.

Baço e reluzente

Às vezes dou por mim a pensar que cada um dá significado muito diferente aos temperamentos e sentimentos. Dá ideia que a maioria vê na aceitação da natureza tal como é uma manifestação de melancolia. Julgo que será a mesma razão pela qual se considera mais atraente o cabelo com nuances e brilho de tinta do que o verdadeiro e baço loiro, castanho, ruivo ou branco. A sofisticação afasta-nos cada vez mais da essência. A menos que esteja muito penteada e regular com cascalho ou terra que não sujam e relvados aparados ou águas marítimas mornas prontas a fazer as delícias de uma parte da população mundial privilegiada cada dia mais exigente e mal agradecida, a natureza parece ser cada vez mais tomada por estranha, quando não é mesmo conotada com tragédia. O normal passa a ser o artifício: o construído ou produzido em conformidade com os mais altos padrões da qualidade do mundo moderno.


Ah, é a evolução normal do tempo – aliás, a história do Universo faz-se da alteração contínua das partículas de matéria que a compõe -, dirão os que vão sempre atrelados ao tempo. Para quem ter uma conexão razoável com a natureza – pré-existente ao seu tempo - é sinónimo de ser desajustado, lírico, ultrapassado, isto é, vencido. A necessidade permanente de corrigir, projectar e superar define os vencedores. Uns dissimulam esta vontade de vencer com a criação de anti-heróis ou a chafurdice no submundo, como se fosse essa a ligação à natureza. Não percebem que incorrem no mesmíssimo erro das histórias de fadas e dos super-heróis, limitando-se a inverter o ponto de vista. Outros concedem que o dito desajuste tem algum charme e usam-no na fotografia, no cinema, na literatura. No fundo limitam-se a condená-lo como se estivessem a retratar o irremediável passado. Inacessível. Não advogam a conexão com a natureza para a sua vida, invocando responsabilidades do quotidiano e temendo serem proscritos pelos que acreditam serem seu amparo. Sucede que quase todos os supostos apoios estão, eles também, corrompidos pela sofisticação oca. E assim, pelo gradual afastamento da natureza, se desmorona o essencial dos elos da humanidade.


O drama é que a abstracção da matéria desprende a humanidade do que existe. Da essência. Não é de estranhar que tenhamos perdido o pé e que não seja possível perceber o que se passa com o mundo nem prever o que se vai passar com a humanidade.

27/08/2024

Céu nocturno estrelado

Há dois dias ao adormecer tive do nada uma imagem linda do céu nocturno estrelado. À direita via-se a silhueta de montanhas às quais me ia aproximando. Magnífico. Mágico. O meu mundo. Não sei se já em micro-sono se acordada. Sei que uns segundos depois estava desperta com uma sensação boa de quem tinha visto o paraíso, e aí sim adormeci mesmo, contente. Um dos momentos mais intensos que guardo de criança foi a ida ao Planetário de Lisboa. Fiquei maravilhada, sem fôlego. Lembro-me de me dizerem que estava velho, sem condições e pensar: mas é tão bonito. Estava habituada ao céu em Valinhas, a ver as estrelas nas noites de céu limpo enredadas nos ramos altos nas enormes tílias. Estava habituada a uma casa grande com paredes mareadas por falta de tinta. As do andar de cima eram azul, com contraste de tom mais forte no rodapé bem elevado e azul claro da parede em si - mais ou menos como as Comezinhas e o curioso é que nunca tinha pensado nesta associação; ele há coisas. Diziam-me que era uma vergonha aquele descuido e eu achava: é tão bonito. No Outono as folhas cobriam o terreiro da casa, e diziam: tem de se limpar. Pensava eu: porquê? É tão bonito assim.


Muito mais tarde vivi vários anos perto do Planetário do Porto e nunca lá fui. Não sei se terá sido preguiça, se desleixo, se medo de não encontrar a beleza de outros tempos.


Esta sorte com que fui bafejada sem saber porquê de fechar os olhos ou sonhar e ter o meu mundo mágico ao alcance é uma enorme bênção que tenho de agradecer ao destino. De olhos fechados ou na imaginação pejada de realidade são infinitas as possibilidades e o contentamento.


Viver com um pé no chão e outro no sonho pode não ser de equilíbrio fácil, mas caramba, as alegrias compensam bem o desajuste.


 


Nota: foi por ter tido esta imagem do céu nocturno estrelado que procurei no YouTube o vídeo que publiquei ontem.

O post aberto ontem

Ontem abriram dois postais "antigos".


