Toca exibir a suposta miséria que enerva olhos tão iluminados e ofuscados na busca de artifício e fortuna. Começo por onde costumo acabar. Não percam tempo. Por aqui a vida triste. Uma maçada. Sofro tanto. E todo o meu peito e fronha irradiam sorriso de tanto sofrimento e amargura. Um dó só. Tanta dor só pode ser procura de comiseração. Além de exibicionismo, claro. E valor, nenhum. Se ainda houvesse por aqui motivo de excite verdadeiro, nudez de carnes e intrigas, frivolidades. Paixões desabridas. Conflitos declarados. Sei lá, coisa que se pegasse com as mãos e se pudesse vender no mercado dos afectos fingidos. Que mexesse com a curiosidade sedenta de vidas pequenas na ilusão da fartura de acontecidos e inteligência. Aí sim, valeria a pena. Ou abstracções e técnica criativa minimalista ou floreada tanto dá para o caso desde que enquadrável numa corrente ou contra-corrente. A ser diário, credo, ao menos dor lancinante, desobediência corajosa perante injustiças ou ameaço de suicídio para provar o brilhantismo e provocar curiosidade mórbida. Óbvio. Isso sim, valeria. Comoveria os expertos e séquitos de consumidores de escrita a metro. Esse copy/paste está todo editado e cercado de referências e salamaleques. Agora esta sensaboria de vida comezinha dúplice, mais próxima da felicidade do que do infortúnio? E teima em acreditar? Que horror. Este espelho que nos faz apenas gente - feita de carne, osso, sentimento e pensamento sem notícia de interesse público, nem glória e honraria? Não, venham ídolos para amar, adversários para invejar, grandes criminosos para odiar e jogo de estratégia para matar os tempos mortos de vidas insignificantes. Finja-se importância e voto na matéria. Trate-se por tu os protagonistas. Ah, insufle-se o ego. Chame-se a tudo isto realidade e vidas informadas e xô lucidez e consciência, ide retro homem e mulher espelhados crus. Só por pilhéria tosca. Somos só isto? Credo, há que renegar tal miséria. Ah, suprema cumplicidade a sós comigo. Agora ri mesmo. Louca varrida. Só pode.
Nesta manhã recordo o último par de dias.
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Num fim de tarde fizemos aquilo que recordo contarem-me em tom de gozo em criança. Lavar as folhas das plantas. No caso, um casal à época sexagenário. Sempre ouvi zombar do tratamento carinhoso por Carlinhos pela mulher, mesmo quando falava com terceiros, como se a meiguice não fosse coisa boa. Bom, o Carlinhos e a Isabelinha - ele militar, ela dona de casa, a filha mais do que acarinhada, futura médica, cuja descrição do primeiro apartamento dentro de casa dos pais acompanhei por relatos ao longo dos anos, seguindo o percurso dos primeiros passos profissionais e pessoais da vida adulta -, lavavam as folhas das plantas no vislumbre do verde exuberante. Cá em casa, quarenta anos depois, ficamo-nos pela limpeza rápida com esponja cortada a meio e molhada apenas de água (não, por incrível que pareça não usámos acetona nem diluente) para tirar a tinta e pó das obras que decorreram no prédio nos últimos tempos. As jovens árvores sobreviventes não ficaram brilhantes, mas têm um pouco menos de sujeira e químicos. E daqui faço um aceno feliz lá para o céu onde estará aquele casal bem dado. Pequenas lições que chegam não pelas balelas das frases conselheiras pejadas de sapiência, mas pelas portas travessas e tardias da memória do exemplo vivido, que agradeço penhorada. A aproximação aos mestres da vida e da simplicidade.
Noutro fim de tarde fui novamente à Bertrand, mas desta vez compradora. Havia um aniversário passado e um futuro a contemplar. E lá foram três livros farfalhudos daqueles que me metem medo. Devidamente embrulhados e certos de agradar por constarem das listas de compras das presenteadas. Para mim, só um e fininho. O muito fininho Post-Scriptum, de Jorge de Sena. Fosse rica e trazia os outros quatro: Perseguição, Coroa de Terra, Pedra Filosofal e as Evidências. Todos finos. Meço assim a arte. Pela finura. Mas não sou rica por isso fiquei-me pelo que trouxe. Estímulo e júbilo que chegue por ora a quem se contenta com o melhor. Ah, caramba, penso ao ler. Tinhas bom gosto da adolescência. Gostavas de preciosidades. Talvez por isso pareças desorientada num presente de tanto estrago e carência de beleza em pretensos versos a despontar como erva daninha no que vinga. Muitas palavras, muitas páginas, mais amizades, tantas edições para tão pouca arte.
Por estes dias fiz algumas chamadas e troquei algumas mensagens familiares, quase todas aconchegantes, mas num caso a preocupação emergiu. Ah, se o tempo não pisasse o calo do vigor da vida nem o fosse vergando sem piedade. Ontem almoçamos em casa da minha mãe, muito bem-disposta e conversadora. Saí de lá contente. E na ideia uma ida ao Alentejo em família, quiçá a realizar a breve trecho.
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Hoje ao pequeno-almoço de novo torradas. Asneirolas que não se devem repetir, mas lá foram dois Domingos seguidos. Antes e depois do café, em voz alta, ainda os Titãs (e dura; é o que digo, vai durar um ano inteiro; eu avisei que leio poucos livros e muito devagar, não sei porque não acreditam em mim; o grandalhão do ano passado durou seis ou sete meses enquanto fui como costume aviando desacelerada mais maneirinhos) e o tal de Jorge de Sena, que sobrou de ontem. É impressionante como os poetas maiores ainda me conseguem fazer cócegas na barriga ao descobrirem-me, e a nós, mulheres e homens. Ao deixarem-nos nus, de carne e osso, de sentimento e pensamento expostos. A nós e às paisagens. Ao mundo. A beleza da Arte. Eterno entusiasmo de criança.
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