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02/08/2024

Vinte e cinco coisas que detesto

Há dois anos fiz um post com cem coisas de que gosto: as cem razões para viver. É das entradas das Comezinhas que mais aprecio. Hoje sem aviso prévio nem sabendo porquê deu-me para escrever as vinte e cinco coisas que detesto. Tal como nas cem positivas, nas vinte e cinco negativas estarão em falta muitos itens. Quem sabe se não completo noutro dia?



  1. Gente presunçosa. Sim, todos nos achamos melhores em qualquer coisa, mas alguns exageram por falta de inteligência e sensatez.

  2. Gente mentirosa. Sim, todos mentimos, mas alguns exageram para obter vantagens indevidas.

  3. Gente que quer passar uma imagem de si mais inteligente do que é, isto é, gente que se revela estúpida. Complicando o discurso e raciocínio para dar o ar ou exibindo-se muito conhecedora, muito lida, muito estudada. Por exemplo, jamais escreveriam "coisas" no título, procurariam dizer comportamentos ou o que fosse por medo de dar a imagem de pouca-coisa.

  4. Gente que elogia demais e a eito por falsidade como forma de conseguir intimidade. Todos elogiamos, faz parte de viver em sociedade e é salutar quando genuíno; isto nada tem a ver com os/as profissionais do elogio interessado.

  5. Gente que repete frases supostamente “inteligentes” ouvidas aos gurus da televisão ou das redes sociais para aparentar sabedoria.

  6. Gente que usa com oportunismo os outros para singrar na vida. Todos estamos sujeitos a ser enganados por estes escroques uma vez na vida.

  7. Gente que se acha credora de deferência não tratando os outros como iguais.

  8. Gente que desconhece as regras da reciprocidade em sociedade substituindo-as por etiqueta fajuta.

  9. Gente que usa a condescendência como forma de se alçar a um hipotético patamar de hierarquia bacoca que só existe no mundo falso ou fictício dos círculos de relações interesseiras.

  10. Gente que se faz próxima ou amiga de pessoas destacadas em sociedade para fazer figura. Para quem toda a vida omitiu tais conhecimentos (refiro-me a conhecimentos reais e não virtuais) por pudor, essa exibição oportunista é medonha.

  11. Gente cobarde que se esconde atrás do anonimato, da pseudonímia e a pretexto da liberdade de expressão artística ludibria alvos escolhidos com premeditação para tirar vantagem.

  12. Gente que não confia em nada nem ninguém, achando sempre que está a ser enganada. Em regra, gente predisposta à má-língua.

  13. Gente que acusa os outros de falso moralismo ou puritanismo sendo mais falsa, mais má-língua e moralista. Vale aqui o quem diz é quem é. Trata-se de pessoas que dividem o mundo em dois campos: nós e os outros. Os que pensam nos nossos termos são lúcidos e respeitadores da liberdade de pensamento, os outros são moralistas, falsos e puritanos. Vingam sobretudo os que impõem a moralidade vigente ou mais na moda.

  14. Gente que trata com deferência e bajulação quem considera estar acima e com desprezo quem acha estar abaixo. Trata-se de gente verdadeiramente rasca seja qual for a sua ascendência.

  15. Gente que demonstra considerar ter mais a ensinar do que a aprender.

  16. Gente mal-agradecida. Ou agradecida de modo oportunista, isto é, os obrigados são sempre dirigidos a quem pode interessar. Não há genuínos obrigados a quem trabalha, ajuda, faz, ensina, cria valor. Havendo maneira de usar e desprezar estas pessoas, não se hesita tomando o aprendizado como resultado de iluminação própria.

  17. Gente que toma os outros pela aparência e confunde educação e conhecimento com formação académica, círculo de relações interesseiras, sucesso profissional, sofisticação da linguagem e rebusque das ideias.

  18. Gente que vive da auto-promoção e da promoção dos interesses da sua tribo em prejuízo da verdade e dos outros. Dizer que X é bom porque é meu ou é nosso é uma armadilha fácil de gente pouco honesta. Vale apenas para quem vê o mundo como um jogo de futebol, em que se é incapaz de reconhecer a superioridade do adversário quando ela se verifica.

  19. Gente incapaz de se mostrar como é nas suas fragilidades por vergonha da singeleza. Bom, aqui não detesto. Tenho pena. Acho apenas uma menoridade muito disseminada que enviesa a comunicação e uma vida saudável. Detesto sim, quando aliam a esta incapacidade o julgamento dos outros por se mostrarem como são.

  20. Gente insensível às necessidades dos outros. Todos somos um pouco, mas alguns exageram no egoísmo.

  21. Gente que não compreende que o mundo é injusto por natureza e nem todos tem as mesmas oportunidades. Gente que aposta tudo na capacidade de empenho e trabalho para que cada um seja o que quiser, só reparando no trabalho bem-sucedido (à conta também de outros factores escondidos) e não no trabalho árduo e sério sem sucesso, em rigor, sem aparência de sucesso. As diferenças não se limitam às condições económicas e sociais de nascimento (que podem ser superadas por inúmeros factores de sorte ao longo da vida), mas a outras condições, como a saúde, a química do cérebro de cada um, o país onde se nasce, a época do nascimento, as pessoas e circunstâncias que se encontram ao longo da vida, a educação, o quadro mental e moral e numerosos outros factores que nada dizem sobre a capacidade de empenho e trabalho, que é apenas um factor - importante, mas apenas um ao lado do enorme leque de circunstâncias que se prendem mais com a sorte.

  22. Gente que não muda ao longo da vida. Gente intransigente e obtusa que não aprende com a vida, com as pessoas e circunstâncias que surgem ao longo da vida, de tão presa fica nos preconceitos do que herdou e da educação. Isto é, gente que não evolui. Aqui como na questão do esconder das fragilidades não é uma questão de detestar. Acho uma menoridade. Um desperdício de vida ou ingratidão com as oportunidades dadas pelo Universo para evoluir.

  23. Gente que se acha muito independente, mas que é apenas egoísta e narcisa. A verdadeira independência não esquece nem prejudica os outros.

  24. Gente amarga a quem se conhecem mais ódios do que amores.

  25. Gente que critica demais, isto é, em muitos dias detesto-me.


Na verdade não será exacto dizer que muitas destas características me levam a detestar pessoas. Todos nós fechamos os olhos a defeitos graves (nossos e) dos outros caso sejam próximos ou possuam qualidades que superem ou diluam os defeitos. Tudo isto é muito nebuloso e possivelmente teria sido mais avisado ter descrito as imperfeições em si sem enfatizar o sujeito iniciando todas as frases com a palavra "Gente". Afinal não detesto gente, detesto os seus defeitos. De qualquer modo, não gosto mesmo da expressão "ninguém é perfeito" quando usada para desresponsabilizar comportamentos estúpidos que prejudicam outros ao abrigo do amparo fácil da acusação de falso puritanismo, muito conveniente a agressores que querem impôr a sua moralidade à lei da força.