Amor

Não te declaraste com grandes e bonitas palavras – não eras grande conquistador -, mas quando decidiste ir embora sabia que me amavas. Senti dignidade no teu olhar, meu mouro encantado – mais tarde Deus roubou-te a visão e não O perdoo. Regressaste sem me temer, nem estranhar. Trataste-me como igual, como iguais que somos.


São tantas as vezes que não percebo, por perceber além do que é. Tantas vezes precisei que me mostrassem o que é aquém do que é. Cansava-me tanto ver sempre além. Pedi ajuda e deste-ma. Fiquei a saber como o mundo vê o além, aquém.


Supostamente corri perigos comezinhos como passar anos a fazer o percurso casa trabalho a pé, nalguns troços mal iluminados. Preocupaste-te genuinamente comigo, quiseste que mudasse o percurso - o amor está nas pequeninas coisas. Transporto um fardo pesado e não te assustaste; compreendeste-me como ninguém. A preocupação mútua foi uma constante de vinte anos, apesar dos muitos de distância.


Aprendeste a dizer todas as palavras bonitas que trocamos. O que sinto por ti é mais do que palavras bonitas: é carinho, admiração e gratidão. É amor.


E isto é tão só a verdade.

Eternos adolescentes

É curiosa a aversão aos relatos realistas de intimidade pessoal ou familiar. Os críticos não desprezam enaltecimentos bacocos de feitos individuais ou de linhagem. Neste oásis à beira mar plantado tudo quanto seja panegírico é social e intelectualmente aceite e louvado. Agora descrever a realidade tal qual ela é ou invocar memórias não abonatórias de si próprio ou dos seus próximos é crime de lesa majestade: egocentrismo, narcisismo e exibicionismo, no mínimo. Matéria esconsa de que se foge, essa a da verdade. Se a autora for mulher, uma menoridade, com toda a certeza.


Eis uma das razões por que nunca crescemos, mantendo-nos eternamente no sebastianismo, a viver de mitos e balelas fantasiosas. Líricos.


Por esta razão o cunho diarístico em Portugal nunca pegou - vulgaríssimo noutras paragens como entre os ingleses. Diários neste país quase não se vêem, a menos que sejam tímidos disfarces deles, tão encriptados quanto o medo dos portugueses em dizer a verdade. Vivemos infantilizados. Continuamos uma sociedade machista e atávica a que interessam mais as esfregas do ego de bravos e impolutos marialvas (ainda que enviesadas ou dissimuladas, isto é, aparentemente depuradas de ego) do que o banal (e rico) relato da vida, das relações e do quotidiano tal qual se apresentaram.


Como reparo que a democratização faz com que os tiques do modo de estar de gente civilizada se disseminem por mimetismo na sociedade ao fim de décadas, ainda vamos ter disto por muito tempo.


A realidade vai continuar a impressionar e assustar eternos adolescentes por resolver e mulheres vulgares com vontade de seduzir homens pelo logro e fantasia.


*


Nota. Neste pequeno texto o corrector da SapoBlogs não reconhece quatro palavras: panegírico, diarístico, atávica, impolutos. Todas elas vulgar léxico.


 


 


Editado a 26 de Agosto de 2024.

26/08/2024

Aos ladrões da luz

Se fizesse paralelo entre a arte e a mulher volúvel diria que as une a forma como se dão – e como vão sendo espoliadas do fulgor original. Desprovidas de cálculo rendem-se ao momento, à natureza e aos homens sem tratar de saber do troco. Crêem mais no efeito dos raios solares no enrolar ondas do mar ou na inclinação oscilante dos pinheiros curvados pelo vento na ravina, do que no papel que é suposto representarem em sociedade.


Não se explicam.


Não se dizem amantes do belo e dos homens: são. Não enunciam paisagens, obras de arte e da literatura ou peças musicais: vêem, lêem e ouvem. Não elencam criadores: admiram, amam, saboreiam, gozam, odeiam, zangam-se.


Se não sentem, não sabem e se sabem: pintam, escrevem, compõem ou o diabo a quatro. Não é o preço e o prémio da obra ou do amor que as move. Não representam imagem de que de si querem dar ou de tudo o que crêem ser desejado pelos outros. Têm a alma a nu: limitam-se a transparecer o que vêem, ouvem, cheiram, tocam, saboreiam, sentem e pensam. Mostram-se, dão-se e abandonam-se no instante em que o fazem.

