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14/08/2024

Vácuo

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Será demasiada simplicidade, mas sinto que um dos grandes erros dos debates nos tempos modernos resulta da falsa sofisticação das ideias. Há tantos anos a ouvir e ler gente inteligente, culta e preparada na televisão, nos jornais e nos blogues (sei, a maioria está longe de ter estas qualidades, mas também há quem as tenha), e sobra sempre a mesma sensação: quão perniciosa pode ser a acumulação de gavetas de adquiridos inquestionáveis. Já ninguém se pergunta o essencial, já ninguém quer explicar o princípio e a causa das coisas, transformando discussões de ideias em círculos viciosos. Tantas vezes sobeja apenas a aparência e dela o erro. Camadas e camadas de respostas automáticas, tantas vezes articuladas de forma confusa - intencional e desnecessariamente complexa -, ancoradas no erro, por se ter presumido mal o que está verdadeiramente em causa numa concreta questão, sobretudo, por falta de adequação ao tempo presente e às circunstâncias que o moldam.


Quanta distância da realidade, céus. E o mais caricato é que nalguns casos a razão disto é uma menoridade ou infantilidade: puro medo de se revelarem inocentes, receio do ridículo. Articular em vácuo parece conferir uma sensação de superioridade, de amadurecimento. E é tão engraçado ver gente a perorar apinhada de certezas, umas vezes de modo a espantar os mui fortes tremores face à adversidade ou à surpresa, outras a pôr-se em bicos de pés ou pura e simplesmente a lutar por inconsequente vantagem retórica.


Entre o voluntarioso empolgado com a modernidade, desconhecedor dos princípios básicos que fundam e norteiam a civilização e o cansado conservador a quem sobra apenas o cinismo, a tudo respondendo com chavões seculares, venha o diabo e escolha. É preciso tirar o bafio às gavetas, enchê-las de saquinhos de lavanda: questionar em vez de doutrinar no cansaço. É tempo de refrear as entusiastas teorias de supostos vanguardistas. Mas ouvindo-os, aproveitando o que há de benigno no seu conhecimento – desde logo, reconhecendo que existe -, e educando-os, voltando à raiz de cada problema que se coloca, explicando os equívocos, as imprudências e as consequências nefastas que daí se adivinham. 


Todos ganharíamos se a inteligência bem pensante com audiência fosse um pouco mais arrojada.