Há dois dias ao adormecer tive do nada uma imagem linda do céu nocturno estrelado. À direita via-se a silhueta de montanhas às quais me ia aproximando. Magnífico. Mágico. O meu mundo. Não sei se já em micro-sono se acordada. Sei que uns segundos depois estava desperta com uma sensação boa de quem tinha visto o paraíso, e aí sim adormeci mesmo, contente. Um dos momentos mais intensos que guardo de criança foi a ida ao Planetário de Lisboa. Fiquei maravilhada, sem fôlego. Lembro-me de me dizerem que estava velho, sem condições e pensar: mas é tão bonito. Estava habituada ao céu em Valinhas, a ver as estrelas nas noites de céu limpo enredadas nos ramos altos nas enormes tílias. Estava habituada a uma casa grande com paredes mareadas por falta de tinta. As do andar de cima eram azul, com contraste de tom mais forte no rodapé bem elevado e azul claro da parede em si - mais ou menos como as Comezinhas e o curioso é que nunca tinha pensado nesta associação; ele há coisas. Diziam-me que era uma vergonha aquele descuido e eu achava: é tão bonito. No Outono as folhas cobriam o terreiro da casa, e diziam: tem de se limpar. Pensava eu: porquê? É tão bonito assim.
Muito mais tarde vivi vários anos perto do Planetário do Porto e nunca lá fui. Não sei se terá sido preguiça, se desleixo, se medo de não encontrar a beleza de outros tempos.
Esta sorte com que fui bafejada sem saber porquê de fechar os olhos ou sonhar e ter o meu mundo mágico ao alcance é uma enorme bênção que tenho de agradecer ao destino. De olhos fechados ou na imaginação pejada de realidade são infinitas as possibilidades e o contentamento.
Viver com um pé no chão e outro no sonho pode não ser de equilíbrio fácil, mas caramba, as alegrias compensam bem o desajuste.
Nota: foi por ter tido esta imagem do céu nocturno estrelado que procurei no YouTube o vídeo que publiquei ontem.