Cegueira

Recordo como encarei o Nuno vendo-o cego pela primeira vez. Tinham passado nove anos desde que nos despedíramos numa noite chuvosa que doeu. Há separações que despedaçam. Lembro-me de brincar e dizer que me parecia o Tim dos Xutos&Pontapés por causa da cara bolachuda: tinha conhecido um homem novo, muito alto e muito magro e encontrei um homem robusto e bem instalado no início da meia-idade. Não foi a cegueira que prevaleceu, mas essa diferença de peso. Tal como a maioria das pessoas tinha algumas minhocas na cabeça sobre a condição da cegueira e das tragédias. A convivência com o Nuno foi dissipando uma a uma.


Ah, quando há um acidente e se perde a visão há necessariamente uma revolta profunda – e depressão -, um período de luto e a aceitação. Tudo certo, senhoras psicólogas que o tentaram convencer após acidente, para fúria dele, que tinha de estar muito triste e deprimido. O certo é que, apesar de não acreditarem, ele estava feliz por estar vivo apesar de tudo. E genuinamente agradecido à equipa hospitalar que o salvou contra todas as expectativas. Custava-lhe, como continua custar apesar das melhorias, infinitamente mais a falta de memória - severa e também decorrente do traumatismo - do que a falta de visão. Temos a mãe dele e eu muito mais revolta do que o próprio, que dá sempre bom tempo – como diz o meu pai. A psicologia nem sempre consegue perceber a lógica das pessoas que vêem a vida com inteligência e pragmatismo: o Nuno tem como sempre teve inúmeros interesses e dedica-se ao que gosta de fazer, lutando para superar as contingências – naturalmente, muito aumentadas pela cegueira. Não podendo dedicar-se a desenhar, pintar ou fazer animações como gostava, não tenho memória de um dia em que não me tenha falado de uma música ou pauta nova que descobriu ou redescobriu e editou, ou numa leitura de descoberta ou redescoberta da ciência, ou dos avanços (e recuos) tecnológicos etc. Salvo afastado dos instrumentos musicais, não há dia em que não toque piano, sintetizador ou guitarra. Não se tem por grande intérprete, pelo contrário, diz sempre que é razoável, pela consciência que tem do que é ser um virtuoso. Não deixa de tocar por isso. Não deixa nunca de tentar saber mais e ser melhor nos seus interesses.


Ah, a imagem de certo cinema: os cegos pela condição a que foram sujeitos tornam-se azedos e manipuladores. Se azedume é isto vou ali e já volto. Só quem não conhece o Nuno, não percebe a ternura de homem que é. A permanente preocupação com os seus. A sensibilidade com tudo e todos quantos mereçam. E o bom feitio colossal – única razão para me aturar com infinita paciência. É evidente que cada um tem sua a natureza e não é a cegueira que vai transformar uma boa pessoa num traste. Há uns anos desenvolvi a teoria de que a visão distorcida e estereotipada dos cegos, dada por alguns, tem a ver com o egoísmo próprio de certos espécimes que convivem com pessoas sem visão e não conseguem superar ou de quem nem sequer se consegue aproximar com o medo do que acha esquisito e desgraçado - abandonando um amigo, nalguns casos. Deve ser uma forma de fazer da vítima bode expiatório para remir a culpa que se carrega.


Ah, os cegos têm limitações de inteligência e têm vidas pobres e trágicas. É certo que actualmente evoluímos muito nesta matéria e a maioria das pessoas sabe lidar com a situação, mas ainda assim não é raro tratar-se uma pessoa sem visão como estúpido. E peço que não se ofendam com o que vou dizer a seguir porque eu própria enfermei de algumas palermices destas e o próprio Nuno reconhece que antes de perder a visão sofria de alguns preconceitos. Tudo se deve ao hábito de encarar quem não vê como um ser estranho e desgraçado e não tão simplesmente como uma pessoa como outra qualquer com a contingência de não ver. Há pessoas que falam mais alto - deve ser para ver se os cegos vêem melhor. Aliás, o mesmo acontece face a outras deficiências. Se repararem o constrangimento conduz a várias reacções diferentes: uns desviam-se ou ficam sem saber o que dizer, outros levantam a voz para se fazerem entender e há aqueles que põem um tom de voz condescende e muito carinhoso (sobretudo mulheres) - só falta fazerem garatujas como se estivessem a falar com um bebé. Ou então são despropositada e excessivamente afáveis como se adorassem a pessoa que acabaram de conhecer – deve ser amor à primeira vista. Para todas estas pessoas tenho uma novidade: a falta de visão é isso mesmo, cegueira e não burrice ou infantilidade. Já agora aproveito para contar que o Nuno odeia a expressão invisual. Diz que não há inauditivos nem imotores e que não compliquem porque ele é mesmo cego. Se bem que as paranóias de mudar constantemente as terminologias pareça palerma, do meu ponto de vista, os cuidados podem fazer sentido por serem altamente ofensivas para a sensibilidade de cada um – e claro que é difícil acertar num denominador comum que seja o mais consensual possível. Por exemplo gosto mais que chamem pateta, tola ou maluca do que louca, mas a verdade é que comigo nunca arranjariam unanimidade porque amanhã posso mudar de opinião. Voltando ao que importa, é muito ofensivo ver um cego como o eterno pedinte tocador de acordeão na esquina da rua – sem desprimor para eles. O Nuno por incrível que pareça aos seis anos - longe de saber que o destino o ia presentear com a cegueira e a falta de memória por volta do 39º aniversário - já tocava acordeão na escola do professor Maximino, em Cascais. Ao que dizem só se lhe viam os olhos, tamanho era o instrumento para criança tão pequena. Mas nem por isso lhe apetece ser visto com o eterno trágico acordeonista cego. Manias.


