Às vezes dou por mim a pensar que cada um dá significado muito diferente aos temperamentos e sentimentos. Dá ideia que a maioria vê na aceitação da natureza tal como é uma manifestação de melancolia. Julgo que será a mesma razão pela qual se considera mais atraente o cabelo com nuances e brilho de tinta do que o verdadeiro e baço loiro, castanho, ruivo ou branco. A sofisticação afasta-nos cada vez mais da essência. A menos que esteja muito penteada e regular com cascalho ou terra que não sujam e relvados aparados ou águas marítimas mornas prontas a fazer as delícias de uma parte da população mundial privilegiada cada dia mais exigente e mal agradecida, a natureza parece ser cada vez mais tomada por estranha, quando não é mesmo conotada com tragédia. O normal passa a ser o artifício: o construído ou produzido em conformidade com os mais altos padrões da qualidade do mundo moderno.
Ah, é a evolução normal do tempo – aliás, a história do Universo faz-se da alteração contínua das partículas de matéria que a compõe -, dirão os que vão sempre atrelados ao tempo. Para quem ter uma conexão razoável com a natureza – pré-existente ao seu tempo - é sinónimo de ser desajustado, lírico, ultrapassado, isto é, vencido. A necessidade permanente de corrigir, projectar e superar define os vencedores. Uns dissimulam esta vontade de vencer com a criação de anti-heróis ou a chafurdice no submundo, como se fosse essa a ligação à natureza. Não percebem que incorrem no mesmíssimo erro das histórias de fadas e dos super-heróis, limitando-se a inverter o ponto de vista. Outros concedem que o dito desajuste tem algum charme e usam-no na fotografia, no cinema, na literatura. No fundo limitam-se a condená-lo como se estivessem a retratar o irremediável passado. Inacessível. Não advogam a conexão com a natureza para a sua vida, invocando responsabilidades do quotidiano e temendo serem proscritos pelos que acreditam serem seu amparo. Sucede que quase todos os supostos apoios estão, eles também, corrompidos pela sofisticação oca. E assim, pelo gradual afastamento da natureza, se desmorona o essencial dos elos da humanidade.
O drama é que a abstracção da matéria desprende a humanidade do que existe. Da essência. Não é de estranhar que tenhamos perdido o pé e que não seja possível perceber o que se passa com o mundo nem prever o que se vai passar com a humanidade.