Ah, os cegos são infelizes. Mais, os cegos inspiram infelicidade. Quem pensa assim não sabe com certeza das gargalhadas constantes nesta casa e nas casas por onde o Nuno passa. Nem da excepcional capacidade para ouvir os problemas e dificuldades dos outros e de sempre ter a melhor palavra: de ânimo, de alegria. Há quem procure heróis sorridentes de poderes mágicos na televisão ou nas redes sociais, distraindo-se dos heróis que consigo convivem. É claro que tem momentos maus, em que se zanga com o universo e a sorte que lhe calhou. Mas esses momentos não são os mais frequentes. Mesmo. Os bons momentos prevalecem sobre as contrariedades e revoltas. Lamento desiludir os catastrofistas, mas o Nuno é um homem feliz. Houve um momento importante nas nossas conversas passadas em que eu, qual tonta a querer protagonismo na sua vida, perguntei se o fazia feliz e ele me respondeu que feliz já ele era “comigo ou sem migo” e que eu era a cereja em cima do bolo. Percebi naquele momento que era o homem certo independentemente do que o futuro nos reservasse, porque naquela altura, como agora, não o tenho por certo, nem quero que ele me tenha por certa.


Ah, isso soa a forçado. Não há pessoas perfeitas. Pois não. É alentejano, filho único e, como ele próprio diz, nascido num Domingo em mês de férias fora do horário de trabalho, ou seja, digo eu, preguiçoso selectivo. Se tivesse deixado ainda hoje eu estaria a buscar o copo de água porque o lorde não sabia ir à cozinha abrir a torneira, ou atenta em permanência às dificuldades informáticas por o menino não aplicar todo o acumulado de conhecimento nessa matéria e que é muito superior ao meu. O tanas. Os primeiros meses de convivência foram muito difíceis – perto de nova separação -, mas ficou claro que o meu mau feitio também serve para alguma coisa, como ensinar preguiçosos a fazer pela vida. Disse-lhe várias vezes que com o meu temperamento no caso dele estaria a trabalhar a atender telefones ou fazer massagens num sítio qualquer, mas o menino só faz aquilo que quer. Concedi. Somos diferentes. O lorde – que se diz sempre um parolo vindo das berças – habituado a trabalhar em tecnologia, a desenhar, a editar música, a tocar, a compor tem o direito a não se sujeitar às tarefas usualmente destinadas às pessoas que não vêem.


Como imaginam este é dos postais que mais dúvidas tive em publicar. Comecei a escrever há uns dias e terminei hoje. A parte fácil é que li ao Nuno e ele disse o que diz sempre que lhe leio um texto meu: publica. Não pode ser mais fácil viver com ele.


Cultivar e escarafunchar a tragédia é uma menoridade ou um luxo de gente ociosa e pobre de espírito.

Concentração

Nos últimos meses aderi ao auricular na orelha direita enquanto trabalho, ficando a outra disponível para toda a comunicação telefónica. Apesar de tudo se a comunicação for presencial tiro a música da orelha por uma questão de boa educação - se bem que nem sempre o faço noutros locais como o supermercado, e isto em nada abona a favor de quem repara nas conversas paralelas dos funcionários enquanto atendem. Na rua ao andar a pé, no autocarro ou a trabalhar, em casa ou presencialmente, cada vez mais recorro a este pacificador de ânimo: música ao ouvido. Esta manhã as tarefas administrativas exigiam concentração moderada pelo que tive a Enya a tempo inteiro no ouvido e foi fácil partir em viagem. Devanear enquanto trabalhava.


A forma com a nossa concentração funciona ao longo da vida é muito variável. Nos últimos anos sinto necessidade de ocupar a atenção com várias fontes de interesse ao mesmo tempo. Sou quase incapaz de ver televisão sem estar a fazer outra coisa em simultâneo - de referir que acendo a televisão quase exclusivamente para ver jornais ou ouvir duas ou três pessoas cuja opinião considero. É usual ter de puxar atrás a gravação da box para voltar a ouvir uma notícia por me ter distraído mesmo em assuntos que me interessam.


Nos últimos anos custa-me ver um filme ou ler um livro de um fôlego só, salvo se mexer de tal forma com o que sinto e penso que me desperte da letargia ou se me surpreender de tal forma que fique agarrada pela estranheza e curiosidade. Perdi a maior parte do interesse pelo conhecido e pelo lugar-comum - ou por aquilo que me parece lugar-comum e que nos últimos anos se assemelha a um imenso pântano todos os dias a ganhar terreno ao que interessa. Coisas da idade, presumo.


Tendo passado por um período longo em que li poucos livros e vi pouco cinema, procuro não me massacrar com calhamaços e maratonas cinéfilas. Regressar aos interesses de antigamente exige que respeite os meus tempos e as minhas aptidões actuais. Dou por mim a escolher romances pelo tamanho, quanto mais pequenos melhor. Duzentas páginas é o ideal. E se forem contos ou novelas tanto melhor. Reparo que ao assistir a um filme tenho de fazer intervalo. Canso-me. Sinto o cérebro esgotado. Admito-o sem vergonha e não tenho pachorra para os dedos acusatórios sobre a falta de capacidade de concentração dos supostos energúmenos dos tempos modernos. Acusações que muitas vezes não servem senão para enaltecer egos vaidosos de gente que nasceu ou julga ter nascido entre dois foles.


Não desconheço as razões. O cérebro trabalha-se. Os hábitos trabalham-se. Além da menor disponibilidade por razões profissionais e pessoais, os tempos e os ritmos de hoje são os impostos pelas tecnologias e as novas formas de comunicação pouco dadas à paciência, ao desenvolvimento, ao aprofundamento. Mas não alinho nas recriminações, que pouco ajudam a resolver o problema comum a tantos, antes a aprofundá-lo com sentimentos de culpa.


Entre 2000 e 2007 tive momentos de extrema dependência das redes de sociais. E sobretudo de alheamento por falta de articulação entre a vida pessoal e profissional que decorria naturalmente e o vício da internet, como se esta fosse uma realidade estanque e autónoma. Depois desses sete anos de uso intenso das redes sociais – e, ao contrário de muitos, nelas incluo os blogues - fiz um corte absoluto de mais de dez anos e lamento informar, mas não se fez luz. Estar longe das fontes de distracção e alegada estupidificação não confere qualquer garantia de uma vida mais produtiva em termos mentais. O cérebro é uma máquina que precisa ser alimentada e processa o que lhe é dado. Seja onde for: até no conteúdo das redes sociais podemos encontrar fonte de criatividade. Desde que não percamos a capacidade de questionar e reflectir. E desde que saibamos harmonizar a nossa vida num mundo uno sem compartimentos estanques.


Há uma semana, por uma questão de necessidade de descanso, coloquei-me o desafio de desligar a internet por um dia. Não consegui ainda. Por razões evidentes não posso fazê-lo em dia de trabalho, mas tenciono tentar num fim-de-semana: 48 horas - ou vá, 24h para começar - sem entrar nas Comezinhas ou em qualquer outro blogue, não ler jornais online, não ouvir músicas e não ver animações no YouTube, não ver conteúdos didácticos na Wikipédia ou no Youtube (amigos deixem-se de tretas preconceituosas: é claro que se aprende nestes e noutros sítios da internet, escusam de disfarçar e fazer de conta que não os consultam), desligar os dados e o Wi-Fi no telemóvel para deixar de ter acesso ao e-mail e WhatsApp. Isto ser difícil parece ridículo tanto mais que não sou daquelas pessoas que recebe quinhentos e-mails pessoais e milhentas fosquices pelo WhatsApp. Muito pelo contrário, sou bastante frugal na utilização e nem faço esforço nisso: não tenho vários grupos, não tenho dezenas de amigos e conhecidos com quem trocar mensagens.


Fico a pensar: se é assim para quem tem poucos estímulos vindos de multidões de conhecidos, o que será das vidas e dos cérebros dos outros?

Terramoto

Acordada. Acabo de sentir a terra tremer. Estranhei o ruído metálico. Aqui na Pousada de S. Francisco em Beja, senti a cama tremer e um ruído que me fez ficar na dúvida se seria algum veículo pesado na rua. O tremor e o ruído prolongaram-se por meio minuto. Talvez.


 


Adenda das 5h28. Não sei se é exagerado chamar terramoto. Se teve a magnitude que justifique o nome. Escrevi as linhas iniciais às 5h12. Um minuto depois do abalo. 

Mudança

Na primeira semana de Maio propus-me mudar de empresa. A única condição que impus (e não foi pouco) é que não saísse do Porto, apesar da empresa para onde concorri estar sediada a 330 km. Depois de renhidas negociações, nas quais fico com a vaga sensação de ter sido (talvez felizmente) mais espectadora do que interveniente, tive hoje a confirmação de que passarei no próximo mês a trabalhar em duas empresas: naquela em que já me encontro e na que me propus.


Há quem arranje empregos e há quem arranje trabalho em duplicado.


No fundo, creio que depois de muitos anos de trabalho frenético, este último ano e meio mais sereno estava a confundir-me e a deixar-me tempo para os devaneios das Comezinhas. É possível que volte a ter pouco tempo para respirar e, nesse caso, o blogue fique mais sossegado.


Noutras alturas estaria em polvorosa. Hoje sinto-me serena. Consultei os astros (risos) e dizem-me que vai correr tudo bem. Porque não acreditar?


Este é o tipo de postal que as pessoas normais (sérias, profissionais, ponderadas, plenas de siso, bem-sucedidas) jamais fariam, mas dá tanto gozo. ;)

25/08/2024

Novelo

Deixas a escrita doce e bela para as circunstâncias em que faz sentido. Não serias capaz de dizer o que não sentes para embelezar sentimentos inexistentes ou encobrir amarguras e sofrimentos. Mil vezes passar por insensível à falsidade.


Esperas que o tempo te ajude a desembaraçar cada sarilho da vida, como ajudou há pouco a trazer luz e razão às trevas que te penalizaram injustamente durante tanto tempo. Ah, há matérias em que a razão não é chamada. Não crês: a razão é sempre chamada.


Não fazes a mais pequena ideia do que vai ser o futuro, como nunca soubeste, apesar de muito devanear. Conheces mal até os teus desejos, muito menos foste fadada com engenho para programar. Não tens talento para transformar sonhos e desejos em alvos. A tua escrita tesa e decidida é enganadora. A tua preocupação é a de manter tudo o mais desenleado possível e fiel ao que sentes. Não enganar. Tentar agir pelo certo. Tentar e às vezes escorregar. Procurar viver de cabeça erguida, acreditando na boa-fé dos outros, por não fazer sentido ser de outra forma apesar dos pesares. Estiveste demasiado tempo em reclusão e amadurecimento defendida dos outros e de ti para te veres regressada à vida em vão.


Se a vida fosse como querias – nunca é, sabes bem -, cada um saberia o que sentes, ainda que não soubesses dizer exactamente o que sentes, muito menos o que queres. Da mesma maneira que gostarias que assim agissem contigo. Sem sarilhos nem enredos.

Manhã em Beja

Passear por Beja num Domingo de Agosto é um programa muito tranquilo. Longe dos magotes de gente de outras paragens nacionais. Se tiver tempo à tarde ou à noite, descreverei a andança a penantes. Caso contrário ficam as fotografias e o vídeo.




 



 



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Confiar

O que te faz confiar e gostar mais de umas pessoas do que de outras? O facto de não se terem em grande conta, ainda que cheias de exuberância. O facto de darem o peito às balas, apesar de borradas de medo. O facto de se preocuparem com os outros, apesar da mostra de cuidado não lhes trazer qualquer vantagem. O facto de não viverem a vida em permanente cálculo e medição.


Podes conviver e aprender muito com todos, mas sabes que quem mede as palavras e os gestos em função de interesses e conveniências não merece nem conhece a beleza da vida, apesar de dar a imagem de a ter vivido e conhecido, sobre ela até dissertar e dar lições. Quem não confia jamais vive por inteiro. Quando muito passa tangente à beleza e fica com uma sensação vaga do que poderia ter sido a sua vida, não fosse a soberba. A sobranceria ofende-te: quem desconfia mostra-se convencido da sua superioridade em relação aos outros e a ti, sem saber que tudo a todos é emprestado.

Sonhos

Não sei se levada pela Lua Cheia se calhou, mas ontem dei comigo a planar em brandos pensamentos: que será feito daqui a quinze ou vinte anos das pessoas, lugares, escritas, ditos e sentidos que agora me preenchem os dias? Caminharão pelos meus sonhos? Tenho a sorte de ao fazer retrospectivas - e faço-as amiúde, apesar de não viver do passado -, dar conta que guardei sobretudo o melhor. Talvez por isso diga que os meus sonhos são tão povoados de lugares e pessoas como as telas de Bruegel – bom, apesar de tudo, os cenários são um pouco mais actuais. A dormir deambulo em constância por casas onde vivi e às vezes por casas por onde apenas passei. Além de passarinhar por espaços estranhos ou que só conheço dos sonhos, reencontro pessoas que conheci desde a infância. Na maioria vivas, algumas já desaparecidas, outras nem sei se respiram. Conheço algumas apenas dos sonhos – ah céus, sei que está longe de ser ideia nova, mas dormindo hei-de agarrar com ganas os sonhos até os confessar de modo a escrever coisa que valha a pena. Em regra, são sonhos bons ou pacíficos. Às vezes, lá sinto uma ou outra aflição nestas minhas gentes do passado vivido e sonhado. Raramente são pesadelos, apesar de ao surgirem serem de truz.


Desde há muitos anos sonho ocasionalmente estar numa divisão de uma das casas onde vivi ou por onde passei e ao atravessar a porta ou parede já me ver noutro compartimento doutra casa. À medida que o tempo passa os sonhos vão incorporando mais paredes, mais janelas, portas, ruas, campos. A vista da janela pode ser de uma cidade, mas a rua para onde dá a porta ser de outra. A maioria das vezes, esses são cenários puramente oníricos, mas há ocasiões em reconheço estar numa das casas reais por pormenores mínimos: os vidros foscos martelados de início de século da despensa ou do corredor de Valinhas - casa não especialmente bela, mas geométrica, de hera a meia haste, sem qualquer pompa e fanada de tinta nas paredes. O meu paraíso. Vou pescar as cenas dos meus sonhos às memórias, das mais recentes às mais longínquas. O jogo de cubos empilhado na caixa que faz as vezes de mesinha cabeceira. Os mosquitos mortos a chinelo na paredes do apartamento em Troia. As tábuas corridas do chão. A cadeira de escritório de napa preta de costas para a janela da avenida de Gaia e a campainha que toca. Ou o tupperware laranja guardado no segundo armário cor de salmão da cozinha. Os três lanços de escadas do apartamento em Cacilhas. O chuveiro já sem água no terraço da casa de Pedras d' El Rei. A vista do quarto para o plátano e o pátio da urbanização em Gaia. O chão de cerâmica clara por onde rolam dispersas as missangas cinza do colar partido. A ampulheta em cima da camilha redonda. O pau de giz, a chaminé a o leite do gato na velha casa transformada em centro de estudos. Duas mangas verdes na cozinha de Benfica. O menino Jesus no Natal no lugar habitual do telefone junto à pequena janela que dá para o Douro e os reclamos das Caves de Vinho do Porto. As plantas penduradas por cordas ao tecto junto às escadas e a cama que sai da parede na Covilhã. Ou o esqueleto nu das tílias trespassado pelo luar no Inverno. A janela sem cortinas em Arca d’ Água, palavras por dizer no sofá e a mini televisão de dez centímetros que acabou em Angola. Nas Antas, os decalques do quarto mais pequeno lá em cima, os sustos nas escadas da cave, o cheiro na copa vindo das gavetas com roupa de cama guardada ponteadas aqui e acolá de saquinhos de alfazema. A varanda sobre o parque de campismo em Lagos. Quatro cadeiras de ferro e a mesa com tampo de pedra manchada do ambientador vertido por descuido na casa com vista para a Segunda Circular. O cheiro a estrume nos campos - sim, nem só da maravilha de cheiro a terra molhada, eucaliptos e madressilva se faz o campo, a mata e os jardins. A nespereira a crescer no parapeito da janela dos arrabaldes de Lisboa. O velho armário com portas de correr na casa das portadas ainda perpassadas com disparos centenários do lado sul do rio. O piano na janela de João Grave. O interruptor alto e solto no átrio do mínimo apartamento em Sacavém. O cheiro a lenha queimada a crepitar na salamandra e o aroma da arrecadação comprida onde se guardavam as maças nas prateleiras e as batatas do lado de lá – a esse espaço dedicarei memória escrita na Quinta. A gaiola do hamster na lavandaria em Vila do Conde e as conversas vindas da cozinha. Ou o bruaá do estádio do Bessa. Um momento único da vida em que, talvez por esta permanente andança, me insurgi contra as mudanças de casa, afirmando que queria ficar quieta. Não foi com certeza um momento que me definisse, pois que as mais das vezes sempre tive vontade de partir ou mudar. Apesar de não partir para longe nem muitas vezes nem por muito tempo. Por vezes, sonho com os lugares e as gentes das viagens. Mas não é muito comum. Acredito que quando for mais velha, essas memórias venham em força. E também em forma de sonho.


E como é que as pessoas que conheci me chegam aos sonhos? Tão só por me lembrar delas. Guardo os rostos dos meus colegas da escola primária e das irmãs professoras. Da cozinheira, cujo nome está entre o esquecido e debaixo na língua. Sentava-se na soleira da porta ou nas escadas a descascar as favas.  Era magra e vestia sempre de preto, apesar de muito nova. Enviuvou cedo. Lembro-me do sorriso do F. e das suas aflições com a asma - também o F. lá de casa as tinha -, das fúrias e das brigas com o Z.R., das cópias do caderno da I.P., com a letra muito bonita, alinhada e sem rasuras, das meias e dos chinelos da C. Lembro-me do baque e expressão na cara da F. ao ver o mar pela primeira vez na Nazaré, quando lá fomos em passeio escolar. Lembro-me dos casamentos na escadaria. Do terreiro, dos baloiços e do escorregão e da torneira da água rente à parede e do tanque. E, claro, da enfermaria e dos curativos. Da sala do jardim-de-infância e dos colchões e caminhas de grades. Das paredes da sala da quarta e segunda classe. Das prateleiras de madeira no cantinho forradas a oleado, que albergavam os livros, e que me calhavam - acho que escolhi a tarefa -, limpar o pó. Sim, heresia das heresias: na escola primária da Misericórdia de quando em vez os alunos mais velhos davam uma ajuda na limpeza. As mesas eram limpas com Vim em pó e esfregão. Tínhamos de ter cuidado de não raspar o autocolante com a imagem no canto do Papa João Paulo II, que será sempre o meu Papa - todos tempos um, suponho. Lembro-me da carinha de bebé e da bata aos quadradinhos azul e branco do B., que estava no infantário quando eu andava na quarta classe - uma das minhas batas era amarelo claro e tinha um folho no peito, e usava o estojo redondo vermelho e preto em forma de joaninha. Lembro-me de cantarmos as músicas das Doce nos recreios. Dos buxos dos jardins da frente, dos peixes, da capela, do portão e das cambalhotas dependurados nos ferros que o trancavam.


Tal como me lembro das casas que albergavam o ciclo preparatório e liceu de Felgueiras, de muitos dos meus colegas, professores – da professora Dulce Moura, uma velha senhora que sobrevivera a um cancro difícil e nos dava ciências - e funcionários - lembro-me da velha Rosinha, que parava a vassoura para me chamar e consultar de perto os pontos de tricot das camisolas que eu trazia vestidas, para tirar ideias. Recordo mais ainda dos cinco anos no liceu de Gaia. A Biblioteca Municipal e os cafés – ainda hoje não faço grande diferença entre café e biblioteca, locais onde aprendi por igual, suponho. Do Glass e as almas e as conversas que os habitavam. E depois da faculdade, que em sonhos nunca acabei: falta sempre fazer um qualquer exame ou vários. Como todos nós tenho um baú enorme de recordações. Que se estendem pela dezena de locais de trabalho por onde passei e das pessoas que os povoavam. Vivências díspares entre si. Desde a chegada no primeiro dia ao primeiro Banco, onde assim que cheguei encontrei no edifício um conhecido por piso, até à estranheza e distância total de ambiente e gente que envolvia outro qualquer emprego. E os lugares e ocasiões de convivência: as reuniões familiares alargadas, as festas, as saídas à noite, os cafés e as conversas com os amigos, os bares e discotecas, alguns concertos. As praias, sobretudo, as de Lagos e as noites nas suas ruas. Todos estes lugares e gentes, que na grande maioria não voltei a ver, visitam-me quando durmo. Em paz, gosto de os rever. Há ainda os espaços online, onde conheci gente real ou virtualmente. O facto de não haver presença física, não invalida que me entrem nos sonhos e se instalem com a maior das naturalidades. Agora, em perfeita comunhão com todo o passado e presente.


Puxando mais para ali ou acolá, tudo isto é comum a grande parte das pessoas que vivem o tempo presente. Aliás, há imensa gente com existências muito mais preenchidas e ricas, até porque na verdade sempre levei uma vida bem caseira e pacata. Nada de novo, portanto. A não ser a pretensão de achar que por ser reservada, atenta aos outros, a mim e a muito do que nos rodeia – e absolutamente distraída do tanto que me poderia conduzir a uma vida mais fácil e exemplar, mas certamente menos minha -, posso um dia vir a escrever qualquer coisa de jeito sobre aquilo que quem conheci e eu vivemos, vimos e sentimos.